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Todos nós sabemos do valor da Mitologia para as Antigas Civilizações. Não importa o tempo ou o espaço, foi uma prática comum (e continua sendo) entre nós, utilizarmos histórias com um forte simbolismo para marcarmos ensinamentos e ideias que enxergamos em nossa existência. Dessa forma, fomos capazes de transmitir, ao longo de milhares de gerações, a nossa tradição, com ideias que se fazem presentes até hoje, mesmo que com outra “roupagem”, chamemos assim.

Dito isso, é certo que atualmente não cultuamos Zeus, Cronos e tantos outros Deuses antigos, mas ainda vivemos seus mitos e dilemas. Os mitos, portanto, seguem vivos, pois são um retrato da natureza humana, não apenas um elemento cultural de homens e mulheres do passado. 

Frente a isso, é importante o estudo dos mais diferentes mitos para conhecermos um pouco mais dessas ideias que outrora estiveram em alta naquelas civilizações. Uma grande parte dessas histórias fantásticas nos fala do tempo da natureza, que nada mais são que marcos na ciclicidade em que vivemos. Assim, foi bem comum, por exemplo, existirem Deuses que representavam o nascer e o pôr do sol, a lua, em suas diferentes fases e também as estações do ano. Todos eles apresentam um simbolismo próprio, referente às ideias que podemos encontrar em cada um desses momentos. Acima disso, a marcação desses fenômenos mostram o valor de cada etapa desses ciclos, remetendo-nos à ideia de que, na natureza, há um momento próprio para tudo.

Hoje falaremos um pouco sobre um desses eventos da natureza, tão especial para nossa vida. Trazemos assim, o mito da Deusa Ostara.

De início, é preciso entendermos que Ostara (ou Eostre) é uma Divindade do Panteão Anglo-saxão e seus principais atributos são o Amor, a Fertilidade e o Renascimento. Representada como uma mulher que passeia pelos bosques, seu culto estava vinculado ao início da primavera, tanto que a própria palavra “Ostara” demarca o primeiro dia dessa estação do ano. A Deusa também é conhecida por ter lebres ao seu redor, sendo este animal uma de suas representações. Os motivos são vários, mas a lebre é um dos primeiros animais a aparecer nas florestas após o inverno e sua capacidade de reprodução também é um símbolo marcante de fertilidade.

Esses atributos, porém, guardam em si ideias mais profundas. Portanto, pensemos sobre cada uma delas. Começando pela primavera, a estação que representa a volta do Sol, após o inverno. É o início de mais um ciclo, que também chamamos de renascimento. Assim, a natureza, após recolhida devido o inverno, agora começa a surgir para um outro momento: as árvores voltam a florescer, as sementes a germinar. É o início da vida. Não por acaso, a Deusa Ostara também foi relacionada com a aurora, simbolizando também a chegada desse novo momento. 

Um outro ponto marcante da primavera é a sua natureza de renovação, no qual as folhas secas, soltas no outono, renascem mais uma vez nesta estação. De modo simbólico, essa mesma renovação deveria acontecer conosco. Quantas vezes, por exemplo, carregamos “folhas mortas” em nossas vidas, as quais não largamos pelo apego àquilo que, um dia, já foi vivo? Quantas emoções negativas guardamos conosco e que nos arrasam sempre que lembramos de um acontecimento ou trauma? Assim, do mesmo modo que todos os dias renovamos nosso corpo, tratando-o com banhos e demais elementos de higiene pessoal, é fundamental fazermos essa higiene em nossos pensamentos e emoções, para que essa sujeira possa sair de nós e dar espaço para florescer aspectos melhores em nossa psique.

Esse aspecto da renovação, própria da primavera, também envolve o mito de Ostara ao relacioná-la às crianças. De acordo com a Mitologia, a Deusa tinha uma afeição especial pelos pequeninos, que sempre a rodeavam. Como podemos notar, a infância, a primeira expressão ou fase da vida, estaria diretamente associada à primavera. Já a vida adulta, caracterizada pela potência máxima de nossa energia e capacidades, seria o verão. A maturidade é o outono, uma vez que seria o momento de nos recolhermos e sintetizar aquilo que aprendemos. Por fim, a velhice estaria associada ao inverno, o período de descanso e morte, na qual passaríamos desta existência para o mistério, aquilo que jamais poderemos compreender plenamente enquanto vivos.

Conta um dos seus mitos que, certa vez, ao estar ao redor das crianças, a Deusa recebeu a visita de um pássaro. Ao pousar em sua mão, ele se transformou em uma lebre para agradar a Divindade, pois sabia que esse era o seu animal preferido. Entretanto, como aquele animal não era a sua verdadeira natureza, o pássaro (que estava na forma de lebre) ficou triste. As crianças, tendo piedade do animal, pediram para Ostara transformá-lo novamente em sua verdadeira forma, mas a Deusa não conseguiu. Disse então para esperar a primavera, momento em que seus poderes estariam no auge, e assim, talvez, conseguisse reverter a magia. Ao chegar a primavera, Ostara mais uma vez tentou reverter a magia que aprisionava o pássaro e dessa vez foi bem sucedida. A ave, agora livre, agradeceu à Deusa colocando ovos em sua homenagem. Assim nascia a tradição de, na primavera, ou no dia de Ostara, presentear as pessoas com ovos. 

Isso não nos lembra alguma outra festividade? Se você lembrou da tradicional troca de ovos da Páscoa, saiba que você está correto. Como bem sabemos, a Páscoa é uma celebração Judaico-cristã, porém, com a chegada da Idade Média e o domínio da cultura cristã frente às demais culturas da Europa, muitos simbolismos e ideias foram integradas nas celebrações do Cristianismo. Desse modo, a Deusa Ostara e seu simbolismo foram incorporados à Páscoa, pois, assim como a transição para um novo momento, o termo “Páscoa” advém do hebraico “Pessach”, que significa “passagem”. Para os cristãos, a Páscoa representa exatamente o momento de morte da carne ou daquilo que é temporal, para um momento espiritual, simbolizado na morte e ressurreição de Cristo. Assim, devemos buscar esse nascimento espiritual, que só poderá ser realizado quando nos desapegamos dos nossos aspectos materialistas, dos nossos desejos mais mundanos. Não por acaso, o carnaval – outra celebração da cultura pagã -, que foi incorporado ao calendário cristão, simboliza essa “despedida da carne”, ou seja, o início dessa jornada até o nascimento espiritual.

Neste ponto podemos refletir sobre como culturas distintas, advindas de diferentes origens e povos, conseguiram, à sua maneira, traduzir ideias similares em seu modo de vida e cultura. Temos uma forte tendência a querer defender nossas concepções e estilos de vida a qualquer preço, julgando-nos como os certos, enquanto isso, os outros, aqueles diferentes de nós, julgamos como os errados. Essa postura, ao longo da história da humanidade, nos levou a guerras e sofrimentos inimagináveis. Porém, se olharmos bem para o outro, enxergando a essência das suas expressões e não a sua forma, poderemos perceber como somos parecidos. Cada cultura, cada pessoa tem uma maneira de se colocar no mundo, porém, todos nós fazemos parte da humanidade. Representamos, em última análise, essa ideia que é o Ser Humano.

Assim, quando celebramos a Páscoa, sabemos que essa é uma festividade Judaico-cristã e que compõe grande parte da nossa cultura Ocidental, porém, ela é composta por uma série de outras tradições que, em maior ou menor grau, agregam elementos para esse simbolismo e significado da natureza. Quando reconhecemos esse valor de integrar novos pontos de vista em nossa vida, aprendemos a olhar com empatia para os outros, sejam pessoas, culturas ou grupos que são diferentes de nós. Talvez, no fim, esse seja o verdadeiro renascimento que precisamos em nossas vidas: conseguirmos renovar nossa perspectiva frente ao mundo, o Universo e a humanidade. Desse modo, a Deusa Ostara não será apenas uma Divindade esquecida nas areias do tempo, fruto de uma cultura antiga que hoje já não tem seguidores, mas sim uma ideia que vive em cada um de nós e que precisa se expressar em sua melhor forma. Que façamos com que essas ideias continuem a viver e que passem pelo tempo e por nós, transformando-nos em nossa melhor versão.

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