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Toda civilização produz seus mitos. Se hoje usamos essa palavra de maneira quase banal, geralmente associando-a a feitos fantásticos ou histórias impossíveis de serem reais, é porque ainda não compreendemos o real significado da mitologia e seu papel para um povo. Os mitos, para além das suas narrativas tão conhecidas, são meios de guardar ideias e símbolos importantes para determinada civilização. Assim, quando os egípcios, por exemplo, escutavam sobre o julgamento de Maat, a Deusa da Justiça, não achavam, de fato, que seu coração seria pesado contra uma pena, mas entendiam que fazia parte de sua vida aplicar a justiça em todos os seus ambientes.

Visto isso, devemos compreender que a mitologia não versa sobre explicações delirantes acerca da criação do Universo ou do Ser Humano, mas sim nos apresenta percepções profundas de cada povo acerca dessas temáticas. Essas ideias não foram explicadas pelo método científico, como fazemos nos dias atuais, mas sim através de símbolos, sendo estes representações que guardam e, ao mesmo tempo, traduzem o que de mais profundo se viveu nessas antigas civilizações.

Partindo desse ponto de vista, o estudo dos mitos passa a ser uma rica fonte de Sabedoria, não apenas para compreender melhor como pensavam e viviam os homens e mulheres da antiguidade, mas principalmente para enxergar a vida e seus mais distintos aspectos de um outro modo. Não esqueçamos que a vida, querendo nós ou não, é uma só e a Natureza e suas Leis atuam do mesmo jeito, seja hoje ou há 5 mil anos atrás. Isso significa dizer que as ideias e experiências humanas vividas por estas civilizações podem ser de grande ajuda quando se tratam dos dilemas existenciais, aqueles que percorrem e vencem o tempo e a própria humanidade. Assim, as ideias presentes em um mito podem fazer sentido e colaborarem de forma ativa para a vida de todos nós, sejamos gregos, egípcios, hindus ou não.

Considerando essas questões, hoje abordaremos uma Deusa da mitologia grega que poucos conhecem, porém seu culto era um dos mais importantes e estava presente na vida de todo cidadão da antiga Hélade. Estamos falando da Deusa Héstia, a Deusa do Fogo Sagrado.

Héstia faz parte da terceira geração de Deuses na mitologia grega, também conhecida como “Deuses Olimpianos”. Seu pai, Cronos, a devorou assim que ela nasceu, habitando o ventre do titã até o momento em que seu irmão mais novo, Zeus, vencesse seu pai e a retirasse junto com seus irmãos de dentro da barriga do senhor do tempo. Assim, Héstia finalmente veio ao mundo. Apesar de muitas representações mostrarem a Deusa do Fogo como uma figura humana, para os gregos antigos Héstia tinha uma ideia muito mais abstrata do que, de fato, uma personificação. Suas representações se mostram como um Fogo Sagrado que habitava em todas as casas e era comumente chamado de “lar”.

Aqui temos uma ideia muito interessante e que faz ligação direta com a Deusa. O “lar” era um fogo que habitava o espaço central de uma moradia, sendo local de culto e oferenda pelos antigos gregos. Assim, era responsabilidade dos moradores da casa, em especial das mulheres, de manter esse fogo aceso, como símbolo de que a Deusa Héstia guardava e regia aquela habitação. Para além disso, uma casa que deixava que seu fogo se apagasse não era digna de conviver na Pólis, como se chamavam as cidades gregas, pois seus habitantes não eram capazes de custodiar o Fogo Divino. Fazendo um paralelo com nossas vidas, pensemos em nossas casas: geralmente a chamamos de “lar” por sentirmos que naquele espaço está a nossa segurança e conforto, o local onde podemos “ser nós mesmos” e onde reside nossos bens mais íntimos. O lar, tanto agora como em tempos passados, tem essa representação por nos revelar esse encontro conosco mesmo, esse local onde podemos, finalmente, agirmos de maneira livre.

Atualmente, por exemplo, podemos chamar de lar o local onde nascemos ou onde reside nossa família, o laço mais profundo que concebemos. Porém, como podemos perceber, na antiga cultura grega (e também na romana) a ideia de retornar ao mais íntimo do ser estava associada ao Divino. Assim, os indivíduos não tinham como “lar” uma casa ou apenas a família, mas a profunda busca do seu verdadeiro ser, que residia nesse fogo interior, central, e que dele emanava toda a energia para as realizações diárias. Junto a isso, a função de manter a chama da casa acesa era um compromisso consigo mesmo, de manter seu fogo interior ardendo em prol do que há de mais Divino em si. 

Héstia, como podemos ver, não era uma Deusa “comum”, se é que podemos usar esse termo para Divindades. Queremos dizer, de fato, que ela representava a verdadeira Alma Humana, sendo a parte mais íntima, ao mesmo tempo que central, de toda a vida cotidiana na Grécia. A estabilidade é um dos atributos que mais marcam essa Deusa, sendo uma chama vertical que nunca enfraquece, pois concentra-se em ser e exercer suas funções. Nada distrai a Deusa Héstia, nem mesmo os prazeres do mundo da carne. Em seu mito, ela se mantém virgem e mesmo sob a investida de outros Deuses, como Apolo e Poseidon, ela não larga sua posição e representa um símbolo de Castidade e Pureza. Junto com Atena e Artemis, Héstia é uma das Deusas castas do panteão grego. Suas sacerdotisas, inclusive, dedicavam em torno de 30 anos mantendo-se em castidade e cuidando para que o fogo do templo dessa Deusa nunca se apagasse. Era, de fato, um trabalho exaustivo e de muita vigilância, uma vez que consistia em manter aceso, sob qualquer que fossem às condições, uma chama por tanto tempo. Mas qual a ligação entre o fogo sagrado e a castidade?

Para os antigos gregos, assim como outras culturas, a castidade estava intrinsecamente ligada com a Pureza. A ideia de virgindade, nesse sentido, representava uma pessoa que nunca havia provado dos desejos sensíveis, próprios da matéria, sendo assim apta a viver os prazeres dignos da Alma. Assim, Héstia representa a Pureza que é necessária a quem quer alcançar a chama Sagrada, o caminho para ascensão ao Divino. 

Se pararmos para refletir sobre essa ideia, ela não será tão distante de nossa realidade. A Pureza, em seu sentido mais profundo, significa  uma reta conduta em seus pensamentos, sentimentos e ações. Assim, a Pureza é uma Virtude imprescindível para aqueles que buscam ascender ao caminho Espiritual. Uma antiga frase já dizia que “não podemos subir as escadas da evolução com os pés sujos de lama”, ou seja, a caminhada rumo ao encontro do nosso eu superior, chamemos assim, não pode ser maculada por desvios ou segundas intenções. Por isso, Héstia não apenas é a Deusa do fogo sagrado por sua condição de castidade, mas principalmente por não se inclinar a outros desejos ou vontades, sendo sempre fiel e firme quanto ao seu propósito. É o “fogo fixo” que não muda e sempre concentra-se em preservar sua função. Não por acaso, essa Deusa nunca está envolvida nos grandes mitos de guerra, tal qual a guerra de Tróia, pois sabendo do seu papel, não permite-se desviar-se do seu caminho por distrações do mundo material.

Para além disso, Héstia tem uma intrínseca relação com outro Deus do panteão grego: Hefestos. Para os que já conhecem um pouco da mitologia grega, lembrarão que Hefestos é o Deus ferreiro, o fabricante das armas dos Deuses e, também, o Deus do fogo. Porém, se esse atributo também é de Héstia, como podem existir dois Deuses do fogo? Nesse ponto é que a mitologia mostra o seu caráter mais sublime, apresentando diferentes maneiras de representar uma mesma ideia.

Hefestos está diretamente relacionado ao fogo “dinâmico”, ou seja, aquele que transmuta a matéria. É o fogo da ação, que conduz os objetos a um outro estado, assim como um aço, quando submetido a temperaturas altíssimas, se torna líquido e pode ser moldado para a forma que o ferreiro desejar. Já Héstia é o fogo Sagrado, que é fixo e constante. Ela continua a brilhar e emitir calor, não sendo transformadora da matéria, mas é quem garante a luz em meio à escuridão. Assim, apesar dos gregos conceberam dois Deuses do fogo, seus atributos são, em essência, bem distintos.

Vale ressaltar que ambos os atributos dados aos Deuses são fundamentais: tanto a função de produzir e criar novas formas, como a de manter fixo o seu propósito espiritual. Pensando sobre a nossa vida, ao mesmo tempo que somos impelidos a aumentar nossas demandas e abarcar cada vez mais papéis sociais, nas suas mais distintas formas, é fundamental que tenhamos um ponto fixo em nossa vida, um caminho bem definido que queremos trilhar e que vamos seguir, não importa os destinos que a vida esteja a nos jogar. Assim, Hefestos e Héstia não são pólos opostos de uma mesma ideia, mas dois movimentos que a via se baseia: expansão e dinamicidade e estabilidade e propósito. Se conseguirmos conjugar ambas as formas dos Deuses do fogo, é provável que essas ideias nos levem a patamares mais elevados de consciência.

Por fim, não deixemos cair no grande engano de que a mitologia se resume a histórias sem nexo. Elas são chaves importantes para o nosso crescimento individual, uma vez que guardam a síntese de toda a Sabedoria de uma civilização. No caso da Deusa Héstia, é inspirador perceber a ideia da Pureza como um meio de alcançarmos os patamares do Divino e, ao nosso modo, integrar essa concepção à nossa vida. No fim, a Pureza reside em, acima de tudo, não deixar apagar o fogo interno de nossas vidas, sendo nós os sacerdotes dessa chama que nos conduzirá ao mais íntimo e profundo aspecto de nós mesmos: a nossa centelha Divina.

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