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O Ser Humano é o único ser vivo que utiliza a razão. Nossa racionalidade e autoconsciência nos distingue das plantas e dos animais, que por mais que tenham raciocínio, não conseguem vencer seus instintos. Entretanto, apesar de termos essa capacidade tão forte, muitas vezes agimos tal qual os animais.Em uma situação de perigo, por exemplo, quem de nós não sente medo? Esse é o nosso instinto de sobrevivência, que naturalmente se expressa quando estamos lutando por nossas vidas.

Pensando nisso, será possível termos outra atitude frente essa força descomunal que são os instintos? Ou será que devemos ser obedientes e segui-los cegamente? Essa reflexão é colocada em pauta pelo seriado “Sweet Tooth” e hoje falaremos um pouco sobre ele.

Produzido em 2021 pela Netflix, “Sweet Tooth” nos apresenta uma realidade distópica em que o mundo vive um verdadeiro apocalipse. A série retrata o mundo dez anos após o “grande esfacelamento”, uma pandemia letal que destrói a civilização humana. Uma década após essa grande ruptura, o que se mostra é um cenário de sobrevivência, no qual há pouco espaço para cooperação, generosidade e amor. Ao invés dessas virtudes, a maioria dos Seres Humanos apresentam atitudes de violência e autoproteção a qualquer preço. 

Frente a esse contexto caótico, surgem os híbridos: seres humanos que nascem com características físicas de animais. Sem saber a razão dessa mutação, os híbridos são fortemente perseguidos e culpados pela doença que se espalhou pela terra. Usados como “bode expiatório”, mesmo sem nenhuma prova, os híbridos passam a ser caçados pelos seres humanos e totalmente rechaçados do seu convívio. 

Sendo assim, temos Gus, um menino de dez anos que é híbrido, sendo metade humano, metade cervo. Passamos a acompanhar as aventuras do jovem em busca de conhecer sua mãe e, naturalmente, os desafios de viver sob a mira de diversos caçadores.

Além dos seus aspectos narrativos, “Sweet tooth” nos traz um ótimo ponto para refletirmos: se somos seres racionais, capazes de ponderar e escolher nosso modo de agir, por que em momentos tão intensos, que deveríamos mais usar a razão e o discernimento, acabamos por seguir nossos instintos? exceder.

Poderíamos passar páginas discutindo sobre essa questão. Entretanto, em linhas gerais, podemos considerar que o instinto, por ser mais rápido, é nossa resposta padrão, logo, a que nos acostumamos a usar. Pensar, refletir, ponderar e escolher leva tempo, o que em uma situação drástica não temos. No caso da série, apesar de ser uma pandemia, há um espaço para escolher mais acertadamente sobre algumas situações, mas que a grande maioria das pessoas não o fazem. 

Há também um segundo aspecto do instinto: ele nos poupa do esforço de pensar. Utilizar a razão não é uma tarefa simples, pois exige uma energia e disposição que raramente desejamos. Talvez isso explique o porquê, na série, a reação padrão das pessoas seja a de seguir seu instinto de sobrevivência e não considerar o outro. De igual modo, se levarmos para nossa vida prática, muitas vezes agimos de forma impulsiva considerando apenas esse aspecto. Quando gritamos com alguém em um momento de raiva, ou agimos de modo desmedido quando tomados por uma paixão, estamos, em maior ou menor grau, agindo de acordo com nossos instintos.

Ao fazermos esse movimento abrimos mão de usar nosso discernimento e, quando o resultado das nossas ações não nos agradam, passamos a nos arrepender de ter agido “sem pensar”. Assim, o instinto passa a dominar a maioria das nossas ações diárias e quanto mais “intensa” for a experiência, mais forte ele se manifesta.

No caso da série, o que podemos perceber é que em uma situação limite nossa tendência é abrirmos mão da racionalidade pela nossa parte mais instintiva, que busca sempre garantir nossa preservação. Porém, qual o preço que pagamos por abrirmos mão de nossa parte racional, a que nos faz verdadeiramente humanos?

A consequência é bem nítida e a série a apresenta de maneira didática: caos, violência e formação de grupos separatistas. Na hora do “aperto” o  instinto grita mais alto e acabamos nos aliando a quem nos é semelhante. O inimigo passa a ser outro ser humano e, na maioria das vezes, somos capazes de tudo para nos manter dentro dessa rede de proteção. Nesse modo de viver, o Ser Humano iguala-se às mais perigosas das feras, pois consegue utilizar toda sua capacidade mental para potencializar seus aspectos mais egoístas. Nesse ponto, o que se mostra é que os nossos valores, quando não estão fortemente alinhados com as nossas atitudes, transformam-se em discursos vazios, que de nada valem  quando um perigo real se aproxima.

Dentre tantas cenas chocantes da série, que retratam o perigo de deixar-se levar pelo medo, a postura de Gus, um menino de pureza sem igual e que busca confiar nas virtudes da amizade e da generosidade como seus princípios se destacam e encantam as pessoas ao seu redor. Seus amigos, que buscam protegê-lo desse mundo hostil e cruel, são levemente transformados pelo valor moral do jovem híbrido, o que nos mostra que acima de palavras bonitas está o valor de uma vida moral. 

Em meio a força dos instintos de sobrevivência, o protagonista é um ponto de luz e consciência para quem o conhece. Do mesmo modo, se estamos conectados com nosso propósito de vida, que também podemos chamar de princípios, poderemos ser uma referência a quem, a priori, não está conseguindo superar a força dos instintos. Devemos controlá-los e usá-los ao nosso favor, não ser refém dessa força que advém de uma parte de nós. Por isso, é possível que, quando bem canalizada, essa energia seja útil para desenvolvermos ainda mais nossas potencialidades. 

Por fim, recomendamos a série Sweet Tooth por nos mostrar que o Ser Humano é capaz de fazer grandes feitos, porém, do mesmo modo que podemos elevar-se a uma condição quase divina, podemos descer ao mais baixo dos instintos e sermos escravizados por ele. Cabe a nós escolhermos de que lado dessa batalha queremos estar. Discernir entre o melhor e o pior, entre o joio e o trigo, afinal, é um atributo da nossa razão fundamental para nossas decisões diárias.

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