Pokémon é um dos maiores exemplos de sucesso da história do entretenimento, mas, afinal, o que define o sucesso? Para alguns, algo bem-sucedido é o que garante um grande retorno financeiro; já para outras pessoas, está ligado diretamente ao quão marcante esse produto ou pessoa se torna ao longo de sua existência. Há ainda quem entenda o sucesso como fama, reconhecimento e a criação de um legado que permaneça mesmo após gerações.

Não podemos definir precisamente o que é, de fato, algo bem ou mal-sucedido, afinal, tudo depende de como observamos o fato. Porém, se adotarmos os critérios citados acima, podemos dizer que poucas coisas no mundo foram bem-sucedidas, pois, mesmo gerando um grande lucro, podem já não existir mais; outrossim, há quem possua fama, mas está fadado ao esquecimento em poucas décadas.
Logo, reunir todas essas características é extremamente desafiador, porém não impossível. E hoje falaremos de uma franquia que conseguiu alcançar todos esses patamares, sendo um símbolo de sucesso cultural, financeiro e que perpassa gerações. Estamos falando de Pokémon, um dos animes mais famosos do Brasil e que, no fundo, começou como um jogo que, tão popular quanto as animações, alcançou o coração de crianças e adultos ao redor do globo.
Frente a isso, para compreender a dimensão dessa franquia, é essencial retornar às origens de seu criador, Satoshi Tajiri. Nascido em 1965, nos arredores de Tóquio, Tajiri cresceu em uma época em que áreas suburbanas ainda mantinham vastos campos, rios e pequenos bosques. Ele passava horas explorando esses espaços, coletando insetos, observando seus comportamentos e trocando espécimes com amigos. Essa prática não era apenas um passatempo; era uma forma de descobrir o mundo, de exercitar a curiosidade e de desenvolver sensibilidade pela natureza.

Quando o avanço urbano começou a substituir essas paisagens por concreto, Tajiri percebeu que as crianças do futuro talvez não tivessem a mesma experiência de descoberta. Essa constatação despertou nele o desejo de criar um universo onde a magia da coleta e da interação com criaturas pudesse sobreviver, mesmo em meio à modernidade tecnológica. Junto a isso, Satoshi resolveu unir sua paixão pela exploração com uma outra, mais recente, porém arrebatadora: os videogames. A paixão pelos jogos eletrônicos, que naquela época ainda estavam dando seus primeiros passos, surgiu ainda na adolescência, especialmente com os arcades, que se tornaram cada vez mais populares no Japão.
Tajiri começou a escrever sobre jogos e fundou, com amigos, uma revista amadora que mais tarde se transformaria na desenvolvedora Game Freak. A transição de revista para estúdio de desenvolvimento foi arriscada e financeiramente instável, mas revelou uma determinação incomum.

Tajiri acreditava que os videogames poderiam ser mais do que entretenimento competitivo; poderiam ser instrumentos de conexão e interação humana, cumprindo um papel bem mais relevante do que um mero passatempo. Foi essa visão que guiou a criação do projeto que, anos depois, se tornaria esse fenômeno cultural
O início da jornada
A ideia inicial era simples, mas ambiciosa: permitir que jogadores capturassem criaturas e as trocassem entre si. No entanto, transformar essa visão em realidade exigia tecnologia adequada e apoio financeiro. A parceria com a Nintendo foi decisiva para tirar o sonho do jogo e torná-lo realidade. A empresa enxergou potencial na proposta, especialmente na funcionalidade do cabo link do Game Boy, que permitia a conexão entre dois aparelhos, algo revolucionário para a época e que mudaria toda a lógica dos games até então. Essa ferramenta técnica tornou-se o coração do conceito de troca, reforçando a ideia de que ninguém poderia completar a experiência sozinho, pois nenhuma jornada pode ser completada de forma individual.

O desenvolvimento foi longo e repleto de dificuldades. O projeto quase foi cancelado diversas vezes, e a equipe trabalhou sob forte pressão. Ainda assim, Tajiri manteve a convicção de que o jogo deveria incentivar cooperação e amizade, elementos que se tornaram o grande mote não apenas dos jogos, mas também dos filmes e dos animes. Ele queria recriar a sensação de encontrar um inseto raro e mostrá-lo a um amigo, só que agora em um ambiente virtual. Essa persistência deu origem a uma das franquias mais lucrativas e influentes da história do entretenimento.
Em 1996, chegaram às lojas japonesas Pokémon Red and Blue, os dois primeiros jogos de uma série que até hoje se mantém lançando novos games. O impacto inicial foi modesto, mas gradualmente o boca a boca impulsionou as vendas. Crianças descobriram que algumas criaturas estavam disponíveis apenas em uma das versões, o que tornava indispensável a troca com amigos, pois um dos objetivos da franquia era conseguir todos os 151 monstrinhos. Essa mecânica simples transformou o jogo em um fenômeno social, pois já não se tratava apenas de capturar e batalhar, mas também de interagir, negociar e compartilhar experiências.

Dito isso, a narrativa do jogo colocava o jogador no papel de um jovem treinador que partia em jornada para se tornar um Mestre Pokémon. Contudo, essa jornada era marcada por encontros com personagens que representavam diferentes formas de lidar com o poder, desde organizações criminosas que tentavam explorar criaturas para fins egoístas, até líderes de ginásio que ensinavam disciplina e respeito com seus companheiros.
Entrando em um novo mundo de aventuras
O sucesso dos primeiros jogos abriu caminho para a expansão do universo Pokémon. Em 1997, estreou o anime, que apresentou ao mundo Ash Ketchum, da cidade de Pallet, e seu inseparável Pikachu, que se tornaria o personagem mais carismático e amado de toda a franquia. Não por acaso, o “rato amarelo” é um dos símbolos do Japão no mundo, sendo um elemento da cultura pop que atravessou gerações.
Tudo isso só foi possível porque o anime ampliou o alcance da franquia, tornando-a acessível até mesmo para aqueles que nunca haviam jogado videogame. A narrativa televisiva aprofundou as relações entre treinadores e criaturas, enfatizando sentimentos de amizade e lealdade, elementos que inspiraram crianças nos anos 1990, 2000 até os dias atuais.

Outro ponto que fez ganhar a simpatia dos espectadores foi o fato de Ash ser um protagonista falho, impulsivo e muitas vezes imaturo (afinal, era uma criança de 10 anos), mas sempre guiado por um senso profundo de justiça. Ele não buscava derrotar adversários para humilhá-los, mas para aprender e evoluir. Em diversos episódios, abria mão de vitórias para proteger seus pokémons que estavam feridos ou para garantir que uma criatura pudesse permanecer em seu habitat natural. Essa postura reforçava a ideia de que o verdadeiro objetivo não era acumular insígnias, mas compreender o valor da convivência harmoniosa.
O sucesso do anime foi tamanho que em pouco tempo o universo de Pokémon ganhou as telas do cinema. O primeiro filme, conhecido como “Pokémon: The First Movie” (em português, “Pokémon: Mewtwo Contra-ataca”), foi lançado entre 1998 e 1999. O longa trouxe uma abordagem surpreendentemente filosófica, questionando a natureza da criação e da identidade por meio do personagem Mewtwo, um pokémon criado artificialmente por meio de modificações genéticas.

Quando se percebe como um “clone” de outro pokémon, Mewtwo enfrenta um conflito existencial que transcende a lógica das batalhas. Nesse aspecto, apesar de ser um desenho feito para crianças, a profundidade de suas reflexões impacta o universo adulto e se mostra muito mais do que um filme “comum”. É também nesse filme que ocorre uma das cenas mais emocionantes de toda a história de Pokémon, quando Ash coloca-se diante de poderosos ataques para pedir que as lutas cheguem ao fim. Essa cena tornou-se símbolo da mensagem pacifista que permeia a franquia até hoje.
O mundo pokémon nos cards games
Paralelamente ao anime e aos jogos, a franquia deu mais um passo adiante com sua popularidade e adentrou em novos mercados. Um deles foi o de card games, que, apesar de parecer algo “nichado” e voltado para um público específico, também se mostrou extremamente bem-sucedido. O famoso “Pokémon Trading Card Game” conquistou o coração de crianças ao redor do mundo e hoje é um item de colecionador, além de existirem torneios ao redor do mundo.

Assim como nos videogames, a troca de cartas era elemento central. Crianças aprendiam a negociar, a respeitar regras e a lidar com vitórias e derrotas de maneira saudável. O ambiente competitivo existia, mas estava inserido em contexto de comunidade. O card game demonstrou que a essência da franquia podia ser traduzida para diferentes formatos sem perder seu núcleo colaborativo.
Naturalmente, isso levou a um crescimento exponencial da marca, o que foi necessário ampliar sua forma de organização. E assim surgiu a The Pokémon Company, responsável por administrar jogos, séries, filmes e produtos licenciados, uma forma inteligente de conseguir harmonizar tantos ramos distintos desse universo. Essa estrutura garantiu que a expansão dos jogos ocorresse de forma harmônica junto com outros produtos, seja as séries animadas, cards ou novos jogos que iriam surgir.
A revolução de Pokémon Go
Em 2016 a franquia Pokémon já era uma das mais consolidadas do mundo e isso, a bem da verdade, poderia ser motivo suficiente para que seu criador deixasse de lado as inovações do mercado. Para que inovar, uma vez que já se é um negócio bilionário? Talvez a maioria de nós pensasse assim, mas, como podemos perceber, não há limites para a busca do ser humano. Assim, aproveitando uma série de tecnologias novas no mercado, lançou-se Pokémon Go, um jogo para celular que provocou uma verdadeira revolução nos jogos eletrônicos.

Utilizando tecnologia de realidade aumentada, o jogo incentivava jogadores a explorar ruas, praças e monumentos em busca de criaturas virtuais. Agora os pokémons não apareciam apenas nas telas dos computadores ou consoles, mas você os via, pela tela do celular, nas ruas de sua cidade. Desse modo, milhões de pessoas saíram de casa para caminhar e interagir com desconhecidos que compartilhavam o mesmo objetivo, criando uma verdadeira comunidade no mundo real, mas que se uniam pelo jogo virtual.
A ideia de Pokémon Go foi tão fantástica em seu tempo que fez pessoas passarem a se exercitar e interagir no mundo real, mesmo que por meio do jogo. Assim, finalmente o sonho de Satoshi, em ver pessoas explorando o mundo, passou a ser uma realidade e usando como pano de fundo o universo de Pokémon. Esse fenômeno global resgatou a essência da infância de Tajiri, transformando o ato de explorar o ambiente em atividade coletiva. O jogo promoveu encontros espontâneos, fortalecendo laços sociais em uma era marcada pelo isolamento digital.
A jornada do herói e a formação do caráter através de Pokémon
Visto isso, falaremos agora de um dos pontos mais importantes da franquia, que não é alterado mesmo com a variedade de jogos e séries e, apesar de diferentes gerações, segue sendo um fio condutor para inspirar tantos jovens. Estamos falando da jornada do herói, que é o tema-base de todos os jogos e do próprio anime. Se no começo da sua jornada o jogador é levado a pensar de maneira egoísta, ou seja, ter o desejo de ser um Mestre Pokémon, ocorre que, ao longo do seu caminho, é fundamental que ele aprenda a defender o mundo de organizações vilanescas, que tentam controlar forças naturais ou explorar pokémons lendários para obter poder absoluto.
Desse modo, o protagonista começa como uma pessoa comum, mas é guiado pela narrativa a se transformar em um herói, a salvar o mundo, os pokémons, seus amigos e todos que se juntam a ele nessa incrível aventura. É, sem dúvida, uma inspiração em mitos heroicos em que, ao longo do caminho, o herói realmente entende sua missão no mundo e se coloca à serviço da humanidade. Diante dessas situações, o herói assume postura de guardião, não de conquistador.

Ao mesmo tempo, a dinâmica dos próprios pokémons também apresenta símbolos interessantes e que demonstram a evolução do personagem. A evolução dos pokémons, por exemplo, simboliza crescimento compartilhado com o treinador, ao ponto de, em ocasiões específicas, a evolução do pokémon está diretamente ligada à conexão que se cria com seu parceiro de jornada. Assim, os pokémons evoluem quando recebem cuidado e treinamento adequado, refletindo a ideia de que relações baseadas em respeito produzem transformação positiva. Treinadores que tratam seus parceiros como meras ferramentas geralmente são retratados como antagonistas, reforçando a mensagem ética da franquia.
Junto a isso, a trajetória de cada protagonista é marcada por desafios internos e externos. Mais do que superar adversários, eles aprendem a lidar com frustrações, perdas e despedidas. Em diversos momentos, os treinadores percebem que o melhor a se fazer é libertar o pokémon para que ele possa viver em ambientes mais adequados. Apesar da separação, sabe-se que é o melhor a se fazer em prol do bem do pokémon, o que demonstra que o tipo de relação entre o treinador e seus monstrinhos não é de dominação, mas de um verdadeiro companheirismo e amizade.
Como podemos perceber, a estrutura narrativa segue modelo clássico da jornada do herói, mas adaptada para enfatizar a cooperação. Ash não se torna um grande treinador sozinho, pois sempre está junto dos seus amigos que o auxiliam em sua jornada. Os amigos acompanham o protagonista, oferecendo apoio e perspectivas diferentes para decisões importantes. Essa dinâmica reforça a ideia de que crescimento é processo coletivo. Assim, essa obra apresenta um modelo de heroísmo fundamentado em empatia e solidariedade.
O futuro de uma jornada brilhante
Não por acaso, décadas após seu lançamento, Pokémon continua relevante como uma das franquias de sucesso, não apenas pelo que já fez, mas também pelo que continua a produzir. As novas gerações, tanto de pokémons como de espectadores, conhecem o universo criado por Satoshi com a palma da mão e vibram a cada novo lançamento. As crianças dos anos 1990, que viram os primeiros jogos e o início da jornada de Ash, agora são pais e mães que compartilham a experiência com seus filhos, criando uma ponte intergeracional rara na indústria do entretenimento.
Dito isso, podemos entender que o legado da franquia ultrapassa números de vendas ou recordes de bilheteria. Ele se manifesta na memória afetiva de milhões de pessoas que aprenderam sobre amizade e perseverança por meio de histórias aparentemente simples. Pokémon alcançou um feito difícil de ser superado, pois se mostrou capaz de conectar culturas distintas sob a mensagem comum de respeito e colaboração – e isso só melhorou com o passar dos anos.

Por isso, é de se esperar que o futuro seja ainda mais brilhante para os amantes de pokémons, pois esse é um tema inesgotável. Sempre precisaremos refletir sobre a amizade, o companheirismo e como cada um de nós pode ser o mestre de nossas próprias jornadas. Dessa forma, seja como for, certamente esse anime continuará a expandir horizontes, criando novas regiões e histórias, mas se mantendo fiel à mensagem que busca transmitir ao longo dos últimos 30 anos.
A jornada iniciada por Satoshi Tajiri, inspirada na coleta de insetos, tornou-se uma narrativa universal sobre convivência e responsabilidade. Ela não irá parar por aqui, essa franquia não é apenas mais um produto cultural, mas um fenômeno que moldou gerações de modo a sonhar com um mundo melhor. Os jogos da franquia estão disponíveis para compra direto do site da Nintendo.
Se você se interessa por universos que atravessam gerações e moldam o imaginário coletivo, vale também conferir o texto sobre Dragon Ball: https://feedobem.com/dragon-ball/. No texto, exploramos como a obra criada por Akira Toriyama se tornou um fenômeno cultural global, influenciando o conceito moderno de jornada do herói, superação e amizade, temas que, assim como em Pokémon, continuam inspirando crianças e adultos ao redor do mundo.



