“O Homem que Viu o Infinito” nos leva a refletir sobre os limites da humanidade: será que nossa capacidade de alcançar a sabedoria é realmente limitada ou ainda não compreendemos outros caminhos para desvendar os mistérios do cosmos? Ao longo de nossa história, diversas são as explicações sobre como podemos chegar à verdade. Em alguns momentos, usamos a razão para alcançar esse saber; em outros, o caminho religioso, simbólico e cheio de ensinamentos. Hoje, usamos a ciência, mas será que esse é o único caminho para a humanidade atual?
Hoje falaremos de um filme que, na verdade, conta um dos maiores mistérios de toda história da ciência. Essa é a história de um homem que desafiou o conhecimento humano e provou que há outras formas de acessar as leis da natureza que não seja somente o caminho da ciência. Estamos falando de Srinivasa Ramanujan e o filme “O Homem que Viu o Infinito”, que apresenta a vida desse matemático brilhante, mas que também nos conduz a uma reflexão profunda sobre o próprio conhecimento humano, suas limitações e suas origens.

O que se revela ao espectador não é apenas o drama de um gênio deslocado culturalmente, mas também a constatação de que a natureza guarda mistérios que escapam às estruturas rígidas da razão formal. A experiência de Ramanujan nos obriga a reconhecer que, por mais sofisticadas que sejam nossas teorias, o universo continua maior do que nossa capacidade de explicá-lo.
O filme estabelece um contraste poderoso entre dois mundos: a Índia profundamente espiritual e intuitiva, onde Ramanujan nasce, e a Inglaterra racional, acadêmica e hierárquica de Cambridge. Essa oposição não é apenas geográfica ou cultural; ela simboliza duas formas distintas de se relacionar com o conhecimento. De um lado, a matemática como revelação quase mística; do outro, a matemática como construção lógica, dependente de provas rigorosas. Ao acompanhar essa tensão, o espectador percebe que o filme não pretende escolher um vencedor, mas mostrar que o saber humano é mais vasto e complexo do que qualquer método isolado pode abarcar.
Srinivasa Ramanujan: um gênio nascido à margem da academia
Para entendermos “O Homem que Viu o Infinito”, é importante mergulharmos um pouco na vida de Ramanujan, o grande protagonista dessa história. Sendo assim, falar dele é, antes de tudo, se deparar com uma história de contraste. Nascido em 1887, na cidade de Erode, no sul da Índia, ele veio ao mundo em um contexto de extrema pobreza material, mas cercado por uma riqueza simbólica e espiritual intensa.

Sua família vivia de forma simples, profundamente ligada às tradições religiosas do hinduísmo, e essa atmosfera marcou de maneira definitiva sua visão de mundo. Desde muito cedo, Ramanujan demonstrou uma relação incomum com os números, como se eles não fossem apenas instrumentos de cálculo, mas entidades dotadas de significado próprio, que representassem ideias e, de maneira profunda, ele conseguia enxergar a matemática em todos os locais que observava, desde um grão de areia até um prédio. A matemática, para ele, não era uma disciplina escolar; era uma forma de linguagem do universo.
Ainda criança, Ramanujan já se destacava por sua memória prodigiosa e por sua capacidade de manipular números com uma facilidade que intrigava professores e colegas. No entanto, esse talento extraordinário não veio acompanhado de uma formação acadêmica equilibrada. Ele se interessava quase exclusivamente por matemática, negligenciando outras disciplinas, o que acabou por lhe trazer dificuldades formais na escola. Ramanujan não aprendia de forma linear, saltava etapas, intuía resultados e enxergava conexões invisíveis aos outros.
Apesar da sua relação íntima com a matemática, a vida adulta de Ramanujan foi marcada por dificuldades constantes. Incapaz de se adaptar às exigências formais da universidade indiana, ele perdeu bolsas de estudo, enfrentou o desemprego e chegou a depender da ajuda de amigos para sobreviver. Ainda assim, nunca abandonou a matemática. Mesmo nos períodos mais críticos, continuava a escrever fórmulas, a explorar séries infinitas, a buscar padrões numéricos com uma obsessão quase absoluta.

O ponto de virada em sua vida ocorre quando, em um gesto de ousadia e desespero, Ramanujan envia cartas a matemáticos renomados da Inglaterra, contendo páginas e mais páginas de fórmulas inéditas. No filme observamos que essa correspondência é intermediada por seu empregador que, ao reconhecer o potencial de Ramanujan, o ajuda a entrar em contato com renomados matemáticos de Cambridge. Ainda assim, o caminho até estabelecer essa comunicação não foi fácil, visto que a maioria dessas cartas eram ignoradas. Entretanto, uma delas chega às mãos de G. H. Hardy, até então um dos mais renomados matemáticos do seu tempo.
Ao analisar aquele material, Hardy percebeu que não se tratava de um amador, mas de um gênio, alguém que havia alcançado resultados profundos sem acesso às ferramentas convencionais da matemática ocidental. Esse reconhecimento tardio mudou o destino de Ramanujan, mas não elimina as dificuldades que ainda estavam por vir.
Interessado em continuar desbravando o mundo da matemática, Hardy convida Ramanujan para estudar em Cambridge e desenvolver suas habilidades. A ida para a Inglaterra representa, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um sacrifício. Longe de sua terra natal, de sua esposa e de suas práticas religiosas, Ramanujan enfrenta um choque cultural profundo. O clima, a alimentação e o isolamento social afetam severamente sua saúde.
Ainda assim, esse período é também o mais produtivo de sua vida intelectual. Em colaboração com Hardy, Ramanujan publica artigos importantes, recebe reconhecimento acadêmico e é eleito membro da Royal Society, um feito extraordinário para alguém de sua origem. No entanto, o preço dessa conquista é alto demais para seu corpo fragilizado. Ramanujan decidiu retornar à Índia gravemente doente e morreu em 1920, aos 32 anos. Sua morte precoce encerra uma vida breve, mas não interrompe a influência de suas ideias.

Décadas após sua morte, matemáticos continuam a estudar seus cadernos, descobrindo neles resultados que anteciparam teorias modernas. Sua biografia, vista em retrospecto, desafia noções convencionais de progresso, mérito e racionalidade. Ela nos lembra que o conhecimento não surge apenas da acumulação metódica, mas também de lampejos inexplicáveis, de encontros improváveis entre mente humana e mistério natural.
A matemática como linguagem da natureza
Agora que já conhecemos um pouco sobre a trajetória de Ramanujan, nos cabe refletir sobre a ciência que esse grande matemático tanto amou. Uma das ideias mais fascinantes evocadas pelo filme é a noção de que a matemática não é apenas uma invenção humana, mas principalmente uma linguagem profunda da própria natureza. Não por acaso, desde a antiguidade, a matemática é vista como uma das magnas ciências, capazes de não apenas nos ajudar em problemas práticos, mas também de representar leis da natureza e ser uma forma de conseguir entender o cosmos.
Não por acaso, pensadores como Pitágoras e Aristóteles falavam que “Deus geometriza”, pois esse padrão matemático que forma as figuras geométricas partem de uma razão matemática. Na academia de Platão, dizia-se que só podia adentrar àquele ambiente quem soubesse de geometria e aritmética, duas grandes áreas da matemática. Tudo isso só mostra o quanto os gregos – e todo pensamento ocidental – encontrou na matemática uma linguagem da natureza, e através dela somos capazes de conhecer ainda mais os mistérios do universo.

Dentro dessa perspectiva, Ramanujan parecia acessar essa linguagem sem intermediários, como se sintonizasse diretamente com estruturas que sempre existiram. Isso desafia a visão clássica da matemática como um sistema fechado, construído exclusivamente a partir da lógica formal. Em vez disso, o filme sugere que há algo misterioso, quase poético, na forma como certas verdades matemáticas se revelam para o protagonista do filme.
Essa abordagem provoca um desconforto evidente nos matemáticos de Cambridge, especialmente em Hardy, que não concebia a possibilidade desse tipo de acesso ao saber. No filme fica nítido que Hardy representa o ideal científico moderno, com seu rigor por provas, demonstração, método e desconfiança de qualquer elemento subjetivo, e que não possa ser mensurado.
Porém, à medida que a relação entre os dois se desenvolve, o filme mostra que até mesmo Hardy é forçado a confrontar os limites de sua própria visão. Ele reconhece que os resultados de Ramanujan são extraordinários, mesmo quando não consegue compreender plenamente como eles foram alcançados. Surge, então, uma pergunta inquietante: será que a razão, sozinha, é suficiente para desvendar as leis mais profundas do universo?
Ao longo de toda a narrativa, o filme insiste em uma ideia fundamental: o que sabemos sobre as leis da natureza é ínfimo diante da vastidão do que ainda desconhecemos. Ramanujan não é apresentado como alguém que domina o infinito, mas como alguém que o contempla com humildade – que é uma vastidão – e, de modo para além do racional, como alguém que consegue enxergar essas leis matemáticas. Suas fórmulas não são uma tentativa de domar as leis, mas de comunhão com algo maior que sua própria humanidade.
O título do filme ganha, assim, um significado mais profundo. Ver o infinito não é compreendê-lo por completo, mas reconhecer sua existência e aceitar nossa pequenez diante dele. Essa lição, embora apresentada por meio da matemática, transcende qualquer disciplina específica e se faz entendida por todo e qualquer ser humano.
As múltiplas formas de adquirir sabedoria
Frente a essa percepção, “O Homem que Viu o Infinito” deixa evidente que há diferentes formas de alcançar a sabedoria. Não existe um único caminho para a sabedoria, assim como não há um único caminho para realização humana. A experiência de Ramanujan mostra que o conhecimento pode nascer da intuição, da observação, da fé, do sofrimento e da persistência. A ciência, que é o caminho mais acessível e didático do saber, é o nosso grande referencial atual; porém, há quem consiga enxergar as leis da natureza e acessar esse grau mais profundo da realidade por outros meios.
É por isso que ressaltamos, para que não haja confusão em nossas ideias: o modelo científico, acadêmico, é um espaço fundamental para o avanço dos saberes humanos em diferentes áreas, mas não é o único. Logo, não nos parece interessante nos fecharmos em uma única possibilidade de acesso ao saber quando, na realidade, há outras maneiras que também são capazes de nos dar respostas, por outros métodos e linguagem. O filme, portanto, não é apenas um retrato histórico, mas principalmente um manifesto em favor da diversidade epistemológica. Ele nos convida a ouvir vozes diferentes, a valorizar perspectivas marginalizadas e a reconhecer que o mistério não é um inimigo do conhecimento, mas seu motor.

Dito isso, um dos méritos do filme está em não cair na armadilha de opor intuição e razão como forças irreconciliáveis, que jamais podem andar juntas. Embora o conflito entre Ramanujan e Hardy seja real e intenso, próprio do que inicialmente ocorre quando consideramos esses dois caminhos, o filme constrói gradualmente uma ponte a partir da ideia de que essas duas abordagens são complementares. A intuição abre portas, revela possibilidades, ou seja, nos traz um vislumbre, uma visão. Já a razão tem o grande papel de organizar, testar e comprovar o que foi visto.
Sem a intuição de Ramanujan, muitas perguntas talvez nunca tivessem sido formuladas e sem o método aplicado por Hardy, muitas respostas talvez nunca tivessem sido plenamente compreendidas. Essa perspectiva equilibrada entre razão e intuição é particularmente relevante em um mundo que frequentemente privilegia apenas um tipo de conhecimento. Ao assistir ao filme, o espectador é convidado a reconsiderar suas próprias crenças sobre como aprendemos e compreendemos a realidade. Talvez o erro não esteja na ciência, mas na crença de que ela é a única via legítima para a verdade. O filme não rejeita o método científico; ele o humaniza, lembrando-nos de que toda descoberta começa com um ato de imaginação.
Ver o infinito e aceitar o mistério que é a Vida
Visto isso, “O Homem que Viu o Infinito” é um filme que, de certo modo, nos faz confrontar nossa própria percepção sobre a Vida. Muitas vezes, achamos que nosso saber já é o suficiente, que já conhecemos o mundo “como ele é” e que, para uma vida social como a atual, já não precisamos de mais conhecimento. Não poderíamos estar mais enganados, visto que os mistérios que nos cercam são tantos que chegam a assombrar nossa infantil forma de adquirir sabedoria.
A trajetória de Ramanujan revela, com rara sensibilidade, que as leis da natureza não se deixam capturar completamente por modelos racionais, por mais sofisticados que sejam. Há algo no universo que escapa, que se insinua para nós, que se revela apenas em fragmentos e de forma sutil, quase imperceptível para a grande maioria das pessoas. A matemática, em sua beleza e precisão, é uma das linguagens mais poderosas para tentar compreender esse mistério, mas não é a única. A intuição, a imaginação e até mesmo a experiência espiritual aparecem, no filme, não como inimigas da razão, mas como suas aliadas silenciosas. Ramanujan nos ensina que compreender o mundo não é apenas calcular, mas também perceber, sentir e intuir.

Ao recomendar este filme, também podemos refletir sobre a nossa postura diante do saber: a postura da humildade. Jamais devemos encher o peito e afirmar “eu sei sobre isso”, pois, no fundo, será que realmente conhecemos profundamente qualquer assunto? Podemos chegar à mesma conclusão que Sócrates, o homem mais sábio da Grécia Antiga, que constatou o famoso “só sei que nada sei”.
Em tempos em que a ciência é frequentemente tratada como um conjunto de respostas prontas e que desejamos ardentemente afirmar nossa convicções sobre todo e qualquer assunto, “O Homem que Viu o Infinito” nos lembra que a própria ciência nasce, antes de tudo, da dúvida e do espanto. O espectador é convidado a reconhecer que aquilo que sabemos sobre as leis da natureza ainda é ínfimo diante da vastidão do real. Essa constatação não deve gerar frustração, mas admiração.
Por fim, “O Homem que Viu o Infinito” não é apenas um filme sobre matemática ou sobre um gênio incompreendido. É uma obra que fala sobre os limites da razão, sobre a vastidão da natureza e sobre a necessidade humana de buscar sentido mesmo quando não há respostas claras. Indicar este filme é convidar o leitor a olhar para o mundo com mais abertura, a aceitar que o mistério não diminui o conhecimento, mas o engrandece. Ver o infinito, afinal, não é compreendê-lo por completo, mas reconhecer sua presença e permitir que ele transforme nossa maneira de pensar, aprender e existir.



