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Série: desvelando os Tarot Egípcios – Parte VI

Tempo de leitura: aproximadamente 10 minutos

Dando continuidade a nossa série sobre os tarots egípcios, hoje chegamos ao sexto texto sobre essa antiga sabedoria. Se você, caro leitor, ainda não conhece nossa série, indicamos que a leia desde a introdução aqui no portal Feedobem.

Antes de iniciarmos nossa análise por mais símbolos e ideias contidas nas cartas, vale ressaltar que nossa interpretação do tarot não é absoluta, dando margem para outras séries de ideias que certamente estão veladas por seus símbolos. Tampouco pretendemos utilizar-se destes tarots para uma análise no campo da adivinhação e vidência, práticas usualmente relacionadas a ideia do tarot. Portanto, nosso interesse é mesmo entender as ideias que guardam os símbolos e perceber como podemos vivê-las, em algum grau, em nossa vida cotidiana.

Dada as devidas explicações, vamos as cartas de hoje.

O portão do Santuário

A primeira carta de hoje tem o nome de “o portão do santuário” e é tida como a número 2 do tarot. Nela podemos ver uma mulher sentada entre dois pilares, um negro e outro branco. A lua minguante está acima da imagem, assim como a mulher carrega uma coroa em sua cabeça, precisamente a coroa de Ísis, uma das principais deusas do Egito. Ela também está com o rosto velado, um toucado de faraó e em seu peito carrega a chave ankh, também conhecida como a chave da vida. Além desses detalhes, a mulher carrega em suas mãos um papiro e um de seus braços está coberto enquanto o outro mostra-se sem dificuldades.

Como bem sabemos, cada carta contém diversos símbolos e é preciso entendermos cada um deles para conseguirmos absorver mais precisamente suas ideias. Comecemos então pelos dois pilares, que simbolizam a dualidade. Como já comentamos, esse é um símbolo recorrente no tarot egípcio, o que mostra o valor dessa ideia para os Antigos povos do Nilo. Essa dualidade, porém, não significa necessariamente uma relação entre positivo e negativo, ou bem ou mal, mas sim acerca dos conhecimentos que são velados ao mundo e os que estão descobertos pela humanidade. 

Podemos fazer essa análise pela relação das mãos com os pilares desse santuário. A mulher carrega consigo um papiro aberto, mas somente metade dele está à mostra. A outra metade esconde-se sob o véu do manto da dama, o que nos mostra, de maneira bem objetiva, que há conhecimentos que conhecemos e desconhecemos. Essa também é uma dualidade do universo. Talvez, se refletirmos um pouco sobre isso, poderemos constatar que a sabedoria da vida está em reconhecer essa dualidade, pois certamente há coisas que sabemos e coisas que não sabemos. 

Aproveitando essa reflexão, pensemos sobre o símbolo da chave Ankh, que está no centro da imagem, acima do papiro. Esse símbolo tornou-se mundialmente conhecido graças ao fenômeno da egiptomania e foi associado à morte, uma vez que era encontrada com as múmias dos faraós. Entretanto, a chave Ankh representa a condição humana, que volta-se para a terra, mas que também pode alcançar os mais divinos pensamentos. Ela é a chave que liga o mundo espiritual e o mundo material, na qual todos nós estamos vivendo objetivamente. 

Na carta esse símbolo nos revela que além do conhecido e o desconhecido está a vida, que permeia esses dois lados que complementam-se. Porém, quem é a misteriosa mulher que carrega todos esses símbolos? 

Devido aos diversos símbolos podemos interpretá-la como a própria Ísis, ou a divindade em si, que está na entrada do santuário, ou seja, na entrada desse espaço sagrado. A lua minguante é um dos símbolos astrológicos da deusa-mãe do Egito, assim como a lua representa a ideia dos mistérios – não por acaso ela está posicionada ao lado do pilar negro -. Sentada entre a dualidade, a figura divina no centro nos indica que o caminho para acessar o sagrado está em buscar o centro entre as polaridades, em achar seu ponto de união e não a separatividade. Por isso que ela encontra-se no centro, como se vigiasse essa entrada para acessar o verdadeiro conhecimento.

Se pensarmos essas ideias para nossa vida cotidiana, podemos percebê-las em diversos momentos. Em nossas atividades, por exemplo, é comum percebermos aquilo que sabemos (e lidamos bem) e o que não sabemos (e que não lidamos bem). Ao mesmo tempo que temos conhecimento de diversos assuntos, em tantos outros estamos mergulhados na ignorância. Trazendo para um aspecto mais profundo, ainda não compreendemos completamente nosso papel no mundo e o que viemos fazer aqui, por exemplo, e esse conhecimento oculto ainda não nos está revelado por completo. A falta de respostas nos causa angústia e crises – as famosas crises existenciais – que nos perseguem, por vezes, durante toda a vida. Frente a esse cenário, o que fazer?

A resposta está na própria carta: aceitar que a vida é composta de dualidades, de coisas que sabemos e que não sabemos. Aprender a desvelar, aos poucos, cada um desses mistérios e caminhar para a vida eterna, que é a chave Ankh. Assim, quem sabe um dia fiquemos diante da deusa egípcia e tenhamos acesso ao seu santuário.

Ísis

A próxima carta que iremos analisar carrega o nome da deusa que falávamos anteriormente: Ísis. Ela corresponde ao número 3 no tarot egípcio e sua representação é de uma mulher sentada em um quadrado com olhos e outras figuras. Em seus pés há uma lua minguante, na qual a deusa apoia-se. Em suas mãos a divindade carrega um báculo com uma esfera dourada na ponta e na outra pousa-lhe um abutre. Em sua cabeça há uma tiara com uma serpente na testa e acima dela está um sol, que irradia seus raios para todas as direções e tem dentro de si doze estrelas.

Mais uma vez podemos observar que há diversos símbolos, tanto com representações divinas como também aspectos do mundo material. A lua nos pés de Ísis, como já sabemos, sinaliza a marca da deusa. Ela, porém, está sentada sobre um quadrado, ao qual representa todos os aspectos temporais do mundo. O fato de dentro dele está contido diversos olhos, símbolo dos nossos sentidos, mostra que o mundo dos sentidos está controlado por uma força maior, que no caso é a deusa. 

Fazendo um paralelo com a nossa vida, podemos pensar sobre como nos limitamos ao tratar dos nossos sentidos. Bem sabemos que conhecemos o mundo a partir deles e é graças aos nossos cinco sentidos que podemos nos guiar na vida, porém, eles são limitados e temporais. Se hoje temos, por exemplo, uma boa visão, é possível que no futuro percamos essa capacidade. E assim o é com qualquer um dos nossos sentidos. Além disso, se dependermos apenas deles para compreender o mundo à nossa volta, estaremos, certamente, bem limitados: enxergamos apenas uma pequena faixa do espectro de luz, assim como escutamos apenas um pequeno intervalo na frequência das ondas sonoras. 

Visto isso, para acessar os grandes mistérios e desvelar os segredos do Universo precisamos ir além do que nossos sentidos nos apresentam. Para isso existe a razão e nossos aspectos mais sutis, que nos aproximam desse mundo espiritual. Por isso que Ísis senta-se sobre esse mundo sensorial, pois é preciso, definitivamente, contê-los para que possamos observar com clareza outros aspectos da vida.

Tratando da deusa, mais uma vez ela se mostra com diversos símbolos ligados ao mundo espiritual. Seu báculo dourado representa um símbolo solar, demonstrando seu aspecto divino. Do mesmo modo, em sua outra mão está a deusa Nekhbet, símbolo da pureza e que destrói tudo que não participa do mundo espiritual. Essas duas ideias, a pureza e o divino, correspondem a um mundo perfeito, que só pode existir em uma dimensão que não é a material. Portanto, entende-se a razão pela qual o mundo material – simbolizado pelo quadrado em que Ísis está sentada –  não interage com esses elementos.

Outros dois símbolos ainda mostram a natureza divina da deusa na carta: sua tiara em formato de serpente, também chamada de Oreus e o sol com as doze estrelas acima de sua cabeça. O Oreus era um símbolo usado por discípulos e grandes sábios no Antigo Egito, que caracterizava exatamente sua condição de desperto para o mundo espiritual. Somente os mais sábios e buscadores da trilha eram permitidos de usar esse adereço. O Oreus também estava na entrada dos templos, como um símbolo que demarcava o espaço sagrado dos templos. 

Ainda dentro dessa ideia, temos o sol que, como já falamos em outras cartas, é a representação do bem e do divino em si. Esse aspecto superior engloba doze estrelas, que relacionam-se com os signos do zodíaco. Essa junção das duas mostra que a natureza espiritual está acima dos ciclos, que caracterizam a vida material. Como bem sabemos, nossa vida é demarcada por ciclos: seja pelo dia e a noite ou pelas estações do ano, a ciclicidade é uma lei que pertence ao nosso mundo material, pois é graças a ciclicidade que temos diferentes etapas da vida. Sabemos que um dia nascemos e que, em algum momento da história, iremos morrer e, segundo as antigas tradições, nasceremos de novo, em um ciclo de evolução.

Porém, para o mundo espiritual já não existe ciclos. Por ser perfeito e fora do tempo, não participa desse momento, por isso o sol controla e “engole” os signos, pois não está sob seu efeito.

Sendo assim, a carta de Ísis nos ensina que ao chegarmos em um aspecto espiritual, notadamente em que nossos aspectos materiais não nos aflijam, poderemos atingir essa dimensão divina. Talvez essas sejam ideias muito elevadas para entendermos, mas pensemos em nossa vida cotidiana mais uma vez: Por vezes podemos estar cansados, fatigados e com uma série de problemas ao nosso redor, mas se nos conectamos com uma ideia maior, somos capazes de vencer essas angústias e realizar tarefas que achávamos impossíveis. 

Por exemplo, quando compreendemos qual o nosso dever, seja no trabalho ou em outro aspecto da vida, iremos sacrificar o necessário para cumprí-lo. Tal qual uma mãe ou um pai que, sabendo que é seu dever cuidar de seus filhos, sacrificam horas de sono, alimentação e recursos para dar-lhes o máximo para sua formação enquanto indivíduos. Nesse aspecto da vida, ao sacrificar a si próprios em detrimento de uma ideia maior – o amor pelos filhos e o dever enquanto pais – essas pessoas podem dizer que conseguiram controlar aspectos temporais em detrimento de uma ideia. 

Sabemos que esse é um exemplo ínfimo, mas ainda assim nos prova que somos capazes de superar nossas limitações quando envoltos em boa vontade e amor para com o próximo. Ísis, como uma grande mãe, representa bem essa ideia.

A carruagem de Osíris

A última carta que falaremos no texto de hoje chama-se “a carruagem de Osíris” e é a número 7 do baralho egípcio. Na imagem da carta podemos ver uma carruagem sendo puxada por duas esfinges, uma branca e outra negra, adornada com alguns símbolos e sendo guiada por um homem usando a barba típica do faraó e alguns adornos. Este carrega um sabre em uma das mãos e um bastão em outra, contendo formas geométricas em sua ponta. Ao fundo temos o sol iluminando a paisagem.

Começando pelos símbolos mais conhecidos, a dualidade mais uma vez faz-se presente no tarot. Essas duas forças, que ao mesmo tempo são opostas e complementares, puxam a carruagem a qual Osíris é o guia. Tal qual a carta de Ísis, aqui também temos uma demonstração do mundo espiritual, representado na forma do Deus egípcio, conduzindo o mundo material. Em verdade, podemos compreender que um indivíduo, ao canalizar seus instintos e habilidades em nome de uma ideia, passa a controlá-los e não mais ficar a mercê destes. 

Aqui é importante refletirmos sobre uma ideia comum, mas pouco colocada em prática em nossos dias. Normalmente dizemos que “quem não pensa será, consequentemente, pensado por alguém”, considerando a frase podemos adaptá-la e dizer que “se você não comanda a si mesmo, será comandado pelos instintos”. Quando perdemos a capacidade de gerir nossos desejos acabamos, por fim, ficando refém destes. Nesses casos passamos a querer realizá-los no momento em que aparecem, e moldamos nossa vida para nos saciar. Assim, quem está guiando a nossa carruagem não é a nossa melhor parte, mas a mais efêmera de nossos aspectos.

A partir disso, podemos identificar, mais uma vez, a vida espiritual estando um degrau – ou vários – acima da vida material. Isso não significa dizer que não haja valor no que compõe a vida objetiva que estamos acostumados, porém, ela precisa participar e ser um meio de expressão da nossa parte mais sublime. 

Quando existe harmonia entre o material e o espiritual encontra-se, naturalmente, a justiça. Na carta a justiça está simbolizada pelas asas de Maat, que está estampada na carruagem, acima das esfinges. Junto a ela também está a flor de lótus, símbolo de pureza e do Ser Humano que busca a sabedoria divina, voltando-se para o Sol. Este, por sua vez, ilumina todo o caminho percorrido pela carruagem e mesmo sendo aparentemente pequeno é o que garante a condução correta e segura.

Como já vimos, o sol simboliza o Bem, a união de todas as coisas e podemos compreender a razão dele iluminar o caminho da carruagem. De nada nos adiantaria colocar nossos instintos e aspectos materiais à serviço de uma ideia ou princípio que não fosse regido pela ideia do bem, pois, provavelmente cairíamos em egoísmos e problemas mundanos, não alcançando assim a vida espiritual. Seria como estar em um grande salão sem nenhuma iluminação e tentar achar a saída sem esbarrões ou coisas do tipo. Portanto, lembremos que o princípio que nos norteia em nossa jornada é o bem, a unidade. Sem ele nossa carruagem, por mais enfeitada e bela que seja, irá atolar nas lamas do materialismo. 

Por fim, Osíris, o condutor da carruagem, é a divindade por excelência. Em suas mãos está o poder, simbolizado pelo sabre, e o domínio de todas as formas, próprias do mundo manifestado. Aqui simboliza a ideia de que tudo que existe no Universo partiu de um criador, ou seja, um ser capaz de moldar todas as formas do mundo. Para conseguir isso seria preciso ter em si todas as formas e, naturalmente, todas essas formas também conteriam uma pequena parte desse Ser.

Simplificando, mostra-se aí que a vida espiritual, por mais distante – a priori – que esteja da vida material, ainda é a raiz de onde tudo surgiu. Logo, em cada ser deste mundo há uma centelha do divino, que mantém-se conectada a esse mundo ideal.

Esse foi mais um texto da Série “desvendando os tarots egípcios”. Esperamos que tenha sido mais uma oportunidade de aprender sobre essas ideias profundas e que lhes sejam proveitosas as reflexões. Até o próximo texto!

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