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O que é o alimento para quando temos fome? Um acalento. O que é uma terra para quando estamos sem lugar? Um lar. O que é um abraço para quando sentimos solidão? Acolhimento. 

Essas são algumas ideias ligadas a uma das mais importantes Deusas da mitologia grega, conhecida como Deméter, a Deusa da Agricultura. 

Conta a mitologia que Deméter era filha do titã Cronos e de Reia. Sua primeira filha nasceu de uma união com Zeus e se chamava Perséfone. Em certa ocasião, Hades, o Deus do submundo, desejava uma esposa para si e ao ver a jovem Perséfone caminhando por um bosque logo apaixonou-se por ela e resolveu raptá-la. O Deus captura a filha de Deméter e a leva para o seu palácio, no mundo dos mortos. Em seus domínios, oferece um banquete para sua futura esposa, porém Perséfone não aceita comer nada que lhe é oferecido, como uma forma de protesto. A jovem, entretanto, abaixa sua guarda e come uma pequena fruta vermelha que não havia sido ofertada no banquete, mas que fora cultivada nos jardins de Hades. Essa fruta era a romã, e por ter se alimentado de algo do mundo dos mortos Perséfone passou a pertencer ao reino de Hades.

Deméter, com todo o seu instinto de mãe, não mede forças para resgatar sua filha dos braços sombrios de Hades e decide encontrá-lo face a face para trazê-la de volta. Quando sai em busca de sua filha, esquece de sua missão e logo a colheita e a fertilidade das terras começam a piorar. Como resultado, todos os Seres Humanos passam por um terrível período de fome devido às más colheitas. 

Por fim, após Zeus interceder na contenda entre os Deuses, Deméter e Hades chegam a um acordo: Perséfone passaria metade do ano ao lado de Hades e a outra metade do ano ao lado de Deméter, simbolizando assim as 4 estações do ano. Quando Perséfone passava metade do ano ao lado de Hades, Deméter sentia-se só e triste, com saudades de sua filha. Por consequência, a terra passava por períodos inférteis e silenciosos, que reconheciam como as estações do Outono e do Inverno. Já durante a outra metade do ano, ao estar com Perséfone, Deméter se alegrava e a terra resplandecia ao seu redor, fazendo nascer a vida em todo o potencial de flores e frutos. As estações que marcavam esse florescimento da vida eram a Primavera e o Verão.

Saindo agora um pouco da questão mitológica e entrando no campo do simbólico, o que isso tudo pode nos revelar? Segundo o livro “Deusa Interior”, de Jennifer Woolger e Roger Woolger, para cada mulher haveria um arquétipo de Deusa, não que cada mulher esteja endurecida a determinadas ideias, mas que há uma grande tendência a refletir uma tônica, quase que exatamente descrita pelas Deusas da mitologia grega. Assim são os mitos: ao invés de histórias sem sentido ou inverdades como costumamos falar, eles revelam de forma profunda algumas Leis da Natureza. Se bem compreendidas e aproveitadas, poderão gerar bons aprendizados aos Seres Humanos. Assim, os mitos nos revelam ideias e não histórias.

E quais ideias rodeiam a figura de Deméter? Em primeiro lugar a ideia do Amor. Já percebeu alguma vez que quando amamos algo ou alguém conseguimos nos dedicar inteiramente a isso? E o contrário também é válido, quando odiamos, não conseguimos dedicar nenhum um tempo e nem um esforço sequer. A ideia do Amor está acompanhada pela Vida. O Amor é capaz de dar sem reservas e não é à toa que Deméter está associada à ideia da Prosperidade e da Fertilidade, pois o Amor torna fértil onde carece Vida. Quem nunca ouviu falar nas histórias de grandes professores que se dedicam a ensinar turmas complexas? Após o empenho e, essencialmente, o Amor, a turma se transforma, os alunos crescem e expressam potencialidades que estavam até então escondidas.

Além disso, ela também representa a agricultura. E o que é a agricultura? Terras cultivadas para gerar frutos, sustento capaz de atender milhares de pessoas. E assim tiramos uma nova ideia da Deusa: a Generosidade. Generosidade significa gerar para dar, é a capacidade de gerar reservas aparentemente inesgotáveis de energia. Uma terra que passa por ciclos e estações, mas que segue doando e gestando as sementes mesmo com seus altos e baixos. Toda a Natureza passa por processos de ciclos, porém ela jamais deixa de cumprir com o seu papel. Eis a ideia da Generosidade: uma Virtude inata ao Ser Humano, aos grandes homens, capazes de doar sem receber, de ouvir sem serem ouvidos, de sorrirem mesmo que ninguém os sorria. É Vitalidade apesar das circunstâncias. 

Deméter também é mãe. Como vimos no mito, sua filha, Perséfone, é roubada por Hades, o Deus do submundo. E lá se vai Deméter, até o mundo dos mortos para resgatar sua filha deste rapto. E o que uma mãe é capaz de fazer por um filho? Muitas vezes esquecer de si mesma para preservá-lo, protegê-lo. E assim associamos a Deusa à maternidade, a esse carinho de mãe, verdadeira vida em terra árida, verdadeiro acalento no submundo. E essa ideia não está restrita à maternidade física, pois ser mãe não é ter filhos físicos, mas é uma atitude perante aos demais. Quando olhamos ao redor de nós, podemos perceber que muitas pessoas podem ser nossos filhos, se nos empenharmos para “perder o coração” por onde passarmos. 

Gerar frutos em um mundo árido, Amar onde todos se odeiam, Unir onde há separação. Esta é uma tarefa de Deméter e de todos aqueles, homens ou mulheres, que decidirem construir sua ideia essencial: a ideia de civilização, de verdadeira HUMANIDADE.

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