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Você já ouviu falar de Deméter? Para os antigos gregos, essa divindade era uma das principais forças da Natureza, capaz de prover a vida através da agricultura e de boas safras. Deméter é constantemente representada como uma mãe amorosa, preocupada com seus filhos, e busca ajudar a humanidade, sendo assim sempre retratada de forma positiva.

Diretamente associada à fertilidade e à vida, essa divindade recebia diferentes tipos de culto, inclusive alguns de cunho “iniciático”, dos quais ainda hoje pouco sabemos a respeito. Assim, não podemos pensar em Deméter como uma divindade “secundária” ou que pouca importância tinha para os antigos moradores da Hélade.

Para entendermos com precisão sua importância, basta refletirmos sobre o valor da agricultura para toda civilização humana. Considerada por muitos povos antigos como uma dádiva dos deuses, graças à agricultura fomos capazes de nos tornar povos sedentários, capazes de construir cidades e desenvolver normas sociais bem definidas. 

De forma prática, a agricultura nos possibilitou o estoque de alimentos em larga escala. E o que é o alimento quando temos fome? Uma necessidade primária, capaz de definir a vida ou a morte. Por isso, não podemos diminuir a importância de Deméter dentro da  vida dos gregos. 

Deusa Deméter

O mito de Deméter e Perséfone

Conta a mitologia que Deméter era filha do titã Cronos e de Reia. Sua primeira filha nasceu de uma união com Zeus e se chamava Perséfone. Em certa ocasião, Hades, o deus do submundo, desejava uma esposa para si e, ao ver a jovem Perséfone caminhando por um bosque, logo apaixonou-se por ela e resolveu raptá-la. Ele captura a filha de Deméter e a leva para o seu palácio, no mundo dos mortos. Em seus domínios, oferece um banquete para sua futura esposa, porém, Perséfone não aceita comer nada que lhe é oferecido, como uma forma de protesto. 

A jovem, entretanto, abaixa sua guarda e come uma pequena fruta vermelha que não havia sido ofertada no banquete, mas que fora cultivada nos jardins de Hades. Essa fruta era a romã e, por ter se alimentado de algo do mundo dos mortos, Perséfone passou a pertencer ao reino de Hades.

O Retorno de Perséfone Por Frederic Leighton, 1891

Deméter, com todo o seu instinto de mãe, não mede forças para resgatar sua filha dos braços sombrios de Hades e decide encontrá-lo para trazê-la de volta. Quando sai em busca da sua filha, esquece da sua missão, e logo a colheita e a fertilidade das terras começam a piorar. Como resultado, todos os Seres Humanos passam por um terrível período de fome devido às más colheitas.

Por fim, após Zeus interceder na contenda entre os deuses, Deméter e Hades chegam a um acordo: Perséfone passaria metade do ano ao lado de Hades e a outra metade do ano ao lado de Deméter, simbolizando assim as 4 estações do ano. Quando Perséfone passava metade do ano ao lado de Hades, Deméter sentia-se só e triste, com saudades da sua filha.

Por consequência, a terra passava por períodos inférteis e silenciosos, que eram reconhecidos como as estações do Outono e do Inverno. Já durante a outra metade do ano, ao estar com Perséfone, Deméter se alegrava e a terra resplandecia ao seu redor, fazendo nascer a vida em todo o potencial de flores e frutos. As estações que marcavam esse florescimento da vida eram a Primavera e o Verão.

O simbolismo e as representações de Deméter

Saindo agora um pouco da questão mitológica e entrando no campo  simbólico, o que isso tudo pode nos revelar? Segundo o livro “Deusa Interior”, de Jennifer Woolger e Roger Woolger, para cada mulher haveria um arquétipo de deusa, não que cada mulher esteja endurecida a determinadas ideias, mas que há uma grande tendência a refletir uma tônica, quase exatamente descrita pelas deusas da mitologia grega. 

Assim são os mitos: ao invés de histórias sem sentido ou inverdades, como costumamos falar, eles revelam de forma profunda algumas Leis da Natureza. Se bem compreendidas e aproveitadas, essas histórias poderão gerar bons aprendizados aos Seres Humanos. Assim, os mitos nos revelam ideias e não histórias.

E quais ideias rodeiam a figura de Deméter? Em primeiro lugar, a ideia do Amor. Já percebeu alguma vez que, quando amamos algo ou alguém, conseguimos nos dedicar inteiramente a isso? E o contrário também é válido. Quando odiamos, não conseguimos dedicar nenhum tempo   nem um esforço sequer a qualquer causa.

A ideia do Amor está acompanhada pela Vida. O Amor, que é uma Virtude, é capaz de dar sem reservas e não é à toa que Deméter está associada à ideia da Prosperidade e da Fertilidade, pois o Amor torna fértil o que carece de Vida. Quem nunca ouviu falar das histórias de grandes professores que se dedicam a ensinar turmas complexas? Após o empenho e, essencialmente, o Amor, a turma se transforma, os alunos crescem e expressam potencialidades que estavam até então escondidas.

No caso de Deméter, o Amor pela sua filha a fez cruzar mundos e encontrá-la no Hades. É por esse mesmo Amor que ela aceita sua condição e volta a garantir a boa colheita para a humanidade, que dependia dessa deusa para sobreviver. Assim, tanto o Amor pela sua filha como o Amor pelo seu dever estão representados como maneiras de viver esta ideia.

Se entendermos isso, poderemos aplicar a mesma lógica para a nossa vida cotidiana, uma vez que essa virtude não precisa ser vivida apenas dentro de uma relação amorosa, mas também deve ser cultivada em todas as nossas formas de relação humana. Dessa forma, Amar o trabalho, os nossos deveres, os nossos parentes e até mesmo quem não conhecemos é uma tarefa a ser experimentada pelo ser humano de maneira integral. Os antigos gregos entenderam essa ideia e buscaram representá-la na mitologia de Deméter.

Além disso, ela também representa a agricultura. E o que é a agricultura? Terras cultivadas para gerar frutos, sustento capaz de atender milhares de pessoas. E assim tiramos uma nova ideia da Deusa: a Generosidade. Generosidade significa gerar para dar, é a capacidade de gerar reservas aparentemente inesgotáveis de energia. Uma terra que passa por ciclos e estações, mas que segue doando e gestando as sementes, mesmo com seus altos e baixos. Toda a Natureza, portanto, passa por processos de ciclos, porém, ela jamais deixa de cumprir com o seu papel. 

Eis a ideia da Generosidade: uma Virtude inata ao Ser Humano, aos grandes homens, capazes de doar sem receber, de ouvir sem serem ouvidos, de sorrirem mesmo que ninguém  sorria de volta. É Vitalidade, apesar das circunstâncias. 

A fidelidade ao seu dever está marcada nos diferentes símbolos e representações de Deméter. Uma delas, por exemplo, associa a deusa ao cachorro, o animal que figura em suas representações. O cachorro, desde a antiguidade, guarda como suas principais características a fidelidade e a lealdade ao seu dono. No caso de Deméter, a fidelidade está à sua filha e suas funções como deusa da agricultura. Manter a vida a partir dos alimentos é seu dever, e isso, como citamos acima, é um ato de Generosidade e Amor, Virtudes também atreladas a essa deusa.

Outros animais como a coruja e o cavalo – muitas vezes associados a outros deuses como Atena e Poseidon, respectivamente – também estão ligados a Deméter. Simbolicamente, a coruja representa a sabedoria e os mistérios e provavelmente está associada a Deméter devido aos cultos misteriosos que ocorriam em sua homenagem. Já o cavalo, símbolo de potência, poder e movimento, se relaciona com essa divindade devido justamente à ideia de movimento da Natureza, em que em diferentes ciclos acabam por renovar-se. 

Naturalmente, um dos símbolos mais conhecidos de Deméter são as espigas de trigo. Essa representação é um tanto quanto óbvia, uma vez que o trigo era o cereal basilar da agricultura antiga. Cultivado ao longo dos milênios, o trigo sempre foi um importante símbolo nas culturas antigas. Podemos encontrá-lo, por exemplo, na civilização romana e na egípcia. Assim, os gregos também dedicaram ao trigo o símbolo máximo de Deméter. 

Junto a ele, para terminar essa parte, também apresenta-se como símbolo de Deméter a foice, sua principal arma. Mas não pensemos neste instrumento agrícola como uma arma bélica, mas sim uma representação da colheita. Se por um lado o trigo representa a semeadura, momento da plantação dos grãos, por outro a foice representa o momento da colheita, ou seja, o momento de retirar o alimento da terra. Deméter é responsável por essa dualidade, assim, ao mesmo tempo, está ligada à vida e à morte através de sua filha Perséfone.

Deméter: a grande mãe que ama a humanidade

Deméter também é mãe. Como vimos no mito, sua filha, Perséfone, é roubada por Hades. E lá se vai Deméter, até o mundo dos mortos, para resgatar a sua filha deste rapto. E o que uma mãe é capaz de fazer por um filho? Muitas vezes, de esquecer de si mesma para preservá-lo, protegê-lo. E, assim, associamos a deusa à maternidade, a esse carinho de mãe, à verdadeira vida em terra árida, ao verdadeiro acalento no submundo. E essa ideia não está restrita à maternidade física, pois ser mãe não é ter filhos, mas é uma atitude perante aos demais. 

Quando olhamos ao redor de nós, podemos perceber que muitas pessoas podem ser nossos filhos, se nos empenharmos para “perder o coração” por onde passarmos. Não falamos de filhos biológicos, mas sim de nutrir um sentimento de cuidado, afeto e amor uns pelos outros. A humanidade, afinal, é uma grande família que adquiriu hábitos distintos. Essa percepção do Todo é fundamental para conseguirmos avançar em nossa evolução. Para isso, precisamos lidar com as diferenças formais que nos cercam e passar a enxergar o verdadeiro coração de cada pessoa.

Sabemos que o mundo atual está cada vez mais distante dessa ideia. Todos os dias notícias de guerras e conflitos chegam até nós, porém, o que podemos fazer? Sermos esse canal de amor e esperança ao mundo, através de nossa generosidade. Gerar frutos em um mundo árido, Amar onde todos se odeiam, Unir onde há separação. Essa é uma tarefa de Deméter e de todos aqueles – homens ou mulheres – que decidirem construir sua ideia essencial: a ideia de civilização, de verdadeira HUMANIDADE.

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