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O mundo é cercado de Mistérios. Aos poucos, o Homem vai trazendo-os à luz da consciência. Porém, nos parece que há conhecimentos, ideias e construções conhecidas pelas civilizações que vencem o tempo. Peguemos as pirâmides como exemplo, que são o símbolo máximo do Antigo Egito. Foram erguidas de maneira tão ímpar que até os dias de hoje não sabemos exatamente como foram feitas. Sua construção, para nós, é tão misteriosa quanto às profundezas do mar ou os Segredos do Universo. Entretanto, quando falamos do Egito e de suas construções não podemos esquecer de outra obra maravilhosa e simbólica: a Esfinge.

Muitos de nós conhecemos a Esfinge pela famosa frase “Decifra-me ou te devoro”, citada primeiramente na peça Édipo Rei, de Sófocles. Desde então, a Esfinge segue com esse ar enigmático e misterioso, mas como ela foi construída? Quais significados guardam sua representação? Para responder a essas questões devemos considerar o contexto de criação da Esfinge e a cultura egípcia. 

Inicialmente, devemos entender que existem diversas Esfinges por todo o Antigo Egito. Elas eram colocadas, em geral, próximas de templos e tinham tamanhos e quantidades variadas. Porém, nenhuma se compara a Esfinge próxima às pirâmides de Gizé, devido ao seu tamanho e importância. Visto isso, podemos compreender que essas construções eram, em grande parte, ligadas aos ritos e cultos egípcios, guardando assim símbolos e ideias fundamentais para àquela civilização.  

Nos dados oficiais consta que a Esfinge, situada perto das pirâmides de Gizé, data por volta do ano 2300 a.C. e teria sido construída em homenagem ao Faraó Quéfren. Porém, há alguns indícios que apontam que a construção é ainda mais antiga. A primeira delas está na própria mitologia, tanto grega como egípcia, que adaptou a representação da Esfinge e sua origem. 

Para os gregos, o colosso egípcio teria nascido, na verdade, na Etiópia, sendo uma criatura viva e filha de Quimera e Ortos, outros dois monstros mitológicos. Ela seria composta por diversas partes de animais, sendo feroz e devoradora de Homens. Logo, para os gregos, a postura sentada e “calma” da Esfinge ocorreu com o tempo. Somente depois ela teria voado até a posição que está hoje e, segundo o mito, faria seu famoso enigma para quem passasse em sua frente.

Nessa concepção, a Esfinge seria um monstro devorador de pessoas, simbolizando um aspecto Humano mal canalizado que, eventualmente, o levaria a destruição. Dentro da cultura egípcia também enxergamos esses aspectos no simbolismo da Esfinge. Conta o mito egípcio que a Esfinge, composta por diversos animais e com uma cabeça Humana, porém muda e inconsciente, aterrorizava as pessoas, atacando-as com suas garras e presas. Porém, após o Deus Thoth entrar em sua cabeça e fazê-la desenvolver consciência, o monstro deixou de ter atitudes destruidoras e sentou-se sobre o seu ventre e passou a olhar para o leste, vendo o Sol nascer.

Ambos os mitos nos fazem refletir profundamente sobre o significado da Esfinge. Não por acaso, ela tem a cabeça de um Ser Humano, mas também é composta por elementos de outros animais: asas, garras e presas. No início, quando não sabia falar e sua parte Humana estava inconsciente, as forças animalescas a dominavam e a faziam agir por impulso, resultando em destruição. Somente quando a Sabedoria, representada pelo Deus Thoth, toma espaço dentro do seu Ser é que a Esfinge, agora iluminada pela consciência, domina seus instintos e passa a ter uma atitude civilizada, própria do Ser Humano. Após isso ela passa a contemplar o nascer do Sol – por isso está voltada ao Leste – que também carrega um simbolismo interessante: para os egípcios, assim como em diversas outras culturas, o Sol era a principal Divindade do seu panteão, muitas vezes sendo entendido com o Deus em si. A Esfinge voltar-se para o Sol simboliza o Ser Humano que ao tomar consciência volta-se ao Sagrado, busca descobrir o Divino que há em tudo e passa a contemplá-lo.

Trazendo para a nossa vida, em alguns momentos agimos apenas baseados em nossos instintos, o que, em geral, nos leva a uma má conduta. Quando isso ocorre, por vezes costumamos falar que “agimos sem pensar”, similar à Esfinge que tinha uma cabeça Humana, porém não havia em si consciência. Nesse ponto podemos compreender a chave para a misteriosa frase da Esfinge: “decifra-me ou te devoro”. 

Se não compreendermos a nós mesmos, percebendo em que momentos nossos instintos nos comandam, seremos escravizados e, consequentemente, “devorados”. Ser devorado, nesse sentido, está ligado à ideia de vivermos uma vida que não seja própria de um Ser Humano, ou seja, vivermos sem usar nossa razão e sem desenvolver nossas potencialidades Humanas. Afinal, se o que nos diferencia das outras espécies é nossa capacidade de autoconsciência, logo, se não a utilizamos estamos deixando de fazer o que nos cabe, aceitando uma vida que não está destinada a nós.

Visto isso, a todo momento estamos precisando decidir quem comandará nossa ação: a razão ou os instintos. Quando não há razão, somos a Esfinge desgovernada que causa destruição e dor. Do mesmo modo, se agimos sob a luz da razão, podemos parar, contemplar o que nos cabe fazer e decidir assertivamente os nossos passos. 

Retomando à misteriosa origem da Esfinge, apesar dessa ser uma história mitológica, permeada de elementos simbólicos e que não deve ser interpretada ao pé da letra, a ideia de que a Esfinge não teria nascido no Egito acaba, de certo modo, se aproximando da teoria de que sua construção teria ocorrido por volta do ano 10 mil a.C. Análises realizadas na estrutura da Esfinge sugerem que ela teria sido construída em um período em que o Egito não estava unificado e, portanto, não existindo com esse nome. A esse período denominamos de pré-dinástico, e não sabemos ainda, ao certo, sua data inicial. A falta de fontes alimentam, consequentemente, as lacunas e os Mistérios em torno da Esfinge. 

Tão surpreendente quanto sua história é a própria construção da Esfinge. Ela foi moldada a partir de monolito, com proporções gigantescas até para o nosso tempo: 73 metros de comprimento, 22 metros de altura e 19 metros de largura, aproximadamente. Para os antigos egípcios a função da Esfinge, além dos seus símbolos e representações, era o de proteção às pirâmides. Sua eterna vigilância afastava os ignorantes e maus, ao passo que todos que buscavam a Sabedoria eram bem vindos a visitar o seu templo. 

Porém, nem sempre a Esfinge foi valorizada. Uma antiga história, esculpida em uma das patas do monumento, conta que por volta de 1400 a.C. um jovem adormeceu em cima da cabeça da Esfinge. Em seus sonhos o ser mitológico pedia-lhe que a desenterrasse para que ela voltasse a proteger as pirâmides. O jovem prontamente começou a cavar e, desse modo, o gigantesco monumento que havia sido enterrado devido às tempestades de areia poderia, novamente, cumprir sua função. O jovem, afinal, tornou-se o faraó Tutmés IV e eternizou-se como o primeiro faraó a tentar restaurar a Esfinge.

Infelizmente, porém, em outros momentos da História, como podemos observar, a Esfinge foi igualmente esquecida. Somente em 1936, por exemplo, ela foi completamente desenterrada. Para além disso, diversas restaurações tentam preservar o valor inestimável dessa obra da Humanidade, porém, ela já demonstra sinais claros de desgaste. Rachaduras, seu nariz quebrado e outros detalhes apontam para a sua longevidade. Apesar disso, não nos restam dúvidas que a ideia representada pela Esfinge vence o tempo e mostra-se Atemporal: O Ser Humano que precisa da razão para dominar seus instintos.

Mais importante do que a História, as datas e comprovações da mitologia, devemos compreender o simbolismo que a Esfinge carrega consigo. Se conseguirmos traduzi-lo em nossas experiências cotidianas poderemos, certamente, manter seu espírito vivo e atuante. Se honrarmos essa ideia poderemos, por fim, chegar aos seus pés e ter acesso ao seu templo, que nada mais é do que a Sabedoria. Sejamos, portanto, dignos de entrar nesses Mistérios e contemplar o Sol que habita em cada um de nós.

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