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O mar é encantador. De maneira geral, nós reconhecemos sua grandeza quando vamos à praia e observamos as ondas se jogando, incansavelmente, contra as pedras ou tocando suavemente a areia. Nesse momento é difícil não reconhecer o quão pequenos e frágeis somos diante da vastidão que chamamos de Oceano. Se você, caro leitor, já parou para observar esse fenômeno da Natureza, então sabe do que estou querendo tratar. Entretanto, as águas que banham a costa dos continentes e os próprios oceanos não são motivo de admiração apenas em nosso momento histórico. Em verdade, desde a antiguidade os homens são fascinados pelos Mistérios e Belezas que habitam as águas da terra. Comumente lhe atribuíam o caráter de Divindade, com seus Deuses e símbolos únicos. Até mesmo nos dias atuais, de maneira indireta e inconsciente em sua maioria, prestamos homenagens aos Deuses que, em outras culturas, representavam as águas. Quando, por exemplo, pulamos sete ondas na praia no ano novo, estamos prestando um rito de passagem para Iemanjá, a mãe dos mares para as religiões de matrizes africanas. Esses ritos, hoje difundidos na cultura popular, já foram parte de cerimônias e momentos especiais de agradecimento aos Deuses.

Hoje, porém, trataremos de uma outra Divindade. Seus templos já não existem mais, muito menos sacerdotes e pessoas prestando culto a esse Deus, mas, por mais de mil anos, ele foi uma das Deidades mais importantes da cultura greco-romana. Falaremos sobre o Deus grego Poseidon , mais conhecido também como Netuno na mitologia romana. Provavelmente você já ouviu falar sobre ele em alguma série, livro ou filme da cultura pop, mas pouco sabemos sobre o simbolismo que existe por trás dos mitos em que o senhor dos Oceanos está inserido.

Comecemos pelo seu nascimento: Poseidon é um dos filhos de Cronos, Titã do tempo. Cronos temia que uma antiga profecia se realizasse, a qual dizia que um dos seus filhos o destronaria. Por isso, sempre que Reia, a Deusa da fertilidade, dava à luz, Cronos devorava o seu recém-nascido. Isso ocorreu com diversos Deuses, incluindo Poseidon. O mito conta que Zeus, que foi criado escondido de Cronos por Reia, quando adulto desafiou seu pai e após derrotá-lo obrigou o Titã do tempo a vomitar os filhos que havia engolido. Assim nasce a geração que chamamos de “olimpianos”, por residirem no Monte Olimpo. Nesse momento, porém, percebemos uma diferença de Poseidon para com seus irmãos: ele não mora no Monte Olimpo. Assim como Hades, que desfruta do seu palácio no submundo, Poseidon vai para o fundo do mar e passa a ser o Deus dos oceanos.

Na cultura grega dois animais são relacionados a Poseidon: o cavalo e o touro. Este último é um símbolo recorrente ao falarmos do Deus dos mares devido ao minotauro. No mito o touro que engravida Pasífae é um presente de Poseidon para o rei Minos. Mas e quanto ao cavalo? Qual a relação deste animal com os mares? Os cavalos, segundo a tradição grega, haviam nascido de um golpe de Poseidon no solo. Do mesmo modo, por vezes, Poseidon é representado em cima de uma carruagem marinha, sendo puxado por cavalos com armaduras. Para além das representações, essa é uma das indicações que revelam a possibilidade de uma origem ainda mais antiga de Poseidon. O famoso tridente de Netuno também esconde, segundo especialistas, pistas sobre a antiguidade do Deus. O tridente seria, em tempos antigos, o símbolo de Zeus e os Deuses dividiram essa característica celeste. Entretanto, as mudanças da cultura grega colocaram Poseidon para governar os mares e oceanos, deixando os atributos celestes com Zeus, o Deus dos deuses. Porém, nem sempre o Oceano foi seu território. Poseidon, antes, ainda estava relacionado aos terremotos e ao movimento, de maneira geral. Os terremotos seriam uma consequência dos cavalos que ao cavalgarem no fundo do mar fariam a terra tremer.

Para além dos seus atributos, Poseidon está presente nas principais obras literárias da Grécia Antiga: a Ilíada e a Odisseia. Escritas há mais de 2.500 anos, as obras de Homero são pérolas da Humanidade por retratarem valores atemporais. Poseidon, na narrativa grega, ajuda os troianos em seu combate contra os Aqueus. Não apenas isso, ele é um dos protetores da cidade e o construtor da intransponível muralha de Tróia. Quando a guerra termina e os gregos se consagram vencedores, Poseidon resolve provar o herói Ulisses, ou Odisseu. O rei de Ítaca, gabando-se de sua habilidade em resolver problemas, diz que nem os Deuses seriam capazes de vencê-lo. Netuno então resolve colocar a Inteligência do Humano à prova. O retorno de Ulisses, que deveria durar poucos meses, transforma-se em uma Saga Humana no caminho para encontrar a si mesmo, levando dez anos até retornar para a sua ilha. Poseidon é responsável por dificultar os caminhos de Odisseu.

Nesse ponto, podemos refletir que a ação do Deus não é a de atrapalhar ou mesmo castigar o grego pela sua ousadia, mas de forjá-lo nas provas enfrentadas. Tal qual uma espada, que precisa passar pelo fogo e os diversos golpes de martelo para tornar-se excelente, nós também precisamos de provas em nosso caminho para aprender com as experiências. Se olharmos para a nossa história pessoal poderemos reconhecer alguns momentos difíceis que vivemos. Certamente não nos sentimos confortáveis quando eles estavam ocorrendo, mas agora, passada a experiência, é provável que tenhamos colhido frutos e aprendido com esses momentos. Assim como Odisseu, que reconheceu sua vaidade e pôde se reposicionar ao longo da jornada, também conseguimos passar pela vida e aprender com as provas que estão à nossa frente.

E o que são as provas? De maneira geral, chamamos de prova toda situação que nos obriga a dar uma resposta, a movimentar-se para resolver o problema. As provas vão desde a convivência com familiares e colegas de trabalho até as grandes dúvidas existenciais que, por vezes, nos atormentam. Como já falado no texto, Poseidon, antes de ser um Deus marinho, estava relacionado ao movimento, a tudo que se move. Por isso testa os heróis, pois obriga-os a caminhar e sair de suas zonas de conforto. Para os antigos gregos, portanto, Poseidon não era um Deus “mau” ou perverso por, em suas histórias, sempre buscar prejudicar ou humilhar os Humanos, mas confiava em suas capacidades de superação e resolução de problemas.

Do mesmo modo, cabe a nós enfrentarmos os dilemas cotidianos que vivemos. Não apenas para solucioná-los, mas para entendermos as causas que o geraram e superarmos a experiência. Talvez, nos tempos modernos em que vivemos, seja a maneira sutil dos Deuses se comunicarem conosco pois, apesar da distância temporal e cultural, a Divindade sempre busca ajudar o Ser Humano em sua evolução. Seja fornecendo armas mágicas, desafios ou repousando sua mão em nossos ombros e nos dando bençãos. Cabe a nós, mortais e imperfeitos, seguir caminhando, e nos aprimorando a cada dia.

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