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O que significa “mito” para você? Nos dias atuais essa palavra, de maneira geral, está associada a algo irreal, uma história fantástica que não tem respaldo no mundo objetivo. Por causa disso temos uma tendência a rejeitar essas histórias, uma vez que elas não são “verdadeiras”. O que não sabemos, na maioria das vezes, é que a mitologia utiliza uma linguagem simbólica para comunicar suas ideias. Desse modo, não podemos levar ao pé da letra tudo que está descrito em um mito, porém, devemos enxergar as ideias que guiam aquele relato e que estão veladas em ensinamentos e lições para nós.

Primeiramente precisamos entender que a vida é simbólica. Se observarmos com atenção perceberemos que a natureza, e nós também, nos comunicamos de maneira profunda através de símbolos. Seja para avisar que está tudo bem (levantando o polegar) ou  decifrando uma lei do Universo por trás de uma experiência, o fato é que nossa compreensão está para além dos fatos objetivos. Não por acaso, mais de 50% da nossa comunicação é não-verbal, ou seja, a fazemos de maneira simbólica a partir do nosso corpo. 

Visto isso, se faz importante compreender que os mitos e seus ensinamentos vencem a barreira do tempo, pois não se trata de explicar um acontecimento de determinada civilização, mas sim ideias que permeiam o Ser Humano. E hoje conheceremos mais um importante mito grego, que nos conta um pouco sobre Éolo, o Deus dos ventos. 

Tudo começou com Ulisses, herói grego que havia passado dez anos lutando na guerra de Tróia. Quando finalmente derrotou os seus inimigos, acabou desafiando os Deuses, ao dizer que era mais inteligente do que os Seres Divinos. Poseidon, o Deus dos mares, decidiu, então, dar-lhe uma lição: faria com que o seu retorno à Ítaca demorasse o máximo possível e fosse repleto de dificuldades. 

Em sua jornada de volta para Ítaca, após algumas provações, Ulisses chega na ilha governada por Éolo. O senhor dos ventos escutou acerca dos feitos de gregos e troianos e o resultado da guerra, além da jornada do Rei de Ítaca pelo mar.  Éolo então decidiu ajudar Ulisses em seu retorno: lhe entregou uma bolsa em que estavam contidos todos os ventos, de todas as direções, apenas um havia ficado de fora e soprava livremente pelo ar: Zéfiro, o vento Oeste. Esse seria o vento que ajudaria as embarcações de Odisseu a navegarem com segurança até sua ilha. 

Entretanto, antes dos gregos partirem, Éolo alerta o rei de ítaca sobre não permitir que a bolsa em que os ventos estão selados seja aberta. Caso isso ocorresse, uma tempestade de ventos dificultaria a chegada do navio. Atento ao conselho do Deus, Ulisses mais uma vez lança-se ao mar e começa a navegar rumo à Ítaca. Zéfiro ajudava os gregos a viajarem de maneira rápida entre as ondas e com Ulisses comandando o leme de sua embarcação, não havia chance de algo sair errado. 

Porém, a volta não foi tão simples como esperado. Ulisses, que estava há três dias sem dormir, mantinha a bolsa próxima de si e não deixava nenhum de seus homens aproximar-se dele. Fatigado pela falta de descanso, o herói grego já avistava as praias de sua ilha, e por sentir-se seguro de que chegaria ao seu destino, resolveu dormir e recuperar suas energias. Os seus marinheiros, intrigados com o que o seu comandante guardava com tanto zelo, aproveitaram o seu momento de descanso e resolveram abrir a misteriosa bolsa. Os homens, acreditando que ali teria ouro, deixaram os ventos saírem e logo uma tempestade começou a se formar: o mar revolto e os ventos imprevisíveis começaram a afastar rapidamente o navio de Ulisses da costa de Ítaca. Os ventos acabaram, por fim, levando os gregos de volta à ilha de Éolo. Ulisses explica o que ocorreu e o senhor dos ventos, furioso, decide não ajudar mais o herói, uma vez que havia alertado-o sobre os perigos. O rei de Ítaca, por fim, deveria chegar sozinho ao seu destino.

Esse trecho da Odisséia nos apresenta o Deus dos ventos com um duplo aspecto: ora sereno e benevolente, ora furioso e implacável. Devemos, então, compreender os simbolismos que Éolo carrega e seus significados. 

Precisamos destacar, primeiramente, que em muitas culturas antigas o ar ou vento está intrinsecamente relacionado com nossas emoções. Assim como a ira, a paixão e todas as outras emoções, o vento não pode ser capturado, mas apenas sentido. Do mesmo modo, não podemos controlar a maneira como sopra, nem sua direção e intensidade. As emoções, em grande parte, também funcionam assim. Quem de nós nunca ficou “cego” de raiva? Ou tentou controlar, inutilmente, uma paixão por alguém? As emoções causam grande impacto na nossa vida, sendo, na maioria das vezes, o que nos motiva a fazer algo. 

Do mesmo modo que o vento empurra as velas e ajuda o navio a navegar, as emoções nos levam a realizar as mais diversas ações. Pelo seu poder de influência sobre nós é que os filósofos, desde a antiguidade, já nos alertavam sobre o perigo das paixões. É preciso, em algum grau, controlá-las para que não sejamos escravos de seus caprichos. Quando nos  deixamos ser controlados por toda emoção que nos afeta acabamos, tal qual o navio de Ulisses, sendo guiado para todas as direções e, normalmente, retornamos ao nosso ponto de partida. Quando, por outro lado, estamos atentos ao que nos motiva e compreendemos a razão pela qual estamos agindo, podemos minimamente decidir se vamos seguir pela direção que as emoções nos indicam ou não. Em uma situação de estresse, por exemplo, podemos decidir se iremos “descontar” nossa raiva em alguém ou canalizá-la para realização de outra tarefa.

Mas como conseguir enfrentar essas “tempestades emocionais”? 

A bem da verdade, não existe uma receita para isso. O que nos cabe é refletir sobre quais emoções nos impulsionam a sermos melhores e quais, ao nos dominarem, nos levam a apresentar o pior de nós. A máxima grega de “conhece-te a ti mesmo” é extremamente válida nesses momentos, pois assim poderemos chegar às causas que nos levam a perder o controle. Logo, a consciência de quem somos é a chave para canalizar nossas emoções na direção que quisermos. Na Odisséia, não por acaso, somente quando Ulisses baixa sua guarda, ou seja, vai descansar e, consequentemente, perde sua consciência, é que os ventos são soltos. Esse é um símbolo de como as emoções nos afetam e nos dominam quando deixamos de estar atentos. 

E quanto a reação de Éolo com o retorno de Ulisses? Quais símbolos escondem-se por trás dessa passagem e como um Deus pode agir de maneiras tão distintas?

Mais uma vez precisamos compreender o potencial que existe no nosso campo emocional. Nossas emoções podem variar de maneira singular, ao passo que somos capazes de nos sacrificar em nome de quem amamos e, do mesmo modo, renegar as pessoas que cultivamos desafetos. A “mesma” energia que nos motiva a Amar e querer o Bem do próximo pode, se não for bem canalizada, praticar malefícios e ferimentos em uma mesma escala. 

Empédocles, filósofo da Grécia Antiga, já nos alertava sobre a capacidade das emoções de nos unir ou afastar dos demais. Para ele as maiores forças no Universo eram o Amor e o Ódio. Portanto, a mesma energia benevolente e que nos une, pode também ser dura e raivosa. Assim, o senhor dos ventos rejeita Ulisses, sendo um símbolo de como nossas emoções mudam, tal qual os ventos que sopram ora a favor, ora contra nós.

Como podemos então lidar com as intempéries causadas pelas emoções? Será que só nos resta aceitar e ficar reféns dos ventos de Éolo? Podemos, mais uma vez, achar respostas a partir do mito de Ulisses. O herói grego consegue, após diversas tentativas, chegar ao seu destino. Apesar dos bons e dos maus ventos, o rei de Ítaca se colocou acima das circunstâncias e fez o que lhe cabia: levar seus homens de volta para casa. Assim também devemos ser. Devemos ser capazes de cumprir o que nos cabe, o que é nossa obrigação, apesar de estarmos tristes, felizes, chateados ou contentes. As emoções podem nos motivar (ou desmotivar), mas, no fim, nós somos os condutores do nosso caminho. Podemos sempre ajustar as velas, traçar novas rotas e navegar por entre as tempestades. Não é, certamente, uma tarefa fácil, mas não há nada melhor do que ser senhor do seu próprio destino.

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