Em um passado de grandes descobertas, quando o Brasil ainda era conhecido como Índias Ocidentais e a Espanha ainda deixava de ser o Reino de Castela, um português chamado Fernão de Magalhães encurtou distâncias e mostrou que todos os territórios da Terra eram muito mais próximos entre si do que o imaginário fazia pensar.

A era dos descobrimentos, entre os séculos XV e XVI, notabilizou um período de grandes navegações no mundo, que alçou ao patamar de potências mundiais o extremo oeste europeu: a grandiosa e rica Espanha, e o pequeno, mas nada tímido, Portugal. Suas investidas ao mar superavam muito o que outros países ainda tentavam alcançar. Enquanto a Inglaterra, por exemplo, sequer havia fundado a Marinha Real Britânica (o que aconteceria mais à frente ainda no século XVI), a península ibérica, dos reinos irmãos cuja linhagem Real se entrelaçou em vários momentos históricos, já havia registrado o descobrimento de um continente inteiro.

Em 1492, a esquadra do espanhol Cristóvão Colombo foi surpreendida por um gigantesco bloqueio natural, na forma do continente americano, quando estava à caminho das Índias – no sudeste asiático, que até então eram as únicas que se pensavam existir – e de suas riquíssimas especiarias. Esse fato adiou o sonho de circundar a Terra e alcançar a Ásia por um caminho mais curto e menos tortuoso do que contornar todo o continente africano, famoso por suas tormentas. Felizmente, em exatas três décadas, a façanha foi levada a cabo pela expedição de Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano, este último, não por coincidência, também natural da Espanha.

Magalhães foi um notável navegador que, enchendo-se de propósito para completar a façanha de Colombo, liderou a primeira circum-navegação à Terra da história. Assim, graças aos seus esforços e de seus marinheiros confirmou-se que era possível dar a volta ao mundo. Para entendermos, entretanto, o que proporcionou essa façanha é preciso analisar o contexto em que esses homens se dispuseram a lançar-se ao mar de maneira tão firme.

Portugal, uma das nações responsáveis por permitir esse e outros grandes feitos, mesmo sendo um país geograficamente muito pequeno, menor do que Pernambuco e a maioria dos estados brasileiros, mostra-se há muitos séculos um verdadeiro gigante das descobertas. Na literatura, na poesia, na produção de vinhos, na gastronomia, entre tantas outras coisas, os portugueses foram capazes de marcar para sempre a história e a cultura de países como o Brasil na América do Sul, Cabo Verde em Angola e Moçambique na África, e até a região do estado de Goa, na Índia, onde ainda se fala português. Pensar que um lugar como esse, cercado por Europa de um lado e pelo Atlântico do outro, sem ter para onde crescer, conseguiu se expandir tanto, é entender que só pode se tratar de uma nação de muita bravura para desejar alcançar o mundo, e muita inteligência, para saber como fazê-lo.

Fernão de Magalhães, por exemplo, assumiu parte dessa herança de um legado de desbravadores criado por Portugal. Não satisfeito com as viagens de ida e volta da Europa para o Brasil, que poderiam durar até dois meses por trecho, ele confiou em seus cálculos feitos em conjunto com cartógrafos portugueses, de que deveria haver uma passagem ao sul do longo continente americano que daria acesso à Ásia. Imbuído dessa convicção, em vinte de Agosto de 1519 sua embarcação é lançada no Atlântico, rumo ao sul, liderando outras quatro caravelas tripuladas ao todo por duzentos e cinquenta homens, explorando e descobrindo mais do que poderiam prever ao longo do caminho.

As dificuldades deram o tom da viagem desde o começo. Ao longo da jornada, a armada enfrentou desde tempestades homéricas, de onde conseguiram salvar-se graças à habilidade dos marinheiros escolhidos por Magalhães, até avistamentos de criaturas assombrosas ao mar, e santos divinos ao céu, antes mesmo de chegar ao estreito sulamericano, que hoje leva o nome do próprio navegador.

Fernão de Magalhães precisou enfrentar motins e deserções entre a tripulação, que apesar de muito comuns nas situações insalubres das navegações em geral – falta de higiene e limpeza, ócio excessivo, desentendimentos entre os marujos, desigualdade de condições entre o comando e o baixo escalão, além de péssima alimentação e um sem número de doenças – enfraquecia o contingente de uma viagem que seria ainda mais exigente dali em diante.

É natural que nem todos a bordo acreditassem no mesmo ideal de Magalhães, tomando parte na viagem apenas pelo pagamento que iriam receber, ou por estarem atrás de prestígio por se associarem a um grande navegador como Magalhães. Cada empreitada, em especial as mais difíceis de se realizarem, contam com sua parcela justa de céticos, mesmo entre os que estão tentando realizá-la, assim como foram os levantes e deserções entre a equipe do português. Assim, quando perde-se a fé no líder, ou até na missão, não raramente o destino desmente os prognósticos e nos dá a feliz notícia que estávamos errados.

Algumas coisas parecem mais fáceis de se realizarem do que outras, é claro, mas no fim tudo pode depender apenas de quem somos, o quanto estamos preparados para o desafio e o quanto acreditamos ou empenhamos nossa força de vontade nele. Circum-navegar a Terra certamente é um feito muito mais desafiador do que a maioria dos que realizamos no dia a dia, mas não precisamos fazê-lo só para ter certeza de que somos capazes. Falar em público, ou achar a alegria em um relacionamento desgastado, por exemplo, podem exigir tanto esforço e tanta vontade, que podemos até nos convencer de que são impossíveis, mas, como diria Nelson Mandela, antigo líder sulafricano, sempre parece impossível até que seja feito.

Investir esforços físicos e mentais para materializar algo improvável, desde que se tenha certeza que representa o Bem e a Verdade, é tornar-se maior do que o desafio: é tornar-se parte da solução. Mudanças de cenário podem surgir e obstáculos não previstos podem se impor, e quanto mais complexa e necessária for nossa missão, maiores serão as chances de que isso realmente aconteça, mas não podemos abandoná-la enquanto houver vontade em nossa Alma. Assim, com as condições que lhe restavam entre tantas dificuldades, Magalhães não se deteve, e seguiu adiante em sua tão importante realização.

No Brasil, ele e sua tripulação passaram pelo Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e mais tarde fizeram uma parada mais longa no Rio de Janeiro. Seguiram sempre para o sul, até encontrar o Rio da Prata, que separa Argentina e Uruguai, e dali, partiram finalmente para as regiões mais geladas da América do Sul, onde conheceram um povo de pessoas muito altas a quem Magalhães chamou de patagones, habitantes da região onde fica a atual patagônia.

No começo de 1521 levantaram acampamento, depois de algum tempo abrigados em terra para não afrontar o inverno rigoroso do ano anterior, cruzaram o aterrorizante estreito de todos os santos (que mais tarde se tornaria o estreito de Magalhães), repleto de penhascos, tormentas, relevo imprevisível, levando quase um mês de um lado a outro, até encontrar as águas deliciosamente calmas e recompensadoras do oceano que, por isso mesmo, concordaram chamar de Pacífico. A frota, em alguns meses chegou onde hoje são as Filipinas, tendo a partir dali encontrado o maior desafio até então. Em abril daquele ano, Magalhães foi atingido por uma lança em confronto com os nativos de uma das ilhas, e morreu no local, no entanto, sem deixar seus homens completamente desamparados.

Juan Sebastián Elcano deu continuidade à missão que o pusera a atravessar o mundo sob as ordens do português. Retornou para casa em 1522, com os porões recheados de especiarias, mas apenas dezessete tripulantes ao seu lado, a bordo da única embarcação a resistir até o fim da jornada, que, coincidentemente ou não, era a caravela chamada Vitória.

Magalhães e Elcano seguiram seu ímpeto de conquistar e descobrir, sem deixarem-se guiar por paixões avassaladoras, prognósticos incertos, ou impulsos inconsequentes. Mesmo que a maior parte de seus homens, incluindo o próprio Fernão de Magalhães, tivesse perecido no caminho e passado por situações de intemperismo profundo, aqueles dezoito marujos foram capazes de concluir a missão que carregavam em seus ombros, que sabiam ser maior do que eles mesmos, em exemplo raro de um altruísmo que supera o egoísmo, válido não só para o contingente daquelas embarcações mas como para todo o mundo, trazendo de volta para casa feitos de proporções mitológicas, que mudaram o jeito como se via o mundo para sempre.

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