Sempre buscamos respostas. Seja para solucionar pequenos mistérios do dia a dia ou mesmo as famosas “questões existenciais”, parece ser da nossa natureza investigar e tentar compreender o que nos cerca. Nos tempos modernos utiliza-se a ciência como meio de encontrar as Leis que regem o Universo, mas essa busca não está limitada apenas à ciência. Desde as antigas sociedades pré-históricas, até as grandes civilizações da Antiguidade se buscou desvelar os segredos do mundo. Um deles trata da criação do Universo. 

Essa dúvida, que até os dias atuais não foi bem respondida, é a base da cosmogonia, ou seja, das explicações sobre como tudo surgiu. Se hoje defendemos a Teoria do Big Bang e a aceitamos como razão para a existência do Universo, devemos entender que há milênios o que justificava a criação do mundo eram os mitos de criação. Esses mitos, frutos de culturas antigas, contavam por meio de histórias simbólicas a causa Divina por trás da criação do mundo, das estrelas e de como, afinal, o Universo funcionava. 

Um dos mitos de criação mais conhecidos é o da cultura Hindu. Ele nos conta que Brahma, o Deus criador, foi o responsável pela existência de todo o Universo a partir da sua respiração. Brahma, ao expirar, soprava a vida e assim surgia toda matéria conhecida por nós. Em seguida Vishnu, o Deus mantenedor, seria responsável pela manutenção dessas energias e corpos celestes e, por fim, Shiva, conhecido como Deus da destruição, estava incumbido de renovar as formas gastas que compunham o Universo. Porém, chegado determinado momento, Brahma inspira e desse modo todo o Universo se recolhe, deixando assim de existir. Tudo que conhecemos, portanto, existiria a partir da respiração de Brahma. O tempo deste ciclo seria de bilhões de anos, uma vez que a contagem do tempo para nós, mortais, é diferente da dos Seres Divinos.

A explicação para a criação do mundo sob essa ótica pode nos parecer, num primeiro momento, surreal e fantasiosa. Porém, se enxergarmos os símbolos escondidos nessa pequena passagem do mito hindu conseguiremos encontrar chaves interessantes sobre a vida e o funcionamento do Universo. Um primeiro símbolo está exatamente na natureza rítmica do Universo, representada na mitologia hindu pela respiração: observando a vida ao nosso redor seremos capazes de encontrar essa mesma Lei expressa na Natureza, seja no ciclo solar, que para nós demarca o dia e a noite, seja nas estações do ano e mesmo na Vida Humana. O Universo se move de maneira cíclica, em Harmonia e sob a mesma Lei.

Partindo desse ponto de vista, o mito de criação Hindu nos apresenta uma realidade da Natureza, não apenas uma história fantástica e irreal. Do mesmo modo, o próprio símbolo do Deus Brahma, que além de criador também pode ser relacionado à Sabedoria, permeia uma série de ensinamentos valiosos para nós. Mas, afinal, qual é a imagem criada para representar Brahma?

Em síntese, podemos descrever Brahma como um homem de quatro cabeças (cada uma olhando em uma direção), com quatro braços e sentado sobre uma flor de lótus. Em cada mão segura um objeto: uma flor, um rosário, um livro e um pote. Mais uma vez, se olharmos rapidamente, provavelmente não compreenderemos nada acerca do Deus Hindu, pois não se parece nada com o que estamos acostumados a ver. De igual modo pensaremos que sua representação nada tem a nos ensinar, sendo apenas uma fantasia dos antigos hindus. Entretanto, precisamos enxergar os símbolos que marcam a figura desse Deus, cada um desses itens representa um atributo, uma ideia. Falemos de alguns deles. 

As quatro cabeças representam a percepção total de Brahma, que olha para todas as direções e a tudo vê, a ideia de onipresente e onisciente. Para além disso, as quatro cabeças representam também a Sabedoria, uma vez que considera diversos pontos de vista antes de tomar alguma decisão. Pensando em nossa vida cotidiana, esse símbolo nos mostra a ideia e a importância de nos permitirmos enxergar o que nos ocorre de um outro ângulo.

Quantas vezes conseguimos achar respostas para algum problema quando o encaramos de um modo diferente? Mudar de direção e olhar a vida sob outro patamar pode nos ajudar a reposicionar nossa opinião sobre algo. Além disso, nossa capacidade de enxergar a vida sob diferentes aspectos nos aproxima da Verdade, uma vez que poderemos entendê-la a partir dos seus mais variados ângulos. Se conseguirmos internalizar esse ensinamento talvez seremos capazes de encontrar respostas para o que ainda não somos capazes de lidar.

Um outro símbolo importante na representação do Deus da criação Hindu é a flor de lótus. Brahma não apenas senta-se sobre ela, mas também a carrega em uma de suas mãos. Na Índia Antiga a flor de lótus simboliza a Pureza, pois ela emerge da água lamacenta dos pântanos e se abre para o Sol sem se manchar. De igual modo, a Pureza é um dos atributos de Brahma, que dá sua  energia para construir o mundo, sem nada pedir em troca. O Divino, em sua excelência, não precisa de nada e ama a todos, o que constitui, em essência, a sua condição. 

Imagine agirmos de maneira pura, sem segundas intenções. Certamente buscaríamos uma melhor convivência e, uma vez que não estaríamos presos ao desejo, poderíamos amar sem interesse. Na mesma cultura hindu desenvolveu-se, a partir desse ensinamento, a ideia de reta-ação, que nada mais é do que agir sem querer nada em troca. É plantar sem esperar o fruto, simplesmente porque é nosso dever plantar. Quando agimos desse modo, sentimos nossa consciência limpa e, apesar do sucesso ou fracasso da ação, seguimos nosso caminho tendo a certeza de que fizemos o nosso melhor.

O livro que Brahma carrega são os Vedas, o livro sagrado do Hinduísmo. Ele simboliza o conhecimento e a transmissão da Sabedoria. O saber é próprio do Ser Humano e podemos utilizar essa capacidade para nos aproximar. Não por acaso percebemos que a relação de um professor e um aluno, considerando a ideia de cada um, é de tocar o coração de todos nós. O Amor que há em ensinar ligado à sede por conhecer, formam um elo inquebrantável. 

Brahma é o principal Deus do Hinduísmo. Seus significados e atributos resumem o que podemos chamar de Deus: por Amor nos ensina, por Amor nos dá a vida, por Amor nos ajuda sem nada pedir. Em algum grau todas essas Virtudes estão dentro de nós, em cada Ser Humano. Podemos Amar, ser Puros e assim contribuir com a vida, desde que nos dediquemos em cumprir nosso papel. A vida, sob esse ponto de vista, já não é mais uma série de perguntas sem solução, ou uma equação sem resposta. A vida torna-se, a todo momento, aprendizado e desenvolvimento, num contínuo dever de Entrega e Amor para com nossa missão.

Desse modo, o poder do mito nos transforma. Deixamos de observá-lo como uma mera história de “faz de conta”, ou mesmo de uma fantasia vivida por fanáticos e o observamos de um ponto mais alto, em que seus símbolos revelam chaves para lidarmos com a vida comum, cotidiana. Em síntese, isso é viver com Sabedoria: achar as respostas da vida, percebê-la como Una e entender sua linguagem. Por fim, que possamos vivenciar as ideias que Brahma representa. Para além de um mito de uma civilização antiga, ele nos ensina sobre as potencialidades humanas que estão escondidas em nós e que, assim como a flor de lótus, está pronta para emergir acima da lama do mundo material para abrir-se à Vida.

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