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Toda civilização produz cultura. Quando falamos em “cultura” nos remetemos a expressões artísticas, religiosas e sociais que definem um grupo humano. Em poucas palavras, cultura nada mais é do que aquilo que fazemos e nos identificamos, tanto a nível coletivo como individual. Isso significa dizer que, naturalmente, ao longo da história diversas expressões de diferentes culturas foram sendo geradas à medida que as civilizações surgiam e desapareciam. Em muitos casos, inclusive, grupos humanos distintos, ao entrarem em contato, acabaram por misturar suas formas de expressão a princípio tão distintas.

Quando ocorre esse encontro de culturas e sua assimilação chamamos de “sincretismo”. Isso pode ocorrer em diferentes aspectos de uma sociedade: seja a nível político, econômico ou mesmo religioso. Em nosso país há um exemplo muito claro de sincretismo no que se refere a religião. Como bem sabemos, durante nosso processo de colonização diferentes povos vieram para o Brasil, em sua grande maioria africanos na condição de escravos. O contexto histórico em que viviam não permitia o culto aos seus Deuses, uma vez que a religião oficial do Brasil era o catolicismo e somente o culto cristão era permitido em nossas terras. Posto esse cenário, uma estratégia dos africanos escravizados foi a de passar a cultuar os santos da igreja católica, aproximando seus orixás a partir das semelhanças com as santidades.

Desse modo, o culto dos antigos Orixás foi preservado, feito de maneira velada durante séculos pelos africanos e seus descendentes. Nos dias atuais, em que a liberdade de culto é um direito constitucional, o sincretismo dos santos com os Orixás ainda mantêm-se forte. Em muitos casos ainda confundem-se entre os devotos que ora cultuam os Orixás achando que são os santos. A partir disso, as religiões de matrizes africanas passaram a tornar seus cultos mais claros e específicos, demarcando suas características e diferenciando o que durante mais de 300 anos foi aproximado. Tratando desse tema, hoje falaremos um pouco de uma das Orixás mais conhecidas em nosso país e que arrasta milhares de fiéis em suas festas: Iemanjá.

Provavelmente você já ouviu falar de Iemanjá, a Deusa dos mares para a religião africana. Segundo a mitologia iorubá, Iemanjá é filha de Olocum e originalmente não seria a principal divindade marinha dessa cultura, porém, com a escravização dos povos africanos e sua vinda para a América, o culto a Iemanjá ganhou muita força, principalmente devido a sua relação com a travessia até o novo mundo. Os escravos vinham para as terras brasileiras a partir dos navios negreiros, em condições sub humanas durante meses de travessia do Oceano Atlântico. O fato de serem levados à força para um outro continente, passando meses dentro de um navio em alto mar e em uma situação insalubre fez com que a fé e a devoção a Iemanjá se fortalecesse, pois seria a Divindade que protegeria a travessia desses homens e mulheres até o novo mundo.

Ao chegar no Brasil, os africanos escravizados mantiveram seu culto a Iemanjá, misturando-a com Nossa Senhora da Conceição, que é a representação da Virgem Maria, a Imaculada. A comparação da Orixá dos mares com a virgem maria, entretanto, não foi fruto do acaso ou mesmo uma “escolha” aleatória. Quando paramos para analisar os símbolos e ideias presentes em ambas, percebemos que são similares e, cada uma a seu modo, conquistou diversos fiéis ao longo da História. O fato da Virgem Maria ser uma figura fundamental dentro do catolicismo também foi mais um dos motivos da popularização das festas em homenagem a Iemanjá e do crescente número de devotos ao seu culto.

Pensando em seus símbolos, Iemanjá geralmente é representada na figura de uma mulher com vestido azul – em outras representações ela aparece com os seios à mostra – com uma tiara e uma estrela em sua cabeça. Dentre as várias representações feitas da Deusa, essa é a que mais encontramos no Brasil. Seu manto azul e sua pose, em geral com os braços abertos, ajudam a compreender a relação dela com a Virgem Maria, que também usa um manto azul e tem seus braços abertos para acolher a todos.

Além de Deusa do Mar, Iemanjá é vista como uma grande mãe, tendo em alguns cultos a ideia de que ela seria a mãe de todos os Orixás. Vale ressaltar que na mitologia Iorubá a Deusa do Mar não pariu as outras Divindades, mas a ideia de ser “mãe” de todos é devido ao seu caráter acolhedor e amoroso. Dentre isso, a fertilidade também é um sinônimo dessa Deusa, que sempre dá em abundância aos seus devotos os pedidos que eles a fazem. Nesse sentido, a fertilidade se relaciona com a capacidade de gerar – tanto filhos como também dádivas – e doar aquilo que é gerado. Tal qual uma mãe que sacrifica-se para dar aos filhos tudo que possui, Iemanjá é uma Divindade caracterizada por conceder aos seus filhos os maiores presentes e vitórias. 

Pensando um pouco sobre essa ideia, é interessante notar que em diversas culturas – Nórdica, Greco-romana, Hindu – a fertilidade caracteriza-se sempre na figura feminina. Deusas, em geral, capazes de gerar ao mundo descendentes e possibilitarem a Vida, sendo este seu principal atributo. Na Grécia, por exemplo, temos a figura de Deméter, Deusa da agricultura. Assim como a própria Nossa Senhora, uma virgem que dá a luz ao Divino, e gera o máximo para que este possa desenvolver-se e vir ao mundo. Junto a isso, todo o aspecto da maternidade também assimila esses atributos, afinal, mãe é aquela que acolhe, educa e principalmente sacrifica-se pelos filhos. Não falamos necessariamente de um sacrifício físico, mas sim emocional e energético. Quantas horas, por exemplo, uma mãe não gasta para educar um filho? E o amor incondicial que as mães têm por seus filhos, amando-os mesmo nos momentos em que mais ninguém conseguiria?

Partindo dessas ideias, podemos pensar em um outro aspecto que nos chama atenção no simbolismo de Iemanjá: o mar. Como bem sabemos, a Vida na Terra veio das profundezas do mar, no qual os primeiros organismos vivos foram gerados. O mar, sempre em movimento, é um local rico e abundante em vida, muito próprio para uma Orixá com aspectos tão ligados à maternidade. Por tais questões Iemanjá tem no mar seu território, o que a difere de outras figuras mitológicas, que relacionam o feminino à terra e a colheita – Que também é a geração de vida e a fertilidade. O que percebemos, portanto, é que as ideias de fertilidade e Vida apresentam-se como os pilares destas Deusas.

Mas como Iemanjá pode nos inspirar em nossa vida diária? Mais uma vez a chave para agirmos está no próprio símbolo da Deusa. Seus principais atributos – Generosidade e Amor – são elementos que em nosso dia a dia fazem toda a diferença. À medida em que conseguimos ser generosos, ou seja, geramos coisas boas para as outras pessoas e amamo-las verdadeiramente, se torna possível construir laços mais fortes e relações de convivências harmônicas. Iemanjá é piedosa, acolhedora e não rejeita as formas, pois considera a todos os seus filhos. De igual modo, se começarmos a observar a vida através dessas Virtudes poderemos construir, pouco a pouco, uma sólida rede de Amor com as pessoas ao nosso redor.

Significa dizer, em poucas palavras, que à medida que conseguimos amar mais pessoas, nos importando, sem julgamentos e, principalmente, enxergando o melhor que habita em cada um, seremos capazes de mudar o mundo. Talvez não o mundo inteiro, mas certamente as pessoas ao nosso redor. E isso, meu caro leitor, é um primeiro e importante passo para integrarmos e unirmos a todos, não importando sua religião, cultura e costumes. No fim, as diferentes formas culturais são apenas expressões distintas de uma mesma ideia. Logo, Iemanjá não é somente uma Orixá africana, mas uma ideia de Amor e Vida que deve ser colocada em prática a todo momento. Que possamos, portanto, vivenciar essas ideias para vê-las cada vez mais no mundo e nos tornarmos pontes dessas grandes Virtudes.  

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