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Quando falamos em “Mito”, o que pensamos? Em geral associamos essa palavra com “mentira” ou “fantasia”, algo que não é real, correto? Mas será que essas histórias fantásticas, narradas por povos antigos, são somente isso? Um olhar profundo sobre essa temática nos permite não apenas conhecer as diferentes mitologias, mas também entender o sentido profundo que há entre elas. Além de um melhor entendimento, o estudo dos mitos nos permite enxergar que podemos viver os seus ensinamentos diariamente, como símbolos para a nossa própria vida.

Para entendermos essa ideia é preciso conhecermos um pouco mais sobre como viver os mitos. A filósofa russa Helena Petrovna Blavatsky (HPB) dizia que toda narrativa das antigas tradições possui chaves de interpretação, e a chave histórica seria apenas uma delas. Há mitos que possuem um sentido histórico, como o mito de guerra de Troia, do qual sabemos atualmente o que realmente ocorreu. Os detalhes e histórias narrados por Homero talvez não sejam fatos históricos, ou seja, talvez as batalhas e diálogos colocados pelo poeta não tenham ocorrido, mas isso não muda o fato de que o mito, em um certo grau, trouxe à luz um fato histórico. 

Entretanto, mais interessante do que se deter nos detalhes históricos é enxergar outras chaves de interpretação. Seguindo esta ideia, uma das chaves mais interessantes para estudar os mitos seria através da interpretação simbólica, na qual cada elemento do mito contém uma ideia, que é representada a partir desse universo de símbolos. Quando olhamos para as divindades de um panteão, por exemplo, não enxergamos somente um deus, mas também seus atributos, objetos e mitos, que fazem parte de um conjunto de ideias que podem ser vividas em qualquer tempo histórico, afinal, as ideias são atemporais. Nesse sentido é preciso ver cada elemento como símbolo de uma realidade mais interna, mais subjetiva. Partindo desta perspectiva, os mitos não seriam mentiras, mas sim formas de comunicar Verdades tão profundas que uma linguagem objetiva não seria capaz de transmitir.

Da mesma forma que para se desenvolver um programa de computador é necessário usar uma linguagem própria (como C++ ou Java), pois a máquina não “fala” inglês ou português, para se tratar de uma realidade que tem a ver com a alma e com as experiências internas do Ser Humano, as antigas tradições nos deixaram de presente os grandes mitos, e a forma de acessá-los é através de uma linguagem simbólica, que traduz uma ideia que pode ser acessada a partir de uma leitura sensível de seus significados.

Para exemplificar essas ideias, trouxemos no texto de hoje alguns elementos da mitologia nórdica para exercitarmos esse olhar simbólico. Primeiramente devemos entender que estamos chamando de mitologia “nórdica” o apanhado geral de culturas do norte da Europa. Como esse grupo contém mitos específicos, para fins didáticos, trataremos apenas dos mais conhecidos e gerais.

Começaremos por Odin, o deus dos deuses nessa mitologia. Odin é a grande divindade de Asgard, e conta o seu mito que ele sacrificou um dos seus olhos para poder beber a água do rio da sabedoria, localizada nas raízes da Yggdrasil, a árvore cósmica em que todo o Universo está situado. Assim, depois de perder um dos seus olhos, Odin bebeu a água sagrada e adquiriu a sabedoria. Aqui contamos o mito de forma extremamente resumida, mas em nosso portal Feedobem você pode conferir na íntegra um texto sobre o deus Odin clicando aqui. 

Contado de maneira resumida, quais os símbolos que podemos extrair desse mito? Se analisarmos apenas a “veracidade” dos fatos, poderemos constatar que esse mito, de fato, não condiz com nenhuma realidade humana, logo, seria uma ficção. Mas pensemos pelo lado simbólico: Odin sacrificou uma parte de si para adquirir a sabedoria, o maior dos conhecimentos. Isso não ocorre conosco também? Quantos sacrifícios precisamos fazer para adquirir conhecimento? Quanto tempo levamos até entender uma ideia, aprender um novo ofício ou mesmo adquirir mais formação em qualquer área de nossas vidas? Odin sacrificou um olho físico para adquirir uma visão atemporal, e assim enxergar o conhecimento do Universo. Nós sacrificamos um tempo físico, contado em dias, semanas e anos e, em contrapartida, adquirimos um conhecimento que levaremos para o resto de nossas vidas, que nos é atemporal. Percebem, portanto, que o símbolo de Odin também é um símbolo de nossa vida cotidiana? É para isso que o estudo das mitologias nos servem: para podermos aplicá-lo em nossa vida prática. 

Outro exemplo da mitologia nórdica que podemos aplicar em nossa vida é o Ragnarok. Conhecido como a visão do “fim do mundo” para a cultura nórdica, o Ragnarok é uma série de eventos que narra a destruição do Universo e sua reconstrução. Tudo começaria com a morte do deus Balder, e logo em seguida uma guerra entre os Gigantes e os Aesir – os deuses principais da mitologia nórdica – acarretaria na morte de quase todos, incluindo Odin, Thor e Loki. Depois desse grande conflito começaria um novo momento de paz e união, do qual um novo Universo seria formado com os sobreviventes desse terrível confronto. 

Assim como Odin, no nosso portal você também encontra um texto exclusivo tratando das principais ideias do Ragnarok e seus símbolos e você pode acessá-lo clicando aqui.

Tratando agora dos símbolos, o que podemos extrair desse outro mito nórdico? É interessante notar que todas as mitologias compartilham histórias similares, e a ideia do “fim do Universo” também se apresenta em diversas tradições. Desde o Juizo Final do Cristianismo até a destruição do Sol através da serpente Apep dos egípcios, todas as culturas têm suas ideias de como o fim do Universo se dará. Entretanto, o símbolo primordial dessas histórias está nos ciclos de fim e recomeço. A ideia principal que encontramos no mito do Ragnarok – e de tantos outros com essa temática – é a de renovação. 

Todos os dias podemos viver renovações em nossas vidas. Renovação de ideias, valores, sentimentos, ações. E assim construímos novos mundos a partir de novos laços que formamos com outras pessoas e até conosco. Além disso, podemos sempre renovar nossa esperança no mundo, no Universo, e perceber em nós um aspecto do qual antes não tínhamos consciência. No fundo, a renovação apresentada no Ragnarok é a guerra interior que destrói as velhas formas para o surgimento de novas.

Vivemos externamente essa ideia quando celebramos o ano novo, porém, não precisamos esperar até a noite de 31 de dezembro para trazer essa ideia para nossas vidas. Em verdade, se estivermos atentos ao que nos ocorre ao longo de um dia, passaremos por uma série de renovações, novas posturas diante dos cenários que a vida nos apresenta e, assim, construímos construiremos, dia após dia, uma nova visão de mundo.

Visto isso, não precisamos de mais exemplos de como os mitos podem nos inspirar, não é mesmo? cabe a nós agora entrarmos em contato com essas histórias ao ponto de criar relações profundas com a nossa vida. Se assim fizermos, tais narrativas deixarão de ser um legado dos nórdicos, egípcios, romanos ou de qualquer outro povo, mas será o nosso próprio legado. Somos, afinal, uma só humanidade, e as ideias que nos tocam não podem ser patenteadas, elas são de todos nós. Que saibamos vivê-las e honrá-las.

Para quem ficou interessado por essa temática, deixamos como recomendação esse podcast que nos apresenta um pouco desta interpretação simbólica acerca da mitologia nórdica. Esperamos que todos aproveitem e desfrutem desse excelente conteúdo.

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