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Compreendendo a relação do Paradoxo do Navio de Teseu com a Identidade Humana

Você já ouviu falar do paradoxo do Navio de Teseu? É possível, talvez até provável, que não conheça, assim como nunca tenha ouvido falar sobre o filósofo Plutarco, que foi o responsável por criar essa questão. Apesar de pouco conhecido por nós, esse paradoxo atravessou séculos e é uma das questões filosóficas mais comentadas pelos filósofos em momentos históricos diferentes.

 Dentre as várias versões gregas, existe uma na qual afirma que o paradoxo se originou a partir da viagem de navio que Teseu fez em missão de Creta à Atenas, usando para tal um barco que foi conservado por aproximadamente 300 anos. O problema é que, ao longo do tempo, as mais diversas peças do navio foram substituídas e, mesmo assim, ao voltar para o porto de Atenas, nem Teseu e nem os outros tripulantes tinham dúvidas de que o navio era o mesmo do que quando saíra para iniciar a viagem. 

Então se levanta a questão: como poderia continuar a ser o mesmo navio diante de todas as mudanças necessárias que foram realizadas ao longo do tempo? Como todo paradoxo, podemos ter várias respostas para essa pergunta, desde as mais simples até as mais sofisticadas. Assim, em tempos e tempos ao longo da história, ressaltamos esse paradoxo à luz de vários debates filosóficos na tentativa de encontrar respostas para esse problema. Só para exemplificar, vale citar Heráclito, Sócrates, e Platão, além do Thomas Hobbes, do John Locke e do Gottfried Leibniz, todos comentaram sobre esse paradoxo e nos trouxeram contribuições muito valiosas.

Na verdade, o que nos leva a ter tanto interesse por esse paradoxo está no que concerne a sua aplicabilidade em nossas vidas, pois ele nos fala muito sobre o nosso processo de Identidade. Fazendo um paralelo com o Ser Humano, se trocarmos o navio pelo nosso corpo físico poderíamos nos questionar: continuamos a ser os mesmos ainda que o nosso físico mude ao longo do tempo? Assim, o que se percebe aqui como pano de fundo é uma questão filosófica muito profunda e importante para todos nós. A Essência Humana é constituída por elementos animados ou inanimados?  O que nos define enquanto Ser, o nosso corpo físico ou algo mais imaterial, que não muda com o passar do tempo? Em algum ponto da nossa vida precisaremos responder a estas perguntas,  pois são nessas respostas que reside todo o nosso processo identitário e, consequentemente, a nossa Condição Humana para além de ser vivo.

Visto isso, cabe a nós refletirmos sobre a questão. Primeiramente, acreditamos que não são as milhares de células que nos compõem ou as partes do nosso corpo físico que nos definem. Pensar assim não só limita a Natureza Humana, mas a restringe a um complexo biológico formado por carne, ossos e sangue, negando-lhe qualquer possibilidade de transcendência. Todavia, acreditamos que a verdadeira Identidade está para além da nossa condição física, sendo algo fixo que permanece dentro de nós, independente das nossas mudanças físicas. Ela está ligada a um centro que perpassa todas as fases de nossa vida, como um observador silencioso e interno que olha para fora e, mesmo mantendo relações com tudo o que se encontra à nossa volta, é imutável.

Se pegarmos a própria etimologia da palavra latina “Identidade” encontraremos o termo “idem”, que significa o “mesmo”, ou seja, o que permanece. Toda pessoa que for educada para conhecer esse ponto fixo dentro de si jamais se corrompe aos apelos externos, uma vez que em si permanecerá um senso de continuidade, para além do espaço e do tempo que passar, já que todo o Indivíduo precisará passar pelos mais diversos grupos sociais ao longo da vida. Desde muito cedo, vamos agregando a nós os mais diversos Valores a partir das vivências sociais que experimentamos no núcleo familiar, ou com os amigos da vizinhança, os colegas de faculdade, ou mesmo, os colegas de trabalho. 

Entretanto, olhando para todas essas experiências, precisamos escolher quem somos dentre todos esses Valores adquiridos e quais os nossos Princípios basilares que nos conduzirão pela estrada da Vida, pois, são eles que nos ajudarão a tomar as decisões em todos os momentos necessários. Esses Princípios, nos permitem ter um centro que nos dará a estabilidade necessária e o senso de continuidade do qual precisamos para garantir a nossa experiência humana, sem correr o risco de nos fragmentar a partir dos papéis sociais que exercemos como pai, mãe, filho, profissional, chefe ou marido. O nosso centro, a nossa Identidade, nos ajuda a ter um governo interno e levar o que temos de melhor no exercício dos nossos papéis sociais.

Vale ressaltar, que uma pessoa que tem um centro, tem Identidade e, consequentemente, se conhece e sabe de todos os seus limites e potencialidades, assim dificilmente, por exemplo, buscará se legitimar através de elogios dos outros, muito menos, irá alterar o seu ânimo diante das críticas externas. As filosofias clássicas ocidental e oriental, apontam que o centro identitário da nossa Condição Humana está ligado diretamente às Virtudes (Bondade, Generosidade, Justiça, etc.) que possuímos. Assim, vale ressaltar, que os Indivíduos que possuíram esse nível de Identidade marcaram a História de tal modo que até o tempo precisou se dobrar diante da sua força. Pois, quem não se lembra de um Jesus, do Imperador romano Marco Aurélio ou mesmo de uma Madre Tereza de Calcutá? Cada um, dentro do que lhe cabiam, superaram o tempo e ensinaram a toda uma geração porque puderam viver a partir de um ponto central, sua própria Essência e Identidade.

Entretanto, não se deve ignorar que a nossa Identidade se apoia em um eixo de Valores dos quais elegemos conscientemente. Por isso, o processo de Autoconhecimento é tão importante para se possuir Identidade. A partir disso, é possível desenvolvermos a Alteridade, processo de conhecer o outro, e estarmos inseridos no meio em que vivemos sem renunciar ao que nós somos. Ao contrário, quando não há uma construção de Identidade acabamos em uma condição de sujeitos passivos, à mercê da massificação social e das circunstâncias externas.

Portanto, diante das considerações realizadas, o Paradoxo de Teseu e todo o debate ou reflexão que nos permite realizar ainda é muito atual. Essa atualidade se deve, em primeiro lugar, porque trata, dentre outras coisas, de um tema altamente relevante para todos nós. Ademais, refletir sobre o paradoxo do navio de Teseu nos permite ver como, ao longo da história, a busca do Homem para se entender e compreender-se não faz parte só da necessidade de uma existência, mas é uma condição vital para que possamos nos diferenciar dos outros seres pelo uso da razão consciente. Assim, que possamos continuar construindo e criando referenciais para nos conhecermos e, acima de tudo, reconhecer-nos  nessa caminhada da Vida, sem perder nossa Essência Humana. 

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