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De que valem nossas certezas?

Tempo de leitura: aproximadamente 6 minutos

Vivemos em um mundo de opiniões. A todo instante, seja no jornal que passa na TV ou em uma conversa banal com amigos, somos bombardeados por notícias e informações nas quais precisamos nos posicionar. Exigem-nos, praticamente, um ponto de vista sobre tudo: economia, política, religião, futebol e qualquer outro assunto que esteja sendo debatido. Além disso, como se já não fosse o bastante precisar emitir uma visão nossa de qualquer um desses tópicos, somos arrastados para discussões que, cá entre nós, não nos levam a nada.

Discutimos, atualmente, sobre qualquer coisa. Se torço para um time diferente de outra pessoa, por exemplo, acabamos brigando para saber qual é o melhor, quem venceu mais jogos, qual tem o melhor jogador e assim por diante. No campo político, essa imagem é ainda pior, uma vez que cortamos relações com nossos familiares, amigos e colegas por apoiarem um ou outro partido. Se pararmos para pensar, podemos perceber que nossas opiniões, quando defendidas a todo custo, causam mais perdas do que ganhos, pois ao invés de nos aproximarmos das pessoas, acabamos levando-as para, cada vez mais, longe do nosso Coração. 

Pensem na última vez que discutiram com alguém sobre algum assunto: no fim das contas, saímos felizes, pensando positivamente a respeito do nosso “opositor”?“ Ou chegamos à conclusão de que é “impossível” conversar com ele, e que, do nosso ponto de vista, aquela pessoa é um ignorante e que pouco compreende sobre o assunto que se conversava? Essa análise sincera nos fará perceber o custo que existe em querer manter nossas opiniões a todo momento. Para além disso, devemos perceber quais são as razões para que isso aconteça. Afinal, por que é sempre tão necessário para nós termos razão sobre algo?

Essas são perguntas complexas a serem respondidas, então vamos entendê-las uma de cada vez. A Filosofia será nossa grande aliada nisso, então pensemos sobre essa necessidade de estar certo a qualquer preço. Platão, Filósofo que viveu na Grécia Antiga, nos dizia, com sua alegoria da caverna, que há um momento intermediário entre a ignorância e a sabedoria e que isso se chama opinião. A opinião, a grosso modo, é gerada quando eu conheço parcialmente algo, mas ainda não a compreendo por completo. Mesmo assim, o fato de enxergarmos uma parte nos causa a ilusão do Saber e, muitas vezes, achamos que estamos enxergando a totalidade quando, na realidade, é provável que estejamos vendo apenas um dos lados da Verdade.

O Filósofo Grego nos diz que a grande parte das nossas certezas no mundo são pautadas por opiniões. Ou seja, não sabemos verdadeiramente de nada. Como diria Sócrates, “Só sei que nada sei”, ou seja, na busca pelo Conhecimento, é extremamente difícil afirmar que enxergamos a totalidade de um ensinamento ou situação. Então por que ainda somos tão apegados às nossas pequenas opiniões? Para responder a isso, precisamos ir mais além nesse pensamento e devemos compreender que nossas opiniões, em grande parte, são moldadas por nossas convicções e emoções. Por acreditar que meu time de futebol, por exemplo, é o melhor do mundo, essa passa a ser minha opinião. Não significa dizer que ela contém a Verdade, mas para mim, essa é a Verdade. Sentimos essa emoção e acreditamos nesse pensamento, por isso formamos nossas opiniões com base nesses dois elementos.

Do mesmo jeito, aplica-se essa percepção a qualquer outro tópico. Frente a isso, podemos chegar a uma primeira constatação que, apesar de dolorosa, é extremamente real: não somos donos da Verdade. Estamos sempre condicionados pelas nossas opiniões e estas, como vimos, estão sujeitas ao que sentimos e pensamos. Logo, por que não podemos considerar o simples fato de que a percepção do outro, seja sobre qualquer assunto, pode nos ajudar a caminhar rumo a um entendimento mais amplo do que a nossa opinião? 

Talvez o que nos impede de aceitarmos essa ideia com naturalidade, está na raiz de nossa cultura atual. Somos criados para sermos competitivos, ou seja, toda nossa educação se pauta na ideia de que precisamos ser os melhores. Devemos ser os melhores profissionais, os melhores atletas, e assim por diante, pois a sociedade tornou-se, de um modo geral, uma gigantesca arena onde estamos em disputa, a todo momento. A competição, neste caso, nos estimula a querer vencer, porém acabamos levando essa ideia, que deveria ser restrita ao esporte, por exemplo, para todos os campos da nossa Vida. Sendo assim, quando emito uma opinião e alguém discorda dela, sentimos que estamos competindo com o outro e, daquele momento em diante, minha função é provar que estou certo e o outro está errado. 

Assim, estabelecem-se as grandes discussões, que, muitas vezes, podem nos levar a ficarmos chateados, com raiva e, até mesmo, cortarmos relações com o nosso aparente oponente. Por isso que um dos primeiros ensinamentos de Platão acerca das opiniões versa sobre buscar aprender a dialogar e nunca discutir. Esses são conceitos importantes e que, se bem aprendidos por nós, podem ser uma valiosa ferramenta para o nosso dia a dia. A discussão, como já percebemos, busca reforçar o ponto de vista de cada debatedor, não abrindo concessões e tentando, a todo momento, sobrepor um ponto de vista em detrimento do outro. Não há conciliação nessa forma de embate, pois cada um busca apenas provar que está com a Verdade. 

Por outro lado, o diálogo é uma forma de debate em que as duas pessoas estão tentando chegar a uma síntese, ou seja, a um ponto em que ambos concordem ser o mais próximo da Verdade, do que as suas opiniões iniciais. O diálogo, como o nome já indica, significa “dois sentidos” ou “duas consciências” e é uma ferramenta excelente para percebermos como nossas visões são parciais. Desse modo, podemos sempre avançar, um pouco mais, a partir de um diálogo, pois nele não há uma competição ocorrendo, mas uma sincera cooperação para chegarmos a um melhor entendimento. 

Não nos resta dúvida de que o diálogo é uma maneira muito mais interessante de levar uma conversa, por mais banal que seja, do que uma discussão, correto? Então por que, cada vez mais, estamos vendo pessoas discutindo e quase ninguém aberto para o diálogo? A resposta é simples: estamos apegados aos nossos pontos de vista e faremos de tudo para não abrir mão deles. Nossas opiniões, em algum grau, nos dão a falsa sensação de que temos algum controle sobre a Vida, pois ela nos conforta achando que já entendemos como o mundo funciona, ou como as pessoas são, ou mesmo qualquer outro aspecto em que desejamos nos agarrar. Neste sentido, achamos que as opiniões são, em grande medida, o nosso “bote salva vidas” num mar de incertezas em que vivemos. Por isso é tão difícil abrir mão delas, pois não é simples abandonar o que eu já “sei”, mesmo se for para construir algo melhor e mais próximo do que pode ser a Verdade.

Dentro dessa perspectiva, a primeira coisa que devemos buscar é expandir nossas opiniões, não no sentido de fazer com que elas se tornem únicas, mas perceber que se eu consigo observar a Vida, do ponto de vista dos outros, eu também posso somar esses diferentes pontos e formar uma imagem mais real. Assim, nossa opinião, que ainda não será a totalidade do Conhecimento, estará um pouco mais completa. A tirinha abaixo é um excelente exemplo disso:

Antes de concluirmos, é necessário aprender a sermos flexíveis em nossas próprias opiniões, sabendo que, a qualquer momento, como castelos de areia, elas podem se desmanchar. Assim, tal qual o pai ensina ao filho, é fundamental observarmos todos os lados e aceitar que, talvez, ainda tenha uma parte desse mistério que não estamos enxergando. Desse modo, do ponto de vista mais profundo acerca da Vida, de nada valem as certezas, pois enquanto não visualizarmos tudo, nada poderá ser concluído. 

Mais uma vez, voltemos para a Grécia Antiga e lembremos de Sócrates e sua grande frase “Só sei que nada sei”. Sempre que acharmos que já chegamos à conclusão de algo, por mais simples que seja, lembremos dessa frase. Quando falamos “eu sei disso”, por exemplo, estamos matando qualquer chance de aprendizado e fechando a porta para mais um pedaço desse misterioso enigma que chamamos de Vida. Se assim o fizermos, aprenderemos que as nossas opiniões servem apenas para que possamos caminhar dentro do Conhecimento, pois é a partir delas que começamos nossa jornada, no entanto, elas jamais serão o fim.  

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