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Todos nós temos amigos, mas será que sabemos cultivar uma verdadeira amizade? Ao pensar sobre o assunto é comum pensarmos em frases como “os verdadeiros amigos são poucos” ou “uma amizade verdadeira é rara”. Mas será que sabemos o que, de fato, é uma amizade desse tipo? E mais importante do que saber, será possível desenvolvermos essa relação com diversas pessoas? No texto a seguir refletiremos sobre essas questões.

Primeiramente, devemos pensar em como fazer amigos. De modo geral, nos aproximamos de outras pessoas devido aos nossos gostos pessoais, não é verdade? Fazemos amigos por termos algo em comum, seja um esporte, um hobby ou mesmo por questões mais simples como o fato de sermos vizinhos. Essa relação nasce pela necessidade humana de convivência, pois somos seres que trabalham em associação. Nesse sentido, a amizade é um mecanismo que auxilia no fortalecimento desses laços, criando componentes emocionais e mentais que identificam uma pessoa como “amiga” ou, em certos casos, como “inimiga”. 

Assim surge a primeira divisão nas relações humanas: aqueles que eu gosto e quero ao meu lado, ou seja, os amigos, e aquelas pessoas que não compartilham dos meus valores, gostos e ideais e, em geral, tendem a viver de forma contrária ao que acredito. Porém, será que a amizade é isso, uma divisão entre as pessoas de que gostamos e de que não gostamos?

Devemos recorrer à filosofia para aprofundar essa questão. De acordo com Aristóteles, “A amizade não é apenas necessária, mas também nobre”, ou seja, este tipo de vínculo tem sua importância reconhecida há milênios e se coloca acima de preferências pessoais, assim é uma verdadeira maneira de enobrecer o caráter humano. O pensador grego foi um dos filósofos que estudaram as relações que perpassam a amizade. Para ele a amizade é uma virtude necessária, pois a felicidade só tem valor se for compartilhada. 

Quando compartilhamos da felicidade com outra pessoa, estamos não somente nos tornando felizes, mas fortalecendo um laço inquebrantável. A esse tipo de relação, que nasce da felicidade compartilhada com outra pessoa, chamamos de amizade. Logo, um verdadeiro amigo é aquele que compartilha de sua felicidade conosco e vice-versa e, acima de tudo, se realiza com nossas conquistas tal qual fosse a sua própria. Esse é, portanto, um primeiro aspecto de uma verdadeira amizade e, tomando isso como base, podemos pensar se ficamos felizes quando nossos amigos estão crescendo ou, por outro lado, se queremos uma realização parcial dessas pessoas. Em um mundo que vive valores invertidos, em que a bondade é vista como algo raro e a inveja e a falsidade são quase aceitos como valores, devemos pensar se não absorvemos essas inversões em nossa vida prática.  

Outro aspecto que chama atenção é que a amizade é, em essência, uma relação coletiva de duas ou mais pessoas. Em um mundo cada vez mais individualista, em que a todo momento pensamos em nossos próprios desejos e benefícios, será que os vínculos que criamos não partem dessa mesma raiz? Se isso ocorre, então esse tipo de amizade está destinada a fracassar, pois em essência já não nasce como amizade, mas sim por uma série de segundas e terceiras intenções. Por isso, talvez, criamos a ilusão de que só podemos ter poucos amigos verdadeiros, afinal, como é possível encontrar uma relação em que ambas as partes não pensam em si? Hoje, graças ao fenômeno da globalização e às redes sociais, os laços de amizade são criados rapidamente, de forma extremamente superficial, e são facilmente rompidos. Não é raro, por exemplo, que uma pessoa tenha milhares de amigos que o acompanham pelo mundo virtual, o que causa a ilusão de sermos, de fato, rodeados de pessoas que nos amam e buscam compartilhar da felicidade conosco. Se aceitamos isso como verdade, precisamos admitir que o termo “amigos” passou a significar apenas uma breve troca de cliques numa rede social e já não podemos falar de uma verdadeira amizade. 

Pense bem: o que nos une às pessoas? Além das relações virtuais, temos companheiros que nos acompanham no trabalho, outros quando vamos para as festas; mas quando mudarmos de emprego, ou quando as festas não interessarem mais, o que vai manter essas amizades?

Infelizmente estamos vivendo um período em que os laços entre as pessoas são muito frágeis, e a amizade, no seu sentido mais profundo, se torna cada vez mais rara. Quando se ultrapassa a barreira dos interesses superficiais, quando duas pessoas se unem, não somente para compartilhar obrigações ou prazeres, mas sim para viver o mesmo sonho, aí surge a verdadeira Amizade. A filósofa argentina Delia Guzmán chama isso de “Amizade Filosófica”:

“É a que faz com que duas ou mais pessoas procurem conhecer-se, compreender-se, passando pela compreensão de si próprios. É a que faz nascer o respeito, a paciência e a constância, é a que perdoa sem deixar de corrigir e impulsiona cada um a ser cada vez melhor para merecer o amigo. É a que desperta o sentido da solidariedade, do apoio mútuo em todos os momentos, a que sabe suportar distâncias e dores, doenças e penúrias.”

Engana-se quem pensa que amigos não ficam chateados um com o outro, pois conflitos e discordâncias sempre existirão. A amizade verdadeira se verifica justamente quando os laços permanecem intactos, mesmo após essas turbulências da vida. Afinal de contas, quem nunca brigou com um irmão? Para os egípcios, não existia muita distinção entre um amigo e um familiar, pois é a mesma forma de amor que se expressa nessas relações. Quando alguém que nos ama nos aponta um defeito, não é para nos derrubar, mas sim para mostrar como podemos ser ainda melhores do que somos.

Dessa forma, a amizade tem o efeito de unir as pessoas, gerando uma harmonia social, como traduz bem Khalil Gibran em um trecho de sua obra “O Profeta”:

“Quando vosso amigo expressa seu pensamento, não temais o ‘não’ de vossa própria opinião, nem prendais o ‘sim’. E quando ele se cala, que vosso coração continue a ouvir o coração dele, porque na amizade, todos os desejos, ideais, esperanças, nascem e são partilhados sem palavras, numa alegria silenciosa.”

A amizade sempre foi um tema discutido no âmbito da filosofia, uma vez que é uma das facetas do amor. Mais que isso, para cultivar uma verdadeira amizade é preciso desapego, bondade e uma reta intenção em compartilhar seu melhor lado com essas pessoas. Por isso, é válido pensarmos em como andam nossas relações atuais, pois é comum nos perdemos no mundo digital, nos valores atuais que pregam muito mais a força do indivíduo sobre as relações humanas e, principalmente, o medo de se “expor” a uma verdadeira relação, seja de qualquer natureza.

Pensemos, portanto, que uma verdadeira amizade deve ser tão firme que nossos amigos podem ser chamados de irmãos, ou seja, fazem parte de nossa família. Não apenas por frequentarem nossa casa, mas sim por compartilharem dos mesmos valores, de serem um núcleo tão próximo e fraterno que nenhum movimento externo é capaz de nos fragmentar. A verdadeira amizade, enfim, baseia-se na felicidade, na alegria e principalmente em um estado de ânimo que ligam os corações. A alguém que tenha tudo isso podemos chamar de amigo e, infelizmente, isso tem se tornado raro no mundo. Cabe a nós, portanto, começar em nós mesmos esse resgate e aprofundar nossas relações. Quem sabe quantos amigos podemos ter? Imaginemos alto e façamos de toda a humanidade um grande cordão que une a todos e que nos faça sentir, mais uma vez, a força desse sentimento tão nobre e que tanta falta faz no mundo.

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