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A Arte da Convivência

Tempo de leitura: aproximadamente 6 minutos

O ser humano é um ser sociável. Não precisamos de pós-doutorado em antropologia ou qualquer outra ciência humana para chegarmos a essa conclusão. É inegável o valor de vivermos em sociedade, afinal, como diria o poeta Vinicius de Morais, “é impossível ser feliz sozinho.” Podemos ir além da frase de Vinicius e afirmar categoricamente que para o ser humano é impossível viver sozinho. De fato, em questão de sobrevivência, vivermos isolados uns dos outros levaria nossas chances de chegarmos até a velhice e partirmos dessa existência por “causas naturais” praticamente nulas. 

Um bom exemplo para comprovarmos isto é perceber que desde o nosso nascimento dependemos de outros seres humanos para sobreviver: somos cuidados e educados por nossos pais; vamos para escola aprender com nossos professores; desenvolvemos habilidades físicas, sociais e psicológicas a partir do convívio com outras pessoas; e, por fim, ao escolhermos uma profissão e atuarmos em nossos ofícios, também estamos envolvidos com os mais diferentes tipos de pessoas. Sendo assim, não há como escaparmos da convivência com outros seres humanos, pois mesmo que não queiramos ou mesmo gostemos de interagir com os demais, ainda assim precisamos quebrar nossas travas psicológicas e devemos lidar com o outro.

Não há como negar, portanto, que o ser humano precisa conviver. Contudo, como qualquer necessidade básica para o nosso desenvolvimento, a convivência também nos exige esforço, prática e se torna uma verdadeira arte na qual devemos nos tornar mestres. Só assim seremos capazes de lidar melhor não somente com as situações banais do nosso dia a dia, mas também com os conflitos internos gerados a partir da relação com outras pessoas.

E como aprender essa arte tão importante para o nosso cotidiano? 

Comecemos do início. Indo para o significado da palavra “convivência”, chegaremos à ideia de “viver com”, ou seja, pressupõe-se que vamos dividir nosso tempo de vida com uma ou mais pessoas. De fato, ao longo da vida e dentro de um contexto social, viveremos com dezenas (ou centenas, milhares?) de pessoas. Em nossa família, no nosso trabalho, nas filas do supermercado, com amigos, desafetos, atendentes, clientes etc. A lista é, de fato, inumerável quando se trata das relações humanas. Ainda assim, é preciso encontrar a forma adequada para cada tipo de relação, afinal, não tratamos do mesmo modo um colega de trabalho e um familiar próximo, não é? Portanto, a primeira grande lição que a arte da convivência pode nos ensinar é sobre o discernimento.

Saber discernir o tipo de relação, o contexto em que elas se desenvolvem e as atitudes necessárias em cada momento é fundamental para se construir uma boa relação. Discernimento nada mais é do que a capacidade de fazer boas escolhas, ou seja, de conseguir diferenciar o certo do errado, o bom do ruim, e optar por escolher o melhor. E quantas oportunidades diárias presenciamos em que podemos usar o discernimento para melhorar nossa convivência? Ao invés, por exemplo, de alimentar brigas, desavenças e confrontos diretos com os demais, será que não é possível buscarmos atitudes mais pacificadoras, que prezam pelo bem-estar geral? 

Sabemos que essa é uma conta difícil de equacionar, mas não podemos desistir de criar boas relações ao longo de nossa jornada. Lembremos, mais uma vez, que a convivência é intrínseca à nossa condição humana e, portanto, não pode ser vista como um fardo, mas sim como uma oportunidade de evolução. Sabendo disso, o próximo passo para se tornar um verdadeiro artista na arte da convivência está no autoconhecimento, afinal, como posso aprender a viver com outras pessoas quando nem mesmo consigo lidar com meus próprios dilemas?

Autoconhecimento não se trata de se sentir bem. Em verdade, o processo de conhecer a si mesmo é desafiador e nos leva a diversos confrontos com nossas convicções, pois começamos a olhar para nós mesmos como um projeto “inacabado”, que precisa de melhorias e reformas. Trata-se, desse modo, de aceitar as próprias debilidades e traçar um plano concreto para construir a si mesmo. Nessa perspectiva, à medida que passamos a nos conhecer melhor, também somos capazes de desenvolver empatia para com as pessoas ao nosso redor, pois entendemos que elas também estão em fase de construção, tendo suas próprias limitações e necessidades de experiência. 

Quando conhecemos a nós mesmos e aprendemos a lidar com esses fatores, é comum entendermos as causas que levam aos confrontos diários, principalmente com as pessoas mais próximas de nós e que, consequentemente, convivem mais conosco. Sendo assim, um passo importante dentro desse processo de aprendizagem está não somente em passar a se conhecer, mas acreditar e tomar atitudes que nos levem a um melhoramento, tanto pessoal como nas nossas relações.

Sejamos francos: vivemos momentos de tensão quase todos os dias. Conflitos, brigas, opiniões divergentes e outra série de “batalhas” que travamos com os demais ao nosso redor. Se pararmos para analisar a vida cotidiana em seus mais diferentes níveis, desde o social até mesmo os quesitos mais internos, perceberemos que a todo momento nos sentimos como em uma guerra, sendo confrontados pelas posições alheias e que, aparentemente, diferem das nossas. Nesse sentido, assumimos quase instintivamente uma postura defensiva, em que queremos garantir a sobrevivência dos nossos valores e convicções. Para isso, muitas vezes, acabamos discutindo, brigando e chegando até mesmo a nos afastar uns dos outros.

Esse cenário extremo, contudo, não é o ideal para a convivência, afinal, se queremos dominar essa tão nobre arte, deveríamos ser capazes de lidar com pessoas distintas de nós, seja em qual âmbito for. Como podemos, então, aceitar o outro e, de fato, conviver de forma harmônica com quem, a princípio, nos é tão diferente?

A filosofia pode nos ajudar. De acordo com um ensinamento da doutrina tibetana, por exemplo, a ideia de que somos seres separados é uma ilusão. Talvez essa seja uma ideia um pouco confusa, mas vamos detalhar melhor essa concepção. De acordo com essa forma de pensamento, a diferença que há entre cada ser humano – e cada elemento do Universo – é apenas a forma. Cada um de nós tem, de fato, um corpo diferente um do outro, assim como sentimos emoções distintas e pensamos também de formas diferentes. Entretanto, apesar de termos aparentemente diferenças, há algo que nos une, que nos é comum a todos: o fato de sermos seres humanos.

Observando por esse ponto de vista, os elementos que nos tornam diferentes são apenas ilusões, pois uma hora nossos corpos, emoções e pensamentos desaparecerão no infinito da existência, mas nossa condição humana, ou seja, aquilo que já nascemos e seguiremos sendo, não mudará e, de acordo com essa filosofia, também não se encerrará após o desaparecimento desse mundo. Essa talvez seja a maior chave que possamos dar para dominar a arte da convivência: passemos a olhar os outros a partir do ponto de vista humano.

Sendo assim, não percamos o nosso tão precioso tempo apontando defeitos, características ou opiniões que, no fundo, de nada nos servirão. Pensemos no valor humano por trás de todas as ações e que, no fim, todos nós buscamos sermos o melhor ser humano que conseguimos ser. Consequentemente, esse pensamento nos levará, naturalmente, a uma postura empática e menos crítica, no qual entenderemos a verdadeira dor do outro e não nos tornaremos juízes da vida alheia. Esse, talvez, seja o mais importante e sincero passo que devemos dar para caminharmos para uma verdadeira convivência em nosso dia a dia. 

Esse é um assunto, porém, demasiadamente longo e complexo para tratar em um curto texto. Por isso deixamos como recomendação o podcast abaixo:

Mesmo que exija muito esforço e dedicação, se cada um de nós puder mudar a si mesmo, se tornando um pouquinho melhor como ser humano, este será um grande sinal de esperança de que o mundo também pode se transformar num lugar melhor.

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