Qual o valor do nosso passado? Não estamos nos referindo somente ao nosso passado individual, as experiências que nos levaram até o momento presente, mas sim das pessoas e gerações que forjaram o caminho que hoje trilhamos. Você já parou para refletir sobre isso? É possível que não, mesmo que seja natural compreender que a evolução de nossa espécie, seja no âmbito econômico, social ou mesmo tecnológico, se dá, em parte, pelo acúmulo de experiências e o refinamento de meio de se viver. Apesar disso, vivemos em um mundo que não olha para o passado com essa perspectiva e, por vezes, até mesmo se envergonha dos seus antepassados. Se em parte podemos afirmar que o mundo de 200 ou 300 anos atrás estava repleto de problemas como racismo, escravidão, desigualdade e tantas outras mazelas, também é verdade que ainda hoje esses problemas persistem e se apresentam todos os dias nos jornais, nas calçadas e tantos outros espaços. Será que a geração futura poderá nos condenar por isso e não aprenderá nada conosco?

Essa reflexão se faz fundamental, pois se não olhamos para o nosso passado com uma busca pela imparcialidade, a partir do que podemos aprender para reproduzir ou evitar a nível individual e coletivo, jamais poderemos honrar a memória e o legado que nos foi deixado. Estaremos sempre ignorando essas experiências ou evitando comentá-las pela vergonha do que foi vivido. Porém, tais posturas não ajudam a evoluir nossa consciência e acabam por enterrar no esquecimento aquilo que jamais deveria ser deixado para trás. Por isso, é fundamental não apenas conhecer o passado, mas saber honrá-lo fazendo jus ao seu legado ou não permitindo que os erros cometidos voltem a surgir em nosso tempo moderno.

O filósofo e historiador Edmund Burke falou certa vez que o papel do historiador é fazer com que a sociedade lembre aquilo que ela busca esquecer, mas precisamos ir além disso. Não podemos colocar esse fardo apenas nos profissionais que lidam com o passado, mas sim cada um de nós deve aprender a carregar um pouco dessa responsabilidade, afinal, somos nós que fomentamos e vivemos no mundo atual. Infelizmente, a nossa sociedade moderna, “evoluída” – que tem na tecnologia o seu principal ponto de apoio e que se gaba de ser o ápice da informação e do conhecimento acumulado do passado –, comete a insensatez de se esquecer justamente da fonte desse conhecimento: seus antepassados. 

Vamos refletir sobre isso a partir do ponto de vista individual: ao nascer, em geral, o ser humano encontra um mundo difícil e perigoso. Para um recém-nascido é impossível sobreviver sozinho, por isso, a proteção dos seus pais é extremamente fundamental para o sucesso humano. Só por esse motivo já deveríamos ser gratos aos nossos antepassados, pois é fato que sem eles jamais chegaríamos à fase adulta. Porém, há quem diga que isso não é nada menos do que a responsabilidade dos pais, logo, esse papel natural é cumprido sem muito sacrifício. Sabemos que esse é um argumento válido, no entanto, não apenas dos nossos pais depende nossa formação humana. Ao longo de nossa caminhada  pela existência, encontramos pessoas que nos ensinam e nos apoiam perante as dificuldades da vida, até que um dia falamos que somos “independentes”. Podemos não perceber, mas só chegamos a esse patamar por termos essas pessoas ao nosso redor, que vieram antes de nós e nos auxiliam em nossa formação. Será que isso por si só já não deveria ser um argumento válido para honrar a memória e o ensinamento dessas pessoas?

Interessante é que, muitas vezes, ao se tornar independente, essa mesma pessoa se esquece de olhar para trás e vê que ele chegou onde está graças a essas pessoas que, já idosas, se tornam para ele um fardo insuportável. Muitas vezes, abandona-os em um asilo ou algo parecido, desprezando assim, não só a obrigação, mas também o privilégio de cuidar de tais pessoas. Desta forma, perde a oportunidade de beber de suas experiências, e aprender lições que seriam valiosas para a sua própria vida. Em seu egoísmo não percebe que a própria dinâmica da natureza lhe dá o presente, que é retribuir todo o auxílio que essas pessoas deram para que chegasse a ser quem é. Assim, acabamos nos encerrando em nosso mundo particular, que só foi possível graças a toda a formação recebida ao longo de décadas.

Assim como uma árvore não permanece sadia, nem de pé, sem raízes fortes, pois perde sua fonte de vida e alimento, um ser humano que desconsidera seus antepassados, mais diretamente seus pais e avós, fica doente num nível sutil do corpo, o psicológico. Isso se dá, porque este homem terá dificuldade de captar alimento para sua alma, e como disse um grande mestre “nem só de pão vive o homem”.

Cuidar, respeitar e honrar os mais velhos não é, então, uma questão só de ser grato. É mais que isso: é uma questão de inteligência, pois através da vida deles aprendemos muito sobre a nossa.

Isso significa que toda pessoa idosa é necessariamente sábia? Não.

O filósofo grego Sêneca, em sua obra “Sobre a Brevidade da Vida”, alerta que cabelos brancos não significam sabedoria. Alguém pode passar cem anos na Terra e ter aprendido muito pouco ou nada, por não viver de forma consciente. Mas, mesmo nestes casos extremos, temos algo para aprender com essa pessoa, pois a experiência humana é muito rica. Assim, podemos concluir que, mesmo que nossos pais tenham errado muito, podemos tirar disso lições de como fazer diferente.

Resta ainda o conselho bíblico, incluso nos dez mandamentos (Êxodo 20:12), “Honra teu pai e tua mãe…” com o significativo adendo “… para que se prolonguem os teus dias na terra”. O que se quer dizer com isso? Evidentemente, nem todo mundo que cuida e respeita seus pais, necessariamente vai viver mais tempo que aquele que não o faz. A relação da qual fala este texto, então, não pode ser esta. Mas qual seria?

Ora, se você respeita, honra e integra a história de seus pais, e de seus avós, à sua vida, a sua experiência humana se tornará muito mais rica, podendo-se até dizer que o seu tempo de vida se somará ao deles, formando uma única história. E também, ao fazer isso de coração, você estará dando um lindo exemplo para aqueles que te olham como espelho (teus filhos, netos, etc). Estes poderão integrar a sua experiência à vida deles, e assim se “prolongam seus dias na Terra”, muito além da vida física.

Nós te convidamos para ver o vídeo a seguir, e refletir se tudo isso que foi dito faz sentido na sua vida. No vídeo, percebemos uma importante reflexão sobre a dinâmica da vida humana, em que ao nascermos precisamos de ajuda; e, naturalmente, quando estamos próximos para deixar essa existência, também precisamos de ajuda. Assim, a vida de nossa espécie pode ser resumida em uma palavra simples: cooperação. A cooperação não se trata de apenas ajudar fisicamente outras pessoas, mas nos ensina que o existir perpassa pela ajuda mútua em todos os níveis, seja ele físico, emocional ou mental. 

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