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A Sabedoria nas poesias de Rumi

Tempo de leitura: aproximadamente 5 minutos

A Arte é um atributo Humano. Somos os únicos seres a construir obras de arte e contemplá-las, isso porque, em última instância, a Arte é produzida a partir da razão. O artista, em linhas gerais, capta ideias e sentimentos e os traduz em pinturas, músicas e poesia. Do mesmo modo, quando paramos em frente a uma escultura ou escutamos uma música podemos compreender as ideias que ali estão expressas.

Essa breve introdução sobre a Arte se faz necessária quando falamos de Rumi, um poeta-filósofo do século XIII, que fez de suas obras verdadeiros tratados místicos. Seus versos inspiraram o mundo islâmico por séculos, uma vez que sua linguagem faz vibrar a Alma daqueles que são capazes de entender sua mensagem.  Mas afinal, quem foi Rumi?

Celaleddin Rumi, ou simplesmente Rumi, nasceu na cidade de Balkh (atual Afeganistão) por volta de 1209. Seu pai já era considerado um Sábio, mas Rumi, ao que se apresenta, superou-o, ganhando o título de “mestre dos mestres”.  Durante sua vida o poeta exerceu ainda outras duas ocupações além de poeta: a de jurista e teólogo. Essa última o destacou dentro do mundo islâmico, pois seus escritos se tornaram a base do Sufismo, que em linhas gerais, é uma corrente mística do islamismo. Para além disso, os escritos de Rumi tinham como características o uso de parábolas, contos e anedotas, o que tornou sua mensagem acessível para a maioria do mundo islâmico.

Para termos um exemplo, há uma passagem que Rumi descreve em poucas palavras a diferença entre um Sábio e um intelectual. Segundo o poeta:

“É fácil levar dez pães, mas comer apenas um é difícil. Os intelectuais parecem-se com aqueles que levam os pães, mas não sabem como comer só um”.   

Nesses dois pequenos versos podemos entender a mágica de Rumi, que através de uma simples comparação revela-nos uma grande verdade: não é difícil ter conhecimento, mas sim aplicá-lo. Se fizermos uma relação com a nossa vida cotidiana, poderemos constatar algo muito parecido. Peguemos por exemplo o nosso modo de dirigir: passamos meses na auto escola, aprendemos sobre as leis de trânsito, seus sinais e nossa responsabilidade enquanto condutores. Intelectualmente, ou seja, em teoria todos que têm carteira de motorista aprenderam esse conhecimento, porém, como somos no trânsito? É muito provável que tenhamos, em alguma situação, cometido infrações, desobedecido a sinalização e etc. Nesse caso, a nossa prática mostra que, em algumas situações, não é tão simples fazer o que manda o código de trânsito, ou que simplesmente o esquecemos. 

Esse pode parecer um exemplo pequeno e até bobo, mas se agimos desse modo no trânsito, será que estamos conseguindo compreender a vida e agimos de acordo com o que ela nos pede? Os pequenos versos de Rumi, desse modo, vencem o tempo e falam diretamente conosco, pois descrevem um eterno dilema do Ser Humano. A maneira simples de apresentar verdades tão profundas foram tão impactantes para a sociedade islâmica que o poeta-sábio foi capaz de deixar um legado que perdura até os dias atuais. Não por acaso, o Sufismo ainda hoje tem seus praticantes e os livros de Rumi, em especial o Mesnevi, constituído por mais de 26 mil versos, explica aos Sufis como alcançar a Vida Espiritual.

Seguindo com nossa reflexão, um outro verso de Rumi diz:

“Ontem eu era esperto, então quis mudar o mundo

Hoje eu sou sábio, então estou mudando a mim mesmo” 

Mais uma vez a simplicidade é a característica marcante do poeta. Ao mesmo tempo, isso não tira a profundidade do que foi escrito. Ao pensar a nossa sociedade atual, percebemos que é muito comum reclamarmos por melhores condições de vida, saúde, educação e etc. Todos os protestos se apresentam com causas legítimas e necessárias, entretanto, pouco se diz a respeito de melhorarmos a nós mesmos. Parece, à primeira vista, que os problemas em nossa sociedade estão apenas no meio coletivo e não em nós mesmos. De igual modo, se achamos que em nosso ambiente social falta Justiça, Generosidade, Ordem e outras tantas Virtudes, por que não começamos a cultivá-las em nós? Talvez, se assim o fizéssemos, poderíamos trazer às pessoas à nossa volta um bom exemplo de Vida. 

Ainda sobre essa questão, os versos de Rumi lembram uma velha frase que diz que “no mundo só há duas coisas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós”. Ou seja, aquilo que foge ao nosso alcance não pode ser motivo de nos entristecermos perante à Vida. Devemos, entretanto, buscar em nós, seja mudando uma postura ou cumprindo com o nosso papel, a resposta. Essa ideia, traduzida em poucos versos, é resultado do impacto que a Arte, quando produzida por um grande artista, pode fazer: levar grandes percepções a todos os Seres Humanos. A bem da verdade, devemos destacar que nem todo artista é capaz de sintetizar tão bem e precisamente as ideias e sentimentos que vislumbra, pois ideias muito profundas, de maneira geral, necessitam, às vezes, de uma linguagem rebuscada. Nesse aspecto é que residem os gênios e os grandes sábios: pela capacidade de transmissão de seus conhecimentos. Por isso, Rumi se destaca como um Mestre.


Por fim, quando entramos em contato com a Arte e buscamos compreendê-la, somos capazes de acessar ideias que, em geral, não enxergávamos facilmente. O artista se torna, ao mesmo tempo, um tradutor que adapta a linguagem da Natureza à nossa, transformando-se numa ponte para que seu público tenha acesso a uma mensagem. Partindo desse ponto de vista, vivenciar a Arte é fundamental para as nossas vidas, pois é uma via de conhecimento que, em geral, não costumamos acessar. Desse modo, passamos a consumir a Arte com uma finalidade, a de chegar às grandes ideias. Talvez, ao aprender a apreciar e refletir acerca dessas grandes obras, nós possamos deixar de carregar os pães, como apontam os versos de Rumi, e consigamos comer apenas um. 

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