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O Som do Silêncio: uma reflexão sobre forma e essência

Tempo de leitura: aproximadamente 8 minutos

A vida a todo momento nos coloca em frente a desafios. Talvez cada um de nós entendamos isso de maneira prática, visto que diariamente precisamos tomar decisões e lidar com suas consequências. Entretanto, nem sempre percebemos o que, de fato, podemos aprender com essas situações para além dos seus resultados. Seja um conflito no trabalho, uma discussão “boba” com amigos ou familiares e até mesmo uma doença que nos impossibilite de viver do mesmo modo que antes, tudo nos coloca diante de um aprendizado ímpar que, se tivermos sabedoria para compreender, pode nos fazer dar um salto em nossa consciência.

O aprendizado, porém, muitas vezes perde espaço para a revolta, a raiva, o sentimento de injustiça e tantas emoções negativas que nos levam a perder a fé na vida e na sua sabedoria. Deixamos de buscar sentido nas experiências e acreditamos que, na verdade, estamos vivendo um castigo. Nos culpamos e acabamos, enfim, deixando de aprender para alimentar uma posição melancólica e improdutiva, que não nos permite avançar para além da experiência, mas sim ficarmos presos nela.

Quem de nós, por exemplo, em meio a uma doença séria não ficou se perguntando “o que fiz para merecer isso?” Ou em um conflito no relacionamento pensou em como o outro poderia ser uma pessoa melhor caso escutasse nossos conselhos, estes que nem sempre nós mesmos seguimos? A tendência a tentar encontrar uma resposta “fora”, ou seja, colocar a culpa em algo ou alguém é um mecanismo quase natural no ser humano, quando na verdade as soluções estão dentro de nós, em nossa verdadeira essência. 

Dito isso, hoje recomendamos um filme que nos ajuda a refletir exatamente sobre como podemos superar nossos desafios a partir de uma perspectiva interna. “O som do silêncio” é um filme interessante desde sua composição, uma vez que foi produzido com um orçamento limitado, filmado em apenas quatro semanas, e ainda assim recebeu diversas indicações ao Oscar. Geralmente, pensamos – e a história das premiações mostram isso – que apenas grandes produções, com orçamentos milionários e um elenco cheio de estrelas, são capazes de concorrer em tantas categorias diferentes. Entretanto, casos como “O som do silêncio” provam que a arte pode superar a abundância de recursos técnicos e mesmo o capital investido em um filme. Sintetizando as indicações e prêmios recebidos, o longa-metragem recebeu indicações ao Oscar 2021 de melhor roteiro, melhor ator, melhor ator coadjuvante, entre outras, e ganhou o prêmio de melhor som e melhor edição, mostrando ser uma das boas surpresas da noite de premiações.

Esse fato por si só já deveria nos deixar com vontade de assistir a “O som do silêncio”, porém, o filme vai muito além do que apenas seu feito diante da indústria cinematográfica. Portanto, vamos conhecer um pouco o roteiro, a mensagem do filme e as razões de tantas indicações e de tanta repercussão positiva da crítica.

Começando pelo roteiro, a história gira em torno de Ruben, um jovem baterista de uma banda Heavy Metal, que ele mesmo montou junto com a vocalista, sua namorada Louise. Os dois vivem uma vida meio cigana, moram juntos em um trailer bem equipado e confortável, e deslocam-se de cidade em cidade para realizarem suas turnês. A vida para eles é uma aventura, um casal bem apaixonado, com muitas afinidades musicais e estilos de vida compatíveis. A força do casal é fundamental para que os dois sigam sonhando juntos com o sucesso e fazendo as músicas que adoram.

Porém, nem tudo são flores na vida de Ruben e Louise. De uma hora para outra, tudo vem abaixo quando Ruben começa a perder rapidamente a audição. Isso muda tudo, pois o ouvido era o seu principal instrumento de trabalho e a música era o elo entre ele e Louise. O filme mostra com muita propriedade o agravamento gradativo do problema enfrentado por Ruben, que vai deixando de escutar não apenas o som da sua música, mas também seus amigos e Louise, e assim começa a viver um processo de depressão, pois todo o seu sentido de vida está sob ameaça. Impossibilitado de tocar bateria, o músico se vê obrigado a interromper as turnês, e seu estado emocional fica extremamente alterado: ele passa a ter explosões de fúria em que quebra os equipamentos de som dentro do Trailer, e aí Louise o força a procurar ajuda. 

O desespero de Ruben diante do seu problema é conhecido por todos nós. Sejamos francos: quem de nós nunca deixou-se levar pelo medo, pela ansiedade, pelo temor de enfrentar uma prova que talvez custe nossa própria vida? Não necessariamente a vida física, mas sim suas aspirações, seus sonhos e ter que mudar, de uma hora para outra, os rumos que tanto planejou? Esse mix de emoções nos tira do centro e facilmente nos coloca em uma condição adversa em que é preciso aprendermos a lidar e tentar encontrar uma solução interna para esse dilema.

Diante desse cenário, os amigos de Ruben indicam uma espécie de Centro de Reabilitação para pessoas que têm problemas com a aceitação da surdez. Mas o que Ruben queria mesmo, de imediato, era se livrar do problema e voltar a ouvir, isso o leva a um especialista que lhe informa da possibilidade de um implante, o qual poderia lhe devolver os sons, mas tal procedimento era muito caro. Assim, contra a sua vontade, aceita ficar no Centro de Reabilitação enquanto consegue o dinheiro para a cirurgia de implante. 

Não vamos antecipar o desfecho do filme, mas podemos adiantar que o Centro vai apresentar a Ruben uma abordagem muito diferente da alternativa de implante cirúrgico. Naquele Centro, a surdez não é tratada como uma doença, mas como uma condição diferente de acesso à realidade.  O Centro não quer resolver o problema do ouvido, mas da cabeça, isto é, não quer devolver os sons, mas quer auxiliar o surdo a assimilar, acolher e lidar com a surdez como um meio de desenvolver outros potenciais, como a capacidade de alcançar a serenidade, a paz profunda e a sensibilidade para ouvir vozes mais internas que soam dentro de todos nós. 

Dessa forma, o filme traz uma reflexão muito séria sobre a questão da surdez, colocando essa condição não como um problema, mas como uma linguagem de existência, muito incompreendida e  intolerada pela mentalidade predominante na sociedade. Escutar ou não é questão de forma, não de essência. Ouvir os sons é uma forma de existir; não ouvi-los não elimina a essencialidade e a riqueza da existência. Um surdo pode substituir o sentido da audição por captações da realidade suficientes para lhe entregar um mundo carregado de sentido, de expressão e de percepção profunda. Sobre esse assunto, possuímos aqui no portal Feedobem um belíssimo curta chamado “Tamara” que você pode conferir clicando aqui.

O que acontece com Ruben é uma mudança na forma de vida, não uma eliminação da vida. A surdez só lhe permitiu desenvolver vias de acesso à realidade que até então estavam invisíveis diante de seus olhos. O silêncio, a serenidade, a sensibilidade, o encontro consigo mesmo eram aspectos atrofiados na experiência daquele baterista heavy metal. A surdez foi um evento que lhe pressionou a um caminho de autodescobertas.

Nós temos uma facilidade muito grande de nos apegarmos a uma forma de vida. Se algo nos tira dessa forma, tendemos a ficar instáveis, sem saber para onde ir, pois no fundo acreditamos que só há aquele jeito de ser feliz, de existir, de se realizar. Mas sempre que pensamos assim estamos equivocados. A nossa realização é algo que está para além das formas que projetamos. A forma – ou seja, o estilo de vida que acreditamos que irá nos levar à felicidade – é apenas isso: um estilo de vida. A nossa realização e felicidade não se limitam a uma maneira de viver, pois a verdadeira Felicidade é uma essência que qualquer Ser Humano pode encontrar.  Pensemos em um perfume: se mudarmos de frasco a essência, o aroma e a qualidade do perfume não se alteram na nova forma, no caso, no novo frasco. Podemos perder a forma, não tem problema, pois o nosso Espírito se adapta às novas circunstâncias. 

Este filme é um convite para perdermos o medo das adversidades, pois, por mais impactante que seja o que venha  a nos acontecer, nossa Alma sempre renasce em novas formas. Quando Ruben se descobre surdo, entra em desespero. Ele não sabia existir de outro jeito, chega a falar em suicídio com a namorada, mas aquele Centro salvou a sua vida. As atividades e os ensinamentos fizeram desabrochar dentro dele um contato com o Mistério do mundo que de outra forma não seria possível. 

A sua voz interna sempre esteve lá, mas as muitas vozes na vida de Ruben não permitiam ouvi-la. A surdez e a vivência no Centro de Reabilitação lhe devolveram o silêncio que ele precisava para ouvir o seu Ser interno. Existe um livro da tradição tibetana, trazido para o Ocidente no final do Século XIX pela filósofa Helena Blavatsky chamado “A voz do silêncio”. Esse texto, que tem uma origem muito antiga, nos informa que, dependendo da forma como organizamos a nossa vida, podemos ou não ouvir nossa voz interna, profunda, emitida pela instância mais central do nosso Ser. É por esse caminho que o Centro tenta conduzir Ruben. Lá, ele terá uma condução de comportamento de modo que desapegue da sua forma anterior e se harmonize com o seu interior, a fim de ouvi-lo com nitidez. Esse é o grande desafio que todos temos. Silenciar as muitas vozes externas, a fim de encontrar uma via de acesso ao nosso Ser interno. 

A grande pergunta é: como fazer isso? Não se aprende a ouvir essa voz interna utilizando um manual de instrução, lendo livros a respeito ou assistindo palestras. Apesar desse movimento da mente ter a sua importância, não é suficiente. É preciso, sobretudo, se transformar no caminho. 

Tem uma cena no filme em que o mentor do Centro de Reabilitação determina que Ruben se tranque em um quarto todas as manhãs e se concentre em escrever numa folha de papel. Ao longo da prática diária, Ruben vai descobrindo que o conteúdo da escrita pouco importava, mas a atitude de conectar-se regularmente consigo mesmo era transformadora. As nossas atitudes diárias, a nossa disciplina cotidiana é determinante em nossas mudanças mais profundas. Somos uma civilização muito intelectual, queremos comandar nossas instâncias mais abstratas e profundas com o pensamento, com as instruções que lemos em livros etc. Mas há ambientes do nosso Ser que só alcançamos pela ação, são recantos em nós que só se purificam pelo nosso método de vida. 

Talvez o segredo do sucesso repentino de “O Som do Silêncio” seja esse: um filme que convoca uma reflexão sobre um jeito diferente de lidar com as adversidades, ou seja, em vez de suprimir a dor com métodos objetivos e concretos, apenas acolhê-la como um caminho para reposicionar a consciência no Grande Propósito Misterioso da Existência. No fundo, é isso que todos nós buscamos, é como se a nossa contemporaneidade estivesse cansada de medicamentos imediatos: do tipo, sentiu dor, logo intervém com medicamentos, cirurgias etc. É preciso entender o caminho filosófico da dor, compreender seu propósito e se reposicionar no caminho. Esse é o segredo contido nesta grande obra do cinema e na própria Vida.

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