Os diretores Jason Marino e Craig Kitzmann nos deram um curta-metragem belíssimo chamado Tamara. Neste curta é apresentada a história de uma menina diferente de muitas meninas de hoje em dia. Tamara, em vez de passar horas vendo vídeos do youtuber preferido, está em seu quarto lendo um livro. Isso mesmo que você leu! Uma dessas coisas que não precisa de eletricidade e que serviu muito bem à Humanidade por tanto tempo. Além disso, ela sonha em ser bailarina, ao contrário de tantas garotas de hoje em dia que sonham em se tornar influencer de maquiagem.

O curta mostra Tamara bailando com seu ursinho de estimação, ao som de uma caixinha de música e neste momento sabemos que nada pode parar uma garota com um sonho! Nem mesmo quando a música pára e a bailarina em cima da caixinha fica imóvel, já que só o som a movimenta. Neste momento a bailarina com o seu ursinho continua rodopiando e dando piruetas, porque um sonho lhe move. Até que sua mãe escuta aquele movimento, vai até o quarto, e faz o que toda mãe faria. Com o coração tocado por aquela cena, lhe encoraja a dançar até que as estrelas parem de brilhar!

Tamara também tem muita coisa em comum com vários brasileiros. Assim como mais de dez milhões de compatriotas nossos, ela é surda e não pode usar o aparelho auditivo, o que faz com que ela só se comunique através da linguagem de sinais. Mas, como a personagem de nosso filme, esses brasileiros são muitos e são múltiplos. Alguns são como Tamara e usam uma língua própria que integra uma cultura própria. A LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) não é uma gestualização da Língua Portuguesa. Na verdade, sua origem vem da Língua Francesa de Sinais, com algumas adaptações. Pouca gente sabe, mas nosso país tem duas línguas oficiais: a portuguesa e a LIBRAS. Embora alguns brasileiros usem como língua principal a LIBRAS, outros são oralizados, usando o português falado e/ou escrito, ou ainda a leitura labial.

O curta termina cedo, mas não é difícil imaginar os desafios que Tamara enfrentará para realizar seu sonho. De todos os inimigos que ela encontrará pelo caminho, o pior certamente será a ignorância. Ao longo de tantos anos, foi a ignorância que levou muitas civilizações a tratarem as pessoas surdas de forma intolerante. Muitas culturas marginalizavam e massacravam aqueles que nasciam sem ouvir. Gregos, chineses, gauleses, romanos, europeus da Idade Média… Todos esses desenvolveram culturas avançadíssimas em vários aspectos, mas foram incapazes de reconhecer a Identidade Humana da pessoa surda. Talvez por não saberem como se comunicar com ela. A exceção fica por conta da Lei Hebraica (o Pentateuco, livro sagrado do povo judeu, já trazia o mandamento de proteção a surdos e cegos) e do Egito Antigo (onde eles eram adorados como intermediadores entre os Deuses e os homens).

Mas, e hoje, que já sabemos tanto sobre a surdez? Oferecemos um ambiente justo e acolhedor, que lhes integrem na vida da sociedade de que são parte? Infelizmente, ainda há muito o que evoluir nesse ponto. Ainda encontramos relatos de bullying por qualquer diferença. E muitos surdos só conseguem sentir-se à vontade em grupos com outros surdos. Essa separação precisa acabar. Antes de qualquer condição, somos todos Seres Humanos e isso deveria nos fazer tolerantes e fraternos.

Tamara nos toca por nos mostrar exatamente isso. Antes de sabermos que ela não ouve, ela é para nós só uma criança. E deveria continuar sendo depois que descobrimos. O próprio fato de nos emocionarmos com sua condição carrega em si um histórico de anos de estereotipação da pessoa surda. É a coitadinha, a pobrezinha… Não! São homens e mulheres com tanta força produtiva quanto nós que lemos. Apenas usam uma linguagem diferente para comunicar-se. E possuem à sua disposição várias ferramentas: LIBRAS, oralização, aparelhos auditivos, implantes cocleares…

Queremos ajudar as Tamaras do Brasil? Lutemos contra seu principal inimigo e nos informemos. Por que não aprendermos algumas palavras em LIBRAS para estarmos preparados para o momento em que formos atender um cliente surdo? Ora, nós não fazemos esse esforço para aprendermos o inglês?

A menininha do curta é meiga e delicada. Mas terá logo que aprender a ser forte e lutadora para ultrapassar os limites que o preconceito e a ignorância lhe impuserem. Todavia nem tudo são lágrimas, temos uma boa notícia: ela já tem em quem se inspirar! Lin Ching é a nossa Tamara da vida real. Ela não deixou que todos os professores que lhe disseram que seu sonho era impossível definissem seus limites. Ela seguiu em frente! Continuou caminhando e dançando. E hoje é bailarina e modelo. Nascida em Taiwan, ela tem encantado o mundo com sua lição de Humanidade. Veja o vídeo abaixo e se apaixone por essas duas meninas que nos lembram que sonhar ainda é a mais nobre atividade Humana.

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