O Mandaloriano é uma série americana que estreou em 2019, disponível hoje na plataforma Disney Plus. A história acontece no mesmo contexto da saga Guerra nas Estrelas, em inglês, Star Wars, e gira em torno de um guerreiro do planeta Mandalore que viaja pelos confins da Galáxia em sua nave velha, mas super equipada, caçando recompensas para sobreviver após a queda do império galáctico. 

Ele é uma figura enigmática, de poucas palavras, movimentos calculados, sempre bem armado com rifles e pistolas, com muita habilidade para a luta. Usa uma armadura e um capacete de proteção confeccionados em beskar, que, no Universo Star Wars, é um tipo de liga de metal muito resistente, capaz de suportar tiros de blaster, um tipo de arma muito sofisticada que disparava raios de alta energia capazes de eliminar o inimigo. Seu nome é Din Djarin, mas quase ninguém o conhece pelo nome, chamam-no apenas de o mandaloriano, ou abreviadamente, “Mando”. 

Na infância, sua casa foi invadida e seus pais mortos, em um ataque de droides, espécies de robôs programados para matar, e ele foi resgatado pelo exército mandaloriano que lhe deu uma formação de guerreiro. Começou a usar a máscara desde então e ninguém nunca viu o seu rosto. Após a queda do império galáctico, Djarin entrou para a Guilda de Caçadores de Recompensas, um grupo criminoso, formado por grandes guerreiros, que recebiam recompensas para fazer serviços para as autoridades do antigo império. Em um desses serviços, ele foi comissionado para resgatar um ser desconhecido em um planeta distante, a única informação que tinha a respeito era que se tratava de uma criança. 

Depois de enfrentar um exército de mercenários, Djarin conseguiu resgatar o ser misterioso, que era um bêbê. Grogu, como fica conhecido ao longo da saga, era um ser sensível à força, o que, no Universo Star Wars, significa ter sensibilidade para uma espécie de energia mística conhecida como “a força”. Os sensitivos conseguiam ver alguns acontecimentos antes de acontecerem  e, quando treinados, podiam manipular a força. De posse da criança, ele a entrega aos seus contratantes, mas depois se arrepende porque, ao longo do resgate, desenvolveu um sentimento muito profundo pelo ser. Então decide voltar e recuperá-lo das mãos de seus pagadores de recompensa. Assim, a trama vai se desenrolar em torno da relação entre Djarin e este ser, que vem de uma linhagem de Mestres de Sabedoria.

É impressionante o poder de imaginação que essas narrativas demonstram. “O mandaloriano” foi escrito por Jon Favreau, um diretor de cinema que carrega em seu currículo a direção do famoso filme “Iron Man”, mas todo o arcabouço da história acontece dentro do Universo da saga Star Wars, criada pelo cineasta George Lucas, em 1977. Há 44 anos essa criação imaginativa continua impactando o mundo, a história nunca parou de ser contada e envolve uma trama interplanetária com direito a cronologia histórica que envolve queda de Impérios, Guerras galácticas, fundações de Repúblicas, uma verdadeira História Geral fictícia do mundo. 

Diante disso, nos perguntamos, como alguém consegue imaginar tanto? A imaginação é uma grande potência que possuímos e que usamos o tempo todo, mas raramente paramos para pensar sobre ela. Essa capacidade de evadir do plano concreto para um plano abstrato, de suposições, é um grande recurso que a Natureza nos deu. Mas em geral, mesmo detendo uma potência tão descomunal, não sabemos usá-la, quase sempre usamos a imaginação para alimentar vícios como a gula, a preguiça, as perversões, etc. É como uma força que está ao nosso alcance e que precisaríamos aprender a manejar. Isso lembra algo do filme? Sim, lembra que o Grogu, a criança resgatada por Djarin, é sensível à Força, mas precisa aprender a usá-la. Isso acontece com todos nós, temos poderes que não sabemos usá-los, a Imaginação é um deles. Com isso, começamos a perceber que o Universo imaginário dessas sagas são na verdade uma recombinação de aspectos da nossa realidade. Então, quando assistimos a uma série desse tipo, estamos diante de uma espécie de amostragem da nossa realidade, é um jeito compacto de olhar para a complexidade misteriosa na qual estamos mergulhados. 

Observe que todas essas histórias de batalhas, guerreiros, etc., estão na história Humana. O mandaloriano é um extrato imaginário de personagens reais da Humanidade, como os espartanos, os guerreiros de Tróia, os soldados romanos, os cavaleiros templários, entre outros. A queda do império Galáctico guarda semelhança com a Queda do Império Romano no Século V. A Nova República guarda semelhança com o surgimento das democracias liberais da modernidade. O fato é que nunca se imagina nada que esteja fora da realidade conhecida, apenas combinamos e re-combinamos o que já existe. Nesse sentido, esses filmes nos dizem muita coisa quando ao assisti-los, tentamos encontrar essas correlações.

Um olhar filosófico para a História da Humanidade e um olhar atento para filmes desse tipo nos ajudam muito a aprender a viver. Por exemplo, há um paralelo entre um soldado espartano, um guardião da República de Platão, um cavaleiro templário e um mandaloriano da ficção Star Wars. E esse paralelismo tem uma correlação com um aspecto da realidade que vivemos no dia-a-dia. O que é comum a esses personagens históricos e fictícios é a necessidade de ser forte para enfrentar as adversidades. Todos esses foram educados para a batalha. Todos desenvolveram resistências, estavam sempre prontos para o ataque. Em um sentido análogo, em nossa vida também somos bombardeados o tempo todo e precisamos ser fortes para lidar com uma realidade tão imprevisível como esta em que estamos mergulhados. Nosso corpo está em uma batalha constante contra bactérias, fungos, vírus, etc. Nossa psique também combate o tempo todo tendências a doenças depressivas, a pensamentos negativos, violência, etc. Se estamos vivos e em pé, é porque essas instâncias guerreiras em nós estão vencendo o inimigo. Usando essa chave de interpretação vemos que esses filmes tem muito a ver com nossa realidade sutil.

Uma coisa que percebemos em todas essas histórias de guerreiros é que todos lutam por uma causa maior que suas próprias vidas. Talvez aí esteja a fonte da resistência, o ponto de origem da Força: a superação do egoísmo. Os espartanos viviam em função do Estado, desde crianças eram entregues ao Estado para serem treinados em função do interesse de todo o grupo, praticamente não tinham vida pessoal. No livro “A República” de Platão, a felicidade dos guardiões estava diretamente relacionada à cidade. Se a cidade estivesse feliz, os guardiões estavam felizes, assim toda a sua lógica de vida era dedicada ao fortalecimento de si para servir à cidade. Mantinham uma alimentação frugal, desprovida de muitas variedades, treinavam para guerra e estudavam música e ginástica. Já a ordem dos Cavaleiros Templários tinha uma máxima que cantavam sempre em latim, non nobis, domine, sed nomini tuo da gloriam, que traduzido é “não a nós senhor, mas toda a glória ao teu nome”. Trata-se de um jeito de viver em que todas as conquistas, toda a produção, toda a força não é particularmente para si, mas dedicada inteiramente a algo maior, fora de si. Toda cultura de guerreiros, toda civilização proeminente é erigida nessa lógica de altruísmo. Isso nos ensina que a Força está associada ao Amor, que é essa disposição diante da vida de sempre servir, de existir em função de algo maior que si mesmo. É o que vemos, por exemplo no Sol, que é o maior astro que temos dentro do nosso sistema planetário, mas todo o seu funcionamento está a serviço do sistema que é maior do que ele. O Sol doa sua energia e força o tempo todo. 

Vemos esse traço bem presente no mandaloriano. Quando ele ganha a recompensa por ter capturado a criança, emprega todos os créditos recebidos em uma nova armadura, que não era algo pessoal mas uma ferramenta para servir aos demais. Quando ele resgata o bêbê novamente, das mãos do pagador de recompensas, procura um lugar tranquilo para descansar e vai para um planeta distante, mas quando chega lá se envolve com a proteção de uma comunidade de humanos que estava sendo ameaçada. Ou seja, o tempo todo ao longo da série, ele está servindo a um grupo maior. Este é o segredo da Força em nossa realidade cotidiana, servir o tempo todo. Existir em função de algo maior do que nós mesmos. Quando nos fechamos em nossas individualidades e particularidades é como se retirássemos o sentido da Força. A Natureza nos dá Força para servir ao Todo, se não fizermos isso não teremos a Força.

Mas o filme também nos ensina que não basta ter a Força, é preciso ter também a Sabedoria. O ser misterioso infantil que o mandaloriano protege vem de uma espécie desconhecida, em que seus participantes são muito longevos e muito sábios. Um deles é o Mestre Yoda, que aparece ao longo de toda a saga Star Wars, com 900 anos e portador de uma Sabedoria extraordinária. Assim, essa parceria entre a criança e o mandaloriano é representativa da parceria que precisamos ter entre nossa Força, nossos impulsos e a Sabedoria. Observe que para manter o ser protegido ao seu lado, o mandaloriano enfrenta batalhas recorrentes, ameaças mortais e precisa ser muito forte e ter muita habilidade para isso. Assim é a nossa relação com a Sabedoria, não se alcança por um lance de sorte, é preciso lutar por ela. A Sabedoria requer esforço, requer batalhas, sobretudo mentais e emocionais. Quem gosta de muito conforto, quem é avesso ao esforço, tende a se distanciar da Sabedoria, porque o alcance dela requer uma postura de muita entrega. 

Essa imagem de parceria entre Força e Sabedoria aparece na história da Guerra de Tróia. Existia um guerreiro troiano muito forte chamado Enéias, ele era imbatível nos campos de batalha, mas sua força era apenas no corpo físico, não era muito estrategista na mente, já o seu pai Anquises, que tinha uma espécie de paraplegia, não andava e tinha muitas deformações no corpo, tinha a mente muito aguçada, era muito estrategista e visionário. Dizem que quando Tróia foi destruída, Enéias colocou seu pai nos ombros, fugiu para outro território, e lá nesse novo lugar, juntos, dão origem a uma nova cidade que se chamaria Roma, marcada pela União entre Força e Sabedoria. Essa cena do guerreiro carregando o velho sábio nos ombros se eternizou ao longo da história, inclusive hoje existe um vaso grego antigo no Museu do Louvre com essa imagem. 

A História de todas as civilizações humanas gira sempre em torno dessa União entre Força e Sabedoria. Não é diferente em nossa vida pessoal, pode observar que tudo o que você conquistou até hoje envolve esforço e inteligência. Esse par de forças move o mundo, constrói e destrói impérios e forja as armas da grande jornada evolutiva que todos vivemos, quer queiramos ou não.

O mandaloriano nos deixa a mensagem de que não vivemos em um “mar de flores”, somos destinados por natureza à batalha e nossa vitória está relacionada ao quanto conseguimos superar os nossos egoísmos, lutar por algo maior que nossos interesses pessoais  e unir Força e Sabedoria em nossa jornada. 

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