Nós sabemos que existem diferentes maneiras de amar, não é mesmo? Amamos os nossos pais, filhos, companheiro (a), animais e outras infinidades de pessoas.  Cada um desses amores são diferentes entre si e se expressam de maneira específica. Porém, uma das similaridades entre eles é o fato de querermos sempre estar próximos de quem amamos. Quando estamos amando uma pessoa, por exemplo, temos a sensação de que todo tempo do mundo é pouco quando estamos ao lado dela, por isso que sempre achamos que o tempo passa “mais rápido” quando estamos convivendo com pessoas que nos fazem sentir esse sentimento. Você já se sentiu assim? 

Esse movimento de estar sempre próximo de quem amamos, porém, pode nos causar muita dor. Por vezes, aquilo que chamamos de “amor” acaba sendo, infelizmente, uma forma de aprisionamento, quando não permitimos que a pessoa amada (e às vezes nós mesmos) não seja aquilo que é. Vamos tentar deixar essa ideia mais clara com exemplos: alguma vez você já sentiu a necessidade de se moldar a alguém? De se “obrigar” a gostar de um tipo de música ou programação só porque é a preferida do seu companheiro (a)? Ou deixou de sair para os locais que gostava porque isso incomodava o outro? Em diversas ocasiões, que podem se transformar em uma verdadeira rotina, abrimos mão de nossa identidade para ficarmos cada vez mais próximos à pessoa que amamos. Quando deixamos de ser nós mesmos, de nos realizarmos enquanto indivíduo para atender as preferências alheias, acabamos colocando correntes no amor, que limitam a nós mesmos. É evidente, contudo, que em uma relação é sempre necessário ser flexível, porém, devemos deixar claro que isso não significa se transformar em algo que não somos.

Esse tipo de conduta, porém, não ocorre apenas em relacionamentos amorosos, mas também com outras formas de amor. Quando os pais, por exemplo, tentam moldar o filho para serem exatamente como eles desejam e não permitem que o jovem seja quem realmente é, estamos vendo um exemplo de um tipo de amor mal canalizado. Infelizmente, esse sublime sentimento acaba sendo confundido com a ideia de posse, de controle, o que faz com que o amor, em seu aspecto mais puro, não se desenvolva. 

Frente a isso, o curta-metragem “Beep & Tweet” nos dá uma excelente lição sobre a importância de ter um amor verdadeiramente livre, no qual o ser amado pode expressar sua verdadeira natureza sem estar contido em nenhum tipo de condicionamento. Lançado como um projeto da Sheridan College, um centro de formação universitária em tecnologia feito por estudantes, a animação nos apresenta um robô que acaba cultivando um grande amor por um passarinho, tratando-o como um filho. Porém, o robô, que vive em uma fábrica e confinado em um pequeno espaço, não percebe que a natureza do seu ser amado é o céu, pois um pássaro foi feito para voar. 

A mensagem da animação nos faz refletir justamente sobre como lidamos com o amor. É natural que queiramos cuidar e proteger quem amamos. Por vezes, porém, o excesso de cuidado se transforma em uma confortável prisão, em que o ser amado não pode se expressar. No caso do curta, o robô simplesmente desconhece a vontade do passarinho de alçar seus longos voos. Do mesmo modo, conosco é possível que ocorra o mesmo. Por não estarmos conscientes do outro, acabamos ignorando sua natureza.

O medo de perder aquilo que se ama também faz com que não tenhamos coragem de “soltar” aqueles que amamos, pois imaginamos que jamais veremos aquela pessoa novamente. É justamente esse o temor do robozinho que corre desesperadamente para evitar o inevitável destino do pássaro. Ainda assim, ele percebe que aquele amor cultivado em seu pequeno quarto agora precisa expandir e deixar que seu amigo seja livre, que possa viver suas próprias experiências.

Refletindo sobre essa questão, podemos levantar alguns pontos interessantes. Um deles é o fato de que tudo em nossa vida funciona de maneira cíclica, ou seja, tem um começo e um fim. Isso não significa dizer que o amor necessariamente chega ao fim, mas as relações passam por transformações e novas dinâmicas. Pensemos na relação de pais e filhos por exemplo: durante anos, eles viverão sob o mesmo teto, compartilhando experiências, refeições e vivendo sob uma certa dinâmica. Porém, eventualmente os filhos deixam a casa dos pais, alçam seus próprios voos e fazem novos ninhos. O fato de não viverem mais na mesma casa implica dizer que o amor deixou de existir? É evidente que não. Continuamos a amar nossos pais e eles também continuam a nos amar, apenas estamos vivendo de maneiras distintas. 

Desse modo, é fundamental percebermos quando estamos aprisionando as pessoas que amamos e causando mais sofrimento do que alegria em suas vidas. Toda relação de afeto, seja amizade, fraterna e amorosa, irá passar necessariamente por transformações. Ora estamos afastados das pessoas, ora estamos juntos. O que permanece? O amor. Mesmo que passemos décadas sem ver um amigo, por exemplo, ao reencontrá-lo parece que nada mudou, o amor continua alimentando essa amizade. Logo, se sabemos que o amor permanece e que ele reside no atemporal, por que temos medo de que as pessoas que amamos saiam de nossas vidas?

Nosso medo é de que o amor não seja suficiente e que, com o tempo, percamos aquilo que tanto cultivamos. Essa insegurança nasce do apego que nos faz querer evitar os ciclos da vida a todo custo. Amar, portanto, não é somente a capacidade de estar ao lado do outro nos bons e maus momentos, mas também reconhecer o momento em que o outro precisa ir. Desse modo, o amor não se torna em corrente que obriga os amantes a estarem eternamente ao lado um do outro, mas sim a capacidade de continuar feliz ao ver o amado vivendo aquilo que lhe é próprio. 

Mais uma vez voltemos ao exemplo de pais com seus filhos: qual pai ou mãe não fica feliz ao ver um filho fazendo aquilo que gosta, ganhando a vida através de suas escolhas e méritos? Mesmo que isso implique viver em outra cidade, não vê-lo constantemente e ter tanta saudade que parece, por vezes, que não iremos aguentar, o amor continua presente e vivo, pois sentimos felicidade ao ver que o outro está verdadeiramente bem. 

Por fim, assim como no curta, se amamos alguém, devemos sempre deixar a porta aberta. Não expulsando essa pessoa de nossas vidas, mas dando-lhe a liberdade de escolher ficar ou viver outras experiências. Não nos cabe agir sobre o outro, muito menos obrigar quem deseja sair a ficar conosco. Se realmente amamos, sabemos que esse sentimento é vivido internamente, uma felicidade inexplicável para quem ainda não a viveu e por isso poderemos sempre senti-la, seja ao lado de alguém ou não.

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