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Há muitos debates polêmicos em torno da real possibilidade de regeneração, ou não, de pessoas que cometeram algum tipo de crime contra a sociedade. Nossa pretensão hoje não é fazer uma análise sociopolítica do contexto dos Indivíduos ou, muito menos, realizar uma abordagem psicológica do comportamento dos sujeitos sobre o seu real processo de ressocialização. É refletir sobre o tema da regeneração a partir de algumas ideias filosóficas que podem nos ajudar a colocar um pouco de luz em nossas vagas opiniões que, por vezes, se baseiam numa desesperança e ausência de fé no futuro Humano. E se, ao término dessa leitura, você se sentir ao menos motivado a refletir sobre essa temática por uma via que não esteja dentro do maniqueísmo tão comum dos debates, já nos damos por satisfeitos.

Ao longo da experiência humana, há inúmeros casos de pessoas que aprenderam a dar novos sentidos às suas vidas após momentos difíceis e erros cometidos. E não precisamos ir muito longe, um exemplo recente está no artigo publicado pela BBC, em meados do segundo semestre do ano passado (colocar o artigo da BBC). A publicação relata a transformação da vida de um preso através do seu amor pelos números. Christopher Havens, prisioneiro americano, que cumpre 25 anos por homicídio, descobriu o seu amor pela matemática depois de se ver condenado e isolado de sua família e de toda a sociedade. 

Com muito tempo livre, Havens começou a estudar profundamente a matemática e o fruto de seus estudos já rendeu vários avanços na teoria dos números, deixando pesquisadores do mundo inteiro perplexos. A sua história, fez o mundo relembrar o matemático André Weil, irmão da filósofa Simone Weil, reconhecido pela a sua obra da teoria dos números e geometria algébrica. Fala-se que André traçou as suas importantes descobertas a partir de sua prisão, enquanto cumpria pena no período da II Guerra Mundial.

A partir desses dois exemplos, ressalvadas as diferenças e contextos, qual ponto em comum podemos perceber nesses dois Indivíduos? Arriscariamos dizer que em ambos os casos, esses Indivíduos conseguiram ter acesso a alguma percepção ou intuição muito profunda, através do Amor à ciência. Uma fresta que não só os possibilitou importantes avanços matemáticos, mas, talvez, também o encontro consigo mesmos para além dos resultados dos cálculos. Nesse aspecto, o próprio conceito da matemática rompe as barreiras da técnica, que tão comumente, costumamos restringir, e abre espaço para que a nossa percepção de Ciência se amplie de maneira Misteriosa.

A Ciência vista para além da sistematização e das práticas de conhecimentos, nos aponta para o caminho da busca da Verdade. Não é por acaso que para algumas civilizações antigas, a palavra ‘Ciências’ esteve intimamente relacionada à busca por revelar as Verdades Ocultas e Misteriosas para o Homem. Sabemos que com o passar do tempo, esse processo científico foi se afastando da metafísica e ganhando características mais empiristas. O interessante aqui é que a capacidade do fazer científico, ou da Ciência, era vista por essas sociedades antigas como uma habilidade Humana ao lado da Religião, da Arte e da Política.

Para os sábios da antiguidade, uma sociedade só cumpriria seu papel como civilização se fosse capaz de possuir as quatros dimensões citadas acima. Há escritos do filósofo Platão, por exemplo, em que ele vai afirmar que é vital à Condição Humana a capacidade de buscar e reconhecer o que é Atemporal, Eterno e Transcendente (Religião), a habilidade de produzir e reconhecer Valores Estéticos (Artes), a necessidade de interação social (Política) e por fim, a busca investigativa pela Verdade por trás de cada coisa (Ciência).

Segundo os gregos, semelhante aos vértices de uma pirâmide ligados a um único ponto, essas dimensões estão unidas a um ponto central dentro do Indivíduo, proporcionando a existência de um Todo, uma Integralidade, constituindo uma espécie de coluna vertebral. Mas, se porventura, um desses vértices for suprimido ou negado, vamos nos desumanizando e nos reduzindo às nossas necessidades mais instintivas e egoístas, desconsiderando o Todo.

De posse desse conceito filosófico, podemos voltar ao processo de regeneração de Christopher Havens. Certamente, por questões inexplicáveis nesse momento, Havens conseguiu acessar a sua Condição Humana através do seu Amor pelos números porque, possivelmente, seu olhar transcendeu os limites da técnica e roçou os ares de sua mais íntima Humanidade. Chistopher sabe que precisará pagar pelas consequências dos seus erros, mas o processo de consciência que foi capaz de adquirir o posiciona como alguém que não só quer pagar pelo seu erro, mas quer retornar para a sociedade com algo que possa minimizar seu crime.

Existe uma máxima atribuída aos filósofos gregos que diz que um Indivíduo não nasce pronto, mas vai se construindo ao longo do tempo, à medida que vai se conhecendo e crescendo enquanto Ser Humano. Independente se concordemos ou não com essa premissa, a verdade é que quando nascemos, chegamos no mundo que já está pronto, e como aprendizes vamos absorvendo a cultura, os valores familiares e da sociedade, na qual estamos inseridos. Entretanto, à medida que o tempo passa, vamos aprendendo também, geralmente, através de erros e acertos, a construir a nossa individualidade em meio a tudo o que nos foi entregue. Dentro dessa perspectiva, cada pessoa trilha o seu próprio caminho e vai passando pelas experiências necessárias na construção da consciência de sua Identidade. Assim, vamos a partir de nossas vivências, abrindo possibilidades para construir não só a nós mesmos, mas o mundo que nos cerca, independentemente, de todas as construções sociais, valores temporais e processos de cognições que ajudaram a nos formar enquanto Ser Humano. Por isso, acreditamos sim, no processo de regeneração do Indivíduo, independentemente dos erros que tenham cometido contra a sociedade. Entretanto, precisamos garantir aos mesmos as condições necessárias para a expressão de sua mais profunda Humanidade. Que possamos ser geradores dessas condições e possamos ser pontes para a construção de Seres Humanos Felizes por terem a convicção de que estão cumprindo com o seus propósitos da Vida.

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