Por muitos milênios a filosofia e a ciência caminharam de mãos dadas. Não estamos, contudo, falando da ciência moderna, baseada no método científico e no seu empirismo, mas sim em um caminho de busca pela Verdade Universal. Nesse sentido, os grandes filósofos da antiguidade foram, à seu modo, cientistas também. Tomemos como exemplo o grego Aristóteles, também conhecido como “pai da ciência”. Seu método investigativo abriu portas para, o que mais de 20 séculos após sua morte, viria a ser o racionalismo europeu.

Não deixemos cair no esquecimento, porém, que a ciência, à rigor, é mais um meio de desvelar os Mistérios do Universo e, baseando-se nisso, cumpre um papel fundamental em nossa sociedade. De igual modo, esse papel foi cumprido pelas religiões, que também tratam de explicar o Cosmos e suas causas, mas por outros meios. Se hoje utilizamos a teoria do Big Bang para entender como o Universo foi criado, na Índia antiga falava-se das respirações de Brahma como razão para a existência do Cosmos. Assim, por caminhos distintos ambas pretendem chegar a um mesmo destino: a explicação de todos os segredos do Universo.

Frente a isso, talvez não seja difícil crer que um cientista, no sentido mais puro da palavra, seja alguém que deseje compreender e chegar à Verdade. Apesar da imagem que o senso comum criou acerca dos cientistas, sempre frios e calculistas, céticos e enfurnados em seus laboratórios, a história nos prova que os grandes investigadores do nosso tempo foram, em maior ou menor grau, homens e mulheres que buscaram ampliar seu método de busca pela Verdade. Não raramente, eles apoiaram-se em diversas fontes, nem todas científicas, para compreender e enxergar um pouco além do que nossos olhos comuns permitem.

Podemos citar diversos exemplos nesse sentido. Isaac Newton, o grande físico e descobridor da Lei Geral da Gravitação, era um homem religioso e que tinha plena certeza que Deus seria uma Lei única que rege a todo o Cosmos. Talvez, e isso é somente um palpite, ele tenha encontrado sua resposta ao descobrir a gravidade e como sua força atua no Universo. 

Albert Einstein, de maneira similar, também foi um cientista que expandiu sua visão de mundo e bebeu de diversas fontes, não limitando-se apenas à especulação científica. Mundialmente conhecido por sua teoria da relatividade, Einstein enfrentou grandes problemas dentro da comunidade científica por não aceitar pensar apenas a partir do método científico. Mesmo assim, suas descobertas foram tão importantes que não foi possível ignorar o tesouro que havia sido achado com a relatividade geral. Mas o que, exatamente, tornava Einstein um cientista não bem visto em sua comunidade?

Em grande parte, por sua ligação com a Filosofia esotérica. Até onde sabemos, não há registro de que o físico alemão tenha, de fato, participado de grupos esotéricos, porém, não restam dúvidas de que ele conhecia acerca das ideias dessa corrente filosófica. Isso porque, segundo diversos relatos, Einstein tinha como livro de cabeceira a “Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, a principal representante do movimento esotérico do século XIX. Para entendermos suas ideias, entretanto, precisamos recorrer um pouco à sua Biografia. Helena Petrovna Blavatsky, ou HPB, nasceu em 1831 na Rússia e desde cedo mostrou-se uma pessoa distinta. Os relatos afirmam que a jovem Helena possuía poderes psíquicos, sendo capaz de realizar pequenos truques que são inexplicáveis. Interessada em conhecer a Verdade do Mundo, HPB iniciou sua jornada atrás do conhecimento ainda aos 19 anos e viajou por diversos países. Reunindo o maior número de ideias possíveis, ela compilou os ensinamentos que recebeu em diversos livros, sendo o mais famoso deles “A Doutrina Secreta”, um exemplar de vários volumes. 

Blavatsky foi responsável por fundar a Sociedade Teosófica, uma importante escola de filosofia que existe até os dias atuais. A sociedade teosófica, em grande medida, tem como função a disseminação de um ideal de Unidade, que busca levar a humanidade até a Sabedoria. Desse modo, a busca de HPB e da sua escola de filosofia se misturam com a perspectiva científica, pois ambas têm como finalidade encontrar as respostas que nos faltam frente ao Universo. Considerando tais questões, não é de espantar-se considerar que um verdadeiro cientista teria, no mínimo, interesse em compreender as ideias tratadas por esse movimento. Vale ressaltar, inclusive, que outros cientistas foram membros efetivos da Sociedade Teosófica, como Thomas Edison, o inventor da lâmpada. Assim, antes de mais nada, não tomemos esse movimento filosófico como uma mera especulação baseada na tradição Oriental, mas sim como uma importante fonte de Sabedoria da qual diversas pessoas buscam beber.

Para além desses aspectos, a doutrina secreta é um livro em que apresenta-se uma verdade Universal acerca da criação do Cosmos e da origem da humanidade. Muitos a tratam como um tratado religioso, às vezes quase fantasioso nas descrições de HPB, porém, ao investigarmos a fundo, perceberemos que sua mensagem é de mostrar que a humanidade é uma só e, sendo assim, compartilha de um destino comum. Refletindo sobre isso, nos prendemos, na maior parte do tempo, a enxergar nossas diferenças enquanto Seres Humanos: criamos castas, nos separamos uns dos outros por não aceitar a cor, o sexo, a religião, ou mesmo uma escolha qualquer de vida que tenha sido tomada. Esquecemos, geralmente, de enxergar o que temos em comum e que nada, sejam os costumes de um tempo ou as distâncias físicas, pode mudar a nossa natureza humana. Não importa onde nascemos e morremos, nem mesmo qualquer aspecto circunstancial em que nos encontramos, continuamos exercendo nossa humanidade. Assim seguimos em nossa jornada, aparentemente separados, mas unidos. 

Frente a isso, Einstein considerava que a humanidade deveria, no longo prazo, extinguir suas fronteiras (que são, essencialmente, artificiais) e criar uma nova sociedade, em que toda a Terra fosse uma única nação, pois, somos uma mesma humanidade. Ideia similar ao que se apresenta na doutrina secreta e nos demais escritos de HPB, na qual concebe a ideia de uma ciência-religião única, que une todos os povos e que caminhe, com passos firmes, em direção aos Mistérios do mundo. A esse grandioso Mistério, Einstein escreveu:

“O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o mesmo sentimento que desperta a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação, ou se não pode mais experimentar assombro ou surpresa, já é um morto-vivo, e seus olhos se cegaram.  A realidade secreta do mistério que constitui a religião é, também,  aureolada de temor.  Por isso os homens reconhecem algo de impenetrável às suas inteligências, mas eles conhecem as manifestações externas  desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Os homens se confessam limitados, e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, sou profundamente religioso. (…) Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida.”

“Como Vejo o Mundo”, Albert Einstein, pp. 12-13

Esse é um fragmento muito interessante, pois mostra que existe uma possibilidade de conciliação entre a ciência e a religião. A mesma união que pregava Blavatsky no fim do século XIX agora aparece nas palavras de Einstein, que mesmo sendo, nesse momento de sua vida, o maior cientista do mundo mostrava-se ainda ser religioso. Entendamos bem: religioso não significa dizer fanático, mas sim alguém que deseja criar essa ligação entre o Universo e os Seres Humanos. Afinal, a palavra “religião” significa isso: religar. O próprio Einstein coloca tais condições ao falar que “somente deste modo, sou religioso”, ou seja, somente na busca de contemplar e compreender o Mistério da Vida, na busca de uma resposta que torne inteligível o que, a priori, não pode ser racionalizado. Assim, o grande físico alemão se converte em um “sacerdote” da ciência, fazendo do seu desejo de conhecer o motor que impulsiona a humanidade para suas descobertas. Assim, ser cientista não é apenas uma profissão, mas um verdadeiro desejo de religar-se aos Mistérios que abundam no Cosmos. 

Einstein, portanto, para exercer seu sacerdócio, não limitou-se aos métodos científicos. Em sua biografia, admite que sua descoberta da relatividade não se deu pelas complexas equações matemáticas, mas sim por um “insight”, uma dedução lógica que, apesar de “simples” precisou de décadas para ser levada a sério, pois carecia de explicações que usassem os meios da ciência. Feito isso, Einstein entrou para a lista dos grandes pensadores do mundo, que revolucionou seu tempo a partir de suas ideias. Para isso, é claro, precisou contar com mais do que somente a ciência e os números. Sua dedução da relatividade está cercada de um profundo sentimento de Unidade, de tentar unir todas as teorias e leis em uma única ideia, que possa abarcar todas as demais e reunir todas as coisas à sua volta. Em grande parte, esse também era seu desejo para com a humanidade, o que ainda não foi realizado.

Quem sabe, porém, um dia não estejamos aptos a viver como Einstein sonhou. Há poucos meses foi provado, de forma indelével, que sua teoria sobre buracos negros estava correta – algo que a ciência só sabia a partir de cálculos. Assim, levou-se quase 100 anos para que o que um dia o físico alemão nos disse ser comprovado. Talvez leve mais um século para que seu sonho de uma única humanidade seja comprovada também.

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