Somos seres sensíveis. Não, não estamos nos referindo a ficar emocionados ao assistir um filme ou uma bela cena cotidiana, mas ao que realmente se trata a palavra “sensível”, que nada mais é do que aquele que usa os sentidos. É evidente que os nossos sentidos são nossa forma primária de percepção do mundo, afinal, tocamos com o nosso tato os objetos e sabemos sua textura e dureza, observamos as cores e as formas com nossos olhos, sentimos os mais diversos aromas com o nosso olfato e degustamos através do paladar os mais distintos sabores. Por último, e certamente não menos importante, escutamos os sons da natureza com a nossa audição.

É através da audição que diferenciamos os ruídos de uma máquina usada na construção civil de uma bela sinfonia de Mozart. A captação dessas vibrações e sua diferenciação é um processo biológico, mas o seu impacto não está limitado apenas ao nosso organismo físico. Sem dúvidas, existem músicas que fazem parte da trilha sonora de nossas vidas, que causam um impacto emocional tão profundo que podemos escutá-las repetidamente durante horas e nos emocionar todas as vezes. Assim, é através da audição que a arte da música pode nos causar diferentes sensações e expressar muito mais do que uma série de vibrações harmônicas durante um intervalo de tempo.

Uma das sensações mais conhecidas é o arrepio. Muito provavelmente, meu querido leitor, você já presenciou ou mesmo sentiu isso. Ocorre, por vezes, que ao escutar uma determinada música, mesmo sendo a primeira vez que entramos em contato com ela, acabamos por sentir todo nosso corpo arrepiar. Uma sensação de bem-estar misturada com um impacto psicológico percorre nossa epiderme, e ficamos, por vezes, sem saber os motivos que nos levaram a isso. Afinal, por que essa estranha reação ocorre?

Antes de nos aprofundarmos nesse tema, se faz pertinente um convite: se você tem uma relação especial com a música, é muito provável que algumas canções já tenham lhe ajudado a superar algum trauma psicológico ou que tenha reverberado profundamente em sua alma. Frente a isso, deixamos aqui o convite para o texto “ “A Música como Remédio para Corpo e Alma”, para que você possa compreender um pouco mais sobre como essa forma de arte, tão presente em nossas vidas, pode servir como um bálsamo ao longo da nossa existência, não apenas no sentido metafórico, já que, como no texto que indicamos, fisicamente é provado que pode ser um excelente aliado no processo de cura.

Voltando para a nossa temática, qual será a resposta para esses arrepios que sentimos ao ouvir uma música? A ciência, uma das maiores aliadas da sabedoria, busca uma resposta para esse mistério. Para desvendar essa questão, um estudo foi realizado por pesquisadores de Harvard com dois grupos de pessoas. No resultado, constatou-se que todos os participantes ficaram com o coração acelerado ao ouvir música. Entretanto, só um grupo se arrepiou. Para esta justificativa, os pesquisadores analisaram a estrutura cerebral destes participantes, encontrando conexões intensas entre algumas regiões do cérebro. Ou seja, quem possui essa característica consegue se envolver mais sensorialmente com músicas.

Nesse sentido, há, de fato, uma explicação biológica para os arrepios que sentimos. Porém, vale destacar a forma como a música interage em nosso cérebro, ativando não apenas aspectos físicos através da vibração, mas principalmente no campo psicológico. No estudo apontado, as estruturas cerebrais mais desenvolvidas ligam-se ao campo emocional, e por isso somos afetados diretamente pela música ao nos emocionarmos. Quem nunca sentiu, por exemplo, esses arrepios ao tocar uma música que nos lembra nossa infância, ou talvez o nosso primeiro grande amor? O que ocorre é que dentro do nosso cérebro ativa-se não apenas o campo responsável por traduzir as vibrações em nosso organismo, mas também o campo emocional; e quando essas duas regiões estão fortemente conectadas, acaba-se por ocorrer uma reação física do corpo.

Considerando esse aspecto, essa reação física é, em última instância, o resultado de um processo psicológico. Tanto que não é sempre que, ao escutarmos uma determinada música que nos faz arrepiar, esse fenômeno ocorre. Se fosse um processo puramente biológico e mecânico, o arrepio deveria ocorrer sempre. O que isso diz sobre nós? Uma verdade incontestável: somos seres dinâmicos. Se por um lado nosso organismo não muda tanto de um dia para o outro, no campo emocional, vivemos verdadeiras metamorfoses em pouco tempo. Basta pegarmos nossas retrospectivas dos últimos anos e observarmos as diferentes canções que embalaram nosso ano. Talvez há músicas que continuam sendo nossas favoritas; porém, é muito provável que outras tantas tenham perdido seu posto como “uma das mais escutadas”, e outras, sejam novas ou velhas canções, tenham assumido esse local em nosso coração. 

Isso ocorre não apenas por uma variação do nosso gosto musical, mas principalmente pela carga emocional depositada nessas músicas. Como nossas emoções são extremamente voláteis, também as reações causadas pela música o são. Nesse aspecto, a biologia não pode se ampliar ao ponto de nos darmos uma resposta puramente física para esse fenômeno pois, como bem sabemos, o ser humano vai muito além de um organismo com funções bioquímicas. Assim, a ciência vem provando que o mundo psicológico que habita em cada um de nós não é apenas uma função cerebral, mas que se converte em um universo aberto, capaz de se ramificar e se diferenciar de tal modo que cada indivíduo se torna, de fato, único na natureza.

Ampliando o tema, outras pesquisas também foram realizadas e constataram que o arrepio tem a ver com uma resposta à expectativa que colocamos ao ouvir uma música. Isso pode estar relacionado à sua própria estrutura, quando essa corresponde aos padrões de harmonia reconhecidos pela nossa mente, ou mesmo por resgatar algo em nossa memória que nos traga alguma emoção. Nesse sentido, mais uma vez, a função biológica do cérebro encontra respaldo no campo emocional e isso gera o fenômeno do arrepio. Assim, não é apenas uma questão de escolher a “música certa”, mas principalmente aquela que lhe toca de tal maneira, que faça relembrar de um momento emocionante. 

Sabendo de todas essas informações, agora temos um convite: que tal fazer a experiência você mesmo e ver se, de fato, algumas músicas podem te fazer arrepiar? Pare, respire e ouça essas músicas abaixo. Talvez você não as conheça, porém, a música clássica é, em geral, usada como trilha sonora de filmes, séries e outras tantas produções artísticas. Desse modo, talvez alguma dessas músicas lhe cause nostalgia, te faça sentir uma emoção profunda ou até mesmo lhe transporte, psicologicamente, para um momento de sua infância. Faça o teste e em seguida nos conte, aqui no campo dos comentários O que você sentiu.
Mendelssohn: 4. Sinfonie (»Italienische«):

W.A. Mozart – Serenade For Winds; K 361; 3rd Movement:

Forrest Gump Theme – Alan Silvestri:

Ennio Morricone – Cinema Paradiso:

Por fim, vale lembrar que o fenômeno de arrepiar-se não ocorre apenas com a música. Desde a sensação do tato até uma lembrança marcante são capazes de nos fazer arrepiar. Assim, podemos aprender que o ser humano é, em última análise, um ser integrado e nada está fora do seu alcance. Não podemos dividir nosso organismo em um corpo e uma mente, pois, no fundo, um não funciona sem o outro. O processo de autoconhecimento, enfim, perpassa todos esses aspectos para que sejamos seres integrados e íntegros. Para a filosofia, essa integração entre pensamentos, sentimentos e ações caracteriza um indivíduo, ou seja, aquele que jamais se divide. Assim, conhecer aquilo que nos afeta e o modo como nos afeta é uma maneira de aprendermos não apenas sobre o nosso corpo e nossas emoções, mas também como sermos cada vez mais donos do nosso próprio ser.

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