Geração Z e o Ativismo Político Digital: Uma Juventude Cansada, Mas Não Resignada

Durante anos, a geração Z foi descrita a partir de adjetivos negativos como “cansada”, “acomodada” ou “fraca”. Grande parte dessa perspectiva se dá quando comparamos as facilidades da vida que essa geração leva com as das demais gerações, que nasceram e cresceram sem o advento de um mundo tão tecnológico como o nosso. É comum assistirmos a reportagens que comentam sobre jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e o início da década de 2010, que costumam aparecer como sujeitos esgotados, sobrecarregados por crises sucessivas e pouco dispostos a participar da vida pública de maneira ativa. 

Entretanto, um fenômeno curioso tem se alastrado nos últimos tempos: quando o mundo entra em momentos de tensão política e social, essa narrativa começa a ruir. Basta observarmos as ondas de protestos organizados no Nepal, no Peru e em tantos outros países e logo perceberemos que esse movimento foi liderado por jovens da geração Z, usando a tecnologia ao seu favor e quebrando todas as imagens de passividade que o senso comum alimenta sobre esses meninos e meninas que estão redescobrindo a força da juventude. Tais atos demonstram que a nova geração está longe da apatia e que agora são eles que têm ocupado as ruas e também as redes sociais.

Jovens da geração Z liderando protestos políticos em meio à crise global
Juventude em marcha: o protagonismo da geração Z nas tensões globais

É importante entendermos que tais protestos não surgem do nada. O mundo, do ponto de vista geopolítico, tem se tornado cada vez mais instável, e isso repercute na política interna de cada nação. Assim, esse cenário de insatisfação e revolta se pauta em um contexto global marcado por instabilidade econômica, crises ambientais, desigualdade social e descrédito nas instituições tradicionais. Frente a isso, muitos imaginavam que os jovens simplesmente iriam aceitar os desmandos de governantes e aceitar as condições externas que outros países e governos iriam lhe impor. O cenário que percebemos, porém, aponta para algo completamente diferente e que, em geral, ninguém esperava. Como explicar essa postura “ativa” da geração Z?

Uma das explicações está justamente no meio em que essa nova geração foi criada. Diferentemente de gerações anteriores, a geração Z cresceu em meio a fluxos constantes de informação, acompanhando conflitos em tempo real, assistindo à erosão de promessas políticas e aprendendo, desde cedo, que o futuro não é garantido, o que lhe permitiu não apenas fazer leituras mais precisas do mundo atual, visto a quantidade de informação disponível, como também ter reações rápidas a cada nova notícia ou movimento feito pelos seu governantes.

Jovem da geração Z acompanhando notícias políticas em tempo real no celular
Informações em fluxo: como a geração Z interpreta o mundo em tempo real

Ainda assim, ou talvez justamente por isso, esses jovens desenvolveram uma relação própria com a política, menos institucionalizada ou ligada a sindicatos e bandeiras partidárias, mais horizontal e profundamente conectada à vida cotidiana e suas necessidades. Quando as tensões se acumulam e transbordam, eles não apenas reagiram, mas também foram capazes de usar a velocidade das redes ao seu favor e conseguiram se articular e mobilizar protestos tão efetivos que chegaram a derrubar governos, como no caso do Nepal.

Quando o cansaço se transforma em ação

Visto a força desses acontecimentos, se faz necessário repensar essa ideia de uma “geração cansada” que tanto gostamos de afirmar quando pensamos nos mais jovens. Será que realmente são assim, ou nós, que já não bebemos da fonte da juventude, estamos enxergando as novas gerações sob um olhar rígido, apenas por não se parecem conosco? Talvez tenhamos que encontrar um novo termo para classificá-los ou aprofundar nessa ideia para enxergarmos o que tanto nos incomoda nessa nova geração.

Sendo assim, pensemos sobre essa ideia de geração cansada. Inicialmente há, de fato, certa razão para enxergarmos os jovens dessa maneira, pois o que não faltam são exemplos de comodismo frente ao ritmo frenético em que os mais velhos cresceram. Portanto, falar em uma “geração cansada” não é, em si, completamente equivocado. Até mesmo os jovens da geração Z relatam esse cansaço através de sintomas como fadiga emocional, ansiedade e frustração diante de sistemas que parecem não oferecer respostas. 

Talvez seja aí que se encontra o nosso equívoco. Acabamos supondo que esse cansaço leva automaticamente à inércia e à indisposição. O fato de se mostrarem emocionalmente machucados não os impede de exercer um pensamento crítico ao que lhe ocorre, pois eles compreendem a necessidade de agir no mundo, mesmo não tendo lidado com suas feridas. E isso se mostrou justamente nos momentos de maior tensão, quando os protestos recentes, em diferentes partes do mundo, mostraram que essa aparente exaustão se transformou em combustível político. 

Jovens na Ásia estão furiosos com o que consideram uma corrupção endêmica em seus países

No Nepal, por exemplo, manifestações lideradas por jovens mostraram uma insatisfação profunda com a corrupção, a lentidão das reformas e a distância entre governantes e governados. Esses protestos não foram explosões momentâneas, mas processos organizados, articulados majoritariamente por meio da internet, com forte presença de estudantes e jovens trabalhadores.

O mesmo padrão pode ser observado no Peru, onde protestos massivos em 2025, organizados pela geração Z, ganharam visibilidade internacional, especialmente a partir de crises políticas recentes, marcadas por sucessivas trocas de presidentes, denúncias de corrupção e instabilidade institucional. Para muitos jovens peruanos, a política deixou de ser um campo distante para se tornar uma força que impacta diretamente o cotidiano, seja pela precarização econômica, seja pela falta de confiança nas instituições.

Poderíamos citar outros locais como Bangladesh, por exemplo, em que a geração Z também foi bem-sucedida em seus protestos, mas não precisamos desenvolver esses casos. Torna-se mais interessante perceber as características comuns dessas organizações que lideraram tais revoltas aos governos de diferentes países e, sem dúvida, devemos colocar como principal característica a internet. Para além de um mundo virtual, a internet se tornou também, nesse contexto, um espaço de organização, debate e visibilidade e que, graças à sua liberdade e anonimato, se tornou difícil de repreender, mesmo quando alguns governantes tentaram limitar o seu uso. 

Mobilização política digital da geração Z através de redes sociais
Do digital às ruas: como a geração Z usa a internet para organizar protestos

Essa ação, na verdade, foi o que fez os jovens saírem dos protestos online para ganharem as ruas, incendiarem carros e retirarem políticos de sua posição. Ficou nítido que, para a geração Z, o ambiente digital não é um complemento da vida social, mas parte indissociável dela, e que não aceitará qualquer restrição ilegal do seu uso. Protestos no Nepal, no Peru e em outros países demonstram como redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo se tornaram verdadeiras praças públicas, onde ideias circulam, estratégias são discutidas e identidades políticas se constroem de forma praticamente orgânica. 

Diferentemente das formas tradicionais de mobilização, que dependiam de partidos, sindicatos ou lideranças centralizadas, esses movimentos se organizam de maneira mais distribuída, com múltiplos centros de decisão. Ao mesmo tempo, essa dinâmica digital não reduz a importância das ruas, mas redefine sua função. As manifestações presenciais são frequentemente o ápice de processos longos de articulação online, em que um assunto é alimentado e passa a ser difundido em grande escala. A geração Z, que cresceu dentro dessa dinâmica, é expert e domina a linguagem visual, os memes, os vídeos curtos e as narrativas que funcionam nesse meio. 

Logo, ao utilizar em larga escala a internet como meio para difundir ideias e organização, eles foram capazes de politizar uma massa de pessoas para atuar a favor dos seus interesses. Longe de serem superficiais, essas estratégias revelam uma compreensão profunda de como a atenção funciona na sociedade contemporânea e revela um pouco de como poderá ser o futuro das formas de governo, da dinâmica entre governantes e governados.

A rejeição da política tradicional e a busca por novas formas de participação

Frente a isso, é importante refletirmos como essa nova dinâmica, protagonizada pela geração Z, pode remodelar nossa forma de fazer política. Sem dúvida, esse é o aspecto mais marcante dentro dessa onda de protestos que, a bem da verdade, ninguém foi capaz de prever. Entretanto, já é nítido que o modelo tradicional de política não agrada os jovens. Em sua maioria, não buscam mais a ideologia partidária, muitos desconfiam da integridade dos partidos, parlamentares e lideranças tradicionais, vistos como distantes e ineficazes. Essa desconfiança, no entanto, não se traduz em alienação completa, como se costuma pensar. 

Nas gerações anteriores, por exemplo, falar que não possui um partido ou que não se interessa por esse tipo de política era sinônimo de alienação e, portanto, todos buscavam defender bandeiras, causas e seus diferentes lados. Hoje, porém, essa rejeição à política nasce como uma forma de buscar novas maneiras de praticar seus direitos e deveres sociais, sem cair na alienação ou no dogmatismo partidário.

Essa postura desafia analistas que insistem em medir o engajamento político apenas por indicadores clássicos, como filiação partidária ou comparecimento às urnas. A geração Z participa de maneira diferente, ocupando espaços híbridos entre o digital e o físico, entre o cultural e o político. Em muitos casos, o protesto se torna também um espaço de aprendizado, onde jovens desenvolvem habilidades de organização, comunicação e negociação e criam novos laços, sendo também um ambiente plural. Longe de serem espectadores passivos, eles se tornam agentes ativos na construção de alternativas, mesmo quando essas alternativas ainda estão em processo de formação.

Dito isso, devemos entender que essa nova forma de politização não significa ausência de reflexão ou mesmo indecisão frente às narrativas que, em geral, são contrárias e que produzem o embate político. Na verdade, o que podemos observar é que a geração Z tem tentado ampliar sua percepção da política, evitando os extremos. 

Outro aspecto interessante das mobilizações da geração Z é a incorporação de elementos culturais e criativos nas formas de protesto. De certo modo, isso sempre ocorreu, pois a cultura, em suas mais distintas manifestações, sempre esteve ao lado da política. Porém, a geração Z fez com que a música, a arte urbana e as performances ocupassem um lugar de destaque nas manifestações. 

No Peru, murais, canções e intervenções artísticas transformaram espaços urbanos em palcos de contestação política. No Nepal, símbolos culturais locais foram ressignificados para expressar demandas contemporâneas. Isso mostra como os jovens também seguem não apenas produzindo um novo movimento político, mas também avançando em outras áreas e contestando, em definitivo, a falsa ideia de ser uma geração que está fadada ao comodismo.

Expressão artística da geração Z em protestos políticos
Arte como resistência: a expressão política cultural da geração Z

Visto isso, outra questão sobre a qual devemos refletir é como esses protestos lançam um novo horizonte sobre o futuro – não somente o da nova geração –, uma nova percepção sobre a política. A geração Z, ao se mobilizar, não está apenas denunciando problemas antigos, mas também ensaiando formas alternativas de organização social, que pouco se espelha no passado e usa de ferramentas atuais para conseguir um maior alcance e engajamento. Frente a isso, é curioso notar como as redes sociais, muitas vezes criticadas por seu poder alienante, pode ser usada como uma ferramenta de mobilização rápida e eficaz. 

Assim, através de fóruns da internet e aplicativos, se criam assembleias horizontais, redes de apoio mútuo e iniciativas comunitárias, iniciativas que até então se apresentavam como experimentos de novos modelos de convivência e participação política, mas que já mostram um grau de eficácia, visto os resultados pelo mundo.

Uma geração cansada, mas não resignada

Diante de tantos exemplos de mobilização, é legítimo perguntar por que o estereótipo da geração Z como apática ou desinteressada ainda persiste. Parte da resposta está na dificuldade de reconhecer formas de engajamento que fogem aos modelos tradicionais, algo que os mais velhos conhecem bem, ignorando ao mesmo tempo esses novos modelos realizados pela geração Z. Vale ressaltar que isso não é um problema em si, mas um traço natural quando há um embate de gerações, visto que os mais velhos querem preservar a forma que já conhecem, enquanto os mais novos tentam inovar e mostrar novas possibilidades.

Desse modo, quando jovens não se comportam como se espera, recusando hierarquias rígidas ou discursos formais, sua ação é frequentemente deslegitimada e, em geral, ridicularizada pelos mais velhos. Esse descrédito faz com que o estereótipo de ser uma geração cansada continue. Além disso, há um interesse político e midiático em retratar a juventude como imatura ou volátil, minimizando o impacto de suas demandas, mesmo quando apresentam pontos relevantes e novas maneiras de reivindicar seus direitos.

Esse estereótipo também ignora as condições materiais que moldam a vida da geração Z. Muitos jovens enfrentam precariedade econômica, dificuldades de acesso à educação e instabilidade no mercado de trabalho. Ainda assim, conseguem encontrar tempo, energia e criatividade para se mobilizar, algo que por si só deveria ser louvado. O fato é que essas mobilizações nem sempre resultam em mudanças imediatas, assim como toda e qualquer manifestação; porém, o que não podemos perder de vista é o seu efeito a longo prazo e sua importância diante da mentalidade atual, que está se renovando.

Sobre esse aspecto, ao observar os protestos liderados pela geração Z, é comum surgir a pergunta sobre seus resultados concretos. Críticos apontam que muitas dessas mobilizações não resultam imediatamente em reformas profundas ou mudanças institucionais duradouras. No entanto, essa leitura ignora dimensões fundamentais do impacto político. No Nepal, mesmo quando demandas específicas não foram plenamente atendidas, os protestos expuseram fissuras no sistema político, forçando autoridades a responder publicamente e ampliando o debate sobre corrupção e governança. Já no Peru, embora reformas estruturais avancem lentamente, a pressão constante da juventude alterou o vocabulário político, colocando temas como violência estatal, desigualdade e direitos sociais no centro da agenda nacional.

geracao z protestando no Nepal
Manifestantes no Nepal exibem bandeira com símbolo do mangá One Piece durante protesto

Portanto, esses efeitos não devem ser subestimados. Mudanças, sejam elas profundas ou simbólicas, sempre são precedidas por uma transformação na postura individual das pessoas, especialmente em contextos de estruturas rígidas e resistência institucional. Nesse aspecto, a geração Z parece compreender, ainda que intuitivamente, que o engajamento político é um processo cumulativo e que se consolidará apenas ao longo do tempo, mesmo que desejemos mudanças a curto prazo. Cada protesto, cada ocupação, cada campanha digital constrói memória coletiva e amplia os limites do possível e força os governantes a repensarem suas estratégias de governo.

Por fim, devemos lembrar que a geração Z, por mais surpreendente que tenha se mostrado, ainda é uma geração de jovens e que, por força da sua própria natureza, irá cometer erros. Exageros e violência relatados nesses protestos são um sinal de que há ainda muito o que aprender, não apenas por parte de quem vê ou recebe os protestos, mas também dos próprios manifestantes. Esse aprendizado será um caminho natural e que todos nós, à medida que vamos envelhecendo, desenvolvemos, em maior ou menor grau. Ainda assim, se mostra valoroso o esforço de se colocar na vida social e mostrar que uma geração pode até estar cansada, mas nunca resignada.

Essa geração não promete soluções simples nem mudanças imediatas. O que ela oferece é algo talvez mais valioso: a recusa em aceitar o silêncio como destino. Nos protestos do Nepal, da Colômbia e de tantos outros lugares, a geração Z mostra que, mesmo em um mundo marcado por crises sucessivas, ainda há espaço para mobilização, criatividade e esperança crítica. O futuro da política, ao que tudo indica, passará inevitavelmente por esses corpos jovens que, longe de estarem parados, seguem em movimento constante.

Depois de refletir sobre o papel político e social da geração Z, vale a pena conferir também o texto “Aprenda a Ressignificar a Vida”, que explora como a maneira como interpretamos e ressignificamos nossas experiências influencia nossa capacidade de agir no mundo.

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