Os vínculos parassociais surgem quando acreditamos estar próximos de alguém, mas, na realidade, estamos apenas próximos da imagem que projetamos dessa pessoa. Nesses casos, acabamos nos relacionando não com a pessoa em si, mas com a imagem que geramos dela, seja por carência ou por desejo de obter algum benefício. Essa dinâmica, infelizmente cada vez mais comum em nosso dia a dia, é conhecida como “vínculos parassociais”.
Os vínculos parassociais surgem quando uma pessoa estabelece uma sensação de intimidade, conexão ou proximidade emocional com alguém que não retribui a relação na mesma intensidade ou, em muitos casos, sequer sabe que ela existe. Desse modo, acabamos por não enxergar o outro como ele realmente é, mas sim o que esperamos ou desejamos dele.

Essa relação, portanto, deixa de ser um espaço de encontro de duas ou mais pessoas e passa a ser uma extensão das nossas carências. Para colocar em exemplos, basta pensarmos numa relação entre pai e filho, em que o pai, por total desconhecimento do filho em si, ao perceber que este cometeu algum erro, afirma: “Nunca esperei isso de você. Sempre te vi como uma boa pessoa”. Nesse caso, o que ocorreu? O pai, em sua ilusão, relacionava-se com a imagem que projetou no filho, com virtudes, boas intenções e caráter. No entanto, se tivesse observado com maior percepção, notaria que o filho pouco ou nada disso tinha.
Dito isso, é importante lembrar que, embora esse conceito tenha se tornado muito conhecido na era das redes sociais, ele não é novo. Há décadas esse tipo de laço aparece em diversas relações, principalmente no que tange às celebridades. Comumente, observamos nos noticiários relações desastrosas entre fãs e artistas, por exemplo.

Ao vermos um ídolo, nestes casos, achamos que a pessoa que está na frente das câmeras é exatamente igual quando sai dos holofotes; porém, a realidade acaba sendo mais dura do que a fantasia que criamos sobre determinada pessoa. Logo, podemos entender que os vínculos parassociais são, na verdade, uma distorção das relações que podem ocorrer por diversos fatores, como a carência e o utilitarismo.
Apesar de frequentemente discutidos no contexto da mídia, os vínculos parassociais também são úteis para entendermos algo ainda mais profundo sobre nós mesmos e a forma pela qual, muitas vezes, tratamos as relações humanas, como instrumentos para suprir nossas carências. Como isso ocorre? Precisamos entender que todos nós possuímos carências, seja a nível físico ou psicológico. Elas podem se manifestar em diferentes contextos, mas o fato é que, conscientes ou não, muitas vezes essas carências são os balizadores de nossas relações modernas.
Quantos casais não se separam por medo do divórcio ou do que os outros vão “falar”? E quantas amizades são mantidas apenas quando há um contexto favorável, ou seja, quando ambas as partes estão bem, e assim que a vida de um dos lados começa a “apertar”, o outro, como uma névoa, desaparece da vista? Essas relações, que infelizmente só crescem ao longo do tempo, mostram o quão frágil e utilitarista está a nossa maneira de conviver uns com os outros.
A causa, como falamos, é, em último grau, a carência. Quando carregamos feridas emocionais não curadas, tendemos a olhar para os outros com uma expectativa de que preencham o espaço deixado por nossas inseguranças. Entretanto, o outro não pode ser o responsável por fechar as nossas feridas. Esse processo é tão sutil que muitas vezes nem percebemos que estamos fazendo isso, por isso normalmente acabamos confundindo essa projeção no outro com sentimentos profundos, como o amor e a admiração.
A diferença entre esse falso amor e o verdadeiro, porém, se revela com o tempo. Basta a pessoa “amada” não corresponder à imagem que criamos e logo ficamos desapontados, com uma sensação de traição, pois o outro não foi aquilo que projetamos que ele seria. E, enfim, culpamos o outro por um problema que nasceu e se mantém dentro de nós mesmos: de enxergar os demais como uma tábua de salvação das angústias emocionais quando, na verdade, nesse roteiro existencial somos nós que precisamos nos salvar.
O perigo dos vínculos parassociais na vida real
Como podemos perceber, os vínculos parassociais são, no fundo, uma forma de utilitarismo. É preciso, porém, deixar claro que não utilizamos o outro por maldade ou intenção manipuladora, mas por carência de afeto, na grande parte das vezes. Ainda assim, a dinâmica é a mesma: buscamos aquilo que o outro pode nos oferecer, seja atenção, conforto, validação ou qualquer outro aspecto, sem realmente nos comprometermos com o que significa estar presente em uma relação humana.
Nesses casos o utilitarismo se manifesta de maneiras discretas. Talvez busquemos uma pessoa apenas quando estamos tristes, ou só mantemos contato enquanto ela satisfaz nossas necessidades emocionais. Talvez estejamos ali pelos benefícios sociais, pelo prestígio que o outro possui, pelo sentimento de pertencimento, pelo status que aquela relação gera, ou simplesmente por não querermos lidar com nossa própria solidão.
A verdade é que, quando nos relacionamos apenas para aliviar nossas dores, começamos a transformar pessoas em ferramentas; e isso, dentro de nós, faz com que não a enxergamos como seres humanos, mas como objetos para satisfação pessoal. O vínculo social, algo fundamental para a nossa vida humana, deixa de ser uma construção conjunta e se torna uma via unilateral. Assim como um espectador espera algo de um influenciador sem participar de fato da vida dele, também esperamos que pessoas próximas preencham o vazio que carregamos, muitas vezes sem oferecermos nada em troca.

Consequentemente, quando o utilitarismo guia as relações, elas se tornam frágeis. Não por acaso, vivemos no que Zygmunt Bauman chamou de “sociedade líquida”, uma vez que as relações humanas se transformam rapidamente e não existe mais solidez em nada. Basta que o outro deixe de atender às nossas necessidades para que o laço que nos conecta seja desatado. É comum então que as relações se rompam repentinamente, sem diálogo ou qualquer elaboração. Isso gera uma sensação profunda de instabilidade emocional, pois a pessoa que vive dessa dinâmica está sempre à mercê da própria carência, e a qualquer momento pode ser que os vínculos criados com amigos e parceiros de vida sejam desfeitos em poucos instantes.
O fato é que no mundo atual as relações se tornaram cada vez mais descartáveis e isso é um péssimo sinal para a nossa sociedade. Estamos inseridos em um mundo que valoriza a cultura do imediato, do fácil e do sem esforço. Porém, vínculos verdadeiros são construídos gradativamente no tempo, com paciência, com sinceridade e com compromisso, enfrentando adversidades e bons e maus momentos. São construídos com imperfeições, com adaptabilidade e diplomacia, afinal, ninguém é perfeito. Ao contrário dos vínculos parassociais, onde tudo pode ser idealizado, relações reais pedem coragem para convivermos com os limites e falhas do outro. E essa coragem é justamente o que torna os laços humanos tão profundos.
Frente a isso, podemos perceber a razão que nos leva a buscar relações superficiais e descartáveis, pois sustentar vínculos recíprocos exige uma habilidade emocional que nem sempre aprendemos ao longo da vida. Em muitos momentos, eles nos exigem paciência, empatia e outras tantas virtudes que nos tornam bons em conviver. É mais simples usar o outro como apoio emocional do que participar ativamente da vida dele, e isso torna mais cômodo preencher nossos vazios com imagens do que com encontros reais. Se quisermos romper com a lógica dos vínculos parassociais, precisamos nos comprometer com o risco e a beleza das relações verdadeiras.
É importante entendermos que esse tipo de construção social tem consequências. Quando nossas relações são guiadas por expectativas unilaterais, projeções e carências, pagamos um preço emocional alto. Esse custo raramente é percebido de imediato, pois seus sintomas não se revelam facilmente, mas acumulam-se e, aos poucos, minam todas as nossas relações. O resultado, naturalmente, é um campo afetivo frágil, permeado por inseguranças, por desconfiança e por uma sensação constante de que falta algo mesmo quando estamos rodeados de pessoas.
A exaustão emocional é um dos primeiros sinais de que estamos vivendo relações utilitaristas. Ela surge quando nos sentimos constantemente sobrecarregados pela expectativa de que o outro nos salve de nossas carências. De maneira prática, podemos observar que estamos nesse tipo de relação quando esperamos que o outro responda nossas mensagens de maneira quase imediata, quando exigimos demasiadamente demonstrações de afeto, enquanto que, muitas vezes, nós mesmos oferecemos muito pouco.
Ao mesmo tempo, a sensação de desconexão aumenta porque, em vez de construirmos intimidade com o outro, estamos apenas tentando preencher nossos vazios internos por meio dele. Quanto mais fazemos isso, mais solitários nos sentimos, o que começa a gerar um efeito bola de neve, no qual sempre procuramos fora o que, no fundo, só poderemos encontrar curando a nós mesmos.

Não por acaso, em muitos casos, essa exaustão leva a um sentimento de confusão emocional, pois acabamos nos perdendo no mar de emoções e já não sabemos mais se gostamos da pessoa pelo que ela realmente é ou pelo que ela representa para nós. Esse embaralhamento é um dos efeitos mais delicados dos vínculos parassociais, pois estes nos impedem de enxergar a realidade das relações, porque tudo passa pelo filtro da carência.
Como evitar que vínculos parassociais dominem a vida pessoal
Considerando o contexto em que estamos inseridos, é fundamental tentarmos quebrar o ciclo de relações parassociais. O mundo já vive na superficialidade e desafiar esse status quo requer coragem de buscar criar laços reais em uma sociedade de aparências. Assim, devemos evitar que vínculos parassociais se tornem o eixo de nossas relações, e para alcançar esse objetivo é fundamental estarmos vigilantes com nossos próprios afetos.
Se assim não o fizermos, podemos cair na armadilha da dependência emocional, uma maneira da carência se manifestar em nosso cotidiano. É nesse cenário que cresce a ilusão nas relações sociais e com ela, a incapacidade de estabelecer vínculos consistentes. Para evitar que isso aconteça, precisamos cultivar hábitos emocionais que reforcem a presença e a reciprocidade nas relações, além de desenvolver uma consciência mais nítida de nossos padrões afetivos.
Além disso, é importante nutrir relações das mais diversas possíveis, seja com novas amizades, melhorando o diálogo em família ou mesmo participando mais ativamente no seu bairro ou no local em que vive. Ao passo que criamos novas formas de nos relacionar, com pessoas diferentes, podemos aprender novas maneiras de criar vínculos. Quanto mais amplo for o nosso círculo emocional, menor é a chance de colocarmos expectativas excessivas sobre uma única figura, seja ela real ou imaginada.
Do mesmo modo, conhecer os limites emocionais que possui são fundamentais quando se trata de vínculos saudáveis. Eles não são barreiras que afastam as pessoas, mas contornos que protegem de relações abusivas ou tóxicas. Quando sabemos onde terminam nossas expectativas e onde começam as possibilidades reais do outro, conseguimos nos relacionar de forma mais justa. Logo, quanto mais claros estivermos sobre nossas próprias emoções, mais fácil será diferenciar um vínculo real de um vínculo idealizado, o que ajuda não apenas a nós mesmos, mas todas as pessoas que se relacionam conosco.
Rompendo com vínculos parassociais internos
Agora que já compreendemos os perigos dos vínculos parassociais, é preciso estabelecer uma estratégia para rompê-los. Vale ressaltar que romper com vínculos parassociais não significa simplesmente abandonar pessoas ou cortar relações, mas sim transformar a forma como nos vinculamos a essas pessoas. Nesse sentido, está muito mais relacionado a conseguirmos reorientar nossa postura interna diante da maneira como criamos tais vínculos.
Deixamos claro que esse não é um processo simples, muito menos rápido. Não podemos mudar em um dia o que construímos ao longo de anos; portanto, deve-se entender que criar novas formas de se relacionar exige um grau generoso de delicadeza, introspecção e honestidade, principalmente com nós mesmos. Assim, devemos parar e nos perguntar: “Estou me relacionando com a pessoa ou com o que ela representa para mim?” Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder, mas também uma das mais libertadoras quando conseguimos encontrar a verdadeira resposta.
Afirmamos isso porque todo processo de mudança começa pela consciência. Reconhecer que estamos nos relacionando de maneira utilitarista pode ser desconfortável, mas é essencial para começar a nossa transformação. É importante entender que essa aceitação não é uma culpa, ou seja, não devemos nos punir, mas compreender que este é o ponto em que estamos no momento atual e que, a partir desse ponto, podemos expandir. Precisamos identificar os momentos em que usamos o outro para aliviar uma carência, em que idealizamos comportamentos, em que exigimos uma reciprocidade que nunca foi construída.
Esse reconhecimento é o que permite que o vínculo deixe de ser uma projeção e se torne uma relação, afinal, só podemos transformar aquilo que enxergamos. Quando percebemos nossos padrões, abrimos espaço para questionar nossa forma de amar e para construir vínculos mais verdadeiros.
Dito isso, a profundidade de um vínculo verdadeiro não está apenas no que compartilhamos, mas em como nos permitimos existir ao lado do outro. Laços genuínos são capazes de superar diferenças e até mesmo discordar do outro, mas sem perder a conexão dessa relação. É nessa possibilidade de viver o contraditório, de ter a liberdade de expressar pensamentos e sentimentos que nasce a verdadeira intimidade. Intimidade, a bem da verdade, é muito mais do que se sentir confortável na presença do outro: é ser capaz de poder ser você mesmo e ainda assim compreender que o outro não te abandonará – naturalmente, o inverso também é real.
Sendo assim, a intimidade não nasce de grandes gestos ou momentos extraordinários. Ela cresce no cotidiano, em conversas sinceras e em pequenos momentos que marcam as pessoas. Os vínculos sólidos, que realmente perduram, se nutrem do tempo, da constância e da paciência, diferentemente dos vínculos parassociais que são alimentados pela expectativa e pelo desejo do que o outro pode me proporcionar.
Por fim, construir relações verdadeiras é um trabalho contínuo e precisa sempre estar em manutenção. Para muitos, esse é um trabalho que vale a pena ser feito, afinal, o ser humano não é uma ilha, precisamos estar vinculados uns aos outros. Já que é necessário estar conectado, por que não permitir que os laços que nos envolvem sejam cada vez mais profundos e resistentes ao tempo? Por que entregar nossa energia ao efêmero ou à inconstância, ficando à mercê das vulnerabilidades emocionais que, como um mar revolto, insistem em naufragar nossos sonhos?
Podemos perceber que não nos parece real apostar em tanta inconsistência. Assim, que bom será alimentar nossas relações com sinceridade, criando vínculos tão poderosos quanto uma montanha. Para tanto, exige-se que, para surgir tal relação, é necessário galgar pedra por pedra, construir tijolo por tijolo. É uma forma de constância, perseverança e paciência com o outro. É uma escolha que se renova a cada encontro, e essa escolha não é feita porque o outro (ou nós) é perfeito, mas sim porque acreditamos que podemos avançar e melhorar cada vez mais esse belo vínculo que construímos entre nós.

Sendo assim, o convite que fazemos para todos os leitores é simples: arrisquemo-nos a viver relações reais e sejamos os rebeldes desse mundo líquido. Deixemos de lado nossas fantasias, pois estas nos permitem apenas navegar em um mar de ilusões. Sejamos mais ousados e passemos a cultivar sentimentos verdadeiros, que não podem ser desfeitos, mesmo que o outro não tenha nada a nos oferecer; pois, no fundo, é exatamente assim que nasce uma verdadeira amizade: no desinteresse pessoal e na construção de interesses humanos.
Portanto, permita-se criar laços que não se sustentam em idealizações, mas em uma saudável convivência. Os vínculos mais belos não são aqueles que preenchem todos os nossos vazios, mas aqueles que nos acompanham na jornada de compreendê-los e, no fim, é isso que nos mantém vivos por dentro; pois, apesar da realidade imperfeita que vivemos, podemos ter a certeza de que essas são relações reais, que transpassam o tempo e o espaço e que perduram pela eternidade.
Para aprofundar ainda mais a compreensão sobre como nossas carências moldam os vínculos que construímos, recomendamos a leitura do artigo “Autoconhecimento, um caminho para o Eu interior”, publicado no portal Feedobem. Ele oferece reflexões fundamentais para fortalecer a qualidade das conexões afetivas. Acesse clicando aqui



