Coleção “Brasileiros que mudaram a ciência”: Tatiana Sampaio

A ciência é uma das maiores conquistas da humanidade. Apesar de pensarmos que a busca pela verdade seja um privilégio moderno, o fato é que, desde tempos imemoriais, o ser humano busca entender o universo ao seu redor. O que hoje chamamos de ciência e método científico em outros tempos foi visto como formas de filosofia, de religião e práticas que, apesar de não possuírem o rigor do método atual, se embasam em lógicas próprias e uma percepção una do mundo.

Desse modo, é possível afirmar que o ser humano há muito tempo busca por respostas. Esse impulso de querer saber não é mera curiosidade, mas uma necessidade profunda de compreender o mundo para sobreviver e evoluir. Ao transformar perguntas em investigação e investigação em conhecimento, conseguimos melhorar não somente a forma que enxergamos a vida, mas também ampliar o horizonte de possibilidades ao nosso redor.

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Graças a isso, foi possível enxergar a evolução da técnica e da tecnologia humana, e a cada novo passo uma nova gama de experiências se tornava possível. Foi a ciência que permitiu que a humanidade deixasse de viver à mercê das intempéries da vida. Vacinas reduziram epidemias, avanços na agricultura combateram a fome, tecnologias médicas ampliaram a expectativa de vida e sistemas de comunicação encurtaram distâncias. Nada disso surgiu por acaso ou por sorte, tudo foi fruto de observação, experimentação e avanço ao longo de séculos.

Quando entendemos como uma doença se espalha ou como uma planta cresce melhor, estamos ampliando nossa capacidade de proteger a vida, seja a nossa ou a de outros seres. Nesse sentido, a ciência não é apenas um campo de estudo, mas principalmente uma ferramenta de transformação coletiva que permite ao ser humano viver mais, melhor e com mais profundidade acerca do mundo ao seu redor. A ciência é como uma chama que ilumina um mundo escuro, assombrado por demônios, como diria Carl Sagan, e permite enxergar na penumbra o que antes era apenas escuridão.

Dito isso, hoje falaremos de uma brasileira que através da ciência está mudando a perspectiva da humanidade. Estamos falando de Tatiana Sampaio, principal nome no estudo da polilaminina, uma proteína criada em laboratório que ajuda no tratamento de pessoas que perderam seus movimentos devido a lesões na medula. O pequeno passo que Tatiana tem conquistado é, no fundo, um grande avanço na medicina e abre novas portas para curar lesões que, até o momento, se mostravam irreversíveis.

A trajetória de Tatiana Sampaio

Antes de entendermos a descoberta de Tatiana, é fundamental conhecermos sua história, afinal, ninguém chega ao patamar de cientista à toa. Sendo assim, a trajetória de Tatiana Coelho de Sampaio não começa nos laboratórios de alta complexidade, nem nas manchetes que anunciaram a possibilidade de pessoas com lesão medular voltarem a andar. Nascida em 1966, sua carreira acadêmica começou na Universidade Federal do Rio de Janeiro, passando pela graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado por essa instituição.

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Tatiana Sampaio

Sua formação em biologia aprofundou-se na biologia celular e molecular, compreendendo que é nesse nível microscópico que se encontram as chaves para transformar a medicina. Esse passo a fez se especializar em bioquímica e química de proteínas, área na qual alcançou suas descobertas. Ao aplicar o conhecimento com experimentos e testes clínicos por mais de 20 anos, foi possível chegar a resultados extremamente positivos para fazer pessoas tetraplégicas voltarem a andar. 

Frente a esse cenário, é importante ressaltar que toda carreira de Tatiana Sampaio esteve ligada à pesquisa acadêmica, demonstrando assim o valor para um país ter uma ciência capaz de ter autonomia e sem estar ligada diretamente ao mercado. Muitas vezes, devido a interesses comerciais, pesquisas são abandonadas ou mesmo sabotadas, mesmo que, a rigor, elas sejam um benefício à humanidade. Entretanto, quando desvinculadas de tais compromissos mercadológicos, é possível avançar com mais integridade em direção a novas descobertas. 

tatiana sampaio

Dito isso, o ambiente universitário não apenas forneceu infraestrutura laboratorial, mas também fomentou o diálogo crítico necessário para qualquer avanço científico relevante, pois Tatiana, assim como qualquer outro cientista, não trabalhou sozinha em seus experimentos e, no fundo, essa conquista é o resultado de milhares de mãos, cérebros e pessoas. É nesse contexto em que Tatiana pôde conseguir avançar como pesquisadora e formadora de novas gerações, orientando estudantes e ampliando redes de colaboração científica.

Considerando tais aspectos, por que debruçar-se sobre uma proteína? Algo que parece “irrelevante” num primeiro momento revela, no fundo, o pouco que sabemos sobre a biologia humana. Assim, para entender a pesquisa de Tatiana Sampaio, é fundamental sabermos minimamente do que se trata uma lesão medular. Esse tipo de lesão é uma das condições mais devastadoras da medicina contemporânea e ocorre quando há uma ruptura nas fibras nervosas da medula. Nessa lesão os sinais elétricos que permitem o movimento e a sensibilidade deixam de circular adequadamente, tendo como resultado a paraplegia ou tetraplegia, condições que alteram drasticamente a autonomia do indivíduo. 

Ilustração detalhada de lesão medular e sistema nervoso central
A complexidade da lesão medular e seus impactos neurológicos

Durante décadas, a ciência considerou que o sistema nervoso central possuía capacidade regenerativa extremamente limitada, e por isso tais tipos de lesão eram irreversíveis. Ao contrário da pele ou do fígado, que se recompõem após lesões, os neurônios da medula dificilmente se reorganizam de forma funcional. Essa crença tornou-se quase um dogma, um limite tácito imposto à esperança de milhões de pessoas ao redor do mundo; afinal, se a condição dessa estrutura é não se regenerar, por que perder tempo tentando algo que, a priori, é “impossível”?

É justamente nesse ponto que a trajetória de Tatiana se destaca. A ciência avança quando alguém ousa questionar aquilo que parece definitivo. Em vez de aceitar a irreversibilidade como sentença final, ela passou a investigar os fatores moleculares que impedem a regeneração neural. A pergunta que guiava suas pesquisas era simples na formulação, mas complexa na execução: o que falta no ambiente lesionado para que os neurônios voltem a crescer? Se durante o desenvolvimento embrionário o sistema nervoso se forma com impressionante eficiência, haveria como recriar parte dessas condições no organismo adulto?

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Essa linha de raciocínio levou-a ao estudo da laminina, uma proteína presente na matriz extracelular que desempenha papel fundamental na orientação do crescimento neuronal durante o desenvolvimento. A laminina funciona como um “mapa bioquímico”, guiando os neurônios para que formem conexões adequadas. A partir desse conhecimento, surgiu a ideia de desenvolver uma molécula capaz de potencializar ou reorganizar esse ambiente, criando condições favoráveis à regeneração mesmo após uma lesão grave.

O surgimento da polilaminina e a nova fronteira da regeneração

Foi assim que nasceu a polilaminina, uma molécula projetada para atuar como suporte estrutural e sinalizador bioquímico para o crescimento neuronal em áreas lesionadas. O conceito por trás dessa descoberta é elegante em sua simplicidade teórica e sofisticado em sua execução, pois, ao oferecer um substrato que favoreça a extensão dos axônios – as longas projeções dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais – seria possível estimular a reconexão das fibras interrompidas pela lesão.

Polilaminina estimulando regeneração neural em lesão medular
Representação da regeneração de axônios em ambiente favorável

Os primeiros resultados experimentais indicaram que a polilaminina poderia, de fato, modificar o ambiente hostil que se forma após uma lesão medular. Em vez de encontrar apenas barreiras químicas e inflamatórias, os neurônios passariam a dispor de um caminho mais favorável ao crescimento; e isso, em tese, apresentaria um quadro de melhora na lesão com possibilidade, junto a outros tratamentos, do retorno dos movimentos. Essa hipótese, que inicialmente parecia ousada demais para muitos, começou a ganhar respaldo empírico a partir dos primeiros testes. Cada experimento foi conduzido com extremo cuidado, respeitando protocolos e método científico.

À medida que os resultados se tornaram mais consistentes, o impacto extrapolou os limites do laboratório, ganhando fôlego para a aplicação em testes clínicos. A possibilidade de restaurar movimentos em pessoas com lesão medular despertou enorme interesse público e científico. Contudo, Tatiana sempre enfatizou que a ciência precisa caminhar com responsabilidade. Avanços promissores não significam soluções imediatas, nem podem ser vistas como uma mágica, afinal, é preciso observar efeitos colaterais, possíveis rejeições e ajustes ao longo do processo. A transição de experimentos para aplicações clínicas envolve fases rigorosas de testes, avaliação de segurança e acompanhamento a longo prazo.

Essa postura prudente é parte essencial da ciência. Muitas vezes, queremos soluções imediatas, mas o que a busca por esse caminho revela é que a pressa é, sem dúvida, inimiga dos resultados. Não há solução simples e, para tornar algo realmente aplicável em humanos, é fundamental minimizar todas as possibilidades de risco e variantes. Assim, os avanços científicos são frutos de décadas de experimentação, mas quando chegam, revolucionam a nossa vida.

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Por isso que, a rigor, as notícias de “milagre da ciência” devem ser observadas com cautela, pois mesmo espalhando tais ideias para a sociedade, a realidade é que ainda não é um cenário totalmente seguro a se afirmar. Relembramos, portanto, que a ciência não se constrói sobre promessas, mas sobre evidências e resultados palpáveis. Visto isso, não tenhamos dúvidas: ainda há muito a ser investigado, validado e aprimorado. A regeneração medular continua sendo um dos maiores desafios da medicina contemporânea; no entanto, a trajetória de Tatiana demonstra que os limites científicos não são muros intransponíveis, mas fronteiras provisórias. Cada avanço amplia o horizonte e redefine aquilo que consideramos possível.

A ciência como expressão de humanidade

Usando como exemplo a trajetória de Tatiana Sampaio, podemos refletir sobre como a ciência, assim como outras grandes áreas do saber – como a religião, a política e a arte – são formas de expressão da humanidade. De fato, não podemos achar que ciência se resume a fazer experimentos, ou mesmo pensar de maneira lógica acerca dos fenômenos da natureza; mas é, antes de tudo, uma capacidade dada apenas ao ser humano, pois somos capazes de refletir, experimentar, mudar, construir e inovar a partir das descobertas que fazemos. Desse modo, podemos dizer que esse é, em resumo, um dos pontos em que nos diferenciamos dos outros seres e que, portanto, se mostra como uma verdadeira expressão de nossa natureza.

Impacto humano da pesquisa de Tatiana Sampaio na lesão medular
A ciência como ponte entre laboratório e vida real

Como expressão da humanidade, a ciência não tem limites, a não ser a nossa própria capacidade. Por isso, ao longo da história, fomos capazes de descobrir e manipular o fogo, mandar um homem à Lua e investigar os cantos mais distantes do cosmos. Ainda assim, diante da vastidão que se apresenta aos nossos olhos, o mundo ainda é misterioso perante essa forma racional de ciência que praticamos. Ainda assim, como ferramenta, é por ela que canalizamos nosso desejo de saber, nossa ânsia em descobrir o que há por trás dos fatos objetivos do mundo.

Por isso, a ciência moderna não se limita a explicar fenômenos naturais, mas ser capaz de compreender uma lei da natureza e usá-la ao seu favor. Não se trata de explicar o mundo, mas “dançar” conforme a música da natureza, sendo capaz de adaptar, flexibilizar e até mesmo recombinar o que, a priori, seria impossível. Quando uma pesquisa aponta para a possibilidade de devolver mobilidade a alguém que perdeu a capacidade de andar, como no caso de Tatiana, estamos diante de algo que transcende o campo técnico: de algo capaz de restaurar a própria natureza de uma pessoa que, devido a acidentes ao longo da existência, perdeu essa capacidade.

Dentro dessa perspectiva, é fundamental aprendermos a humanizar o processo científico. É urgente entender que por trás de cada dado estatístico existe uma história pessoal, alguém que tem sonhos, medos e que não é apenas outro número em uma pesquisa. Pessoas que sofreram acidentes, doenças ou traumas e que, de um dia para o outro, viram sua mobilidade comprometida. A lesão medular não afeta apenas músculos e nervos, ela altera principalmente rotinas, redefine identidades e impõe desafios emocionais profundos. 

Nesse contexto, a pesquisa liderada por Tatiana passou a dialogar diretamente com a dimensão humana da ciência. Não se tratava mais apenas de compreender mecanismos moleculares, mas também de oferecer uma possibilidade concreta de mudança. Por isso, não é interessante alimentarmos a ideia do cientista como um estereótipo, alguém trancado em um laboratório, quase alheio a vida comum, que pensa apenas no seu resultado. Isso não é real e a ciência, cada vez mais, está próxima da humanidade; e o cientista, naturalmente, também exerce um papel humano nesse processo, desde contato com pacientes até entender as dores que afligem as pessoas submetidas aos estudos.

Uma história que transcende o laboratório

Embora a história ainda esteja em andamento, já é possível reconhecer que sua contribuição ultrapassa resultados específicos. O verdadeiro legado de Tatiana Sampaio e sua grande contribuição para a humanidade talvez estejam na demonstração de que dogmas podem ser questionados e que a perseverança científica é capaz de abrir novas fronteiras. Cada experimento, cada publicação e cada orientação acadêmica compõem um mosaico que inspira futuras gerações e que possibilita o avanço científico, mesmo nos terrenos que pareciam impossíveis.

A ciência é uma obra coletiva e contínua. Nenhuma descoberta está encerrada em si mesmo, ao contrário, cada uma apresenta apenas uma nova etapa de uma longa jornada. A trajetória de Tatiana Sampaio simboliza esse movimento permanente de expansão do conhecimento. Visto isso, jamais poderíamos resumir a trajetória de Tatiana Sampaio a uma única molécula ou a um único experimento. Ela, enquanto cientista, simboliza a capacidade humana de desafiar limites considerados intransponíveis.

Destaque do carnaval: Tatiana Sampaio! - 18 de fevereiro de 2026 (Foto: Nando Motta)
Destaque do carnaval: Tatiana Sampaio! – 18 de fevereiro de 2026 (Foto: Nando Motta)

E isso apenas reforça que a ciência, quando orientada pelo desejo de melhorar a vida das pessoas, torna-se uma das mais nobres expressões da humanidade. No final das contas, o nosso caminho de evolução está em ajudar o próximo, seja com um gesto, uma boa ação ou uma descoberta que pode mudar a nossa maneira de encarar uma doença. Se ao fim dos nossos atos constatarmos que todo esforço tem como objetivo principal melhorar a humanidade, então tudo se torna válido. Nosso conhecimento, nesse contexto, não deve ser usado para vaidades ou glórias pessoais, mas ser um meio para alcançarmos essa realidade, em que ajudar o próximo seja tão natural quanto respirar.

Enquanto houver perguntas sem resposta e desafios aparentemente insolúveis, haverá cientistas dispostos/as a investigar, testar e imaginar novas soluções. A trajetória de Tatiana Sampaio é testemunho de que a ciência, quando aliada à persistência e à ética, pode transformar não apenas teorias, mas principalmente destinos humanos.

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