Qual o jogo mais bem sucedido da história? Essa não é uma resposta simples, visto o critério que podemos usar para avaliar o que chamamos de “sucesso”. Entretanto, não restam dúvidas de que, ao pensar nessa pergunta, podemos pensar em “Mário” como uma das opções viáveis de resposta. Essa franquia é uma das mais importantes e longevas da história dos videogames, sendo capaz de se adaptar não apenas ao mundo dos games, mas também ao cinema e a outras formas de entretenimento.

Para muitos jovens de hoje, Mário pode parecer apenas um personagem clássico, presente em jogos do século XX e mais um entre tantos no mundo atual. No entanto, por trás desse encanador de bigode, boné vermelho e macacão azul, existe uma trajetória que atravessa décadas, gerações e transformações profundas. Isso por si só já deveria ser motivo para valorizar essa franquia de jogos; porém, tudo se torna mais valioso quando conhecemos um pouco mais a fundo a história desse verdadeiro colosso da história dos videogames.
O nascimento de um personagem que mudaria os videogames
Dito isso, antes de indicarmos os maravilhosos jogos da franquia, é importante entender o contexto histórico em que o jogo “Mário” nasceu. Voltemos, portanto, aos anos 1980 e encontraremos esse singelo personagem, pela primeira vez, em 1981 em um jogo que nem era o seu próprio. Mário começou como um personagem em Donkey Kong, outro clássico da Nintendo, e seu nome nesse primeiro momento era apenas “jumpman”, ou simplesmente “homem que salta”. Nessa primeira aparição, porém, seu objetivo já era o mesmo que os jogos atuais: salvar a princesa Peach.
Como podemos notar, Mário surge em um momento em que os videogames ainda estavam descobrindo sua própria identidade e em que seus jogos, rústicos e limitados, eram uma sensação da época, mas ao mesmo tempo não havia nenhum tipo de consolidação no mercado. A indústria era jovem, experimental e cheia de riscos, como todo empreendimento em seus primeiros passos. Foi nesse cenário que a Nintendo deu vida ao personagem simples, mas com um carisma tão forte que atravessaria o tempo. O sucesso de Mário não foi imediato nem planejado como algo gigantesco, mas acabou se tornando um dos maiores fenômenos da cultura pop mundial.
Outro ponto importante acerca de Mário é que antes do seu jogo existir a Nintendo não era conhecida como uma gigante dos jogos eletrônicos. A bem da verdade, a empresa começou no final do século XIX produzindo cartas de baralho tradicionais no Japão, e por muitas décadas esse era o seu ramo no mundo dos negócios.

Ao longo dos anos, porém, com o avanço da tecnologia e a necessidade de se manter-se competitiva no mercado, a Nintendo tentou se reinventar. Assim, expandiu seus negócios para as áreas de brinquedos e até eletrônicos simples. Foi apenas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 que a Nintendo decidiu apostar com mais força no mercado de videogames, que ainda estava se formando.
Nesse período, os jogos eram simples, diretos e focados em desafios rápidos. Não existiam histórias complexas, personagens profundos ou mundos detalhados; porém, o embrião de tantos personagens marcantes e que cresceram junto com os jogadores é desse período. A Nintendo, portanto, enxergou no pequeno mercado de videogames uma oportunidade de criar algo diferente do que até então se conhecia e saiu na vanguarda deste novo mercado.
Foi assim que os anos 1980 conheceram seus clássicos. Como falado, além do Donkey Kong em 1981, outros jogos, como Pacman e Space Invaders, ganharam notoriedade no mundo inteiro. Com o sucesso do Donkey Kong, a Nintendo decidiu dar mais destaque ao singelo personagem que tentava com afinco resgatar sua princesa e namorada. Ele ganhou o nome de Mário, inspirado em Mario Segale, um empresário americano que alugava um galpão para a Nintendo nos Estados Unidos, e, aos poucos, Mário deixou de ser apenas um personagem secundário e começou a se tornar o rosto da empresa.

Em 1985 o primeiro jogo exclusivo do personagem foi lançado e rapidamente se tornou um sucesso. Uma das razões para a aceitação do público, porém, não era apenas o carismático Mário, mas sim a simplicidade que o jogo, tanto em sua história quanto na sua jogabilidade. Ele não é um herói perfeito, musculoso ou cheio de poderes extraordinários desde o início; muito pelo contrário, Mário é um personagem comum, um simples encanador, que enfrenta desafios maiores do que ele mesmo. Do mesmo modo, sua missão era simples: resgatar a princesa Peach, não importando os desafios que fosse preciso enfrentar. Mário era simplesmente um personagem com uma missão.
Visualmente, Mário foi criado de forma prática. Devemos ressaltar que a limitação tecnológica dos videogames da época contribuíram para isso, visto que naquele momento o principal era garantir a jogabilidade e não necessariamente o design estético, como o dos parâmetros atuais. Assim, a escolha por colocar um Mário de bigode, algo que tornou sua marca registrada, no início servia apenas para ajudar a diferenciar o rosto em gráficos simples. Já o boné evitava a necessidade de animar cabelos, algo mais complexo para os primeiros jogos da franquia. Essas escolhas técnicas acabaram se transformando em elementos icônicos e imortalizando a imagem que ainda hoje temos desse grande personagem.

Frente ao grande sucesso do primeiro jogo do Mário, no qual falaremos mais a frente, a Nintendo criou um universo inteiro para não apenas ampliar a história, mas também criar novas possibilidades de jogos. Luigi, seu irmão mais novo, por exemplo,se tornou um personagem importante dentro da franquia, pois permitia ter um segundo player no jogo, algo importante dentro do universo dos games. Outros personagens – como Bowser, Yoshi e Toad – ajudaram a enriquecer esse universo, tornando os jogos mais interessantes e variados. Cada novo personagem acrescentava personalidade e profundidade à franquia.
Super Mario Bros e a revolução dos videogames
É preciso, porém, exaltar o primeiro e grande jogo da franquia, aquele que iniciou o reinado do encanador mais querido dos games. É verdade que, se pararmos para analisar, dentro da franquia Mário, deve existir jogos que, a termos financeiros, foram mais relevantes; porém, nenhum deles existiria caso não houvesse, em 1985, o lançamento de Super Mario Bros. Esse foi o verdadeiro ponto de virada da franquia Mário. Lançado para o console Nintendo Entertainment System, o famoso NES, esse jogo não apenas popularizou Mário, como também salvou a indústria dos videogames, que enfrentava uma grande crise após o excesso de jogos de baixa qualidade no início dos anos 1980.

Super Mario Bros foi, para sua época, algo revolucionário. Ele não era apenas uma série de fases fechadas ou um jogo quase estático, em que quase não se saía da mesma tela. Pela primeira vez na história dos games um jogo apresentava um mundo, com diferentes regiões, fases, poderes e cores. Era o nascimento do que chamamos de “mundo contínuo”, com fases conectadas, segredos escondidos e uma sensação real de progresso, visto que a cada mapa desbloqueado se enfrentavam monstros em castelos, derrotava-se vilões e resgatava-se novos personagens.
O sucesso foi gigantesco. Milhões de cópias foram vendidas pelo mundo e Mário se tornou sinônimo de videogame. Nos anos seguintes, a Nintendo lançou diversas continuações, cada uma trazendo novas ideias, como fases aquáticas, mundos temáticos e desafios mais complexos. A franquia crescia junto com o público, acompanhando as mudanças tecnológicas e culturais.
Os anos 1990 foram fundamentais para consolidar Mário como uma das maiores referências do entretenimento no mundo dos videogames. Com o lançamento do Super Nintendo, a franquia atingiu um novo nível de qualidade, e jogos como Super Mario World mostraram mundos mais detalhados, trilhas sonoras marcantes e uma jogabilidade ainda mais refinada. Para quem cresceu nessa década, Mário era mais do que um personagem de jogo, pois ele estava presente em revistas, programas de televisão, brinquedos e diferentes aspectos do cotidiano. Jogar Mário era uma experiência social, algo compartilhado entre irmãos, primos e colegas de escola. Esse contato cotidiano ajudou a franquia a se tornar parte da memória afetiva de toda uma geração.
Além disso, a Nintendo soube expandir o universo de Mário para outros estilos de jogos. Surgiram títulos de corrida, esportes e festas, como Mario Kart e Mario Party, que transformaram o personagem em uma figura ainda mais versátil. Mário deixou de ser apenas um herói de plataforma e passou a representar diversão em diferentes formatos, aparecendo inclusive em outros jogos da Nintendo, como Super Smash Bros.

Ainda sobre a expansão da franquia, outro ponto importante foi a chegada do famoso Nintendo 64. Em 1996, o lançamento de Super Mario 64 para essa nova plataforma de videogames marcou um antes e um depois na história desse mercado. Pela primeira vez, os jogadores puderam controlar Mário em um mundo totalmente em 3D, com liberdade de movimento, exploração aberta e uma câmera que acompanhava suas ações, algo inédito em qualquer tipo de jogo. Essa sensação de controle total era algo completamente novo para a época e rapidamente se tornou referência para outros jogos.
Para o público jovem, Super Mario 64 foi uma experiência marcante. O jogo transmitia a sensação de que Mário havia ganhado vida, permitindo que cada jogador explorasse o castelo e seus arredores no próprio ritmo. A Nintendo conseguiu algo raro: inovar profundamente sem perder a simplicidade que sempre definiu o personagem. Não por acaso, após o sucesso de Super Mario 64, a Nintendo continuou apostando em novas ideias para manter a franquia relevante e atual. Super Mario Sunshine levou Mário para um cenário tropical, com cores vibrantes e mecânicas inéditas, mostrando que o personagem podia sair do Reino dos Cogumelos tradicional sem perder seu charme.
Alguns anos depois, Super Mario Galaxy elevou ainda mais o nível de criatividade da franquia. Ao explorar pequenos planetas com diferentes tipos de gravidade, o jogo apresentou uma forma completamente nova de pensar as fases. Para muitos jogadores, foi a prova definitiva de que Mário não era apenas um personagem clássico, mas também um símbolo constante de inovação dentro dos videogames, se mantendo na vanguarda do mercado. Esses títulos ajudaram a consolidar a ideia de que a franquia Mário nunca se acomodou, nem se acomoda.
A presença de Mário fora dos videogames
Com o passar dos anos, Mário deixou de ser apenas um personagem de videogame e se tornou uma figura presente em diversos aspectos da cultura pop. O personagem passou a aparecer em desenhos animados, roupas, materiais escolares e, acima de tudo, brinquedos. Para muitos jovens, Mário faz parte do cotidiano mesmo fora dos consoles, e isso mostra por si só a sua força. Atualmente, mesmo que não lançassem mais jogos da franquia, Mário estaria, sem sombra de dúvidas, imortalizado dentro da cultura do mundo e imortalizado na história.
Deve-se entender que alcançar esse patamar não é algo simples, muito menos um feito realizado por qualquer franquia de jogos. Isso se deu graças à capacidade da Nintendo – e dos fãs dos jogos – em conseguir levar o encanador bigodudo para fora das telas os videogames. Assim, o fato do personagem ter se tornado muito maior do que apenas um jogo de videogames ajudou a construir a sua imagem como símbolo global dos jogos. Independentemente do país ou da língua, Mário é facilmente reconhecido, o que reforça seu papel como um dos maiores ícones do entretenimento mundial.
Frente a isso, também podemos contar a história da franquia Mário para além dos videogames e apresentar filmes, séries e adaptações de sua história de maneira geral. Em relação ao cinema, “Mário” teve altos e baixos ao longo dos anos. A primeira adaptação cinematográfica, lançada em 1993, não conseguiu capturar a essência da franquia e acabou sendo mal recebida, um verdadeiro fracasso visto a expectativa que havia sido gerada. Apesar desse fato, foi um importante passo para entendermos a necessidade da Nintendo em construir uma imagem do encanador fora das telas de videogames.

Décadas depois, com o avanço da animação digital e uma compreensão maior do universo da franquia, Mário finalmente ganhou uma adaptação mais fiel e bem-sucedida. O filme animado, lançado nos anos 2020, apresentou o Reino dos Cogumelos de forma vibrante, divertida e acessível, conquistando tanto fãs antigos quanto jovens que estavam conhecendo o personagem pela primeira vez. Dessa vez, Mário realmente conquistou o mundo do cinema, tanto por ter uma base de fãs bem mais sólida do que nos anos 1990, quanto pela qualidade e maturidade de sua produção.

Como podemos perceber, o impacto cultural de Mário vai muito além dos jogos. Ele ajudou não somente a moldar a forma como os videogames são vistos – deixando de serem apenas um passatempo para se tornarem uma forma legítima de expressão cultural –, como também ganhou outros mercados e se lançou como ícone para todo o mundo.
O que podemos aprender ao jogar Mário?
Visto isso, é fundamental perceber que Mário não é apenas um jogo. Apesar de sua simplicidade, a narrativa nos mostra algo que os games atuais perderam de vista: a capacidade de mostrar ao jogador quem é o vilão e o mocinho. Mário é um herói e tem uma missão clara: derrotar seu inimigo e resgatar a princesa.
Devemos lembrar que o jogo foi pensado para psique infantil de uma criança, ou seja, ele não precisava – e nem precisa – ser extremamente elaborado do ponto de vista narrativo, mas sim transmitir ideias de maneira clara. Nesse sentido, ao entendermos que estamos do lado do bem e que há um vilão, criamos naturalmente uma percepção do que é o certo e errado, algo estimulado dentro da narrativa.
Logo, podemos entender que jogar Mário vai muito além de apertar botões e passar de fase. Os jogos da franquia ensinaram lições importantes de forma leve, quase sem que o jogador perceba. Além do princípio ético abordado acima, uma das principais aprendizagens está relacionada à persistência. Em Mário, errar faz parte do processo, e raramente passamos de todas as fases na primeira tentativa. Cair em um buraco, perder uma vida ou falhar em um salto não significa fracasso definitivo, mas sim uma chance para tentar novamente, afinal, a vida também é feita de erros.
Outra lição importante está na observação e na curiosidade. Os jogos de Mário sempre incentivaram o jogador a explorar o cenário, prestar atenção aos detalhes e testar possibilidades. Desde seus primeiros jogos há caminhos secretos, blocos escondidos e recompensas inesperadas que mostram que olhar com mais atenção pode trazer resultados melhores. Isso estimula não apenas o jogador a pensar melhor em como passar das fases, mas também demonstra como há sempre algo além do que o comum para ser observado. Alguns atalhos são, no fundo, a chance de alcançar recompensas que quem segue o caminho “normal” jamais poderá alcançá-las.

Além dessas lições indiretas, há também importantes aspectos psicológicos que esse jogo pode nos ensinar, como aprender a desenvolver paciência e concentração. Muitas fases exigem calma, tempo certo e atenção na hora de executar seus pulos e façanhas. Avançar sem pensar geralmente leva ao erro, enquanto agir com cuidado aumenta as chances de sucesso.
Nesse contexto, talvez a maior lição que Mário oferece seja a de encarar desafios com otimismo. Mesmo diante de obstáculos difíceis, o personagem segue em frente, com energia e determinação. Ao errar, sempre poderá tentar novamente, encontrando novos caminhos e novas possibilidades. Mário nunca desiste de resgatar sua princesa e completar suas missões, assim nós também devemos ser.
Como podemos perceber, Mário é muito além de um simples jogo. Seu sucesso não pode ser explicado pela limitação do tempo em que foi fundado, mas sim pela capacidade de ganhar o coração dos seus jogadores, seja de qual geração for. Não é à toa que ainda hoje lançam-se jogos dessa franquia, capazes de conquistar ainda mais fãs pelo mundo, pois Mário desenvolve em nós lições tão importantes quanto as que aprendemos na escola.
Portanto, não sabemos afirmar o que o futuro reserva para o encanador mais amado da cultura pop. É possível que os jogos deixem de existir, que não façam mais filmes, nem mesmo que lembremos da música icônica que toca a cada nova fase. Ainda assim, mesmo que nada mais se faça acerca desses jogos, Mário continuará sendo o sinônimo de videogame, pois, graças à sua força, algumas gerações de players aprenderam a amar jogos virtuais. Dito isso, o futuro de Mário parece tão promissor quanto seu passado; afinal, a franquia continua se adaptando às novas tecnologias e formas de consumo, explorando outras possibilidades, como parques temáticos, novas experiências interativas e expansões no cinema.
Por fim, podemos afirmar que a história de Mário mostra que personagens simples podem se tornar gigantes culturais. Mesmo depois de tantos anos, Mário continua correndo, pulando e encantando novas gerações, provando que sua jornada está longe de terminar.



