Série “Ruptura”: O perigo de dividir sua identidade entre trabalho e vida pessoal

A série Ruptura escancara um fenômeno social cada vez mais comum: em diferentes ambientes, assumimos diferentes identidades, como se fôssemos pessoas distintas. No trabalho, em casa ou em momentos de lazer, adaptamos valores e atitudes, criando versões fragmentadas de nós mesmos. Porém, esse tipo de ação só ocorre naquele ambiente, como se nossa personalidade fosse forjada para aquele local. Assim, ao mudarmos de ares, também mudamos a nós mesmos. Há quem, por exemplo, ao viajar de férias, assuma uma nova “personalidade”, ou seja, começa a valorizar e ter ações que em seu cotidiano jamais aconteceriam. O que isso significa? Quem é, afinal, essa pessoa de verdade? A que está de férias ou a do dia a dia?

Capa da serie Ruptura

Esse parece ser, a princípio, um assunto cômico tamanho sua estranheza, porém, infelizmente, hoje se torna uma prática comum. Há pessoas, ainda, que mudam conforme os ambientes e cenários em que são expostas. Ao praticar um esporte, por exemplo, há quem vire outra pessoa, com ações mais competitivas, pouco desportivas e, às vezes, até antiéticas. O mesmo ocorre no trânsito, no mercado, com os amigos, com os familiares e com pessoas desconhecidas.

O fato é que, de certo modo, cada um de nós acaba por moldar-se, a depender do ambiente, em um tipo de persona diferente da que realmente somos. Para alguns, isso é uma característica evolutiva, capacidade de adaptação; para outros, é apenas indefinição e medo de assumir seus valores.

Ainda assim, sobre esse assunto há uma série que conseguiu abordá-lo de maneira inteligente e fazer com que seu público refletisse profundamente acerca dos perigos de esquecer quem se é. Estamos falando da série “Ruptura” (Severance, no título original), que vai muito além de um entretenimento para seus espectadores. Ela é, acima de tudo, uma investigação profunda e inquietante sobre um desejo muito contemporâneo: o de separar a vida em compartimentos, acreditando que, assim, sofreremos menos, lidaremos melhor com nossas frustrações e manteremos sob controle aquilo que nos machuca.

cena da série Severance

Em “Ruptura”, tudo começa quando uma empresa propõe um procedimento inovador: uma cirurgia capaz de dividir a consciência humana em duas versões, uma que só existe no trabalho e outra que só vive fora dele. Assim, você pode viver, literalmente, duas vidas: uma profissional, voltada ao mundo do trabalho, e outra comum, como um cidadão. Desse modo, não se leva trabalho para casa e problemas familiares não afetam sua produtividade, dividindo o ser humano em dois. Será que isso seria bom? Por mais que possa parecer uma ideia esdrúxula em um primeiro momento, simbolicamente já tentamos dividir nossa vida dessa maneira, como falamos acima. 

Frente a isso, fica claro que “Ruptura” é mais do que uma boa produção televisiva: é uma série capaz de nos fazer pensar nas consequências desse tipo de atitude a curto e longo prazo. Ao mergulharmos nos episódios, somos convidados a olhar para nossa própria realidade, que, em muitos casos, nos mostra que, a nível indireto, já tentamos separar todos esses mundos, mas não somos bem-sucedidos. Assim, a série se torna um espelho desconfortável porque leva ao limite uma pergunta: e se fosse possível não levar os problemas do trabalho para casa? E se pudéssemos apagar completamente a vida profissional quando cruzamos a porta de saída do escritório, faríamos esse procedimento?

trailer: Ruptura – Temporada 1 | Trailer Legendado | Behind The…

O mundo da Lumon: qual a nossa identidade?

À primeira vista, essa ideia soa libertadora. Quem nunca desejou deixar para trás pressões, conflitos e frustrações ao fim do expediente? Quem nunca fantasiou uma separação limpa entre quem somos no trabalho e quem somos fora dele? “Ruptura” nasce exatamente desse desejo aparentemente inofensivo, mas o desenvolve até suas últimas consequências, revelando o custo humano, ético e existencial de tentar viver em dois mundos que fingimos serem independentes.

A série se passa, em grande parte, dentro da Lumon Industries, uma corporação tão enigmática quanto opressiva, que oferece aos funcionários um procedimento chamado “ruptura”. Após a cirurgia, o cérebro do indivíduo passa a operar em dois modos distintos: o “interno”, que só existe dentro do ambiente de trabalho, e o “externo”, que vive toda a vida fora dali. Um não sabe absolutamente nada sobre o outro. Para o interno, o trabalho é tudo o que existe; para o externo, o expediente é um vazio completo, um lapso de tempo que simplesmente desaparece e que não pode ser alcançado, como se estivesse dormindo.

dualidade no trabalho

Essa promessa de alívio imediato é sedutora. Para o externo, não há estresse profissional, não há metas, não há chefes nem cobranças, muito menos toda pressão que carregamos quando deixamos o escritório. Já para o interno, não há contas a pagar, lutos a serem vividos, relacionamentos falidos ou dilemas pessoais que possam atrapalhar sua produção, pois tudo que existe só existe dentro do prédio em que uma pessoa trabalha. Cada versão da pessoa acredita estar protegida do sofrimento que a outra carrega, um pacto “perfeito” entre quem está dentro do trabalho e quem está fora, não é mesmo? A Lumon vende essa divisão como um avanço tecnológico e quase espiritual, algo que permite foco, produtividade e, sobretudo, paz.

No entanto, desde os primeiros episódios, fica claro que essa paz é artificial e extremamente frágil. O ambiente da empresa é excessivamente controlado, com regras rígidas para garantir que não haja interferência, nem do mundo externo nem de quem está dentro do prédio. Os corredores parecem labirintos e a sensação de vigilância é constante. O espectador percebe rapidamente que aquela separação, longe de libertar, é na verdade uma grande prisão. A vida do interno é uma prisão sem memória, sem passado e sem futuro. Ela nasce todos os dias ao entrar no elevador e morre simbolicamente ao sair, sem jamais experimentar a continuidade que dá sentido à existência humana.

Foto da serie ruptura 3

Frente a isso, os protagonistas de “Ruptura” não são apenas indivíduos isolados, mas cada um ajuda a construir, ao seu modo, o que podemos chamar de Identidade. Essa palavra nasce do termo “Indivíduo”, que via de regra é traduzida como “indivisível”, ou “aquele que não se divide”. Assim, cada personagem em ruptura nos mostra como essa divisão entre externo e interno constrói identidades que, no fim, se perdem em seus próprios desígnios. 

Ao longo do tempo, os personagens mostram suas contradições e como, no fundo, o ser humano é apenas um e que essa fragmentação é extremamente volátil. Assim, Mark, Helly, Irving e Dylan representam diferentes motivações para aceitar a ruptura, diferentes formas de lidar com a divisão e, principalmente, diferentes consequências emocionais dessa escolha. Dentre eles, Mark é, sem dúvida, o personagem central e aceita o procedimento como uma forma de anestesiar a dor do luto. Fora do trabalho, ele é um homem devastado pela perda da esposa, incapaz de reorganizar a própria vida. A ruptura surge como uma solução pragmática: se ao menos durante o expediente ele não sentir nada, talvez consiga sobreviver.

Essa escolha revela algo profundamente humano: quando a dor parece insuportável, buscamos qualquer mecanismo que nos permite suspendê-la, mesmo que temporariamente. Desse modo, durante 8 horas de sua vida, Mark não sabe que já foi casado, não tem memórias de sua esposa, não sente a dor de um lar vazio, nem carrega a culpa por se sentir só. Naquele momento, ele é apenas mais um funcionário em um dia comum de trabalho. 

Foto da serie ruptura 4

Helly, por sua vez, entra na Lumon por razões que o espectador só descobre aos poucos, mas sua reação imediata à condição de interna é de rejeição absoluta. Ela se recusa a aceitar aquela existência limitada, questiona ordens, desafia regras e expressa um desejo quase desesperado de sair dali. Sua revolta explicita algo essencial: a consciência humana resiste à fragmentação, ou seja, em algum ponto ainda queremos ser nós mesmos e viver como um só. Mesmo sem memória de quem é fora da empresa, Helly sente que aquela vida não está completa, que algo fundamental lhe foi roubado e que viver aquela experiência não lhe acrescenta em nada como ser humano.

Irving e Dylan, cada um à sua maneira, revelam outras camadas do problema. Irving se apega obsessivamente às regras e à mitologia corporativa, como se a ordem externa pudesse compensar o vazio que possui dentro de si. Já Dylan, mais pragmático, encontra pequenas formas de prazer e orgulho dentro daquele sistema, mas também demonstra o quanto essa existência é frágil quando confrontada com qualquer vislumbre do mundo exterior. Todos eles, de alguma forma, buscam fugir de suas realidades e veem na ruptura uma forma de salvação; porém, ao longo do tempo essa perspectiva começa a ruir, pois percebem que, no fundo, é preciso adquirir consciência para lidar com seus problemas, não fingir que eles não existem.

Foto da serie ruptura 5

Dito isso, um dos grandes méritos de “Ruptura” é expor a ilusão de que somos capazes de separar completamente nossas identidades. A série mostra que, mesmo com uma divisão artificial imposta por tecnologia avançada, não podemos perder nossa essência. Emoções atravessam fronteiras, intuições persistem, desconfortos permanecem sem explicação e, por mais que não esteja claro o porquê de tais sensações, algo lhe mostra que algo está errado. O interno sente angústia sem saber por quê; o externo carrega um peso difuso, uma sensação de perda que não consegue nomear. 

Não por acaso, essa ideia dialoga diretamente com a forma como vivemos hoje. Tentamos dividir a vida em “ilhas”: trabalho, família, lazer, redes sociais, vida emocional, vida racional. Criamos personagens diferentes para cada contexto, acreditando que isso nos protegerá. No entanto, a série insiste em mostrar que essa divisão é insustentável a longo prazo. Somos um só corpo, uma só mente, uma só história e um só indivíduo, com uma só alma. Fragmentar essa unidade gera conflitos internos que, cedo ou tarde, emergem.

As “ilhas” da vida moderna

Partindo dessa perspectiva, uma das ideias mais presentes na série e que podemos relacionar diretamente com a vida atual é a de querer, como apontamos acima, dividir nossa vida em setores. Querendo ou não, a mente humana tende a buscar, dividir e classificar tudo que lhe toca; logo, quando olhamos para a nossa própria vida, também buscamos a mesma tendência. Acabamos dividindo nossa vida em diversos “setores”: profissional, amoroso, familiar, individual  etc. Assim, a metáfora central de “Ruptura” dialoga diretamente com a forma como tentamos organizar a vida contemporânea. Essas divisões funcionam, muitas vezes, como mecanismos de defesa, pois nos ajudam a seguir em frente quando tudo parece demais.

Foto da serie ruptura 6

No entanto, a série nos convida a questionar até que ponto essas “ilhas” são realmente saudáveis e sustentáveis. Ao observar os internos, percebemos que a ausência de integração gera uma existência empobrecida, fria e de pouco valor humano. Sem acesso ao todo, cada parte se torna frágil, confusa e manipulável. O interno sofre sem saber por quê; o externo sente um vazio que não consegue explicar, pois não percebe que ambos estão incompletos.

Essa dinâmica reflete algo muito presente fora da ficção. Quantas pessoas vivem como se fossem personagens diferentes em cada ambiente? Quantas sentem que não podem levar certas partes de si para o trabalho, para a família ou para os relacionamentos? Essa fragmentação psicológica constante cobra um preço alto no longo prazo, pois afeta diretamente nossa saúde mental. Problemas como ansiedade, dificuldade de reconhecer sua própria identidade e outras patologias nascem da falta de coerência dentro de nós.

O trabalho como espaço de desumanização

Outro eixo central da série é a crítica ao modo como o trabalho moderno pode se tornar um espaço de desumanização. Na Lumon, o trabalho não é apenas alienado, ele é literalmente desprovido de sentido. Os funcionários não sabem o que produzem, por que produzem ou para quem produzem. Eles simplesmente executam tarefas abstratas, guiados por métricas misteriosas, mas que são exigidas pelos seus chefes.

É muito importante notarmos que essa falta de sentido no trabalho não é acidental na série. Ela reforça o controle e tira a capacidade crítica dos funcionários, caindo na velha premissa de que “estou apenas cumprindo ordens” ou “sou pago para isso”. Quando o trabalhador não entende o propósito do que faz, ele se torna mais dependente da estrutura que o emprega e fica alienado do processo produtivo que não lhe compete. Desse modo, não sabe nada para além da sua tarefa, nem mesmo o destino final do que está produzindo ou mesmo o que está sendo realizado. 

Foto da serie ruptura 7

Naturalmente, a série exagera essa lógica, mas seu intuito é transmitir uma ideia importante: quantas pessoas hoje trabalham sem compreender o impacto real de suas atividades? Quantas se sentem peças substituíveis em engrenagens que não controlam? A ruptura, nesse contexto, aparece como o estágio final de um processo já em curso, pois não se trata apenas de separar horários, mas principalmente de separar a própria humanidade do ato de trabalhar. O interno não tem direitos, não escolhe, simplesmente está à mercê dos seus superiores. Ele existe apenas para produzir, e sua existência termina no momento em que deixa de ser útil.

Além disso, um dos dilemas mais inquietantes da série envolve a questão do consentimento. Os externos escolhem passar pela ruptura, mas os internos nunca tiveram essa opção. Eles nascem já submetidos a uma condição que não compreendem e da qual não podem escapar, como uma divisão do ser humano que escolheu.

Porém, uma vez divididos, há um lado que “manda” e outro que “obedece”? Será legítimo tomar uma decisão que criará uma versão de si mesmo sem direitos? Que deve fazer o que se manda, sem mesmo poder questionar o que é feito? E se tais ordens forem destruir outro ser humano, o que deve-se fazer? A série nos faz pensar nessas possibilidades enquanto nos mostra a complexidade dessa escolha por dividir os mundos sociais.

Frente a isso, uma das grandes virtudes de “Ruptura” é mostrar o quanto podemos tomar decisões equivocadas quando estamos em um contexto de pressão, física ou psicológica. Se não considerarmos bem nossas escolhas, podemos gerar problemas a longo prazo que nos roubam a humanidade. No caso da série, Mark escolhe a ruptura enquanto está devastado pelo luto. Nesse caso, sua decisão é livre de fato ou foi condicionada pela dor da perda? A série não oferece respostas diretas, mas deixa claro que escolhas feitas para evitar o sofrimento raramente são neutras.

Foto da serie ruptura 9

Seguindo a mesma lógica, quantas decisões tomamos em momentos de fragilidade que acabam moldando nossa vida de formas irreversíveis? Quantas vezes aceitamos condições desumanizantes em troca de alívio imediato? A Lumon apenas radicaliza uma lógica já presente em muitas estruturas sociais e nos coloca a pensar quantas vezes criamos versões de nós mesmos apenas para sobreviver a um trauma, uma dor, ou para alcançar um novo estilo de vida.

Outro aspecto que demonstra a desumanização do mundo do trabalho na série está na obsessão da Lumon por métricas, eficiência e controle, fatores que estão presentes no mundo do trabalho atual. O senso comum nos faz acreditar que é possível maximizar produtividade eliminando a complexidade humana, ou seja, se apenas focarmos no trabalho, deixando de lado nossas emoções, dúvidas e conflitos, poderemos ser operários perfeitos, tal como as máquinas. Não por acaso, para aumentar a produção, é natural que as empresas busquem a automação, pois a máquina não tem emoções, não precisa refletir e nem sofre problemas psicológicos. A ruptura seria, nesse sentido, a solução definitiva para um “problema” antigo, que é o desgaste humano.

Entretanto, a série desmonta esse mito com precisão. Os internos, privados de sentido e autonomia, tornam-se instáveis, ansiosos e, eventualmente, revoltados. A produtividade obtida à custa da humanidade se revela frágil. Sem propósito, o trabalho se torna uma atividade vazia, incapaz de sustentar o engajamento a longo prazo.

Por que assistir à “Ruptura” hoje?

Dito tudo isso, “Ruptura” é uma série profundamente atual porque dialoga com angústias reais de um mundo fragmentado, em que desejamos viver em nossas ilhas e procuramos moldar nossa existência à medida que criamos ou desfazemos esses pequenos ecossistemas. Ela fala com quem se sente dividido, esgotado ou desconectado de si mesmo. Mais do que entretenimento, oferece uma experiência reflexiva que continua ecoando muito depois do último episódio.

Ao assistir à série, o espectador não apenas acompanha uma história intrigante, mas também é levado a questionar suas próprias “rupturas” cotidianas. Onde tentamos nos separar? O que estamos tentando não sentir? Que partes de nós mesmos deixamos para trás em nome da sobrevivência?

Foto da serie ruptura 8

Por fim, a força da série está justamente em não oferecer respostas prontas. Ela provoca, inquieta e nos convida a refletir. Em um tempo que valoriza soluções rápidas e simplificações, “Ruptura” aposta na complexidade e na ambiguidade como caminhos para o entendimento. “Ruptura” deixa uma mensagem clara e profunda: ser inteiro é difícil, mas é a única forma genuína de existir. Integrar quem somos exige enfrentar dores, contradições e conflitos; exige aceitar que não há atalhos para uma vida significativa.

A série Ruptura nos convida a olhar com atenção para as diferentes versões que criamos de nós mesmos no dia a dia. Mas essa discussão não termina com os créditos finais. Se você deseja aprofundar ainda mais essa reflexão sobre identidade, autenticidade e a pressão de corresponder a diferentes papéis sociais, temos um texto que complementa perfeitamente essa conversa: “Como ser autêntico em um mundo de máscaras?” Nesse texto investigamos como muitas vezes usamos “máscaras” para navegar por diferentes contextos, profissionais, familiares, sociais, e o impacto disso sobre nosso senso de identidade. Assim como em Ruptura, ele questiona: quem somos quando deixamos de atuar? E o que perdemos ao fragmentar quem somos?

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