O que você faria se toda humanidade estivesse à sua disposição? Quais desejos você tentaria realizar? Ou será que, em meio a bilhões de servos que estão sendo manipulados por uma força desconhecida, você tentaria salvá-los? Esse é apenas um dos dilemas que a série “Pluribus” nos faz pensar.
Como já sabemos, nem toda série se propõe apenas a entreter seus espectadores. Algumas nascem com a ambição de provocar o senso comum, de deslocar certezas e lançar o espectador em territórios desconfortáveis de reflexão, mas que podem ser úteis quando bem canalizados. Pluribus nasce com essa proposta, que é nos fazer pensar até que ponto o ser humano consegue ir ao viver os seus desejos. A série se constrói como um experimento filosófico travestido de drama contemporâneo, explorando um tema que atravessa séculos de pensamento político e social: a liberdade. Ou, mais precisamente, o paradoxo que emerge quando a liberdade, levada ao seu extremo, começa a corroer a própria ideia de escolha.

Para quem ainda não conhece Pluribus, trata-se de uma série que se insere no campo da ficção especulativa, ou seja, trabalha com uma dose de possibilidades que abre um universo de perguntas na mente do espectador. Porém, é nítido que o objetivo da série é focado em dilemas muito reais do mundo atual. Seu mérito não está apenas no universo que cria, mas também na forma como nos convida a olhar para nossas próprias sociedades, hábitos e desejos, em que temos, à nossa disposição, ferramentas que em poucos segundos são capazes de nos atender. Ao longo de seus episódios, a série questiona se somos, de fato, livres ou se apenas transitamos entre opções cuidadosamente moldadas por estruturas invisíveis.
O título “Pluribus” já funciona como um primeiro convite à reflexão. A palavra remete imediatamente à expressão latina E pluribus unum — “de muitos, um” — lema associado à formação de coletividades a partir da diversidade, mas que funcionava no antigo império romano como um único corpo, uma só ideia. A série mergulha nessa ideia e seu enredo coloca toda a humanidade sob o controle de uma só mente; assim, apesar de diferentes, todas as pessoas pensam e sentem iguais, como se conectadas por um fio invisível que as fazem pensar e sentir de maneira homogênea.
Lançada pela Apple TV em 2025 e produzida pelo aclamado Vince Gilligan, autor de séries como Breaking Bad e Better Call Saul, Pluribus já nasce com status de uma série que promete ser gigante no mundo do entretenimento. Sua proposta, porém, não é simples de digerir e cada episódio faz com que o espectador reflita sobre como seriam suas atitudes perante o aparente “paraíso” instalado na Terra.
Para deixarmos mais claro, falaremos um pouco do seu enredo. Tudo começa quando a humanidade cai sob efeito de um tipo de “vírus” extraterrestre. Esse vírus consegue conectar todos os seres humanos em uma só mente coletiva; porém, ao contrário do que imaginamos, a proposta inicial (lembremos que estamos apenas na primeira temporada!) desses seres extraterrestres é, na verdade, ajudar a humanidade a viver em harmonia. Porém, dentre todos os 8 bilhões de pessoas, apenas 13 não são afetados pelo vírus e continuam tendo sua individualidade.
É a partir daí que começamos a refletir: o que fazer nessa situação? Apenas aproveitar-se de poder fazer o que quiser, com a humanidade sob seu jugo, ou tentar libertar a espécie? Essa parece ser, a priori, uma escolha simples, mas vemos ao longo da série suas nuances.
Um mundo onde tudo parece resolvido
Diferente das distopias tradicionais, Pluribus não retrata um mundo em ruínas. Ao contrário, o planeta após o Joining, como é chamado o evento em que toda a humanidade entrou nessa mente homogênea, é funcional, pacífico e emocionalmente estável. As pessoas não sofrem, não brigam e não parecem desejar nada além do que já possuem. Essa aparente utopia é um dos elementos mais inquietantes da série, pois o que parece ser um desastre se mostra, sob a análise objetiva, como um verdadeiro paraíso instalado nas relações humanas. Mas qual o preço disso? Perder sua liberdade de escolha?
O espectador é colocado diante de um dilema desconfortável: se não há dor, injustiça ou guerra, por que resistir? Para muitos dos seres humanos que não foram afetados pelo Joining, esse é o pensamento mais correto. Eles não acham necessário lutar ou reverter esse vírus, visto que a humanidade ficou “melhor” e agora todos o servem. É interessante pensar como a série consegue nos colocar nesse dilema e fazer refletir se, de fato, é ruim esse “ataque” à humanidade, visto que as ações dos humanos, quando estão com sua total liberdade, muitas vezes são egoístas e destrutivas.

Assim, a série não demoniza a coletividade, mas a apresenta como uma solução sedutora, eficiente e emocionalmente reconfortante. É nesse cenário que emerge o grande paradoxo da série: a liberdade, entendida como autonomia individual, passa a ser vista como fonte de sofrimento. Escolher implica errar, desejar implica frustrar-se, ser único implica estar sozinho. O Joining elimina esses riscos ao dissolver o “eu” no “nós”. Nesse sentido, Pluribus questiona se a liberdade é um valor absoluto ou se é apenas uma construção cultural romantizada. Ao mostrar um mundo funcional sem indivíduos livres, a série força o espectador a reconsiderar certezas profundamente enraizadas sobre o que significa viver bem.
No centro da narrativa está Carol Sturka, interpretada por Rhea Seehorn. Jornalista e escritora, Carol é uma das raríssimas pessoas imunes ao Joining. Sua condição a transforma em uma anomalia em um mundo onde a diferença deixou de existir. Mais do que sobreviver, Carol precisa justificar sua recusa em se integrar e, mesmo com a humanidade a servindo, sua saga é tentar encontrar um modo de curar a humanidade.
É interessante notar que, apesar de perceber que isso é o que precisa ser feito, Carol não vive como uma heroína clássica. Carol não luta contra um regime tirânico visível, mas contra uma lógica sedutora e muitas vezes acaba, de fato, refletindo se lutar contra essa manipulação é o correto a se fazer ou não. Enquanto do ponto de vista do espectador parece claro que é necessário que a humanidade volte a sua condição normal, por vezes, ao pensarmos como o personagem da série, podemos nos ver em uma situação tão ambígua quanto a de Carol. Ela representa a pergunta incômoda que atravessa toda a série: vale a pena ser livre se isso significa sofrer?
O paradoxo da liberdade: será que sabemos ser livres?
Em Pluribus, o paradoxo da liberdade surge como o eixo mais perturbador da narrativa justamente porque a série desloca a noção tradicional de liberdade do campo da escolha irrestrita para o da consciência ética. No mundo transformado pelo Joining, a liberdade, entendida como fazer o que se quer, deixa de existir por completo, visto que quem está sob controle dessa mente coletiva apenas obedece e não pode escolher por sua própria vontade. Ainda assim, esse desaparecimento não gera revolta coletiva, mas alívio por parte das pessoas, que agora seguem o “melhor” a se fazer e não o que desejavam.
Uma vez que a partir dessa posição se gera ausência de conflitos, desejos contraditórios e frustrações, se cria uma sociedade funcional e emocionalmente estável. A série, então, lança sua pergunta central: se não há sofrimento, por que insistir na liberdade individual? Por que precisamos escolher se, na verdade, o ideal seria seguir sempre o melhor caminho?

O paradoxo se aprofunda quando percebemos que a liberdade defendida por Carol não se confunde com capricho ou vontade imediata. Ela não luta para poder fazer qualquer coisa, mas para preservar a capacidade de refletir e decidir, pois como podemos ser livres se não somos capazes de decidir nada?
A verdadeira perda não é a impossibilidade de agir, mas a impossibilidade de escolher conscientemente o que devemos fazer. O Joining elimina o livre-arbítrio, o discernimento, substituindo a deliberação pessoal por um consenso permanente e automático. Assim, a série nos mostra que alcançar a evolução é, em algum grau, abrir mão de nossas escolhas pessoais e que o mais livre e feliz dos seres será aquele que não decide pelos seus desejos.
Além disso, a série sugere que liberdade não é a multiplicidade infinita de opções, mas a responsabilidade de escolher o que é melhor mesmo quando isso envolve dor, dúvida ou renúncia. Ao abdicar dessa responsabilidade, a humanidade de Pluribus se livra do sofrimento, mas também dos seus valores individuais e vive baseada apenas no coletivo, ou no que, aparentemente, se traveste de coletividade. Não há mais dilemas morais porque não há mais indivíduos plenamente conscientes para enfrentá-los. O bem deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição imposta pela estrutura coletiva; e isso, a rigor, rouba a sua essência humana, que, afinal, está justamente na capacidade de exercer o livre-arbítrio.
Nesse sentido, Pluribus propõe uma visão desconfortável da liberdade: ser livre não é agir sem limites, mas sustentar limites escolhidos. Carol encarna essa ideia ao insistir em permanecer humana em um mundo que oferece felicidade garantida em troca da dissolução do eu. Sua resistência não é heroica no sentido clássico, mas profundamente ética, pois afirma que viver bem não é o mesmo que viver sem dor. A escolha de Carol, no fundo, é manter sua essência humana e, por isso, ela deve lutar para resgatar a humanidade que, apesar de “feliz”, deixou de ser ela mesma.
Assim, o paradoxo da liberdade em Pluribus revela que a autonomia só tem valor quando acompanhada de consciência. Fazer o que se quer pode ser apenas obediência a impulsos ou sistemas invisíveis. Entretanto, escolher conscientemente o melhor, por outro lado, exige reflexão, responsabilidade e coragem. E assim nasce outro tema fundamental dentro dessa perspectiva. O que vale mais: a liberdade individual ou a felicidade coletiva?
Liberdade individual versus felicidade coletiva
Em Pluribus, o embate entre liberdade individual e felicidade coletiva não é apresentado como um conflito simples entre certo e errado, mas como uma escolha moral profundamente ambígua. Não por acaso, os poucos humanos que sobrevivem ficam do lado de Carol; afinal, enxergam que essa felicidade coletiva e harmonia social vivida pela humanidade é valiosa, e a liberdade individual é um preço minúsculo frente aos seus ganhos. Obviamente que essa posição está contaminada pelos próprios valores e desejos pessoais dessas pessoas que, em um mundo em que são os únicos a poderem desfrutar de suas escolhas, têm seus desejos completamente atendidos.

Ainda assim, é preciso reconhecer que a sociedade formada após o Joining alcança aquilo que, historicamente, sempre pareceu inalcançável: paz duradoura, empatia constante e ausência de sofrimento. Nesse contexto, a felicidade coletiva surge como um valor a ser considerado, capaz de justificar a diluição da individualidade em prol do seu “bem maior”. A série evita retratar essa coletividade como opressiva, o que torna o dilema ainda mais inquietante, pois a felicidade compartilhada é real, visível e funcional.
A liberdade individual, por outro lado, passa a ser vista quase como uma excentricidade. Os poucos que resistem ao Joining não são perseguidos por um sistema violento, mas olhados com estranhamento, como se escolhessem deliberadamente a dor, pois a “solução” de se entregar voluntariamente parece óbvia. Pluribus questiona se a insistência na autonomia pessoal ainda faz sentido quando ela se torna a principal fonte de sofrimento. Ao fazer isso, a série expõe o desconforto de defender a liberdade em um cenário no qual ela parece produzir mais perda do que ganho imediato.
Esse conflito revela, curiosamente, uma inversão poderosa de valores. Tradicionalmente, a liberdade é entendida como condição para a felicidade, ou seja, só somos realmente felizes quando somos livres. Em Pluribus, no entanto, a felicidade coletiva só se realiza plenamente quando a liberdade individual é sacrificada, quando deixamos de buscar essa realização individual e passamos a fazer parte dessa coletividade que não tem espaço para os desejos de cada pessoa. A série força o espectador a encarar uma pergunta incômoda: é legítimo preservar a autonomia do indivíduo quando isso impede o bem-estar da maioria? Ao não oferecer uma resposta definitiva, a narrativa preserva a complexidade ética do problema.
Pluribus sugere que a felicidade coletiva, quando desvinculada da escolha consciente, corre o risco de se tornar uma forma sofisticada de conformismo. A ausência de conflito elimina também a possibilidade de dissenso, criação e transformação, ou seja, estagna o processo de evolução, tanto individual como da sociedade, pois é a partir da contradição que nos movimentamos. A liberdade individual, ainda que imperfeita e dolorosa, aparece como a única força capaz de manter viva a pluralidade humana, algo que Carol luta para restabelecer ao longo de toda sua jornada. Desse modo, a série não nega o valor da felicidade compartilhada, mas alerta para o preço silencioso de uma harmonia que exige a renúncia do eu.
Precisamos viver a verdadeira liberdade
O imperador Marco Aurélio, conhecido como o imperador-filósofo, escreveu em suas meditações: “Aquilo que faz bem para a colmeia, faz bem para a abelha. Nem sempre o que faz bem para a abelha, faz bem para a colemia”. Sua frase aponta para um tipo de liberdade similar ao de Pluribus, em que o bem coletivo é superior ao individual e, portanto, deve ser preservado. É fato que nenhuma liberdade individual, apesar de irrestrita, pode se sobrepor a liberdade coletiva, por isso existem leis.
Ainda assim, a série ao levar essa ideia ao extremo, mostra que submeter a vontade humana a um controle extremo também não parece ser um caminho adequado, uma vez que nos rouba nossa própria condição de ser autoconsciente e capaz de refletir por si só acerca de suas escolhas.

Visto isso, Pluribus é uma série que ainda está em seus primeiros passos, portanto, não há uma conclusão de sua história, nem o desfecho dos dilemas que Carol e os demais seres humanos da série enfrentam. Assim, para aqueles que pretendem acompanhar essa jornada se faz importante começar o quanto antes, pois poderá viver as emoções que a série ainda irá proporcionar.
O que fica claro, entretanto, é que a série não pretende resolver o paradoxo da liberdade, mas torná-lo visível para todos nós, ou seja, nos fazer pensar no que realmente estamos escolhendo. Será que somos livres de fato, ou estamos, de certo modo, em uma “mente coletiva” que chamamos de senso comum? Nesse sentido, a série nos lembra que a liberdade, quando descolada de vínculos, sentido e responsabilidade, pode se tornar tão opressiva quanto a ausência dela. Em um mundo que celebra incessantemente o “poder escolher”, Pluribus nos convida a uma pergunta essencial: escolher sempre é sinônimo de ser livre? Ou a verdadeira liberdade começa quando aprendemos a sustentar algumas escolhas e abrir mão do resto?



