Há um tipo especial de fascínio em narrativas que se atrevem a perguntar “e se?”. Não se trata apenas de curiosidade histórica, mas de uma inquietação mais profunda, quase existencial, sobre como decisões específicas moldam destinos coletivos. Todos nós, em algum momento, já nos fizemos esse tipo de pergunta: “E se eu não tivesse feito esse curso?” ou “E se eu tivesse mudado de cidade?”, entre outros tantos questionamentos dessa natureza.
Por que fazemos isso? Dentro da experiência histórica sabemos que o “se” não existe, pois o passado não pode ser mudado. O que ocorreu, por bem ou por mal, está no passado e isso não pode ser alterado. Entretanto, a imaginação humana cria asas para esse mundo de possibilidades e podemos, sempre, pensar em como o futuro poderia ter sido completamente diferente se outras decisões fossem tomadas.
É partindo dessa premissa que séries como “For All Mankind” partem em sua jornada por um mundo que não existe hoje, mas que por pouco não se tornou realidade. No caso específico da série, voltamos a um momento emblemático da nossa história recente: a Guerra Fria e a corrida espacial.
Como sabemos, o fim da URSS demarcou o final desse modelo geopolítico, em que duas grandes potências disputavam a influência do mundo em diferentes âmbitos, inclusive no desenvolvimento tecnológico para nos levar a explorar o sistema solar. Assim, a história que conhecemos é a vitória dos Estados Unidos sobre os soviéticos, mas e se fosse o contrário? E se a União Soviética se consagrasse a vencedora, o que poderia acontecer?

É assim que iniciamos a série: o instante em que a União Soviética chega à Lua antes dos Estados Unidos. Um evento aparentemente pontual, mas que, ao ser alterado, desloca todo o eixo da história moderna. A série não trata esse desvio como um truque narrativo, e sim como um terremoto político, social e tecnológico cujas ondas se espalham por décadas.
É nesse cuidado com as consequências, e não apenas com o fato em si, que reside grande parte de sua força. O primeiro impacto da derrota americana na Lua não é apenas simbólico. Ele atinge o coração da identidade dos Estados Unidos em plena Guerra Fria, um período em que tecnologia, ciência e ideologia eram armas tão poderosas quanto mísseis nucleares.
Frente a isso, o objetivo de chegar até a Lua deixa de ser uma linha de chegada e passa a ser um campo de disputa contínua, um território estratégico cuja posse nunca está plenamente garantida e que levanta debates importantes e acalorados, inclusive para os dias atuais. A série, com habilidade, coloca o espectador para pensar que, dentro da lógica geopolítica, perder uma vez não significa encerrar a corrida, mas intensificá-la cada vez mais. A exploração espacial, portanto, não é apresentada como um feito romântico isolado, uma consequência harmônica e natural para a evolução de nossas fronteiras, mas como parte de um jogo de poder em escala planetária.
A política como combustível do progresso
Desde seus primeiros episódios, a série deixa claro que o espaço nunca foi um campo neutro, em que as disputas políticas da Terra não interferem. Em “For All Mankind”, assim como na história real, foguetes não são apenas veículos científicos, mas extensões diretas de projetos políticos; e a exploração espacial é, antes de tudo, uma demonstração de superioridade tecnológica. Cada lançamento carrega discursos, disputas internas, interesses econômicos e estratégias de dominação que permitem às nações se manterem à frente no campo político.

Nesse aspecto, a complexidade política da série se manifesta tanto nos corredores da NASA quanto nos gabinetes da Casa Branca e nos bastidores do governo soviético. Entretanto, diferente do que pode nos parecer, aqui não há vilões caricatos, muito menos heróis absolutos. Todos os personagens são, a rigor, pessoas que defendem os interesses dos seus países, dentro da mentalidade em que foram educados. Não se trata de torcermos para algum dos lados, mas entender a dinâmica natural da geopolítica que, em síntese, se debruça sobre as vantagens que uma nação pode ter sobre outras.
O fato de não ter um papel definido entre “vilões” e “mocinhos” torna a experiência de “For All Mankind” extremamente rica; afinal, a multiplicidade de interesses faz a série ter uma boa dinamicidade e se mostrar surpreendentemente atual, especialmente quando observamos como o debate sobre exploração espacial voltou a ocupar um lugar central na agenda internacional nas últimas décadas. Não por acaso, ao longo das temporadas, a série demonstra que a corrida espacial não é apenas uma continuação da Guerra Fria, mas principalmente sua transformação, que é o que, basicamente, estamos vivendo nas disputas geopolíticas atuais.

Assim, o conflito deixa de ser apenas territorial ou ideológico e passa ao campo da tecnologia e informação. Quem controla o espaço controla as comunicações, a vigilância, os recursos. Hoje, em um mundo extremamente dependente de satélites e GPS, por exemplo, entendemos que o controle do espaço é vital dentro da geopolítica e, não por acaso, já se fala em uma geopolítica espacial, uma forma específica de tratar acordos e problemas entre nações quando se refere a esse aspecto. Diante dessa perspectiva, embora ambientada em um universo alternativo, a série dialoga de maneira direta com o mundo contemporâneo.
Nas últimas décadas, a geopolítica espacial deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a ocupar espaço em debates públicos, fóruns internacionais e estratégias de defesa nacional. Países como Estados Unidos, China, Rússia e membros da União Europeia investem cada vez mais em programas espaciais, enquanto empresas privadas entram em cena com promessas de colonização, mineração de asteroides e turismo orbital, práticas que parecem sair de um filme de ficção científica, mas que ao passar dos anos já se mostram uma realidade que será vivida pela humanidade. Em nosso portal, já falamos sobre esse assunto. Caso seja do seu interesse, basta clicar aqui para acessá-lo.
Dito isso, “For All Mankind” ajuda o espectador a compreender que esse movimento não é uma ruptura histórica, mas uma continuidade do processo histórico, apenas uma progressão do que vivemos desde os anos 1950. Afirmamos isso porque o espaço sempre foi um território de disputa, um desejo humano de exploração, mas que até então não possuímos ferramentas adequadas nem tecnologia para empreender essa jornada. Ainda hoje, mesmo com o que já alcançamos, esse tipo de exploração se mostra inviável; porém, não será novidade se realmente conseguirmos tal proeza.

A série, portanto, busca mostrar como a evolução tecnológica caminha junto com a política e suas relações, sendo as decisões tomadas pelos governos o germe que faz brotar e crescer novas tecnologias, com objetivos específicos. Um exemplo nítido na série são as bases lunares que evoluem de postos científicos para infraestruturas permanentes, e isso faz com que a presença humana fora da Terra gere novas regras, novos conflitos e novas formas de diplomacia.
E se tudo tivesse sido diferente?
Frente a isso, voltemos para um dos pontos mais interessantes da série: o de explorar como a história da humanidade poderia ter sido diferente do que hoje ela é. Ao alterar um único evento, a chegada à Lua, a série expõe o quanto nossa percepção de inevitabilidade histórica é frágil. O mundo que conhecemos não era o único possível, e talvez nem mesmo o mais provável diante de algumas circunstâncias à época. O que podemos entender como lição é que as pequenas (e grandes) mudanças podem gerar cascatas de efeitos imprevisíveis, redefinindo valores sociais, estruturas de poder e trajetórias individuais.
E isso serve para a história da humanidade e para a nossa história individual. Podemos refletir como tudo poderia ser diferente em nossa jornada a depender das escolhas que fizemos, e isso, a bem da verdade, está correto. Porém, será que viveríamos melhores ou piores? Geralmente, ao imaginar esse tipo de futuro hipotético, tendemos a enxergar somente o lado positivo, ou o menos angustiante, mas será que isso é verdade?

Uma antiga frase diz que “nunca vivemos as tristezas de uma vida que não escolhemos”, ou seja, assim como não vivemos o aspecto positivo que estamos imaginando, também desconsideramos que outras escolhas também carregam consigo novas tristezas, dilemas e desafios. Assim, viver a ilusão do “se” é apenas uma forma de escapar do presente e dos seus desafios, pois não importa a decisão que tomemos, ela sempre trará aspectos positivos e negativos.
Visto isso, em “For All Mankind”, a pressão para superar a derrota inicial acelera avanços que, no mundo real, demorariam décadas para acontecer. A presença feminina na NASA, por exemplo, não surge apenas como uma pauta progressista, mas também como uma necessidade estratégica de ter mais pessoas trabalhando na agência, de garantir maior capacidade de produção e mentes pensantes para achar uma solução para “virar o jogo”. A igualdade de gênero passa a ser impulsionada não apenas por justiça social, mas também por pragmatismo político. Essa ambiguidade torna a reflexão ainda mais interessante, pois levanta uma questão que raramente refletimos: quantas conquistas humanas só acontecem quando se tornam úteis para estruturas de poder?
Ao sugerir que a exploração espacial contínua poderia ter transformado profundamente nossa sociedade, a série convida o espectador a imaginar um presente alternativo, que talvez pudesse existir e adiantar uma série de processos que, ainda hoje, estamos tentando superar. Um mundo mais tecnológico, talvez mais avançado cientificamente, mas também mais tenso, mais vigiado e mais dependente de decisões tomadas muito acima da vida cotidiana das pessoas comuns. Essa tensão entre idealismo e pragmatismo percorre toda a obra e se reflete na maneira como o espaço é representado, pois essas disputas também são levadas para fora do planeta.
O espaço como próximo passo da humanidade
À medida que “For All Mankind” avança no tempo e se afasta da Lua, a série amplia seu horizonte narrativo e as fronteiras da humanidade. Outros planetas deixam de ser abstrações distantes e passam a ser destinos concretos, carregados de promessas, perigos e possibilidades. A exploração de Marte, em especial, surge como um novo marco civilizatório, comparável às grandes navegações terrestres; afinal, para aqueles navegadores do século XVI, atravessar o Atlântico era, sem dúvida, tão perigoso quanto hoje se nos lançarmos a chegar ao planeta vermelho.
A série se destaca por não romantizar esse movimento, pois cada novo planeta traz consigo não apenas esperança, mas também conflitos, erros e consequências para a humanidade, tanto a que está na Terra como a que se lançou nessa nova empreitada.

A ideia de que a humanidade precisa se expandir para sobreviver é apresentada de forma ambígua. Por um lado, há um impulso quase biológico de explorar, aprender e conquistar novos ambientes. Por outro, há o risco de levarmos conosco para o espaço os mesmos vícios que comprometem nosso planeta de origem, algo comum e que já vivemos em outros momentos históricos. “For All Mankind” não nega o potencial transformador da exploração interplanetária, mas insiste em lembrar que a tecnologia pode apenas ampliar a escala de nossos problemas.
Nesse aspecto, a série é extremamente assertiva ao mostrar que a resposta para os nossos dilemas não é conquistar mais planetas ou ter uma tecnologia mais robusta, mas enxergar os nossos valores humanos. Esse ponto torna a série especialmente relevante, não somente pela reflexão em si, mas também por estarmos vivendo em um momento histórico em que a exploração espacial volta a ser tratada como algo inevitável e que marcha a passos largos para se concretizar.
Sendo assim, à medida que a presença humana no espaço se consolida em “For All Mankind”, também avançam os dilemas entre os governos e personagens. Se antes a preocupação era saber até onde podemos ir, após algumas temporadas começamos a nos questionar se devemos, de fato, manter essa busca incessante pela exploração. A colonização de outros corpos celestes traz consigo dilemas inéditos, como a exploração de recursos extraterrestres, a definição de leis fora da Terra e a possibilidade de conflitos armados em ambientes onde não existe soberania claramente estabelecida.
Além disso, a série aborda essas questões com um cuidado que evita tanto o alarmismo quanto a ingenuidade. Ela reconhece que a expansão humana é, historicamente, acompanhada por exploração e violência, mas também por intercâmbio cultural e inovação, tendo essas duas faces como possibilidades reais. O espaço, nesse contexto, aparece como um território em disputa não apenas entre nações, mas entre visões de futuro. Uma visão que enxerga outros planetas como extensões do mercado e do poder estatal, e outra que os vê como oportunidade de repensar nossa relação com o universo e entre nós mesmos. Essa tensão atravessa toda a narrativa e se torna cada vez mais relevante conforme a série avança no tempo.
Esse olhar atento para o custo humano diferencia “For All Mankind” de outras obras do gênero. A série não se limita a celebrar feitos tecnológicos, mas insiste em revelar suas cicatrizes e o preço que pagamos enquanto humanidade para alcançar tais feitos.
A humanidade diante do infinito
Visto isso, a série nos coloca em um dilema interessante: qual o limite para a humanidade? Uma vez que dominemos a fronteira espacial, até onde podemos chegar? Parece-nos que a natureza exploratória de nossa espécie nos impulsiona sempre a ir além e abre possibilidades praticamente infinitas diante dos nossos olhos. Frente a essa perspectiva, a série coloca o espectador a pensar sobre uma questão fundamental: o que significa ser um ser humano fora da Terra? Longe de nossas referências naturais, culturais e biológicas, somos obrigados a redefinir conceitos básicos de lar, pertencimento e comunidade, visto que as novas gerações, que já nascem nesses “novos” planetas, não entendem a Terra como um lar, pois nunca pisaram em seu solo.
O espaço, nesse sentido, não é apenas um desafio técnico, mas também um teste existencial. A série sugere que nossa capacidade de sobreviver fora do planeta depende menos de foguetes e mais de nossa habilidade de cooperar, comunicar, cuidar uns dos outros e realmente construir um laço de unidade, independente das nações a que servimos. Em ambientes hostis, onde o erro pode ser fatal e por isso a interdependência se torna evidente, é necessário desmontar ilusões de autossuficiência que muitas vezes sustentam discursos de poder.
Desse modo, um dos méritos mais contundentes da série é sua recusa em idealizar o espaço como um recomeço puro e idílico, em que não há problemas. Em “For All Mankind”, os conflitos humanos não ficam para trás ao cruzar a atmosfera e é justamente por isso que a vida fora do planeta passa a ser complexa e exige ainda mais cooperação. Os conflitos precisam ser adaptados; em certas ocasiões, as diferenças precisam ficar de lado por uma necessidade maior, mas elas não desaparecem.

A lógica de competição, a instrumentalização da ciência e a desigualdade de acesso aos benefícios do progresso reaparecem em órbita e além dela, mostrando que alguns vícios (e virtudes) da humanidade seguem mesmo fora do nosso planeta. O espaço, portanto, está longe de ser uma tela em branco, e passa a ser, em grande medida, um prolongamento das estruturas políticas e econômicas que já conhecemos.
Dito isso, vale apontar que “For All Mankind” não cai em um tipo de pessimismo absoluto, seja com a humanidade ou com a maneira através da qual lidamos com a tecnologia. Ela reconhece que o contato com o desconhecido pode gerar transformações positivas, como novas formas de cooperação e mudanças de perspectiva. O espaço, ao expor nossa fragilidade, também pode ampliar nosso senso de responsabilidade coletiva e a percepção de que, apesar das diferenças culturais, somos todos da mesma espécie. Essa ambivalência é o que torna a série tão rica e digna de recomendação.
Em última instância, indicar “For All Mankind” é reconhecer seu papel como obra cultural relevante para o nosso tempo. A série consegue algo raro: entreter enquanto provoca reflexão profunda sobre política, história, ciência e humanidade. Ela não oferece escapismo vazio, mas um convite ao pensamento crítico, utilizando a ficção científica como forma de dialogar com questões reais e urgentes. Sua abordagem da geopolítica espacial antecipa debates que já estão em curso e que tendem a se intensificar nas próximas décadas.
Por fim, ao mostrar como o espaço pode se tornar palco de disputas, alianças e conflitos, a série ajuda o público a compreender a importância estratégica desse campo e a necessidade de debates públicos informacionais sobre seu futuro. Mais do que isso, ela humaniza esses debates, lembrando que decisões tomadas em nome do progresso afetam vidas concretas. Ela não simplifica excessivamente seus temas nem subestima a capacidade de compreensão do público, se tornando assim mais do que entretenimento: se tornando uma boa reflexão sobre o que podemos viver daqui a algumas décadas. Por todas essas questões, nós da Feedobem recomendamos fortemente que você assista “For all Mankind”!
Se você se interessa por futuros possíveis para a humanidade fora da Terra, recomendamos a leitura do artigo “Viver em Marte: utopia ou próximo passo?“. Esse texto aprofunda os desafios técnicos, éticos e existenciais da colonização de Marte, tema central em temporadas avançadas de For All Mankind, e convida à reflexão sobre os limites entre sonho e viabilidade. Uma leitura essencial para ampliar o debate sobre o futuro da vida humana no espaço.



