“Fallout”: Como a série reinventa o fim do mundo para a nova geração

Toda cultura humana imagina momentos de colapso da humanidade. Podemos encontrar essa ideia em livros sagrados, em mitos e até mesmo no ponto de vista científico. O fato é que, psicologicamente, pensamos sobre como deve ser o fim do ciclo da humanidade e os momentos que o precedem para tentar, de certo modo, nos prevenir desse momento. Assim, a temática sobre o apocalipse não é uma novidade para a nossa psique e nunca deixará de ser, mas ainda assim é capaz de nos envolver completamente. É isso que a série “Fallout”, lançada pela Amazon Prime Video em 2024, aborda em seus episódios.

Capa da série Fallout, disponível na amazon prime.
Capa da série Fallout, disponível na Amazon Prime.

Entretanto, não pensemos que sua história nasceu de um roteiro de Hollywood. A bem da verdade, a série é completamente inspirada numa coleção de jogos homônimos. A franquia de games, que começou em 1997, cativou milhares de fãs pelo mundo antes de ganhar o mundo do entretenimento cinematográfico. Assim, para muitos de nós essa não é uma história nova, mas contada de uma maneira completamente distinta e não exige qualquer familiaridade prévia com os games para ser compreendida e apreciada.

Uma história que rompeu o mundo dos games

Dito isso, do que trata Fallout? Para compreender as ideias vividas na série, é necessário entender o contexto em que a série se passa. Sendo assim, Fallout se passa em um futuro alternativo no qual a história da humanidade tomou um rumo distinto após a Segunda Guerra Mundial. Nesse mundo, a tecnologia avançou de forma acelerada, especialmente no uso da energia nuclear, enquanto valores culturais permaneceram presos à lógica dos anos 1950. A crença no progresso ilimitado, somada a disputas geopolíticas cada vez mais tensas, culminou em uma guerra nuclear global que, em 2077, devastou quase toda a civilização. 

fallout game
A lealdade resiste ao fim do mundo: protagonista de Fallout encontra seu fiel companheiro em meio à devastação

Antes da destruição, parte da população foi levada para abrigos subterrâneos conhecidos como Vaults, criados para proteger os humanos da radiação e garantir a continuidade da espécie, uma medida sensata frente ao caos global instalado pela guerra. No entanto, esses abrigos não eram apenas refúgios, mas também espaços de experimentação social, onde regras rígidas e condições artificiais moldaram gerações inteiras. Vários anos depois da guerra, os habitantes dos Vaults começam a emergir para a superfície, encontrando um mundo hostil, marcado não só por escassez, violência e mutações causadas pela radiação, mas também por comunidades que aprenderam a sobreviver entre os escombros da antiga civilização.

Para além de uma história pós-apocalíptica, Fallout carrega consigo uma importante reflexão sobre os erros recorrentes da humanidade, sobre os ciclos históricos que insistimos em repetir e sobre a capacidade (ou incapacidade) do ser humano de se reinventar quando tudo aquilo que chamávamos de mundo chega ao fim. Desde seus primeiros minutos, a série deixa claro que não se trata apenas de sobreviver fisicamente, mas principalmente de ser capaz de manter a civilidade e ordem dentro da humanidade, ou do que restou dela. Nesse sentido, o verdadeiro conflito de Fallout está ligado à moralidade e à ética, não somente a uma questão de sobreviver a qualquer preço. 

O mundo antes da destruição da civilização humana

Frente a esse aspecto da série, uma das decisões narrativas mais inteligentes de Fallout é não tratar o apocalipse como um ponto isolado, mas como consequência direta de um mundo anterior profundamente falho. A destruição do mundo não ocorre devido a um ato divino, um evento astronômico ou puro acaso, mas sim pelas mãos da própria humanidade. Antes da destruição nuclear, a sociedade retratada na série vivia uma contradição em que era tecnologicamente avançada, porém com valores culturais e políticos extremamente retrógrados. Assim, o vanguardismo científico não é acompanhado por novas visões de mundo, mas usado como arma para reforçar aquilo que historicamente já estava estabelecido dentro das normas sociais.

Representação artística da corrida espacial entre EUA e URSS.
Corrida Espacial entre EUA e URSS

É nesse mundo que a energia nuclear é vendida como solução definitiva para todos os problemas, enquanto tensões geopolíticas seguem crescendo, afinal, junto com o avanço energético há também o avanço bélico. Observando essas contradições, a série conduz o espectador a compreender que o verdadeiro erro não foi apenas apertar o botão que disparou as bombas, mas principalmente ignorar, durante décadas, as estruturas de poder, a desigualdade e violência que acarretaram neste ato.

Naturalmente, a história de Fallout, apesar de ficcional, está diretamente ligada ao contexto histórico da Guerra Fria e as tensões do mundo moderno. Não por acaso, o jogo foi lançado apenas 8 anos após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, eventos que marcaram o fim da disputa silenciosa entre Estados Unidos e a URSS. Vale lembrar que a guerra fria foi marcada não somente por uma disputa indireta entre as duas nações, mas também por uma corrida armamentista que quase colocou o mundo em uma guerra nuclear durante o ano de 1962. 

Todos esses eventos estão indiretamente apontados na narrativa de Fallout. O que a série faz, porém, é imaginar um cenário em que o conflito chegou a ocorrer e como poderia a humanidade sobreviver após tanto dano causado. Assim, quando as bombas finalmente caem, não é a destruição da humanidade em si, mas o começo de um novo ciclo, de uma nova forma de vida que precisará se adaptar. 

apocalipse na ficção de Fallout

A série trabalha com um conceito um pouco diferente do tradicional ao falarmos sobre o colapso da humanidade. Ao invés de imaginarmos as explosões como o fim da nossa espécie, como em narrativas mais tradicionais, a série explora como seria possível sobreviver a tanto caos. O fim da humanidade, portanto, não é um evento instantâneo, mas um processo contínuo de degradação e não se encerra antes ou depois das bombas. Décadas após a guerra, o mundo ainda sangra. A radiação corrói corpos, memórias e valores. Não há um “recomeço limpo”, apenas a tentativa constante de sobreviver em meio aos restos de um passado que se recusa a desaparecer.

Desse modo, ao acompanhar personagens que nunca conheceram o mundo anterior à guerra, percebemos que o trauma nuclear se torna hereditário, assim como ocorre no mundo real em que abominamos atos de guerras que jamais vivemos, mas que sabemos graças à história. Assim, a arte de contar o passado e de guardar a memória acaba moldando culturas, crenças e formas de organização social; e isso, naturalmente, é o que ocorre em Fallout. O medo, a escassez e a violência deixam de ser exceções e passam a constituir a normalidade, pois são formas de controle que garantem a vida nos Vaults.

Os Vaults: entre a esperança e a falsa segurança

Sobre isso, é fundamental entender o que são os famosos Vaults. Em síntese, esses são abrigos subterrâneos criados para proteger parte da população e ocupam um papel central na série. À primeira vista, eles representam a promessa de salvação, pois são espaços seguros, organizados, tecnologicamente avançados, no qual a vida poderia continuar longe da radiação e do caos da superfície. No entanto, à medida que a narrativa se desenvolve, fica claro que esses abrigos são também laboratórios sociais, lugares onde a ideia de proteção se confunde com controle absoluto e coerção daqueles que vivem nesse ambiente.

Vault 76 no Jogo do Fallout
Vault 76: o ponto de partida para a reconstrução da humanidade no universo Fallout

Dentro dos Vaults, a humanidade não é apenas preservada, mas também moldada a partir de regras rígidas, hierarquias e experimentos. Frente a isso, um dos grandes apontamentos que a série nos faz é refletir se a sobrevivência, quando baseada na supressão da liberdade e da autonomia, ainda pode ser chamada de vida. Afinal, que tipo de vida devemos seguir para sobreviver? Será que devemos sobreviver a qualquer preço, mesmo que nossas atitudes roubem nossa humanidade? Adiantamos que essa não é uma resposta simples de oferecer e não cabe a nós apontá-la, apenas gerar essa reflexão para que o leitor possa pensar.

O fato é que a série nos propõe pensar sobre o quanto devemos ir para garantir o que chamamos de sobrevivência. O medo é um aliado do controle e através dele a população dentro dos Vaults fica refém dos seus comandantes, logo, a mercê de diversos tipos de violência e opressão. Entretanto, ao sair dos Vaults e encarar o mundo devastado pela radiação e viver em um grande deserto, muitos personagens descobrem que a verdadeira ameaça não está apenas lá fora. O confinamento prolongado, a negação da realidade e a manipulação criaram indivíduos despreparados para lidar com a complexidade do mundo pós-apocalíptico.

Fora dos abrigos, o mundo de Fallout é brutal, mas não desprovido de sentido. Aos que não conseguiram acesso aos Vaults, que são, a rigor, comunidades inteiras que surgiram entre as ruínas do mundo civilizado, criaram-se novas formas de organização social, baseadas na necessidade, na força ou na cooperação. Não há um modelo único de sobrevivência, e a série se recusa a romantizar qualquer um deles, pois sabe que não se trata de ser o melhor ou o pior, mas o necessário para se manter vivo. Cada assentamento carrega suas próprias contradições, refletindo diferentes respostas humanas ao mesmo trauma coletivo.

fora dos vaults em fallout
Explorar o desconhecido: os sobreviventes de Fallout enfrentam o deserto e os escombros do antigo mundo

Nesse cenário, a moralidade deixa de ser absoluta e se torna situacional, muitas vezes tendo como base a própria necessidade de sobrevivência. Por isso, não podemos chamar o mundo de Fallout de civilizado, pois uma civilização só pode nascer a partir de um Estado, ou seja, uma forma de organização social que pense para além da sobrevivência. No caso da série, o fato de viver em um mundo extremamente escasso faz com que a sobrevivência seja o valor máximo; logo, não há espaço para florescer virtudes humanas quando se luta para permanecer vivo.

Dito isso, podemos entender que, nesse contexto, decisões que antes seriam impensáveis passam a ser justificadas pela lógica da sobrevivência. A violência se banaliza, mas também surgem gestos de solidariedade inesperados, mostrando que, mesmo no pior dos desertos, há quem possa cultivar o que verdadeiramente nos faz humanos. Essa ambiguidade é um dos grandes méritos da série, pois não há heróis puros, muito menos vilões por excelência. Cada personagem carrega consigo as marcas de um mundo que falhou, e suas escolhas são sempre atravessadas por perdas irreparáveis.

Reinventar-se após o fim: eis o poder da humanidade

Apesar de seu tom nada feliz – afinal, essa é uma história de destruição da humanidade –, Fallout não é uma obra fatalista. Pelo contrário, ela insiste em mostrar que, mesmo nos piores cenários, a humanidade encontra maneiras de se reinventar, de seguir em frente e poder demonstrar sua verdadeira natureza, mesmo que o mundo inteiro esteja contra você. E quando paramos para refletir sobre essa ideia, percebemos que nós, como espécie, somos extremamente resilientes. Se para alguns podemos parecer frágeis criaturas, quando unidos, somos capazes de superar qualquer adversidade imposta, seja pelo mundo natural ou por nós mesmos.

pessoas nos vaults em fallout exemplo de cultura e memória pós-guerra

Ao falarmos na capacidade humana de se reinventar e se manter de pé, a série demonstra essas questões a partir de expressões culturais que seguem, mesmo dentro dos Vaults. Está nas músicas antigas que ainda ecoam nos rádios, nos ritos cotidianos e na manutenção da própria história, não deixando o passado se perder nas areias do tempo. É importante notarmos que o passado não é apenas um peso, mas também uma fonte de identidade, pois, ao mesmo tempo que novas tradições surgem, misturam-se fragmentos do mundo antigo com as exigências do presente. Essa fusão revela que a reinvenção humana não significa apagar a história, mas sim interpretá-la constantemente.

Dito isso, um dos temas mais profundos de Fallout é a ideia de ciclos históricos. Ao observar as sociedades que surgem após a guerra, percebemos padrões familiares, como a concentração de poder, a exploração, os conflitos territoriais, os discursos messiânicos e a promessa recorrente de que “desta vez será diferente”; porém, nada parece mudar. Apesar do trauma humano, segue-se um mesmo padrão. Assim, a série sugere que, mesmo após o fim do mundo, a humanidade continua presa às mesmas armadilhas que a levaram à destruição inicial, que, no fundo, são as mesmas armadilhas de sempre: o egoísmo, a individualidade e o desejo de benefício próprio em detrimento da coletividade.

É curioso perceber como essa percepção da série dialoga diretamente com a filosofia e algumas correntes historiográficas que enxergam o progresso da humanidade não como uma linha reta, mas como um movimento espiralado, repleto de avanços e retrocessos, momentos de auges e declínios que, ao longo dos milênios, vão sobrepondo civilizações, culturas, criações e destruições. Visto isso, talvez o problema da humanidade não seja a falta de recursos ou conhecimento, mas a incapacidade de aprender com seus próprios erros, pois continuamos a repeti-los, mesmo que o cenário possa parecer um tanto quanto diferente.

Uma nova reconstrução após apocalipse no Fallout

Não por acaso, tanto o jogo como a série apontam para uma visão profundamente cética sobre a capacidade da humanidade em romper com seus ciclos históricos. A guerra nuclear, longe de representar um ponto final, surge como mais um capítulo em uma longa sequência de colapsos e reconstruções, apenas mais uma vírgula na longa jornada da humanidade. Ao longo dessa saga humana, impérios se ergueram e caíram, gerações inteiras nasceram e foram dizimadas; e, ainda assim, apesar dos escombros do passado, seguimos dando voltas em torno do nosso próprio erro.

A persistência da humanidade em meio às ruínas

Visto tudo isso, mesmo em um mundo devastado, a humanidade não desaparece. Fallout faz questão de mostrar como a essência humana, contida nas suas músicas, histórias e símbolos, sobrevive ao apocalipse, o que demonstra não apenas a continuidade da nossa espécie, mas também a esperança. Como se a natureza estivesse dando mais uma chance para entendermos o nosso papel e vivermos harmonicamente ao seu redor. Para isso, porém, precisamos aprender, e enquanto não aprendemos, vivemos em meio às nossas próprias ruínas.

Essa persistência da humanidade não é teimosia, nem mesmo apenas o desejo de sobreviver, mas é da essência humana querer continuar e aprender. Na antiguidade, chamava-se essa percepção da busca por evolução, ou seja, chegar a um patamar de consciência tal que alguém poderia se perceber como um só com toda a natureza. Essa seria, em última instância, a grande finalidade humana, ou seja, a sua função vital.

Vault Boy
Vault Boy, ícone da Vaultec.

Portanto, ao indicarmos essa série, desejamos que nasça uma importante reflexão em cada pessoa: será que podemos romper com esse ciclo de sofrimento em que a humanidade está inserida? Individualmente podemos pensar que somos quase “inúteis” frente a tais decisões; porém, em nossa vida cotidiana, podemos decidir se viveremos apenas para sobreviver ou se vamos construir uma maneira de viver digna da humanidade. É assim que mudamos a cultura, seja de uma casa, de uma família e de toda a humanidade.

Se você se interessou pelas reflexões provocadas pela série “Fallout”, a série de textos “Fim do Universo” disponível aqui no Portal Feedobem é uma continuação natural dessa conversa. Ela amplia a discussão do colapso da humanidade para um contexto ainda mais amplo e filosófico, abordando o destino do próprio cosmos, o tempo, e o nosso papel dentro dele.

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