Nenhuma ferramenta ou conhecimento é bom ou ruim por si só, tudo depende de como nós, os seres humanos, a usamos. Um exemplo clássico disso é uma faca: na mão de um chef de cozinha, essa é uma ferramenta usada para preparar um delicioso jantar; já nas mãos de um assassino, se torna uma arma perigosa para machucar outras pessoas. O objeto não tem vontade, não pode ser adjetivado como “bom” ou “ruim”; há, porém, o potencial de ser usado para fins positivos e negativos.
Isso ocorre com toda e qualquer tecnologia ou avanço que a humanidade faça. Por isso, a série que indicamos hoje mostrará justamente como podemos usar beneficamente ou não nosso conhecimento e, naturalmente, o seu potencial destrutivo ou benéfico para toda sociedade. Estamos falando da obra “Chernobyl”, produzida pela HBO e lançada em 2019.

Inicialmente podemos dizer que essa produção não é apenas uma dramatização de um dos maiores desastres tecnológicos do século XX, mas também uma profunda reflexão sobre ciência, poder, ideologia e responsabilidade humana. Ao retratar o acidente ocorrido em 26 de abril de 1986, na então União Soviética, a série ultrapassa os limites do entretenimento e se estabelece como uma obra quase documental, capaz de provocar desconforto, indignação e, sobretudo, reflexão no espectador. Mais do que contar o que aconteceu, Chernobyl questiona como aconteceu, por que aconteceu e quais verdades foram sacrificadas em nome de interesses políticos e institucionais, mostrando o aspecto humano por trás da falha na usina nuclear.
Desde seus primeiros minutos, a série deixa claro que o desastre não foi resultado de um único erro isolado, mas da soma de decisões equivocadas, falhas estruturais e, principalmente, da negação sistemática da realidade. A explosão do reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl não foi apenas um evento técnico, mas também um colapso moral e administrativo, no qual o medo da punição, a cultura do silêncio e a arrogância científica desempenharam papéis tão destrutivos quanto a própria radiação liberada no ambiente.
O acidente nuclear mais famoso do mundo
Para compreender plenamente o que a série retrata, é fundamental retornar ao contexto histórico da União Soviética nos anos 1980. O país vivia os últimos anos de um regime centralizador, marcado por uma rígida hierarquia política e por uma cultura institucional que desencorajava questionamentos. Apesar do regime socialista imposto desde 1917, a URSS em 1986 já sentia seus muros estremecerem diante da disputa com os Estados Unidos pela hegemonia da geopolítica da famosa Guerra Fria.

Os gastos temerários durante a corrida espacial e armamentista, o isolacionismo econômico da Cortina de Ferro e a ideia de que poderia se manter em um regime de opressão, em que a capacidade técnica estava subordinada aos favores políticos, foram apenas alguns dos fatos que levaram à desestruturação deste regime apenas três anos após o acidente de Chernobyl, em 1989.
Frente a esse cenário, o desenvolvimento da energia nuclear representava não apenas uma fonte eficiente de eletricidade, mas também um símbolo de progresso, poder tecnológico e superioridade ideológica frente ao Ocidente. Vale lembrar que em 1945 os Estados Unidos haviam produzido a primeira arma com energia nuclear, um feito inédito até aquele momento. Em contrapartida, temendo a capacidade bélica dos rivais ocidentais, os soviéticos também desenvolveram bombas ainda mais poderosas; porém, os estudos sobre a energia nuclear também se voltaram para usinas capazes de usar essa nova fonte de energia para abastecer cidades e regiões inteiras do seu território.
A Usina de Chernobyl fazia parte desse projeto. Seus reatores eram considerados avançados e econômicos, mas possuíam falhas de projeto que foram deliberadamente minimizadas ou ocultadas, justamente para transparecer a imagem de uma forma de produção de energia sem erros. A ausência de um edifício de contenção adequado, por exemplo, comum em usinas ocidentais, e a instabilidade do reator em baixas potências, o que gerava riscos de explosão, eram erros conhecidos por engenheiros e cientistas, mas raramente discutidos de forma aberta, visto que não se aceitava mostrar as limitações daquelas usinas.

A série acerta ao expor essa omissão como um dos elementos centrais da tragédia, mostrando que o que ocorreu em Chernobyl não foi apenas uma fatalidade, mas também, em algum grau, um tipo de tragédia anunciada. Quando o teste de segurança foi conduzido naquela madrugada de abril, ele ocorreu sob condições inadequadas, com operadores mal-informados, pressionados por prazos e orientações superiores. O que deveria ser uma simulação controlada se transformou em uma sequência de decisões erradas, agravadas por uma confiança cega nos sistemas e por uma incapacidade de admitir que algo estava fora de controle. Essa foi a receita que destruiu uma cidade.
A energia nuclear: entre o progresso e a destruição
Dito isso, a partir do acidente de Chernobyl, ficou claro que o perigo nuclear não estava apenas na indústria bélica. De fato, apesar dos vastos benefícios desse tipo de energia – como ser a mais “limpa” dentre todas as formas utilizadas hoje e o seu potencial quase infinito –, ainda assim, ao perder o controle na sua produção e ter vazamentos do seu reator, havia um grande risco para a humanidade e todas as formas de vida que estivessem próximas do local do desastre.
Nesse sentido, um dos méritos mais notáveis da série “Chernobyl” é não tratar a energia nuclear como um vilão absoluto. Pelo contrário, a narrativa deixa implícito que o verdadeiro problema não é a tecnologia em si, mas a forma como ela é utilizada, regulada e compreendida.

Como apontamos, a energia nuclear, quando empregada de maneira responsável, é uma das fontes mais eficientes e limpas de eletricidade, capaz de abastecer milhões de pessoas com baixa emissão de gases de efeito estufa. Ao longo do século XX, essa mesma tecnologia foi responsável por avanços significativos na medicina, na pesquisa científica e na produção de energia em larga escala. Porém, o mesmo conhecimento que permitiria salvar vidas também foi utilizado para criar armas de destruição em massa, como as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Ironicamente, essa mesma energia é utilizada hoje no Japão para fornecer energia para região que, devido às suas questões geográficas, tinha um baixo potencial energético quando submetido aos meios “comuns” de geração de energia. Assim, em locais que não possuem rios em abundância ou espaço para produção em larga escala de energia solar ou eólica, usar usinas nucleares é uma saída interessante e, muitas vezes, praticamente a única para se manter no mesmo ritmo energético dos demais países.
No mundo atual, em que basicamente as grandes cidades vivem 24h por dia e somos extremamente dependentes da eletricidade, um país não pode se dar ao luxo de não ter uma fonte segura para produzir energia. Por isso, é, de fato, interessante notar o grande potencial que as usinas nucleares, quando bem instaladas, possuem.
O erro humano na amplificação do desastre de Chernobyl
Ao longo da série, começamos a perceber que embora a explosão do reator tenha sido o evento inicial, o verdadeiro desastre de Chernobyl se desenrolou nas horas, dias e semanas seguintes; e seu agravante foi justamente as tomadas de decisões equivocadas por parte dos responsáveis pela usina e do governo soviético. É interessante percebermos como não foi apenas um erro técnico que levou ao grande problema com a radioatividade, mas também a forma como autoridades locais e nacionais reagiram ao acidente, revelando uma sucessão de decisões equivocadas que ampliaram significativamente o impacto da tragédia.

A recusa inicial em admitir a gravidade da situação, por exemplo, atrasou evacuações e expôs milhares de pessoas à radiação além do normal, colocando em risco não apenas a União Soviética, mas todo o continente europeu. A grande nuvem radioativa que se espalhou pelos céus da Europa talvez não pudesse ser evitada rapidamente, mas certamente a decisão de ocultar a informação sobre a explosão levou a uma lentidão na reação para evacuar locais próximos de Chernobyl e poder minimizar os danos. Desse modo, fica nítido como a ação humana poderia ter ajudado a evitar as mortes e, principalmente, a hiperexposição desnecessária de milhares de pessoas.
Quanto aos os operadores da usina, muitos deles eram jovens no começo de suas atividades laborais, mal treinados e foram colocados em uma posição de tomada de decisão praticamente impossível. Pressionados por seus superiores e confiantes em protocolos errados, já que nesses manuais não havia uma previsão correta do que deveria ser feito, eles seguiram ordens que sabiam ser equivocadas, mas sentiam que nada poderiam fazer a não ser obedecer e seguir o que lhes era conhecido.
Assim, tanto a série e nós mesmos, não devemos tratá-los como vilões, mas como peças de um sistema que punia o questionamento e recompensava a obediência cega, em que chegar a uma posição de comando era resultado de influência política e não de conhecimento técnico sobre o assunto. Esse retrato humano é essencial para compreender como grandes desastres raramente são causados por indivíduos isolados, mas por estruturas inteiras que normalizam o erro.
O grande exemplo disso está justamente no comportamento das autoridades que, preocupadas com a imagem que o desastre iria passar para seus rivais e esquecendo-se de proteger as pessoas, acabaram criando ainda mais caos em um cenário que já não era favorável. Ao minimizar os níveis de radiação, ao ocultar informações da população e ao atrasar pedidos de ajuda internacional, os líderes soviéticos demonstraram que o medo da humilhação política era mais forte do que a preocupação com vidas humanas.
À medida que o desastre se expandia, tornou-se evidente que conter Chernobyl exigiria um esforço humano quase inimaginável. A série dedica um espaço significativo aos chamados “liquidadores”, homens e mulheres convocados para limpar os destroços, conter a radiação e impedir que a situação se tornasse ainda mais irreversível. Esses indivíduos, muitos deles soldados, bombeiros, mineiros e trabalhadores comuns, foram lançados em um cenário para o qual não estavam preparados: armados com equipamentos insuficientes e informações incompletas e, de forma natural, foram praticamente condenados à morte sem saber.

Os bombeiros, por exemplo, que chegaram à usina na madrugada da explosão, acreditavam estar combatendo um incêndio comum. Sem proteção adequada, foram expostos a doses letais de radiação em questão de minutos, o que os sentenciou à morte de maneira sutil e a “longo” prazo. A série retrata esses momentos com uma sobriedade perturbadora, evitando exageros melodramáticos e apostando na força do acontecimento real, pois naquele primeiro momento nem mesmo os mais profundos estudiosos tinham um completo entendimento sobre os problemas da radiação nos níveis de exposição que essas pessoas tiveram.
O sofrimento posterior desses homens, internados em hospitais e isolados de suas famílias, evidencia o custo humano invisível da energia nuclear quando algo dá errado. Não houve glória pública imediata, nem reconhecimento transparente, apenas silêncio, censura e morte. Desse modo, a história deixa claro que o heroísmo dessas pessoas não foi fruto de escolha consciente, mas de uma necessidade imposta por um Estado que precisava de corpos para resolver um problema que havia criado.

Ainda assim, se mostra muito nobre a ação dessas pessoas que, em um cenário de caos, foram os grandes responsáveis por conter a radiação e organizar a retirada da população, mesmo que cada um tenha sacrificado sua própria saúde. Esse sacrifício, mesmo que não totalmente consciente, foi fundamental para que Chernobyl não se tornasse um desastre pior.
As consequências ambientais de Chernobyl
Após quatro décadas, Chernobyl ainda continua a gerar consequências para as pessoas e o ambiente ao seu redor. Do ponto de vista ambiental, a zona de exclusão ao redor da usina, que envolve praticamente toda cidade de Chernobyl ainda hoje é inabitável devido à quantidade massiva de radiação em grande parte, sendo um testemunho cruel, porém importante, do impacto duradouro da contaminação radioativa.

Além disso, florestas inteiras foram afetadas, milhares de animais foram mortos e os solos tornaram-se impróprios para a agricultura. O mesmo ocorreu com os cursos d’água que ainda hoje carregam partículas radioativas e, por isso, são inapropriadas para o consumo. O chamado “Bosque Vermelho”, que é mostrado na série, é um símbolo dessa devastação, lembrando que a natureza, embora resiliente, não é imune à interferência humana em escala nuclear.
O que ocorreu no caso do bosque foi a morte quase instantânea das folhas dos pinheiros da região próxima à usina, deixando suas folhas, que geralmente são verdes, em uma tonalidade laranja/vermelha. Além disso, a radiação alterou ecossistemas, provocou mutações e deixou marcas que não podem ser apagadas por decisões políticas ou pelo passar do tempo, um impacto que prejudicou não apenas as pessoas, mas todos os seres que viviam naquele habitat.

Ao mesmo tempo, há uma ironia inquietante nesse cenário. Com a ausência humana, a vida selvagem voltou a ocupar a região, criando um paradoxo ecológico no qual animais prosperam em um ambiente contaminado. Esse fenômeno levanta questões profundas sobre o impacto humano no planeta e sobre como, em certos contextos, a presença do homem pode ser mais destrutiva do que a própria radiação. A série não oferece respostas simples, mas convida à contemplação dessa ambiguidade.
A energia nuclear no mundo contemporâneo
Ao assistir a Chernobyl, é impossível não relacionar os acontecimentos de 1986 com o debate atual sobre energia nuclear. Em um mundo que busca alternativas aos combustíveis fósseis e enfrenta os efeitos das mudanças climáticas, a energia nuclear volta a ser considerada por muitos países como uma solução viável. Mesmo o Brasil, que é uma nação com diferentes fontes de energia, já construiu e manteve usinas nucleares ativas, como a Angra I e II, mas que foram desativadas pelos riscos de vazamento e, a bem da verdade, pela pouca necessidade de uso perante os recursos naturais que possuímos.

Porém, ainda assim é interessante notarmos que o desastre de Chernobyl não condena a energia nuclear de forma definitiva, mas expõe os riscos de sua má gestão. Quando operada com rigor técnico, fiscalização e uma forte cultura de segurança, essa fonte energética pode ser extremamente benéfica. Ainda assim, há riscos que são inerentes e que podem ocorrer independente da ação humana, como no caso de Fukushima, no Japão, no qual a usina nuclear foi avariada após uma tsunami. Esse fato nos lembra que nem sempre a causa poderá ser um erro humano; porém, é evidente que as medidas que tomamos após o incidente podem amenizar ou potencializar o desastre
Visto isso, a série não se limita a recontar um acidente histórico, mas se consolida como um alerta permanente sobre os limites da arrogância humana diante da natureza e da ciência, principalmente quando coloca seus interesses individuais e políticos à frente do que é o correto a ser feito em situações extremas. Ao transformar um evento técnico em uma narrativa profundamente humana, a obra evidencia que o verdadeiro colapso não ocorreu apenas no reator nuclear, mas também no sistema de valores que permitiu que falhas fossem ignoradas. Dessa maneira, o desastre de 1986 não foi inevitável, e essa talvez seja sua lição mais perturbadora.
Os erros humanos retratados ao longo da série não são apresentados como exceções, mas como consequências diretas de um sistema que punia a honestidade e recompensava a obediência cega, sem nenhum critério técnico ou formação para atuar naquela posição. Operadores que não podiam questionar ordens, cientistas que tinham suas vozes abafadas e autoridades que preferiam mentir a admitir falhas compõem um retrato inquietante de como desastres se constroem lentamente, muito antes do momento da explosão. A radiação foi apenas o estágio final de um processo iniciado com pequenas concessões à mentira e ao medo.
A série também reforça a importância da memória como ferramenta de prevenção, pois nunca deveríamos esquecer de acidentes que custaram um preço alto para a humanidade, principalmente por terem sido potencializados devido aos nossos próprios equívocos. Lembrar o que aconteceu em Chernobyl não é um exercício mórbido, mas uma necessidade de não deixar que isso possa ocorrer novamente devido às nossas falhas. O esquecimento, assim como a negação, cria o terreno fértil para que os mesmos erros se repitam sob novas formas.
Por fim, podemos dizer que a maior força de Chernobyl reside em sua capacidade de nos confrontar com uma pergunta difícil de se fazer: o que acontece quando a verdade se torna inconveniente? A resposta, tanto na história real quanto na dramatização, é devastadora. Além disso, reforçamos a importância de compreender que a energia nuclear, assim como qualquer outra tecnologia que desenvolvemos, é, no fundo, uma potência e que será bem ou mal utilizada a depender de quem a use.

É por isso que precisamos desenvolver valores humanos e não apenas técnicas, pois, sem colocar nossa humanidade à frente das decisões, poderemos cometer diversos desastres e aniquilar o mundo tentando proteger a nós mesmos. Chernobyl permanece, assim, não apenas como um local ou um evento histórico, mas também como um símbolo eterno das consequências de se escolher o silêncio em vez da verdade.
Para continuar essa reflexão, vale a pena conferir o texto “O Lado Sombrio da Inteligência Artificial: Riscos, Crimes e Regulamentação“. Ele amplia o debate ao mostrar que, assim como a energia nuclear em Chernobyl, a inteligência artificial também não é boa ou ruim por si só, mas depende de como é utilizada, regulada e compreendida pela sociedade.



