Princesa Isabel: A Luz Que Brilhou em Tempos de Escuridão

Há uma antiga frase que diz que um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la. Mais do que um simples alerta, essa sentença funciona como um imperativo moral, pois conhecer o passado não é um luxo intelectual, mas uma necessidade civilizatória para cada ser humano. A história não serve apenas para narrar fatos, datas ou nomes, ela existe também para preservar a memória coletiva, para lembrar ao mundo aquilo que jamais deveria ser esquecido. Quando negligenciamos esse dever, abrimos espaço para distorções, apagamentos e julgamentos apressados que pouco contribuem para a compreensão do presente.

É sob essa perspectiva que devemos olhar para o Brasil e para seus personagens históricos. Ao longo do tempo, figuras centrais da nossa formação nacional foram celebradas, esquecidas, demonizadas ou reduzidas a caricaturas conforme os interesses ideológicos de cada época. Compreender o passado, nesse aspecto, exige mais do que repetir versões que nos foram ditas sem o esforço crítico de pensar sobre tais informações. É preciso observar diversos pontos de vista, compreender o mundo em que se vivia, suas ideias e, acima de tudo, evitar anacronismos.

Dentro desse cenário, algumas figuras se destacam não apenas pelo poder que exerceram, mas pela postura ética que adotaram diante das circunstâncias. São homens e mulheres que, mesmo limitados pelas estruturas sociais de sua época, conseguiram ir além do esperado, assumindo posições que exigiam coragem moral e senso de responsabilidade histórica. Entre essas figuras, poucas são tão emblemáticas quanto Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon e Bragança, a famosa Princesa Isabel.

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Uma herdeira improvável

Popularmente conhecida como “Princesa Isabel”, a história nos mostra como essa monarca foi uma peça fundamental no combate à escravidão e entrou para a História como “a redentora”, pois foi quem assinou a Lei Áurea de 13 de maio de 1888, extinguindo a escravidão no Brasil. Sem dúvida, esse é um marco para a História do Brasil, um fato ocorrido tardiamente e com uma série de ressalvas, visto que grande parte da elite brasileira não aprovava tal medida. Ainda assim, o caráter de urgência na igualdade social entre os povos escravizados e os cidadãos brasileiros estava acima de qualquer interesse econômico, sendo uma responsabilidade moral do nosso país.

Apesar da sua importância para a nossa história, o que sabemos da Princesa Isabel além desse grande fato em nossa história? Muitos não sabem sobre seus anos finais no exílio, sobre seus filhos e como ela seria, na linha de sucessão, uma possível monarca do Brasil. Sendo assim, vamos conhecer um pouco da história dessa herdeira improvável agora. 

Nascida em 29 de julho de 1846, no Rio de Janeiro, Isabel era a filha primogênita do imperador Dom Pedro II. Desde o nascimento, seu destino já contrariava expectativas: em um mundo político profundamente marcado pelo patriarcado, uma mulher surgia como herdeira direta do trono brasileiro. Ainda que a Constituição permitisse a sucessão feminina, a ideia de uma imperatriz governante causava desconforto em amplos setores da sociedade, especialmente entre as elites políticas e militares. Não por acaso, apesar de estar na linha de sucessão, era provável que um dos seus filhos assumisse o trono quando possuísse a maioridade, sendo Isabel apenas uma peça de transição. Porém, não podemos afirmar isso, pois nossa história caminhou por outro destino.

Ao contrário do que se poderia imaginar, Isabel não foi criada como uma figura sedenta de poder. Sua formação foi rigorosa, intelectual e moralmente exigente, mas também marcada por uma profunda religiosidade. Educada sob forte influência católica, desenvolveu uma fé sólida, fiel ao Papa e aos princípios da Igreja, o que moldou decisivamente sua visão de mundo. No entanto, essa religiosidade não a afastou do pensamento moderno. Pelo contrário, Isabel recebeu uma educação ampla, estudando literatura, astronomia, química, economia política, geografia, geologia e filosofia, além de dominar fluentemente o francês, o inglês e o alemão.

Essa combinação entre fé, erudição e sensibilidade social fez de Isabel uma figura singular. Embora discreta, reservada e pouco afeita aos jogos de poder, ela possuía uma consciência política mais aguçada do que muitos de seus contemporâneos. Não gostava de despachos, evitava a exposição pública excessiva e preferia a vida familiar. Era mãe de três filhos, havia enfrentado abortos espontâneos e a dor profunda de um parto natimorto. 

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Apesar de seu perfil discreto, Isabel não foi uma figura passiva na vida política do Império. Durante as frequentes viagens de Dom Pedro II ao exterior, ela assumiu o comando do país como regente em três ocasiões distintas, o que demonstrava ser um ensaio do que possivelmente seria o reinado caso D. Pedro II chegasse a falecer no poder. Nessas regências, Isabel revelou uma postura firme, consciente da gravidade das decisões que precisava tomar, como a assinatura da Lei Áurea.

Vale relembrar que o Brasil do século XIX era um país profundamente dependente da escravidão. A economia, especialmente a produção cafeeira, estava estruturada sobre o trabalho escravo, e qualquer ameaça a esse sistema era vista como um ataque direto aos interesses da elite agrária. Ainda assim, o movimento abolicionista ganhava força, impulsionado por intelectuais, religiosos, jornalistas e setores urbanos que já não conseguiam ignorar a brutalidade do regime escravista.

Isabel, influenciada por sua fé cristã e por uma visão iluminista da dignidade humana, alinhou-se a esse movimento e construiu o caminho para o fim da escravatura sancionando algumas leis antes da Lei Áurea. Poucos sabem, mas foram responsabilidades da Princesa Isabel a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários, ambas voltadas para limitar a ação da escravidão e dar passos largos para a  abolição. Nesse sentido, não se pode pensar que a monarca era uma peça secundária dentro do processo do fim da escravatura, muito menos ela assumiu uma posição oportunista nesses assuntos.

Consequentemente, tais ações geraram o desconforto de parte da elite brasileira. Devemos lembrar que nessa época o principal setor de nossa economia era a agricultura, mais precisamente a comercialização do café. Nas grandes fazendas cafeicultoras, trabalhavam os escravos, submetidos a tratamentos desumanos e a uma jornada de trabalho que os levava à morte precocemente. Dentro dessa situação de exploração, o fim da escravidão gerou um abalo econômico para os fazendeiros, que a partir de então precisavam contratar trabalhadores livres para suas plantações. 

Não por acaso, apenas um ano depois de abolição da escravidão, foi proclamada a República, em 15 de novembro de 1889. O golpe de Estado foi apoiado pela elite brasileira, detentora de parte do poder político, e pelo exército, que destituiu D. Pedro II de sua posição de imperador e expulsou a família real do Brasil. Assim começava a República brasileira.

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O exílio e a dor do esquecimento

O exílio marcou profundamente os últimos anos da Princesa Isabel. Forçada a deixar o país que governara e amara, partiu com a família rumo à Europa com o coração despedaçado. Em seus escritos pessoais, deixou registrado o sofrimento de abandonar o Brasil, não por medo ou covardia, mas por fidelidade à decisão de evitar uma guerra civil entre brasileiros. De fato, a não resistência ao golpe militar se deu para evitar o derramamento de sangue entre brasileiros, e essa decisão, tomada por D. Pedro II, fez com que a família real nunca mais colocasse os pés em nossas terras.

Pouco tempo após a chegada à Europa, Isabel enfrentou a perda da mãe, que, em idade avançada, não suportou o peso de viver fora do país. Em seguida, viu o pai falecer em Paris, em 1891, em decorrência de uma pneumonia, também longe da pátria ao qual dedicou a vida inteira a servir. Nesse sentido, podemos entender que a dor do exílio não era apenas geográfica, mas também simbólica. A República não apenas destituiu a monarquia do poder, mas buscou apagar sua memória e criar na figura da família real um resquício da dominação portuguesa, afinal, seus antepassados eram os colonizadores. Assim, a recente República tentava deslegitimar seus feitos e transformar seus principais personagens em figuras anacrônicas ou irrelevantes.

Frente a isso, podemos perceber como ainda hoje algumas pechas da monarquia luso-brasileira seguem vivas no imaginário popular. Há quem pense em D. Pedro II como um covarde, por exemplo; já o seu pai, D. Pedro I, é marcado pelos casos amorosos e extraconjugais, e não pelo feito de ter proclamado a independência. Já Isabel, apesar de conhecida como “a redentora”, teve seu papel limitado a “assinar algo que nem sabia o que estava fazendo”, como se toda sua luta pela abolição fosse resumida em uma assinatura “aleatória”.

Frente a esse cenário, a construção dessa imagem negativa também atacou, ainda em vida, a família real e a Princesa Isabel. Nos anos seguintes, Isabel ainda enfrentaria outras perdas devastadoras. Em 1915, seu filho mais novo, Antônio, morreu em decorrência de ferimentos sofridos após um acidente aéreo durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1920, enterrou seu segundo filho, vítima de uma longa doença. Isabel ainda viveu e viu seu sobrinho enlouquecer devido aos traumas vividos no exílio, sendo encarcerado em um hospital psiquiátrico.

Cada perda aprofundava seu sofrimento físico e emocional. Gradualmente, Isabel, com o avançar da idade, foi cedendo às doenças e à limitação do seu corpo físico. A monarca perdeu a mobilidade das pernas, debilitando-se até falecer em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos.

Os usos do passado: como a história pode ser manipulada?

Como podemos perceber, a história pessoal dessa princesa revela muito sobre como a ideia do republicanismo foi utilizada ideologicamente por uma elite para depreciar o Império, destruir o regime e tomar o poder. A biografia de Isabel revela também o quanto somos injustos com nossa própria história, uma vez que não buscamos conhecer a fundo os fatos que marcam a nossa sociedade, seus personagens e as motivações de cada um frente ao que ocorreu.

A morte da Princesa Isabel ocorreu de maneira quase silenciosa, como se fosse a conclusão inevitável de um processo de apagamento iniciado décadas antes. Não houve homenagens oficiais do Estado brasileiro, tampouco reconhecimento público à altura da importância histórica de seus atos. A República, consolidada sobre a negação do passado imperial, tratou de relegar Isabel a um papel secundário, quando não distorcido, na narrativa nacional. A “redentora” foi gradualmente transformada em uma personagem incômoda, lembrada apenas de forma superficial nos livros escolares, muitas vezes reduzida a uma assinatura em um papel, desprovida de contexto, coragem ou humanidade.

Esse processo de esquecimento não foi casual, muito menos aleatório. Quando analisamos a história, percebemos que ele fez parte de um projeto político mais amplo que buscava legitimar o novo regime por meio da desqualificação do anterior. Para que a República se afirmasse como símbolo de progresso e modernidade, era necessário pintar o Império como atrasado, opressor e incompatível com os ideais de liberdade e progresso. Dentro dessa lógica, qualquer virtude imperial precisava ser minimizada, relativizada ou simplesmente esquecida. A história de Isabel, com sua atuação decisiva no processo abolicionista e sua postura ética diante do poder, tornava-se um obstáculo narrativo.

Assim, a mulher que abriu mão do apoio da elite econômica para cumprir aquilo que entendia como um dever moral foi transformada em uma figura passiva, quase decorativa. Ignorou-se deliberadamente o fato de que sua decisão custou à monarquia o pouco apoio que ainda possuía. Ignorou-se também que Isabel jamais tentou capitalizar politicamente sua imagem de “redentora”, tampouco buscou popularidade ou glória pessoal.

Dito isso, é importante entendermos que refletir sobre o legado do Império não significa defender a restauração da monarquia, tampouco idealizar um passado que não existe mais. Ao compreender mais sobre a história da Princesa Isabel, não queremos glorificar os tempos monárquicos ou mesmo deslegitimar a República no nosso país. O que queremos é reconhecer que houve, naquele período, valores e práticas que poderiam ter sido preservados e aprimorados dentro da nossa cultura; e reconhecer também a Princesa Isabel, não somente como política, mas como exemplo de ser humano que encarna valores que são válidos ainda hoje. Sua formação intelectual, sua sensibilidade social e sua disposição para assumir as consequências de suas decisões podem nos servir de modelo.

Apesar de todos os esforços para apagá-la, a Princesa Isabel resiste ao tempo. Sua história continua a despertar interesse, debates e revisões historiográficas; e cada novo olhar lançado sobre sua trajetória contribui para desfazer simplificações e recuperar a densidade humana de uma personagem que foi, antes de tudo, uma mulher atravessada por seu tempo.

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Por fim, é válido apontar que a história da Princesa Isabel é, antes de tudo, um símbolo de como estamos esquecendo os nossos heróis. Não estamos falando de Santos, pessoas perfeitas, mas sim de heróis, aqueles que sacrificam sua própria existência e condição pela Justiça, Bondade e demais valores humanos. Isabel, ao assinar a Lei Áurea, sabia que a família real perderia o seu mais valioso aliado para manutenção do poder; porém, isso não poderia ser mais importante do que acabar com o flagelo da escravidão. Mesmo sabendo das consequências, seu dever moral foi o de pôr fim à escravatura, mesmo que isso significasse perder o trono.

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