O Caso do Cachorro Orelha: A Dualidade Humana Entre a Empatia e a Crueldade

A história da filosofia sempre nos revelou uma verdade indiscutível: o ser humano é um ser dual, capaz de atos de extrema empatia, como no caso do cachorro Orelha, e também de comportamentos cruéis quando seus instintos não são educados. Nas tradições orientais, fala-se que somos compostos por uma parte terrena, estritamente instintiva e material, e outra parte espiritual, atemporal e na qual reside nossa verdadeira essência. Para essas tradições, a grande luta da humanidade é conseguir desenvolver uma consciência plena do seu aspecto superior enquanto domina os aspectos inferiores que tentam, a todo momento, escravizá-lo.

No campo simbólico, podemos encontrar a batalha de Arjuna, o príncipe dos Pandavas, que está diante de dois exércitos e não sabe os motivos pelo qual precisa combater seus defeitos; já na tradição cristã, Jesus crucificado é o símbolo do ser humano dividido entre seu aspecto horizontal e vertical, é o homem na encruzilhada.

Representação visual da dualidade humana entre o bem e o mal
A eterna batalha interior entre luz e sombra no ser humano

Para os filósofos modernos, essa relação é ainda mais objetiva e direta. Hobbes, por exemplo, nos fala a famosa frase “o homem é o lobo do próprio homem”, explicando que dentro de cada pessoa existe o potencial da bondade e o potencial da maldade, esses seriam dois lobos que estão eternamente lutando entre si. Quem deve vencer essa batalha? A resposta é simples: aquele que você alimentar mais. 

Poderíamos citar outras centenas de ideias e passagens que refletem essa perspectiva da dualidade inerente na vida humana; porém, não é necessário teorizar quando a realidade bate a porta e nos mostra como, em um mesmo acontecimento, podemos enxergar tão nítidamente a capacidade humana de ser bela, harmoniosa e generosa, e, ao mesmo tempo, podemos ver o pior aspecto que habita em nosso ser: a crueldade, o desejo de machucar o outro e, em síntese, o que de pior pode despertar em nosso âmago quando não aprendemos a nos educar.

O caso em questão que falaremos agora é o de Orelha, um cachorro de rua, sem dono oficial, sem documentos, sem pedigree e sem proteção, que foi cuidado com todo carinho por 10 anos por membros de uma comunidade e, ao cruzar com jovens que não foram educados a conter seus ímpetos de violência, o machucaram até a morte. Como pode a mesma espécie humana produzir pessoas com empatia e desejo de ajudar o próximo e ser a mesma espécie que produz pequenos monstros, incapazes de dominar a si mesmo e de se entregar a impulsos tão vis?

Cãozinho Orelha
Retrato do Cãozinho Orelha

Essa é a dualidade que todos nós precisamos lidar, e por isso o caso de Orelha é, antes de tudo, um exemplo de como a humanidade tem se perdido em meio às suas escolhas, tanto individuais como coletivas.

Para entendermos essa história, devemos contar rapidamente o caso que ganhou notoriedade no Brasil. Objetivamente, Orelha era um cachorro de rua que era extremamente dócil, um verdadeiro xodó da comunidade em que habitava. Durante uma década, foi bem alimentado, tratado e tinha até mesmo um local especial para dormir. 

Diferente da grande parte dos animais de rua, Orelha encontrou pessoas que decidiram amá-lo e, como consequência, se tornou um bom companheiro para aquelas pessoas. Ele dormia em calçadas conhecidas, circulava entre comércios e casas como quem pertence àquele espaço, e sua presença se tornou parte da rotina. Havia quem lhe deixasse água ao amanhecer, quem separasse comida no fim do dia, quem lhe oferecesse sombra e carinho.

Protesto comunitário contra maus-tratos a animais
Comunidade em luto e revolta pela morte de Orelha

A comunidade, ao cuidar de Orelha, exercia algo que vai além da empatia, pois mostrava ter um grau de generosidade e amor profundo. Nessa bela relação, era possível enxergar grandes virtudes humanas, despertadas pelo carisma e alegria do cachorro. Porém, essa não é uma história com final feliz.

Para além do bem e do mal

A vida de Orelha encontrou um fim quando cruzou o caminho de jovens que, por descontrole de seus desejos violentos, a machucaram de tal modo que os danos foram irreversíveis. Para muitos, esse crime é imperdoável, e a revolta é uma emoção que nasce rapidamente em nossos corações. Entretanto, devemos enxergar para além dos fatos objetivos, por mais difícil que isso possa parecer. 

Sendo assim, a história de Orelha, antes de sua morte, mostra que a bondade raramente se apresenta de forma grandiosa dentro da humanidade, pois, ao longo de sua vida, o cachorro encontrou centenas de pessoas de bom coração, que não só o ajudaram a sobreviver, mas lhe deram amor, atenção e carinho. E sabemos que para um animal doméstico isso é mais do que o suficiente. Como surge toda essa bondade? Será que é algo inato para alguns, assim como podemos dizer que a maldade é inata para outros? Essa seria uma explicação fácil, simplista e falsa. 

A verdade é que, assim como praticamente tudo que sabemos nessa vida, a bondade também precisa ser construída, com muito esforço e muita dedicação. Ela nada tem de natural, mas é justamente isso que a torna o maior bem que podemos cultivar em nossa existência. Sendo assim, ninguém nasce sabendo cuidar; aprende-se observando, convivendo e sendo cuidado também. É nesse cenário que podemos desenvolver toda a nossa capacidade, que está muito além de nossas inclinações e desejos. É quando nos colocamos diante da virtude que o ser humano mostra sua capacidade de superar o egoísmo, de olhar para além de si e de reconhecer que toda vida importa, mesmo quando não oferece nada em troca.

Cuidar de Orelha era, para muitos, um gesto comum, mas isso não o tornava menos significativo. Pelo contrário, revelava o quanto a bondade pode se tornar parte do caráter quando é cultivada. O ser humano tem essa capacidade extraordinária de transformar valores em hábitos, de fazer do bem algo natural, assim revelando sua verdadeira natureza. Quando isso acontece, o cuidado deixa de ser exceção e passa a ser regra. Orelha vivia nesse intervalo luminoso da humanidade, onde a empatia ainda falava mais alto que a violência, onde o instinto de proteção vencia a indiferença.

Esse lado claro da natureza humana, no entanto, não é invencível. Ele depende de vigilância, de educação com base em valores e, acima de tudo, de uma ética atemporal, que não esteja presa a costumes de um tempo ou modas. Quando não buscamos esse ideal em nossa forma de educação, basta um descuido para que a lógica do cuidado seja substituída pela lógica da crueldade. E é justamente nesse ponto que a história de Orelha deixa de ser apenas comovente e se torna profundamente triste, porque nos obriga a encarar o fato de que a mesma humanidade que cuida é a humanidade que destrói.

Orelha morreu ao encontrar adolescentes que não souberam (ou não quiseram) reconhecer o valor da vida que estava diante deles. Não se trata apenas de um ato isolado de violência, mas também da manifestação de um lado obscuro do ser humano que emerge quando não há controle dos impulsos, quando a empatia falha e quando a dor do outro é reduzida a um objeto de curiosidade ou diversão. Esses adolescentes, movidos por ignorância, imaturidade e provavelmente pela ausência de limites internos, cometeram um crime que revela o quanto a maldade pode surgir na humanidade quando deixamos que nossos caprichos sejam atendidos.

Cachorro Orelha no céu

Queremos deixar claro que a atitude desses jovens é inaceitável. Apesar da natural revolta que o assunto nos traz, é fundamental entendermos como eles foram capazes de chegar a esse ponto. E devemos entender que, assim como a bondade não nasce naturalmente, a maldade é como uma erva daninha que precisa ser arrancada do peito dos seres humanos. Ninguém acorda pela manhã e pensa em ser mau, isso é, no fundo, uma construção que, pouco a pouco, vai sendo fomentada por experiências mal resolvidas, traumas ou uma ignorância que desagua em uma indiferença pela vida do outro.

Frente a isso, é essencial entendermos que a educação é a única saída para a construção de um alicerce moral que impeça os indivíduos de atuarem desta forma. Por isso que a discussão que devemos levantar não se trata apenas da dualidade bem ou mal, mas vai para além disso e se transforma em como devemos conduzir o ser humano para que esse tipo de conduta não seja executada. 

Criança plantando uma semente sob a orientação de um adulto
Educação em valores como ferramenta de transformação

Para alguns, a solução mais rápida é a punição, de modo que através do trauma se construa um condicionamento que evite novos casos; porém, isso não gera a consciência necessária para novas tomadas de decisão. Uma pessoa que aprende somente por meio de restrição é, no fundo, um ser adestrado e não alguém que pensa, sente e atua de maneira independente. Sendo assim, construir uma estrutura de valores éticos que faça todos viverem esses valores é o caminho mais interessante, mesmo que leve gerações até se consolidar.

Apesar de construir uma lógica racional, entendemos o quão difícil é aceitar que esses jovens também fazem parte da mesma humanidade que cuidava de Orelha. Eles não são uma espécie diferente, não vieram de outro mundo e dentro de cada um deles há o mesmo potencial para a bondade, o amor e a inteligência como qualquer outro. O fato é que, através dessa atitude hedionda, podemos entender que eles são frutos de falhas acumuladas, tanto pelos seus familiares como pelo meio que tentaram educá-los e que falharam. 

Além do erro moral e criminoso, é nítido que houve erros ao aprender a lidar com as próprias emoções, a pensar antes de agir e em considerar outras formas de vida como válidas. Por isso, devemos ressaltar que essa atitude violenta não é criada do nada, muito menos de um impulso momentâneo, mas sim da consequência de um processo em que o autocontrole foi abandonado e os instintos mais primitivos tomaram o lugar da consciência moral.

A banalização do mal

Além das questões apresentadas, há um outro ponto em que o caso de Orelha nos faz refletir: o perigo de banalizar o mal. Em tempos idos, a cultura humana já praticava diversos males contra animais e também outros seres humanos. Atualmente, nos parece “impossível” que tais práticas retornem; porém, casos como esse devem servir de alerta para pensarmos em como estamos criando nossos filhos, quais valores estamos cultivando. Será que, inconscientemente, não estamos mostrando a eles que “não há mal” em fazer algo dessa natureza? Quando evitamos punições ou tentamos super protegê-los, mesmo sabendo da gravidade dos seus crimes, não estamos passando uma mensagem negativa? 

Vale lembrar que os autores do crime são jovens e, portanto, ainda estão em seu processo de formação, o que demonstra, desde já, erros nessa condução por parte dos responsáveis. Isso por si só deveria fazer com que a sociedade repensasse o que os fez tomar tais atitudes. No momento em que passamos a tolerar tais crimes, estamos contribuindo para a banalidade do mal, um conceito desenvolvido pela filósofa Hannah Arendt acerca de como, em sistemas rígidos, é possível obedecer ordens destrutivas apenas pelo fato de estar “dentro da lei”. 

É evidente que o caso de Orelha não está dentro dos parâmetros legais e, por isso, é um crime não apenas moral, mas principalmente do âmbito jurídico. Porém, se tais atitudes passam a ser consideradas “brincadeiras de mal gosto” ou “um erro infantil, próprio de crianças”, então estaremos a um passo de normalizar os maus-tratos. Lembremos que o mal não precisa ser extraordinário para existir. Ele pode ser banal, impulsivo e até desprovido de motivação clara. Quando o ser humano deixa de refletir sobre seus atos, quando age apenas pelo impulso, a crueldade se instala com facilidade.

Nesse sentido, o crime cometido por esses jovens não feriram apenas Orelha, mas também o pacto social em prol da harmonia entre os seres humanos e animais. Eles romperam com a lógica da proteção e introduziram o medo, a indignação e a dor, não apenas no cachorro, mas também em todos que amavam o animal. Orelha, que conhecia apenas o lado acolhedor da humanidade, foi forçado a experimentar sua face mais sombria, aquela que se manifesta quando o outro deixa de ser visto como vida e passa a ser tratado como coisa.

A necessidade de uma educação com base em valores humanos

Voltemos, portanto, a solução para esse dilema: a educação. Visto os impulsos que todos nós possuímos, não há como dominar a si mesmo sem um processo de educação, tanto de nosso próprio corpo como dos nossos valores. É preciso compreender que atitudes violentas, realizadas por caprichos ou desejos, não são toleradas quando envolvem machucar outro ser. É fundamental que ao longo de nossa fase de crescimento, desde a infância até o final da adolescência e início da vida adulta, isso esteja extremamente claro, ao ponto de não poder ser concebido.

Dito isso, é importante lembrar que, dentre as diferentes fases de desenvolvimento de um ser humano, a adolescência é marcada por ser um período de conflitos internos, impulsividade e busca por limites. Analisando por essa perspectiva, é possível entendermos que foi justamente isso que faltou na condução desses jovens: limites e uma clara percepção de punição ao cometer erros graves. Ainda assim, nenhum desses fatores explicam nem justificam a violência extrema realizada contra Orelha. Eles apenas revelam o quanto o caráter humano precisa ser construído com cuidado desde cedo. 

Portanto, enquanto o ser humano não encontra formas saudáveis de lidar com suas emoções, a violência continuará sendo uma válvula de escape e uma resposta para as frustrações, medos e inseguranças. No caso de Orelha, a violência foi dirigida a quem não podia se defender, o que evidencia um padrão preocupante, mas recorrente na história da humanidade: a escolha do mais frágil como alvo. Esse comportamento não é aleatório e pode ser observado de diferentes modos, desde o bullying praticado nas escolas, com brincadeiras de mau gosto, até a perseguição de grupos sociais por parte de governos e tiranos. 

Considerando essas ideias, podemos imaginar o que poderia ter impedido o destino de Orelha e, mais uma vez, esbarramos na educação com base em valores humanos, pois a consciência é a fronteira mais eficaz do mundo. É ela quem separa o impulso da ação, o pensamento do ato. Quando ela está presente, o ser humano é capaz de parar, refletir e recuar. Assim, cultivar a consciência exige esforço contínuo, um trabalho eterno para domar os impulsos naturais de nossos instintos. 

Para ser capaz de superar esse aspecto e viver plenamente, é fundamental reconhecer emoções negativas, admitir limitações e saber que, dentro das possibilidades, devemos sempre nos manter vigilantes para não incorrermos em ações tão graves. Orelha morreu porque essa consciência falhou, porque os adolescentes envolvidos não conseguiram (ou não foram ensinados) a escutar a voz interna que diz “pare”.

Justiça pelo cão orelha

Por fim, embora sua vida tenha sido interrompida de forma brutal, Orelha deixa um exemplo para a humanidade, pois demonstrou que podemos ver o lado brilhante e virtuoso de nossas ações, mas também podemos nos deparar com ações que nem mesmo a pior das bestas seria capaz de fazer. Como disse Pico Della Mirandola, filósofo renascentista, em seu discurso sobre a dignidade do homem:

 “Podemos nos elevar até a altura dos deuses e anjos, mas também podemos nos rebaixar ao nível do mais vil animal. Cabe a ti, ó Adão, ser o arquiteto do seu próprio destino”. 

No fundo, sempre dependerá da escolha humana. O que queremos nos tornar? O que queremos seguir? Será que devemos deixar nossos impulsos livres, sem amarras, ou combater até o fim pela elevação moral e sermos merecidamente reconhecidos como seres humanos? O caso de Orelha nos deixa entender perfeitamente que essa escolha é individual e será pautada, em grande medida, na forma como nossos valores foram construídos.

Citação de Pico Della Mirandola sobre a dignidade humana
A escolha moral como destino humano, segundo Pico Della Mirandola

Que esse caso não seja mais um dentro da história; que mesmo que esqueçamos dos seus detalhes cruéis, jamais deixemos de lado os ensinamentos que podemos observar a partir dele. Orelha deixa de ser um cachorro e passa a ser um símbolo, um verdadeiro lembrete de nossa responsabilidade humana perante a vida, a natureza e os nossos valores.

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