Série “A Revolução Francesa”: Introdução

A Revolução Francesa foi um dos movimentos mais importantes e complexos da nossa história. Não por acaso, na periodização tradicional da História, ela demarca o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea, que vivemos até hoje. Apesar das polêmicas sobre essa divisão, é fato que os dez anos da Revolução Francesa mudaram o mundo como conhecemos, trazendo novas formas de pensamento, de gestão social, e fundou as bases de nossa sociedade moderna.

Conhecer um pouco mais sobre a Revolução Francesa é, portanto, um exercício que vai além da história: é um mergulho para compreender como a sociedade em que vivemos foi pautada, desde os seus ideais iluministas até modelos de governo. Para conhecermos essa revolução, é preciso, porém, entender o que estamos chamando de “revolução”.

De maneira objetiva, pode-se definir como “revolução” todo e qualquer movimento que de maneira rápida causa mudanças profundas em qualquer sistema social. É muito comum, por exemplo, confundirmos esse conceito com o de “revolta”, que é, em geral, uma comoção social causada por um grupo de pessoas com reivindicações específicas. Entretanto, diferentemente da ideia de “revolução”, a revolta não tem como objetivo principal uma mudança drástica na sociedade, mas sim a conquista de direitos ou o fim de algum tipo de punição.

Visto isso, podemos imaginar que o impacto da Revolução Francesa foi, de fato, uma mudança drástica que ocorreu na França; entretanto, seu impacto foi tão contundente que toda a Europa ficou abalada com os acontecimentos que ocorreram entre 1789 e 1799 na França. Vamos conhecer um pouco mais sobre isso?

A França do Antigo Regime: o Absolutismo

É impossível falar da Revolução Francesa sem conhecermos um pouco da França do século XVIII. É importante entender o contexto histórico em que os fatos se passaram, pois assim poderemos ter uma linha de pensamento lógico para compreender as motivações dos revolucionários. Ao mesmo tempo, deve-se entender que não é possível imaginar tais reações, muitas delas demasiadamente violentas, sem que haja motivos ou um forte desejo de mudança da realidade.

Os três estados do Antigo Regime: o clero, a nobreza e a burguesia
Os três estados do Antigo Regime: o clero, a nobreza e a burguesia

Sendo assim, vamos fazer um mergulho na França do período que antecedeu a Revolução Francesa. O país vivia tantas contradições, tantas crises e tanto sofrimento que é até difícil explicar de forma simples as motivações dos revolucionários sem negligenciar algum ponto importante dessa história. Mesmo assim, tentaremos fazer um resumo de forma breve. 

Inicialmente, precisamos entender que o regime político da França era o Absolutismo. Advindo do Antigo Regime, o Absolutismo nada mais era do que uma forma de governo em que o monarca, na figura do rei, detinha praticamente todos os poderes em suas mãos. O rei era a autoridade máxima, a justiça encarnada, capaz de criar ou desfazer impostos e leis, e direcionava a nação para o caminho que mais lhe agradasse. É evidente que cada rei possuía um corpo de conselheiros, muitos deles nobres e religiosos, visto que a grande autoridade que legitimava o poder dos monarcas era a Igreja. Assim, existia uma relação íntima entre Igreja e Estado, o poder religioso e o político andavam de mãos dadas. 

Essa legitimidade do rei perante o poder político se dava por uma teoria difundida na própria França, por Jean Bodin, e se chamava “o direito divino de governar”. Nessa teoria, explicava-se que o rei não era apenas um ser humano, mas um verdadeiro pontífice que estava  a serviço da cristandade e, por isso, tinha como legado manter sua dinastia de governantes. A Igreja reconhecia a nobreza divina dos reis, e assim não se poderia questionar ou retirar de maneira pacífica um monarca do poder.

Não precisamos apontar o quanto perigoso é um sistema social em que todo poder se concentra na mão de uma única pessoa. Naturalmente, a nobreza e o clero, que eram a esmagadora minoria da população, detinham benefícios e privilégios, enquanto o terceiro Estado, destinado a todas as pessoas que não descendiam das famílias da nobreza medieval ou do clero, representava o grande corpo social que sustentava a nação.

Essa relação desigual não surgiu do dia para a noite. Devemos lembrar que o chamado “Antigo Regime” bebia das fontes medievais, com uma estrutura social rígida em que cada um cumpria um papel específico. Assim, era uma frase comum nas comunas medievais que: “o clero reza, o nobre protege e os servos trabalham”. Essa mesma lógica foi aplicada ao longo dos séculos na França, e ainda em 1700 se observava uma relação muito próxima dessa ideia, na qual o papel do clero era o do conforto espiritual e religioso; a nobreza tinha como papel principal o de proteção da nação; e todos que não estavam nesse escopo deveriam trabalhar de modo incessante para custear os gastos do estado, da nobreza e da Igreja.

Naturalmente, a pressão social sobre as classes mais baixas foi se tornando insustentável, o que gerou um colapso social. Porém, para surgir um fato novo, uma mudança total na sociedade, não bastaria apenas o sofrimento, mas sim novas ideias, novas percepções de mundo. Era preciso iluminar-se com novas possibilidades, e, graças a um movimento intelectual, as bases fundamentais da revolução estavam prontas em 1789.

Feedobem Revolucao Francesa

O Iluminismo: a base ideológica da Revolução Francesa

Platão, um dos grandes filósofos que o Ocidente já produziu, falava que tudo que existe no mundo manifestado teve sua origem em um outro mundo, mais sutil e imaterial, o mundo das ideias. Logo, antes de qualquer evento ou fato histórico ocorrer, é preciso que uma ideia tenha surgido. Com a Revolução Francesa, essa percepção se encaixa perfeitamente. Antes de começar um movimento que mudaria o destino da França  – e de todo o mundo – para sempre, foram necessárias décadas e gerações de pensadores que vislumbraram a possibilidade de um mundo diferente, baseado na Igualdade, na Fraternidade e na Liberdade.

Filósofos iluministas como Rousseau, Montesquieu e Voltaire discutindo ideias revolucionárias.
Pensadores iluministas: a base teórica da Revolução Francesa.

Estamos falando dos iluministas, pessoas que fizeram parte de um movimento intelectual nascido a partir do racionalismo do século XVII. Os iluministas, em sua grande maioria franceses e ingleses, foram intelectuais que dedicaram suas obras a refletir sobre a sociedade e os modos de governo de maneira mais justa, racional, excluindo assim o fator religioso da legitimação do monarca. Em sua maioria, defendiam um sistema republicano, com direito a votos e a um equilíbrio de poder entre governante e governados.

Alguns desses pensadores ficaram marcados para sempre na história do pensamento mundial: Rousseau e sua teoria do bom selvagem; Montesquieu e sua teoria dos três poderes, até hoje praticada em grande parte do mundo. Poderíamos passar algumas dezenas de páginas explicando cada um desses conceitos e os demais pensadores, porém, vamos sintetizar entendendo que tais ideias, ao circularem no seio social da França e pelo mundo, começaram a apresentar soluções aos descasos e absurdos que o absolutismo francês produzia.

bastilha 1

Uma vez tendo as bases ideológicas, era chegada a hora da revolução! Vale ressaltar que tais pensadores não foram os principais articuladores do movimento revolucionário, mas tiveram a grande ousadia de inovar no pensamento, quebrando o raciocínio aceito pelo paradigma social, e sonharam com novas possibilidades. O fato de romper as amarras do pensamento foi, sem dúvida, um importante passo para a construção de um futuro diferente. Não por acaso, o grande lema da Revolução Francesa bebe diretamente do Iluminismo, mostrando assim sua influência direta.

Entretanto, devemos parar por aqui. Não seria possível falar de todas as etapas desse período revolucionário na França em um único texto. Demandaria muito tempo, além de conterem detalhes que não caberiam nessas poucas páginas! Por isso, nós da Feedobem pensamos em mais uma série para falarmos com mais detalhes de cada momento desse importante fato histórico. Nosso grande objetivo é compreender com profundidade a Revolução Francesa e seus impactos no mundo atual. Para isso, vamos explicar por etapas os diferentes momentos da Revolução, suas consequências e o seu legado para a humanidade.

Não deixem de nos acompanhar! Aguardamos todos nos próximos textos!

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