Filme “Zootopia”: Quando os Animais nos Ensinam a Sermos mais Humanos

Muitas vezes, só nos enxergamos através do outro, só percebemos as consequências de nossas fragilidades e o quanto nossas virtudes são indispensáveis quando somos colocados diante de uma história que nos faz refletir sobre nossa própria postura diante do mundo. O cinema, assim como outras formas de arte, acaba se tornando um campo fértil para fazer o ser humano repensar algumas ideias e mentalidades que, ao longo da vida e suas experiências, foram sendo construídas e consolidadas, mas que não atendem à nossa finalidade humana. Entretanto, a arte não constrói esse caminho de transformação de maneira abrupta, mas sim de forma pedagógica, quase sem percebermos. 

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O filme que indicamos hoje tem esse caráter extremamente didático para nos fazer pensar. Estamos falando de “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”, da Walt Disney Animation Studios, que, apesar de num primeiro momento se mostrar somente como uma animação para crianças, revela sua essência quando ensina tanto jovens como adultos sobre diversidade e o nosso lugar no mundo. O que poderia ser apenas uma fábula moderna sobre animais falantes transforma-se, pouco a pouco, em um retrato sensível e crítico das tensões que atravessam nossas cidades contemporâneas.

Visto isso, do que exatamente trata o filme? Em síntese, podemos resumir que Zootopia é construída como uma metrópole vibrante, plural e complexa, onde diferentes espécies convivem em aparente harmonia, ocupando espaços pensados para suas especificidades físicas e culturais. Há bairros gelados para animais do Ártico, regiões desérticas para aqueles acostumados ao calor extremo, centros urbanos modernos e distritos com arquitetura mais tradicional, formando um mosaico que remete às grandes cidades do mundo real. 

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Essa organização espacial, que à primeira vista parece apenas um detalhe criativo, carrega uma mensagem profunda sobre diversidade e adaptação, mostrando que uma sociedade saudável não exige que todos sejam iguais, pois compreende que a igualdade em si é impossível; logo, é preciso construir meios e mecanismos que consigam atender a todos a fim de que, naturalmente, cada cidadão desta cidade, de acordo com suas próprias capacidades, encontre o seu lugar sem abrir mão de sua identidade. Desse modo, no mundo de Zootopia a diferença não é um problema, mas uma potência a ser explorada.

Dentro desse contexto, será que não deveríamos considerar essa possibilidade em nosso mundo atual? Quando observamos girafas caminhando por avenidas altas, camundongos habitando miniaturas de prédios e elefantes trabalhando em lojas de sorvete, somos convidados a refletir sobre a importância de criar estruturas sociais que respeitem as diferenças, em vez de tentar nivelá-las à força.

O poder da Diversidade

Agora que entendemos um pouco do mundo em que Zootopia foi pensada, precisamos falar sobre o grande mérito e lição da obra: o valor da diversidade. Num primeiro momento esse parece ser um tema desafiador, porém, como diz uma antiga frase, há uma linha que une o difícil e o válido; logo, precisamos entender o que é exatamente esse poder que a natureza demonstra a partir das infinitas formas de expressar a vida.

Visto isso, é preciso entender o que chamamos de diversidade e porque muitas vezes é difícil lidar com o outro. De maneira objetiva, a diversidade nada mais é do que as diferentes expressões de algo. Assim, podemos ter uma diversidade de canetas, de cores, tamanhos e formatos distintos, mas todas estão ligadas por uma mesma ideia, que é ser uma caneta. Levando essa perspectiva para o nosso mundo, podemos entender que a diversidade é uma das maravilhas da humanidade, pois, graças aos diferentes tipos humanos, com habilidades, virtudes e perspectivas distintas, podemos construir uma sociedade múltipla e com talentos igualmente diversos. 

Entretanto, se conseguimos perceber que a diversidade nos possibilita viver melhor, com diferentes possibilidades, por que ainda hoje ela se mostra um desafio? Infelizmente, isso ocorre devido a um instinto humano que rejeita tudo que não conhece, domina ou que não se assemelha a si. Assim, entre o conhecido e o desconhecido, optamos sempre por aquilo que já faz parte de nossa vida. Essa perspectiva é aplicada em diferentes âmbitos, incluindo nossa formação social e relações. Assim, à medida que deixamos esse instinto dominar nossas escolhas, começamos a querer evitar algo novo ou diferente do que já conhecemos, e é nesse momento que a diversidade perde valor nas culturas humanas.

É importante ressaltar que essa questão não é atual, pois desde sempre a humanidade precisou de muito esforço para construir relações saudáveis e empáticas com a diversidade, seja entre os próprios seres humanos ou com outros seres. Em geral, aqueles vistos como “diferentes” eram excluídos e sumariamente rejeitados em grande parte das civilizações, o que demonstra o quão difícil é livrar-se das amarras do instinto de sobrevivência, que é quem, em essência, rege esse aspecto da vida.

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Dito isso, um dos grandes méritos de Zootopia está em apresentar a diversidade não como um obstáculo a ser tolerado, ou seja, que é preciso “aturar” as diferenças, mas como uma força vital que sustenta a própria cidade, que sem as diferenças nada poderia funcionar. Essa é uma perspectiva brilhante que, de tão simples, revela a sabedoria que há no mundo natural e que nós não enxergamos. Assim como em um ecossistema, cada espécie contribui com suas habilidades naturais, suas perspectivas singulares e suas experiências específicas, formando um tecido social rico e dinâmico. Tudo flui harmoniosamente pois está cumprindo com o seu papel. Eis o mundo que o ser humano deveria recriar para si.

Dentro do contexto do filme, quando a ordem começa a se desfazer por conta dos ataques misteriosos que fazem alguns predadores retornarem ao comportamento selvagem, percebemos o quão frágil pode ser a confiança coletiva quando ela não está firmemente enraizada no respeito genuíno. O medo rapidamente transforma diferenças em suspeitas, e a diversidade, que antes era celebrada como símbolo de progresso, passa a ser vista como risco.

Essa virada narrativa dialoga diretamente com momentos históricos da humanidade em que crises sociais ou econômicas foram usadas para justificar discriminações, perseguições e exclusões. Em Zootopia, a ideia de que predadores são “naturalmente perigosos” ganha força, mesmo que a maioria deles tenha vivido por gerações em paz. Fazendo uma analogia com a história da humanidade, o filme nos lembra que nenhuma sociedade está imune ao retrocesso quando permite que o medo substitua o diálogo racional e quando deixa de reconhecer que cada indivíduo é maior do que o rótulo que lhe atribuem.

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Esses ciclos dentro das sociedades humanas são bem conhecidos e, mesmo que não desejemos, podem retornar desde que o medo mais uma vez se instaure dentro de nosso modelo social. Quando perdemos essa harmonia entre os seres humanos, nos colocamos uns contra os outros e assumimos a “lei do mais forte”, em que os mais poderosos e capazes esmagam e silenciam os que estão em minoria .Curiosamente, apesar de um assunto sério e fundamental para todos nós, o filme tem uma estética infantil, próprio para crianças; e isso, a bem da verdade, ajuda a tornar essas reflexões mais palatáveis, didáticas e, para os espectadores mais atentos, se tornam transformadoras.

Aprendendo a reconhecer a diversidade dentro de nós

Outro ponto importante, que gera bastante reflexão, nos é apresentado através da coelha Judy e seu sonho de ser policial e contribuir para um mundo mais justo. É aqui que a Disney acerta mais uma vez na mensagem em que busca passar com o filme, tanto para adultos quanto para crianças. Na sua jornada, Judy não apenas precisa enfrentar as dificuldades internas de seguir com o seu sonho, mas principalmente o descrédito por parte dos outros animais que vê na frágil coelha alguém que não possui os atributos necessários para a função de policial. É aqui que a reflexão sobre a diversidade se amplia e precisamos refletir.

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Se entendemos que a diversidade está na expressão de diversas formas acerca de uma ideia, será que não pode existir uma diversidade dentro de cada profissão? No exemplo do filme, será que todo policial precisa ser forte e viril? Ou será que, dentro da perspectiva da ideia de ser policial, não cabem diferentes maneiras de atuar? Para entender isso, precisamos refletir sobre a natureza de cada aspecto do mundo, o que torna o exercício de entender a dificuldade um contínuo exercício de consciência e inteligência. Mas falemos apenas do exemplo do filme.

Primeiramente, qual a causa ou motivo de existir um policial? A segurança. Um policial serve para proteger e garantir a segurança dos outros. E só podemos garantir esse aspecto sendo fortes? Ou será que, dentro dessa ideia, não cabem outras maneiras de atuar? É aí que nasce a beleza da diversidade, pois cada pessoa, dentro da sua forma, pode contribuir para melhorar e representar diferentes aspectos daquela ideia, tornando-a mais completa. 

Visto isso, não podemos pensar que a diversidade está apenas na aceitação das diferentes formas físicas ou psicológicas que podemos assumir ao longo da vida. No fundo, a diversidade consegue permear todos os âmbitos da vida e revelar uma melhor expressão de uma ideia, uma vez que essa é capaz de se adequar a toda e qualquer forma.

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No filme, os primeiros a terem dificuldades em aceitar os sonhos de Judy são os próprios pais, que, naturalmente preocupados e cientes de tudo que a filha teria que enfrentar para seguir a carreira policial, preferem apoiar um caminho para o futuro em algo que eles já conhecem, em algo que eles mesmo escolheram para suas vidas, baseado em suas qualidades naturais. Mas Judy se demonstra determinada em seguir seus sonhos, e, mesmo tendo muitas dificuldades desde a sua formação na academia de polícia, ela aprende a vencer suas provas explorando suas potencialidades, descobrindo a sua forma de fazer as coisas, ao invés de tentar imitar os outros recrutas.

Este é um grande ensinamento para as crianças e para os adultos, afinal, quantas vezes temos nossos sonhos destruídos por não acreditar que somos capazes? Quantos “isso não é para você” ou “você não leva jeito para isso” já escutamos de pessoas que não aceitam que podemos alcançar nossos objetivos? É possível que, em determinadas circunstâncias, seja preciso uma forma perfeita para alcançar o mais alto grau em uma profissão ou performance; porém, é possível vencer tudo quando estamos dispostos. Não existe o impossível, apenas impossibilitados, e por isso somos capazes de superar nossas limitações internas e chegar ao topo. 

É partindo de reflexões tão profundas como essas que Zootopia se mostra como uma bela animação, não somente pela sua estética e narrativa, mas principalmente por conseguir fazer o público pensar sobre suas próprias vidas. E isso não é feito de modo duro ou doloroso; na verdade, o longa consegue nos arrancar boas risadas através de um excelente humor. As piadas servem para parodiar nossa vida contemporânea, evoluída em tecnologia, mas com tantas dificuldades quando se trata de questões mais humanas, como convívio, respeito, ética, amor ao próximo e serviço à sociedade.

Zootopia 2 e a maturidade de aprender com seus erros

Com o lançamento de Zootopia 2, a cidade que antes conhecemos em meio a uma crise de identidade retorna às telas não apenas maior em escala, mas mais complexa em suas tensões e amadurecida em suas reflexões. Se no primeiro filme fomos apresentados a uma sociedade que acreditava ter superado seus instintos primitivos, mas que rapidamente revelou fissuras profundas diante do medo e da manipulação, agora acompanhamos as consequências desse despertar coletivo. 

Zootopia já não é apenas uma cidade que celebra a diversidade em slogans otimistas, mas um espaço que precisa provar, na prática, que aprendeu com seus próprios erros. A sequência aprofunda a discussão sobre o esforço contínuo para manter viva a convivência harmoniosa entre diferentes espécies com base no respeito à diversidade.

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Frente a isso, Zootopia 2 expande o universo da cidade, apresentando novos distritos e espécies que ampliam o mosaico cultural já conhecido, e com isso reforça a metáfora da sociedade como organismo vivo e multifacetado. Cada novo ambiente introduzido reforça a importância da pluralidade como um princípio a ser respeitado e de que esta, por sua vez, não é estática, pois a todo momento novas formas surgem e precisam ser integradas.

À medida que novas vozes passam a reivindicar espaço e reconhecimento, a cidade se vê desafiada a atualizar suas estruturas para garantir que ninguém seja excluído de sua dinâmica social. Não por acaso, atualmente esse é um desafio que todos nós enfrentamos, pois não basta crescer o número de habitantes, riqueza ou renda nas cidades em que vivemos, mas também manter a equidade entre as pessoas, seus direitos e deveres.

Nesse segundo filme, destaca-se também a exploração das consequências emocionais dos eventos do primeiro filme, mostrando assim uma sociedade que aprende com seus erros e traumas. O mundo de Zootopia 2 não ignora esse passado, mas o integra como parte do processo de amadurecimento social. A cidade aprende que a confiança, uma vez abalada, precisa ser reconstruída com transparência e diálogo, e que a simples punição dos responsáveis não elimina as raízes do problema. 

A jornada de Judy, por sua vez, também ganha novos contornos, pois agora ela precisa equilibrar seu idealismo com a complexidade das responsabilidades institucionais. Se antes sua luta era provar que uma coelha poderia ser policial, agora seu desafio é contribuir para que a polícia como instituição seja verdadeiramente inclusiva e justa.

Visto isso, talvez a maior contribuição de Zootopia 2 para o conjunto da obra seja reafirmar que a diversidade não é uma meta a ser alcançada e depois celebrada como conquista final, mas um princípio orientador que deve atravessar todas as decisões coletivas e que, naturalmente, precisa ser constantemente adaptado às novas formas que surgem. A cidade aprende que harmonia não significa ausência de conflitos, mas capacidade de resolvê-los sem recorrer à exclusão ou ao medo, dois mecanismos amplamente utilizados pela humanidade. Ao mostrar personagens que dialogam, revisam posicionamentos e reconhecem vulnerabilidades, o filme reforça a ideia de que sociedades saudáveis são aquelas que permitem o erro, mas não se acomodam nele.

Assim, Zootopia 2 amplia e amadurece a mensagem inaugurada pelo primeiro filme, transformando a metáfora da cidade dos animais em um espelho ainda mais nítido de nossas próprias comunidades. Ao acompanhar essa evolução, somos convidados a refletir sobre nosso papel dentro do tecido social, perguntando-nos de que maneira nossas virtudes individuais podem contribuir para o bem comum. Essa mudança de perspectiva é fundamental para que possamos construir ambientes mais justos em nossa sociedade, e por isso o filme consegue refletir um drama que não está apenas na ficção, mas também em nosso cotidiano.

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Por fim, Zootopia, seja em seu primeiro filme ou na continuidade proposta por Zootopia 2, permanece como uma narrativa extremamente válida e atual, que utiliza a leveza da animação para tratar de temas densos e profundamente humanos. Ao apresentar animais que aprenderam a viver em sociedade, a obra nos convida a revisitar nossa própria humanidade, questionando preconceitos, revendo atitudes e reafirmando a importância do respeito mútuo.

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