Filme “O Grande Ditador”: Lições Atemporais Sobre o Poder e a Liberdade

Poucos filmes conseguem atravessar décadas sem perder relevância. Menos ainda são aqueles que, mesmo após tanto tempo, parecem falar diretamente ao presente, como se tivessem sido feitos para o mundo de hoje. “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, é exatamente esse tipo de obra. Mais do que um clássico do cinema, ele é um clássico que ganhou notoriedade não apenas pela técnica e ideias, mas principalmente por ser um grito contra o autoritarismo de seu tempo. Levantando-se como uma sátira, essa obra é uma reflexão profunda sobre o poder, a liberdade e a fragilidade humana diante de líderes que se apresentam como salvadores, mas apenas causam destruição na humanidade.

Capa do filme o grande ditador

É provável que você já tenha assistido ou ouvido falar desse filme, afinal, não se alcança o patamar de clássico à toa. Ainda assim, insistimos em refletir sobre as ideias que essa obra legou ao mundo. Além disso, indicar “O Grande Ditador” não é apenas sugerir um filme para entretenimento, mas também convidar o espectador a uma experiência transformadora, capaz de nos fazer reposicionar diante de algumas ideias e, ao mesmo tempo, de nos arrancar boas risadas.

Afirmamos isso porque Chaplin não criou apenas uma sátira política  como geralmente costumamos pensar. Na verdade, o que está diante de nós é um espelho, pois cada um possui um pequeno ditador dentro de si que, por vezes, quer tomar o controle de nossas ações.

Lançado em 1940, em pleno avanço do nazismo na Europa, “O Grande Ditador” foi um ato de coragem. Considerado na época como um filme de propaganda antinazista, Chaplin foi considerado, por alguns, como alguém que colocou em risco os Estados Unidos, visto que naquele momento a nação americana ainda não estava mergulhada na guerra. Nesse sentido, a provocação feita por Chaplin definiu não apenas o seu lado interior do conflito, mas também apontava qual caminho a América deveria seguir.

Vale ressaltar que naquele momento Chaplin já era consagrado como um dos maiores artistas do cinema mudo, logo, sua reputação também estava em jogo. Ainda assim, decidiu falar pela primeira vez em um filme sobre o perigo que Adolf Hitler trazia e o regime fascista que ele representava. O filme, portanto, é uma ode a coragem do seu artista e produtor. O resultado foi uma obra que mistura comédia, drama e crítica política de forma magistral. Dito isso, não é exagero afirmar que “O Grande Ditador” está entre as maiores obras já produzidas pela sétima arte. 

O riso como arma contra o autoritarismo

Agora que entendemos o aspecto político do filme, sobre o que exatamente seu enredo trata? A trama acompanha dois personagens interpretados pelo próprio Chaplin: Adenoid Hynkel, um ditador caricatural que governa a fictícia Tomania, e um humilde barbeiro judeu que, por uma série de confusões, acaba sendo confundido com o líder autoritário.

Essa dualidade é um dos grandes trunfos do filme. Ao colocar lado a lado o poder absoluto e a fragilidade humana, Chaplin escancara o absurdo do autoritarismo. Hynkel é ridículo, infantil, narcisista. Ele brinca com o globo terrestre como se fosse um balão, simbolizando a forma leviana e egocêntrica com que ditadores tratam o destino de milhões de pessoas. Essa cena, aliás, é uma das mais icônicas da história do cinema por ser bela, poética e assustadora ao mesmo tempo. Não por acaso, em obras posteriores se tornou comum representar um ditador (ou uma pessoa com muito poder) brincando com mapas, globos e exércitos, como se tudo estivesse em sua posse.

O grande ditador 1

Para muitos, porém, isso pode parecer pouco para elencarmos essa obra como um clássico. Insistimos, todavia, que a beleza de “O grande ditador” é ser capaz de usar, acima de tudo, o humor como uma arma de combate. Chaplin compreendeu algo fundamental para a sua época que vale até hoje: todo ditador teme ser ridicularizado, pois se alimenta da imagem de grandeza e de força absoluta. Quando rimos deles, quebramos esse feitiço, mostramos que podemos vencê-los.

Assim, ao transformar Hitler em uma figura patética, Chaplin retira dele o poder simbólico construído pela propaganda nazista. Não por acaso, o filme é visto como uma propaganda justamente por contrapor essa figura histórica e todos os discursos que o elevavam a um grande líder. Na obra de Chaplin o ditador deixa de ser uma entidade quase mítica e passa a ser visto como aquilo que realmente é: um ser humano pequeno, movido por vaidade, medo e desejo de controle, mas que no fundo não passa de alguém que não sabe muito bem pelo que luta, pelo que vive e porque está no mundo.

É por isso que, a rigor, “O Grande Ditador” é um filme de comédia, mesmo que carregue em si o peso do seu contexto histórico e de ideias tão necessárias ao mundo. O riso que damos ao ver as peripécias do personagem de Chaplin, portanto, não é superficial, mas carrega um profundo desconforto. Em muitos momentos, rimos e logo em seguida sentimos um peso no estômago, porque percebemos que aquela caricatura representa algo real e perigoso. Chaplin nos faz rir para que possamos enxergar com mais clareza. Essa é, talvez, uma das grandes virtudes do filme, pois nos convida à reflexão de maneira “leve”.

O grande ditador 2

Um dos aspectos que o torna atemporal é o fato de que, embora “O Grande Ditador” tenha sido criado em um contexto histórico específico, sua mensagem ultrapassa fronteiras do tempo e do espaço. O autoritarismo não pertence apenas ao passado, muito menos está congelado em épocas antigas. Como uma ideia, ele se reinventa, muda de rosto, adapta seu discurso e mais uma vez invade o coração e mente das pessoas. Às vezes, surge de forma explícita; em outras, se infiltra lentamente na sociedade, normalizando a intolerância, a censura e a violência, inicialmente simbólica e posteriormente física.

Como nasce um ditador?

É nesse sentido que a obra de Chaplin alcança o patamar de clássico, pois consegue transmitir sua força ainda nos dias atuais. É o tipo de filme que pode superar o tempo, pois sempre poderemos nos identificar com seus personagens, dilemas e sua mensagem permanece atual. Para isso, a construção do ditador é uma maneira interessante para pensarmos e poder refletir como nascem os pequenos e grandes autoritários.

Devemos lembrar que o autoritarismo não nasce do nada. Ele cresce quando as pessoas abrem mão do pensamento crítico em troca de falsas promessas de ordem, segurança e grandeza de um grupo, seja de pequenas pessoas ou mesmo de uma nação. Através do seu personagem, Chaplin mostra como líderes autoritários se aproveitam do medo coletivo, das crises econômicas e das frustrações sociais para se apresentarem como salvadores. Não por acaso, ao analisar Hynkel, apesar de caricato e ser a imitação de um ditador conhecido, podemos notar as ideias que guiam sua forma; e isso, seja no presente ou no passado, nos dá uma noção de como se comporta um ditador. 

O grande ditador 4

O filme ainda nos lembra que o autoritarismo não destrói apenas instituições, que são, em geral, a base de uma sociedade, mas ataca principalmente os valores humanos. Ele transforma pessoas comuns em cúmplices da opressão, seja pelo silêncio, seja pela obediência cega, isso que a filósofa Hannah Arendt chamou de “A banalidade do mal”. Quando deixamos de pensar por si só para seguirmos as ideias de uma doutrina, seja ela política, religiosa ou de qualquer outra natureza, podemos nos desumanizar ao ponto de agir de maneira cruel sem nos sentirmos culpados disso. É assim que os ditadores controlam seus seguidores e os colocam como cúmplices de seus crimes. 

No filme, isso se torna evidente quando observamos a obediência de toda nação aos caprichos de Hynkel. Soldados, oficiais e cidadãos seguem ordens absurdas sem questionar. Muitos deles não parecem maus por natureza, apenas não refletem sobre suas ações. Eles obedecem porque é mais fácil obedecer do que pensar. Essa é uma das reflexões mais importantes que o filme propõe: o autoritarismo só se sustenta quando encontra terreno fértil na passividade das pessoas. Quando deixamos de questionar, de dialogar, de resistir, abrimos espaço para que a violência se torne rotina.

Os pequenos ditadores que habitam em nós

Frente a esses aspectos, talvez a mais importante mensagem do filme está em aprendermos não a enxergar ditadores externos, mas principalmente a sabermos olhar dentro de nós como estamos agindo em relação a essas ideias. O autoritarismo não existe apenas em grandes líderes ou regimes, mas nasce e se manifesta em nossas atitudes cotidianas. Não por acaso, quando observamos o contexto histórico de nascimento das ideias nazistas, por exemplo, percebemos que Hitler foi apenas um canal para canalizar um desejo que já existia na mente de muitas pessoas. Se não fosse ele, o ditador provavelmente poderia ter sido outro a fazê-lo.

O grande ditador 5

Visto isso, é fundamental que saibamos enxergar em nós quando essas ideias começam a nos rodear, a nos atrair e parecer, mesmo que a distância, uma boa ideia. Vamos colocar em exemplos: Quantas vezes tentamos controlar tudo ao nosso redor? Quantas vezes impomos nossas opiniões sem ouvir o outro? Quantas vezes exercemos poder sobre alguém de forma injusta, seja em casa, no trabalho ou nas relações pessoais? Por mais que estejamos distantes de sermos ditadores de uma nação, dentro de nós, muitas vezes, agimos dessa maneira; e isso, mesmo que a princípio não pareça “nada demais”, alimenta um mundo de ideias e emoções que, uma hora ou outra, termina por se manifestar.

Chaplin sugere que todos temos o potencial de nos tornarmos pequenos ditadores. Quando buscamos controle absoluto, quando não toleramos o diferente, quando confundimos autoridade com autoritarismo, damos vida a essa versão reduzida, mas igualmente perigosa, do poder opressor. Assim, viver de forma autoritária é viver aprisionado. Quem tenta controlar tudo, acaba sendo controlado pelo próprio medo. Esse é o paradoxo da tirania que, ao possuir todo o poder, não consegue exercê-lo plenamente por ter medo de que em algum momento irá perdê-lo. O tirano, portanto, acaba destruindo seu reino e súditos e, ao fim, ou não há mais ninguém para liderar, ou seus liderados, pelo bem do Todo, expulsam-no do poder.

O grande ditador 6

Visto isso, onde podemos encontrar o ditador que está em nós? Certamente em nossas ações cotidianas. Esse tipo especial de autoritarismo surge quando alguém acredita que sua visão de mundo é a única correta e que o outro, além de está errado, deve se manter calado, por ser “inferior” em sua visão em relação à nossa. É possível que a grande maioria de nós não pensemos assim explicitamente, mas no fundo, quando defendemos ferrenhamente nossos pontos de vista, estamos, na realidade, querendo demonstrar um tipo de superioridade (seja física ou intelectual) diante do outro. 

Assim, o autoritarismo cotidiano nasce quando o diálogo é substituído pela imposição. Nesse sentido, “O Grande Ditador” funciona como um exercício de autoconsciência. Ao rirmos de Hynkel, somos convidados a refletir sobre nossas próprias atitudes. Quantas vezes nos tornamos rígidos demais? Quantas vezes reagimos com agressividade diante da diferença? Quantas vezes tentamos controlar situações, pessoas ou resultados por medo do caos?

Ao levarmos essas perguntas ao extremo, poderemos constatar que, ao final, colocamos o outro numa situação tão oprimida que poderemos perder nossa humanidade ao tratá-lo como algo inferior. Essa é, sem dúvidas, uma das críticas mais contundentes feitas por Chaplin em relação à desumanização promovida pelo autoritarismo. Em “O Grande Ditador”, grupos inteiros são tratados como inferiores, descartáveis, indignos de respeito, simplesmente por possuírem uma cultura ou traços biológicos diferentes do padrão defendido por Hynkel. A violência começa no discurso, nas piadas, nos estereótipos, algo “inofensivo” para a maioria das pessoas, até que o discurso se concretiza em ações práticas.

O grande ditador 7

Devemos ressaltar que essa progressão da violência é essencial para que regimes opressores funcionem, seja em larga escala ou mesmo nas pequenas relações cotidianas. Quando o outro deixa de ser visto como humano, torna-se mais fácil justificar sua exclusão, perseguição ou eliminação. A mesma situação ocorre em nossos pequenos mundos, pois nenhuma opressão já nasce na agressão física, mas sim no campo psicológico. Ao colocarmos apelidos, ao perseguirmos de maneira sistemática com piadas depreciativas, minando a autoestima alheia, estamos sendo ditadores em nossos pequenos espaços, que, por vezes, evoluem para a violência física.

Por que este filme ainda precisa ser visto?

Como podemos perceber, “O Grande Ditador” não é uma obra que apenas nos faz rir, mas nos causa um verdadeiro incômodo à medida que vamos compreendendo suas nuances. É um filme que nos obriga a pensar e a nos reposicionar, quando realmente o entendemos. Não por acaso, esse é um filme que, em geral, usa-se nas escolas, nas aulas de história, filosofia e demais matérias, pois seu papel não é apenas entreter, mas principalmente nos ensinar a resistir ao autoritarismo, e isso começa por aprendermos a deixar de praticá-lo em nosso dia a dia.

O grande ditador 8

Dito isso, para alguns é comum enxergar pouco valor em filmes antigos. Há quem fale, ainda, que uma obra que possui mais de 50 anos já não é válida para o mundo atual, pois em meio século, no tempo em que vivemos, já avançamos tanto que é impossível de retornar àquele mundo retratado. Não precisamos expor que esse pensamento é um equívoco, mas, para aqueles que assim o pensam, vale afirmar que indicar “O Grande Ditador” hoje não é um gesto nostálgico. 

No fundo, é um ato de ampliar a visão das novas gerações acerca do cinema. Infelizmente, ainda hoje vivemos em um mundo onde discursos autoritários voltam a ganhar espaço, muitas vezes travestidos de normalidade. O filme, portanto, nos oferece ferramentas para reconhecer esses discursos antes que seja tarde demais. Mais do que isso, ele nos ensina a rir, a pensar e a sentir. Ele nos lembra que o cinema pode ser mais do que entretenimento; pode ser consciência, memória e alerta.

O discurso final: um chamado à humanidade

Nenhuma análise de “O Grande Ditador” estaria completa sem mencionar seu discurso final, certamente um dos momentos mais emocionantes da história do cinema e o mais impactante de todo o filme. Quando o humilde barbeiro, confundido com o ditador, sobe ao palco e decide falar, Chaplin abandona a sátira e se dirige diretamente ao público. Ali, não há personagem, não é a voz de um ator em cena, mas de um ser humano que transborda de ideias e explica para a humanidade o seu valor. E isso é, sem dúvida, o que há de mais belo no filme, pois já não existe atuação, apenas um ser humano falando com outros seres humanos.

O grande ditador 9

Ele fala sobre liberdade, empatia, solidariedade, amor e união entre todos os seres humanos. Denuncia o ódio, a ganância e a desumanização. Pede que não entreguemos nossas vidas a máquinas, ideologias ou líderes que nos tratam como números. É, a bem da verdade, um discurso simples, mas profundamente tocante por nos fazer lembrar que a essência de nossa espécie está na cooperação e na ajuda mútua, não na destruição nem na separatividade. Essa mensagem por si só é o laço que encerra as reflexões e nos faz contagiar com o amor da humanidade. 

É evidente que o momento histórico em que o filme foi produzido torna a cena ainda mais tocante, mais profunda e capaz de nos fazer vibrar com ainda mais intensidade. Porém, mesmo décadas depois, suas palavras continuam tão atuais quanto nos anos 1940. É preciso, sempre, lembrar que o autoritarismo nasce de um egoísmo, de um desejo infantil por estar certo e fazer valer suas opiniões. A maturidade, por outro lado, está em aprender a conviver com as diferenças, a amar sem esperar ser amado e a viver e também saber deixar viver, pois, afinal, todos nós estamos juntos na grande aventura que é ser um verdadeiro ser humano. Não nos deixemos esquecer disso.

0 0 Votos
Avaliação do artigo pelos leitores
Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais Antigos
Mais recentes Mais votados
Feedbacks em linha
Ver todos os comentários

Compartilhe com quem você quer o bem

MENU

Siga nossas redes sociais

Ouças nossa playlist enquanto navega pelo site.

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência, de acordo com a nossa Política de privacidade . Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies.