Filme ” O Garoto”: O Que Torna Esse Filme Tão Poderoso Ainda Hoje?

O cinema é, sem dúvida, a grande arte do século XX. A sua expansão durante esse século não apenas tornou-o um dos produtos mais consumidos da nossa sociedade moderna, mas também expandiu os horizontes da arte para explorar novas possibilidades, seja através de histórias, ideias ou pela beleza em si. Hoje seria quase impossível nomear os diferentes tipos de filme que somos capazes de produzir, desde animações ultratecnológicas a até um simples curta-metragem de baixo orçamento; porém, apesar das disparidades técnicas e recursos, o cinema continua emocionando pela sua capacidade de transmitir ideias de maneira tão profunda que, aos olhos do mero espectador, chega a parecer simples.

Capa do Filme O Garoto

Frente a isso, é inegável que ao longo da trajetória da 7° arte surgiram filmes que marcaram não apenas a sua época, mas também revolucionaram o modo de pensar sobre cinema. O Garoto (The Kid, 1921), dirigido, roteirizado, produzido e protagonizado por Charlie Chaplin, é esse tipo de filme. Mesmo para quem nunca teve contato com a obra de Chaplin ou com o cinema mudo, este filme se apresenta como uma porta de entrada generosa, emocionante e surpreendentemente atual, uma vez que a desigualdade, a dor dos dramas familiares e a inocência das crianças continuam a ser atemporais.

Lançado há mais de um século, o filme continua sendo capaz de provocar riso e lágrima com a mesma naturalidade. Isso acontece porque Chaplin construiu não apenas cenas cômicas, mas também uma narrativa profundamente humana, que se apoia na simplicidade para revelar sentimentos e ideias complexas, que muitas vezes não paramos para elaborar com seriedade.

Entretanto, para compreender a força de “O Garoto”, é importante situá-lo no momento em que foi criado, afinal, apesar de ser uma obra que revela questões atemporais, devemos entendê-la como fruto do seu tempo. Dito isso, em 1921 Charlie Chaplin estava ganhando espaço nos Estados Unidos, principalmente com seus personagens tão icônicos no cinema mudo. Seu personagem Carlitos, o vagabundo de chapéu-coco, bengala e bigode, havia conquistado o público com curtas-metragens cheios de humor.

No entanto, quem esperava assistir apenas mais uma comédia engraçada de Chaplin em “O Garoto” se deparou com uma nova experiência, um passo além na obra desse grande artista. Falamos isso porque esse filme é o primeiro longa-metragem de Chaplin e também o momento em que ele aprofunda de forma decisiva a fusão entre comédia e drama. E isso, naturalmente, não ocorre por acaso.

O início dos anos 1920 foi marcado por intensas transformações sociais, com os Estados Unidos se tornando a grande potência econômica do planeta após a Primeira Grande Guerra. Assim, em um país em pleno desenvolvimento, do qual todos olhavam os números positivos da economia, Chaplin fez com que o público pensasse naqueles que não estavam enriquecendo como outros tantos. Assim, ao mesmo tempo que as cidades cresciam e se desenvolviam, também crescia a desigualdade social, e isso se apresentava de maneira visível, visto que o próprio Chaplin, vivendo na Inglaterra, também passou pela pobreza nas ruas de Londres. Essa experiência pessoal transparece de forma delicada, porém contundente, em “O Garoto”.

Sobre sua biografia, não falaremos neste texto, porém, em nosso portal você poderá encontrar informações sobre a vida de Chaplin dentro e fora das telas. Recomendamos que leia outro texto caso goste do assunto. Basta clicar aqui para acessá-lo.

Uma história simples sobre uma vida complexa

Agora que conhecemos um pouco do cenário em que Chaplin produziu esse longa-metragem, devemos mergulhar na narrativa de “O Garoto”. A história começa com uma jovem mulher em situação de vulnerabilidade que, após dar à luz, decide abandonar seu filho recém-nascido, visto que não seria capaz de cuidá-lo. O gesto, que poderia ser tratado de forma fria ou moralista, afinal, imaginar uma mãe abandonado o próprio filho é em si uma imagem dura de assistir, no filme é apresentado com empatia. Chaplin não julga sua personagem, ele a mostra como uma pessoa pressionada pelas circunstâncias, pela pobreza que a cerca e pelo medo do julgamento social, de ser uma mãe solo.

o garoto 1

Essa escolha já revela uma das marcas do filme, que está justamente em não simplificar os dilemas humanos. O fato de colocar já nos primeiros minutos uma cena complexa – que para a sociedade da época (vale lembrar que estamos falando dos anos 1920!) seria um escândalo moral – de maneira humana mostra o quanto Chaplin enxergava para além do seu tempo histórico. O dilema da mãe não é abandonar o filho por não amá-lo, mas entender que jamais poderá criá-lo de maneira digna, colocando-o no mundo “para sofrer”.

O bebê acaba, por acaso, nas mãos de Carlitos, o vagabundo, que é interpretado por Chaplin. A princípio, ele tenta se livrar da criança, claramente despreparado para assumir qualquer tipo de responsabilidade. Porém, pouco a pouco, nasce entre os dois uma relação improvável e profundamente afetiva de pai e filho, um tipo de conexão que poucas vezes foi vista no cinema e que emociona a todos. 

Vale ressaltar que Carlitos não se transforma em um herói idealizado, ou seja, jamais poderemos colocar em oposição a mãe que abandona o filho e Carlitos, que assume a criação de uma criança que não é sua pois, a rigor, ele tem uma série de defeitos morais. Ele continua trapaceando, improvisando e sobrevivendo como pode, sendo esses os seus mecanismos de sobrevivência em meio ao mundo desigual.

Dito isso, um dos grandes méritos de “O Garoto” é apresentar a paternidade fora dos modelos tradicionais, uma vez que Carlitos não tem estabilidade financeira, não possui uma casa confortável e tampouco segue regras morais rígidas, algo que no imaginário popular é fundamental para criação de uma criança. Mesmo assim, oferece ao menino algo essencial para toda e qualquer relação humana: afeto. Só o afeto é capaz de salvar o destino do garoto e de Carlitos.

É o amor que nasce entre eles que os ajuda a passar pelos desafios da vida sem perder a ternura, algo que ainda hoje nos falta. Ambos constroem essa relação com gestos simples, olhares e situações cotidianas, explorando com sensibilidade o potencial expressivo do cinema mudo. E devemos, sim, falar que essa é uma relação construída pelos dois personagens, visto que o garoto, interpretado por Jackie Coogan, não é apenas um coadjuvante.

Ele é um personagem ativo, inteligente e cheio de personalidade que, através da cumplicidade entre ele e Carlitos, se manifesta tanto nos momentos cômicos quanto nos dramáticos. Juntos, eles criam pequenas estratégias para sobreviver, como o famoso esquema de quebrar janelas para depois oferecer o serviço de conserto. Essas cenas provocam riso, mas também revelam a precariedade de quem precisa usar a criatividade para garantir o básico.

o garoto 1

Frente a essa perspectiva, embora “O Garoto” seja uma história íntima e que, via de regra, está focada na relação entre os personagens, ela está profundamente conectada a questões sociais mais amplas e que abarcam um universo muitas vezes esquecido, tanto na sociedade quanto no mundo do cinema. Sem dúvida, até a existência do longa-metragem, pouco (para não dizer nada) era falado sobre tais questões na 7° arte. Assim, o filme faz críticas claras à burocracia desumanizada, representada pelas autoridades que tentam separar o menino de Carlitos sob o argumento de que ele não é um tutor adequado, além da pobreza e miséria retratada ao longo de toda a história.

Chaplin expõe a contradição de um sistema que se diz preocupado com o bem-estar da criança, mas ignora o vínculo afetivo construído entre ela e seu cuidador, que, na verdade, apenas quer cumprir regras que apenas servem para manter sob o jugo aqueles que são desfavorecidos pelo sistema. Sendo assim, mesmo que o filme seja frequentemente lembrado por sua ternura e pela bela relação entre Carlitos e o garoto, ele também é um retrato contundente da precariedade social.

Chaplin não oferece soluções simplistas para essa realidade, até porque não há, de fato, uma saída rápida para tal chaga social que nos afeta ainda hoje. Apesar do afeto entre os dois, Carlitos não aponta que a bondade individual seja suficiente para superar a desigualdade, mas mostra como ela pode, ao menos, criar espaços de humanidade em meio à dura realidade em que vivem.

Quando o silêncio fala mais alto que as palavras

Para aqueles que ainda não conhecem a obra de Chaplin, devemos lembrar que todo o filme é feito dentro da estética do cinema mudo, o que durante as primeiras décadas do século XX foi o gênero predominante na 7° arte. Sendo assim, toda a beleza do filme está nos gestos, na interpretação e claro, nas falas, mas apenas escritas, sem o tom de voz, o embargo, o grito. A ausência de diálogos falados em “O Garoto”, porém, não empobrece a narrativa, e sim amplia sua força expressiva, mostrando como podemos nos comunicar sem usarmos uma palavra. 

O silêncio permite que o espectador projete suas próprias emoções nas imagens, criando uma experiência mais íntima e participativa; portanto, não ficamos passivos ao assistir tais filmes, mas nos sentimos dentro da história, interpretando junto com os atores os seus dilemas. Cada pausa, cada movimento corporal, cada expressão facial carrega significado e quem assiste é o responsável por captar tais mensagens. 

Frente a isso, outro aspecto que devemos observar é que o silêncio nos obriga a estarmos mais atentos ao filme, o que nos dias atuais seria um grande desafio; porém, ao fazermos, conseguimos mergulhar no âmago de suas questões. Nesse sentido, assistir ao filme se torna ainda mais uma experiência valorosa, pois podemos perceber, talvez, algumas inquietações internas e não somente o aspecto técnico do filme. O mesmo ocorre com o humor, pois uma vez que não há diálogos, toda parte cômica está voltada a interpretação dos atores, seus trejeitos e capacidade de arrancar risadas sem falar uma palavra. 

o garoto 2

Porém, quanto a isso, não precisamos nos preocupar, visto que estamos diante do maior humorista que já se apresentou nas telas de cinema. Chaplin era um mestre em tornar qualquer cena engraçada, e isso não muda em “O Garoto”. Para rirmos nesse filme, não dependemos de referências culturais específicas ou de jogos de palavras, pois seu maior trunfo é, muitas vezes, o que nós mesmos fazemos: o improviso diante da dificuldade, o constrangimento, o desejo de agradar, o medo de perder quem se ama. Por isso, o riso provocado pelo filme atravessa fronteiras culturais e geracionais.

Chaplin entendia que o riso podia ser uma forma de comunicação universal, capaz de criar empatia imediata. Ao rir de Carlitos, o espectador não ri dele, mas com ele. O humor funciona como uma ponte emocional que aproxima o público dos personagens e torna ainda mais impactantes os momentos de dor e perda.

Por que “O Garoto” ainda é um grande filme ainda hoje?

Mais de cem anos após seu lançamento, “O Garoto” continua sendo um filme relevante não somente para os amantes do cinema, mas também para o público em geral. Por mais que muitos possam pensar que esse é apenas “mais um filme antigo”, o fato é que sua trajetória marcou sua época e ainda hoje trata de questões valiosas no mundo contemporâneo. Temas como a desigualdade social, por exemplo, são desafios que ainda enfrentamos e enxergamos cotidianamente; além disso, a fragilidade das redes de proteção e a importância dos vínculos afetivos dentro das relações pessoas são assuntos que transpassam o tempo e estarão na essência das nossas relações sociais.

É por isso que afirmamos que, para quem nunca assistiu a um filme de Charlie Chaplin, “O Garoto” é um convite generoso e uma ótima dica para embarcar no universo criado por esse gênio do cinema e da atuação. É evidente que há outros tantos filmes de Chaplin que poderíamos indicar; porém, muitos envolvem o conhecimento de mundo e o contexto em que foram produzidos. No caso de “O Garoto”, o longa não exige conhecimento prévio nem familiaridade com o cinema mudo. Ao contrário, esse é um filme que acolhe o espectador com uma história simples e profundamente humana, capaz de tocar a todos por sua beleza e atemporalidade.

Observando a partir desse ponto de vista, assistir a “O Garoto” é mais do que conhecer um clássico do cinema, pois outros tantos existiram ao longo da história centenária dessa nobre arte. No fundo, deixar-se envolver por tal filme é iniciar um diálogo com um artista que soube, como poucos, transformar a experiência pessoal em arte e impactar gerações de pessoas. A grandeza do filme não está somente no fato de ser Chaplin a nos conduzir, mas sim por nos lembrar que o cinema pode ser um espaço de empatia, reflexão e prazer, tudo ao mesmo tempo.

Ao final do filme, é difícil não sentir curiosidade por outras obras de Chaplin, não por obrigação cultural, mas por desejo genuíno de assistir a algo mais daquele universo tão interessante, silencioso e, ao mesmo tempo, intenso. “O Garoto” desperta essa vontade porque nos faz perceber que, por trás do riso, há sempre uma história humana esperando para ser compartilhada e que essa história, por muitas vezes, pode tocar em emoções que nós também possuímos e já experimentamos. E é justamente essa combinação de simplicidade e profundidade que torna o filme um ponto de partida tão especial para quem deseja descobrir o universo de Charlie Chaplin.

O cinema como um meio de expressar o afeto

Visto todas essas questões, cabe refletir sobre o valor do afeto, visto que esse é o aspecto mais poderoso e a grande maneira de manter Carlitos e o garoto juntos. Não é a burocracia, não é um apelo moral, muito menos o acaso que mantém os personagens unidos, mas sim a relação sincera que é nutrida pelos afetos que os torna inseparáveis. Nesse sentido, devemos pensar: como cultivamos as nossas relações?

Podemos fazer uma analogia e pensar que cada relação social que possuímos é uma semente. Como a regamos? Como plantamos? Em qual solo estamos depositando essa semente? Há relações que crescem bonitas, são bem cuidadas, mas que, ao passar dos anos, perdemos interesse e as deixamos morrer. Outras, porém, nunca evoluem e, apesar de serem regadas com certa regularidade, são feitas de maneira tão mecânica que não dão frutos. Qual o segredo, então? Para Chaplin e o garoto, o afeto é a verdadeira busca por alimentar essa relação com parceria, cumplicidade e para poder contar um com o outro em um mundo que, muitas vezes, não sorri para os desafortunados.

Portanto, “O Garoto” é uma obra que continua nos chamando porque fala de algo vital para a humanidade, que é a necessidade humana de cuidado, pertencimento e afeto em um mundo muitas vezes indiferente. Para quem ainda não conhece Chaplin, o filme funciona como um gesto de acolhimento, pois não impõe barreiras técnicas, não exige repertório prévio e não se apoia em códigos difíceis de decifrar, sendo uma narrativa simples e profunda ao mesmo tempo.

Dito isso, “O Garoto” nos lembra que o cinema pode ser um espaço de encontro entre indivíduos, épocas e experiências distintas, pois, mesmo separado por mais de um século de seu lançamento, o espectador contemporâneo reconhece nos personagens sentimentos que continuam fazendo parte da vida cotidiana, como o medo da perda, o desejo de proteger quem se ama, a criatividade como estratégia de sobrevivência e a esperança que insiste em surgir mesmo nas situações mais adversas. Como já falamos, Chaplin não romantiza a pobreza nem suaviza a dor daqueles que a vivem todos os dias, mas encontra, dentro delas, uma humanidade que resiste e mantém sua dignidade frente às desventuras da existência.

Por fim, não levamos apenas a lembrança de cenas marcantes ou de momentos comoventes. Levamos conosco uma sensação difícil de nomear, mas profundamente familiar: a de que o afeto, por mais frágil que possa parecer, é capaz de se transformar em uma força avassaladora, que nos faz mover montanhas e encontrar o verdadeiro sentido da vida; afinal, se nada do que construímos materialmente pode ser eterno, o afeto, que não pode ser tocado ou tirado de nós, será sempre carregado em nosso peito.

Por isso, indicar “O Garoto” não é apenas sugerir a exibição de um filme antigo. É propor uma experiência sensível, um exercício de atenção e empatia, um convite para desacelerar e olhar para o outro com mais cuidado. 

Assistir a “O Garoto” é, enfim, permitir-se ter esse encontro consigo mesmo. E, muitas vezes, é sair dele um pouco diferente, mais sensível e talvez mais disposto a reconhecer, no cotidiano, os pequenos gestos de humanidade que Chaplin soube transmitir com tanta sabedoria e elegância como nenhum outro, pois, sem falar nenhuma palavra, acabou por nos revelar toda emoção que podemos sentir.

Comentários

Compartilhe com quem você quer o bem

MENU

Siga nossas redes sociais

Ouças nossa playlist enquanto navega pelo site.

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência, de acordo com a nossa Política de privacidade . Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies.