Filmes “Jumanji”: O Que Essa Aventura Fantástica Revela Sobre Você

Você já ouviu a frase “a vida é um jogo?” Para muitos essa associação é simplória, porém, se pensarmos que ao longo de nossa jornada na existência passamos por diferente fases, enfrentamos desafios, aprendemos novas habilidades e nos tornamos experientes à medida que desenvolvemos nossas capacidades, não se mostra absurda essa analogia, não é verdade? No entanto, se existisse um jogo que, ao ser iniciado, tivesse repercuszsões no mundo real? É nessa premissa que os filmes de Jumanji nos colocam para viver.

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A bem da verdade, os filmes de Jumanji ocupam um lugar peculiar no imaginário popular. À primeira vista, trata-se de uma saga de aventura e fantasia, repleta de efeitos visuais, humor e situações extraordinárias. No entanto, sob essa superfície lúdica, esconde-se uma narrativa profundamente simbólica, capaz de dialogar com questões universais da experiência humana, o que encanta não apenas crianças, mas também adultos.

Nesse sentido, Jumanji não é apenas um jogo que ganha vida, mas uma metáfora para os desafios inevitáveis da existência, para os medos que precisam ser enfrentados e para o processo contínuo de amadurecimento que marca a trajetória de qualquer indivíduo. É através do jogo que os jovens conseguem desafiar seus medos e superar seus limites, fazendo com que a aura fantástica da narrativa do filme sirva de lição para o espectador.

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Ao longo de seus filmes, desde Jumanji (1995) até Jumanji: Bem-Vindo à Selva (2017) e Jumanji: Próxima Fase (2019), a franquia se estrutura de maneira surpreendentemente alinhada ao conceito da Jornada do Herói, conforme descrito por Joseph Campbell. Quando conhecemos um pouco dessa estrutura narrativa desenvolvida há milênios e sistematizada no pensamento de Campbell, podemos enxergar claramente que todo filme segue o mesmo eixo narrativo, o que provavelmente ajuda o espectador não apenas a entender sua mensagem, mas também a se conectar com os dilemas dos personagens. 

Cada um dos personagens é retirado de sua zona de conforto, lançado em um universo desconhecido, submetido a provas sucessivas e, ao final, retorna transformado, com uma experiência única e reveladora. É evidente que essa análise exige um grau de conhecimento do espectador, mas mesmo não entendendo tecnicamente os conceitos, é possível perceber como a jornada dentro de Jumanji se assemelha, de certo modo, à jornada da vida e, portanto, também à do herói.

O que é Jumanji?

Para aqueles que não conhecem essa franquia de filmes, é importante sabermos que Jumanji é, na verdade, uma obra literária que foi adaptada ao cinema. A história nasceu como um livro infantil escrito e ilustrado por Chris Van Allsburg, publicado em 1981. A trama apresenta uma narrativa mais concisa, centrada em duas crianças que descobrem um jogo de tabuleiro cujos acontecimentos se materializam no mundo real, assim o jogo tem uma ligação entre a fantasia e a realidade. E que quando se inicia uma partida é necessário terminá-la para que os perigos e desafios lançados ao longo da partida também se encerrem.

Na versão cinematográfica de 1995, a trama acompanha Alan Parrish, um garoto que, ao iniciar o jogo, acaba preso dentro dele por anos. Quando finalmente retorna, já adulto, precisa concluir a partida com a ajuda de outras pessoas para restaurar a ordem e desfazer o caos provocado pela partida que iniciou. É partindo dessa premissa que o longa conseguiu ser um sucesso em todo mundo, pois o público infantil conseguiu se identificar com a dinâmica do filme, que, criando um mix de tensão e humor, prendeu a atenção dos espectadores.

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Além disso, o filme expandiu consideravelmente o universo criado por Van Allsburg, aprofundando os personagens, adicionando conflitos emocionais e desenvolvendo uma estrutura mais próxima da jornada do herói, dando um tom mais profundo à história do que apenas mais uma saga voltada ao público infantil. Essa ampliação permitiu que Jumanji deixasse de ser apenas uma história para crianças e se tornasse uma narrativa capaz de dialogar com públicos de diferentes idades.

Com o passar dos anos, entretanto, a franquia se reinventou, dando origem a novas versões cinematográficas que reinterpretam o conceito original. O icônico jogo de tabuleiro, que é a base de toda a trama, foi transformado em videogame nos filmes mais recentes, o que claramente reflete mudanças culturais e tecnológicas; porém, sem abandonar a essência da obra, que é a ideia de que enfrentar desafios é inevitável e transformador. 

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Frente a isso, podemos entender que os filmes mais recentes de Jumanji são adaptações necessárias para uma nova geração que, ao nascer junto ao mundo dos videogames e redes sociais, precisava dessa referência para criar conexão ao filme. Ainda assim, tanto o livro quanto os filmes de Jumanji compartilham uma mesma origem simbólica e guardam a sua essência, que, baseada na noção de que a aventura conduz ao amadurecimento, faz com que diferentes tipos de público captem sua mensagem mesmo que passem décadas entre cada um dos filmes.

O jogo de Jumanji como metáfora da vida

Visto isso, vamos observar a ideia do filme por uma ótica um pouco mais profunda, percebendo principalmente como o jogo é, em si, uma metáfora para a própria jornada da vida. Em Jumanji, portanto, o jogo não é um simples objeto mágico, mas uma força que escapa ao controle humano, algo que não pode ser interrompido uma vez que foi iniciado. Essa característica é fundamental para compreender seu valor simbólico, pois, assim como na vida, o jogo impõe regras próprias, exige decisões difíceis e não permite pausas convenientes. Isso por si só já nos mostra uma semelhança com a própria existência, uma vez que, como diria o poeta, “o tempo (e nesse caso a vida) não para”.

Além disso, os personagens não escolhem quando as provas surgem, tampouco podem ignorá-las sem consequências. A cada jogada, seja pelo dado ou missão recebida pelo jogo, há desafios a serem cumpridos. O jogo, portanto, tem seu ritmo próprio, exigindo de cada jogador não somente habilidade, mas capacidade de lidar com o tempo que lhe é dado. 

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No filme original de 1995, o tabuleiro convoca perigos da selva para o mundo real, rompendo a fronteira entre fantasia e cotidiano. Alan Parrish, o protagonista, não é engolido pelo jogo por acaso, pois sua entrada em Jumanji ocorre em um momento de fragilidade emocional, marcado por conflitos familiares, insegurança e medo de não corresponder às expectativas. Nesse caso, o jogo seria uma metáfora para um tipo de refúgio em meio ao caos de suas emoções e pensamentos. Já nas versões mais recentes da franquia, o tabuleiro dá lugar a um videogame e os jogadores são forçados a enfrentar desafios que refletem suas limitações. O jogo passa a funcionar como um espelho que revela fraquezas, desejos e potencialidades dos jogadores.

Agora que conhecemos um pouco sobre o filme, como se aprofundar em suas ideias? Para entender como Jumanji se baseou na jornada do herói, é fundamental sabermos um pouco mais sobre essa forma de contar uma história. Ressaltamos que nesse texto não abordaremos com toda profundidade o tema, uma vez que seriam necessárias dezenas de páginas para conseguirmos abordar todos os seus aspectos. Por isso, delimitamos o tema em seis passos da jornada para mostrar como Jumanji desenvolve sua narrativa a partir dessa lógica. Entretanto, para aqueles que desejam conhecer mais sobre a jornada do herói, deixamos como recomendação a leitura do nosso texto sobre o assunto, o qual você poderá acessar clicando aqui. 

1° Passo: o chamado à aventura

Visto isso, na estrutura da jornada do herói, o chamado à aventura é o momento em que o protagonista é convidado, ou forçado, a abandonar sua rotina e embarcar nesse novo momento. Em Jumanji, esse chamado ocorre de maneira abrupta e, muitas vezes, indesejada, como um erro inocente, mas que precisa ser resolvido. Nenhum personagem entra no jogo por vontade própria e, na grande maioria das vezes, nem imagina que há algo para além de uma partida comum. Nesse sentido, todos são empurrados por circunstâncias externas, como a curiosidade ou o acaso.

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Alan Parrish, por exemplo, encontra o jogo ainda criança, em um momento de transição emocional. Ele se sente pressionado por expectativas sociais e familiares, especialmente pela figura paterna, e o jogo surge como uma promessa de fuga, mas rapidamente se transforma em uma prisão. Essa experiência simboliza como decisões aparentemente inocentes podem desencadear consequências profundas e duradouras.

Já nos filmes mais recentes, o chamado à aventura ocorre em um contexto escolar, envolvendo jovens deslocados socialmente. Cada um deles carrega conflitos internos como a insegurança excessiva, a baixa autoestima, ressentimentos, arrogância ou medo de rejeição. Ao serem sugados para dentro do jogo, eles são arrancados de uma realidade que, embora familiar, é emocionalmente limitadora e necessitam viver essa jornada para se reencontrar.

2° Passo: a recusa do chamado e o medo da transformação

Um aspecto essencial da jornada do herói é a resistência inicial à aventura. Ninguém aceita entrar em uma floresta desconhecida, muito menos resgatar uma princesa ou qualquer outro tipo de desafio logo de início. A bem da verdade, a recusa do chamado é um passo importante na jornada do herói, pois o mostra como personagem imperfeito, com medos e temores, naturais dos seres humanos. 

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Em Jumanji essa recusa não se manifesta como uma escolha consciente, mas como desespero, negação e tentativa de escapar do jogo, atitudes que naturalmente não funcionam. Alan, ao perceber a dimensão do perigo, deseja apenas voltar para casa. Os adolescentes dos filmes mais recentes tentam desesperadamente desligar o jogo, morrer propositalmente ou burlar suas regras; porém, mesmo no mundo virtual, é preciso completar sua jornada para retornar à realidade.

Como sabemos, essa recusa simboliza o medo da transformação e do que será necessário fazer para alcançá-la. Mudar implica perder referências antigas, abrir mão de identidades e enfrentar a própria vulnerabilidade, coisas que nenhum de nós anseia. O jogo, ao impor desafios físicos e psicológicos, obriga os personagens a reconhecerem que não podem continuar sendo exatamente quem eram antes. A resistência inicial revela o apego ao conhecido, mesmo quando ele é insuficiente ou doloroso.

3° Passo: mentores, aliados e as armas mágicas do herói

Nenhum herói atravessa sua jornada sozinho, pois, assim como na vida, nenhum ser humano caminha na existência sem a ajuda de outras pessoas. Desse modo, apesar da jornada do herói ser individual, ela não é solitária, e Jumanji reforça essa ideia ao valorizar profundamente o trabalho em equipe. Diferentemente de narrativas centradas em um único protagonista, a franquia constrói heróis coletivos, cujas virtudes e falhas se complementam, o que os ajuda a superarem as provas com honra e coragem.

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Já o aprendizado não vem apenas de figuras sábias tradicionais, como um mago ou alguém mais velho que direciona o treinamento, mas a sabedoria nasce a partir da convivência entre personagens opostos. Nos filmes mais recentes, a inversão de corpos e habilidades cria situações nas quais cada personagem precisa aprender a confiar no outro para sobreviver, e essa necessidade de lidar com o outro acaba dando muito mais do que experiência, mas a capacidade de enxergar a vida através de outros pontos de vistas e percepções. A força física, a inteligência, a coragem e a empatia tornam-se competências igualmente essenciais.

Observando esse aspecto, percebe-se que Jumanji acaba por reforçar uma mensagem central e valiosa para todo o público, seja criança ou adulto: desafios complexos não são superados isoladamente. A jornada do herói, nesse contexto, deixa de ser individualista e passa a ser baseada na cooperação. Crescer implica reconhecer limites pessoais e aceitar ajuda, algo que muitos personagens relutam em fazer inicialmente.

4° passo: as provas como reflexo dos conflitos internos

Cada obstáculo apresentado pelo jogo possui uma dimensão simbólica clara. As selvas perigosas, os animais selvagens, os enigmas e os vilões representam medos, traumas e inseguranças internas. Não por acaso, personagens inseguros são colocados em corpos fortes; já indivíduos arrogantes precisam lidar com fragilidade; e aqueles que evitam responsabilidades são forçados a liderar. O jogo cria situações extremas justamente para acelerar processos de autoconhecimento que, na vida real, levariam anos para ocorrer.

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Essa dinâmica demonstra que os desafios não surgem por acaso. E isso não é apenas um reflexo do jogo, mas na vida comum, ao seu modo, isso também ocorre. Ao sermos negligentes, por exemplo, em alguma área da vida, surgirão provas a partir de nossas falhas, mas não para nos punir, mas sim para sermos capazes de desenvolver habilidades e para superar as dificuldades impostas pelas provas. Do mesmo modo, em Jumanji as provas carregam lições específicas, moldadas às necessidades de quem as enfrenta. O filme transforma a aventura em um grande laboratório existencial, no qual errar, cair e recomeçar fazem parte do processo de evolução.

5° Passo: o encontro com a sombra

Na teoria da jornada do herói, o encontro com a sombra representa o momento em que o protagonista se depara com seus aspectos mais sombrios, reprimidos ou negados. É o momento do grande confronto, a prova que todo herói tenta ao máximo se esquivar. Em Jumanji, esse encontro não ocorre apenas na figura dos vilões, mas principalmente no confronto interno que cada personagem é obrigado a travar consigo mesmo. Dentro do jogo, não existe reputação, status ou conforto psicológico, mas apenas aquilo que o indivíduo realmente é.

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Alan Parrish, no filme original, carrega uma sombra profundamente ligada à culpa e ao medo. Preso por décadas dentro do jogo, ele enfrenta não apenas perigos físicos, mas o peso emocional de ter abandonado seus pais e a sensação de ter desperdiçado a própria vida. Sua sombra se manifesta no temor constante de falhar novamente e de não conseguir concluir o jogo. O verdadeiro inimigo de Alan não é Van Pelt, o caçador que o persegue, mas a ideia de que ele nunca será capaz de reparar os danos causados por sua ausência.

Nos filmes mais recentes, a sombra assume contornos ainda mais explícitos. Spencer, por exemplo, entra no jogo carregando uma profunda insegurança e uma visão negativa de si mesmo. Ao assumir o avatar forte e confiante de Dr. Smolder Bravestone, ele é forçado a encarar a distância entre quem ele acredita ser e quem pode se tornar. A sombra, nesse caso, não é a fraqueza, mas o medo de aceitar o próprio potencial, como uma eterna síndrome do impostor que não aceita a grandeza do que pode vir a ser. Já Bethany, inicialmente fútil e autocentrada, confronta sua incapacidade de empatia, aprendendo gradualmente a enxergar o outro para além de si mesma.

Esse encontro com a sombra é essencial para o amadurecimento dos personagens, pois é graças a esse confronto que se pode avançar para um maior entendimento e novas possibilidades. Geralmente, nos mitos, quando se supera essa prova, o herói se torna apto a novos e maiores desafios, que já não falam sobre si mesmo, mas sobre salvar o mundo. 

Assim, Jumanji deixa claro que não basta derrotar inimigos externos, é preciso reconhecer e integrar aspectos internos que antes eram rejeitados. A selva pune quem ignora esse processo, reforçando a ideia de que crescimento pessoal exige coragem emocional. O inimigo externo, nesse caso, é apenas um caminho para lidar com as verdadeiras angústias que atormentam cada personagem.

6° Passo: a morte simbólica e o renascimento

Outro elemento central da jornada do herói é a morte simbólica do herói, o momento em que o protagonista experimenta uma perda profunda e precisa descer, em alguns casos literalmente, aos infernos para renascer. No universo de Jumanji isso não ocorre de maneira dramática, mas se manifesta de maneira distinta no jogo, pois, naquele mundo, pode-se renascer sempre que necessário para vencer suas provas, desde que haja vidas suficientes para isso. 

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A perda de uma vida, entretanto, não é tratada de forma banal, como costumamos pensar ao jogar um game convencional. Ao contrário, funciona como um choque narrativo que obriga os personagens a reavaliar suas escolhas e encontrar novos caminhos para superar o que está bloqueando o seu avanço. A noção de finitude introduz urgência e responsabilidade, dois elementos fundamentais para o amadurecimento.

O renascimento, por sua vez, ocorre quando os personagens passam a agir de maneira mais consciente e menos impulsiva. Após falhas, perdas e sacrifícios, eles retornam ao jogo com uma nova postura. O herói que renasce não é mais aquele que entrou no jogo, mas alguém que compreendeu seus limites e assumiu seus deveres.

Jumanji e a grande saga humana para superar a si mesmo

Frente a todas as lições vistas até aqui, indicamos Jumanji por se tratar de um filme que vai muito além do mero entretenimento. Mais do que uma franquia de aventura, Jumanji é uma narrativa simbólica sobre a condição humana e como podemos nos inspirar para superar nossas adversidades; pois no jogo da vida o grande vencedor é aquele que aprende com seus erros, evolui e avança de fases, não somente em busca de recompensas, mas também de encontrar sua verdadeira essência.

O fato de toda a narrativa estar pautada na jornada do herói demonstra não somente conhecimento, mas principalmente um valor simbólico inestimável para a obra. Ao nos colocar nessa saga junto com os personagens, o filme nos ensina sobre como superar desafios, a  crescer em meio às adversidades; e mostra que, apesar dos problemas, sempre poderemos alcançar uma saída.

Portanto, assistir a Jumanji é, em última instância, um convite à reflexão. Cada prova enfrentada pelos personagens ecoa dilemas reais, lembrando-nos de que crescer é aceitar desafios, enfrentar medos e aprender com as próprias falhas. Assim, o filme não apenas entretém, mas também inspira, mostrando que, mesmo diante das selvas mais hostis, é possível encontrar sentido, amadurecer e retornar transformado.

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