No Dia do Frevo, celebrado com entusiasmo principalmente no período do carnaval, somos impactados pela beleza e alegria dessa dança e ritmo musical típico da cultura pernambucana. Com sua sombrinha colorida e passos diferenciados, é uma das manifestações culturais mais conhecidas do Brasil, sendo uma marca registrada de Pernambuco. Visto isso, falar sobre o frevo é, antes de tudo, falar sobre um povo que aprendeu a transformar a tensão do dia a dia em movimento, os conflitos em ritmo e as adversidades em uma verdadeira ode à alegria.

O frevo não nasce apenas como música ou dança, mas como um gesto coletivo que impacta de tal maneira a vida urbana que é impossível não ser contagiado pelo som dos metais estridentes, dos passos quebrados e imprevisíveis que os amantes dessa arte nos proporcionam ver. Em Pernambuco, especialmente no Recife e em Olinda, o frevo não é um acontecimento isolado do calendário cultural, mas sim parte da cidade, da memória das ruas e da identidade de quem cresceu ouvindo seus acordes ainda na infância.
Ao longo do tempo e de algumas gerações, o frevo ultrapassou a condição de manifestação carnavalesca para se firmar como um dos símbolos mais potentes da cultura brasileira. Por isso, é errado pensarmos que o frevo é apenas mais uma expressão de cultura regional, pois seu alcance está em todo o território, mesmo que seja, por questões óbvias, mais praticado e vivido no estado pernambucano. Curiosamente, como forma de expressão, o frevo realmente lembra o “jeito” pernambucano de ser, em que ocupa espaços e não abre mão de sua identidade e do seu orgulho.
Junto a isso, o ritmo acelerado, quase inquieto, que desafia quem escuta e quem dança, convidando o corpo a sair da rigidez cotidiana e a experimentar outra lógica de movimento e sensação, que vai de encontro com o movimento “natural” do corpo, mas que se mostra belo e contagiante por onde passa. Talvez seja por isso que o frevo provoque tanto impacto: ele não pode ser explicado facilmente e é, em grande parte, mais uma sensação advinda da alegria dos movimentos do que algo extremamente técnico a ser explicado por um profissional de dança. E é justamente nesse sentir que reside sua força como patrimônio cultural.
As raízes históricas do frevo
Visto todos esses aspectos, é importante entendermos como o frevo surgiu. De fato, seria quase impossível entendermos o valor simbólico dessa arte, tão estimada nas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife, sem enxergarmos suas origens. Portanto, voltemos um pouco no tempo e encontraremos o frevo no final do século XIX e início do XX, em um contexto urbano marcado por transformações sociais profundas.

O Recife vivia um momento de crescimento, com disputas simbólicas e físicas pelo espaço público, especialmente durante o carnaval, uma festa em que a ordem social era subvertida e todas as classes, cada uma à sua maneira, saía às ruas para se divertir. As bandas militares, com seus metais imponentes, desfilavam pelas principais avenidas, enquanto capoeiras acompanhavam os cortejos, protegendo as agremiações e demonstrando força em meio às multidões. Essa convivência alegre e, ao mesmo tempo, de tensão entre música marcial e luta corporal deu origem a algo novo, híbrido e absolutamente original.
O termo “frevo” surge como uma corruptela da palavra “ferver”, numa tentativa popular de traduzir a sensação de ebulição provocada pela música acelerada e pelos corpos em movimento constante. Basta imaginarmos o calor do verão nordestino, as roupas militares e o ritmo incessante dos metais para entender que o termo não era usado apenas por uma questão dos movimentos, mas de fato a sensação era de está sendo fervido debaixo de um sol escaldante e se movimentando sem se deixar perder a alegria e o ritmo.

A rua fervia, o chão parecia tremer, e o som dos metais impunha um ritmo impossível de ignorar. Nesse ambiente, a capoeira, até então criminalizada dentro da lei da “vadiagem”, encontrou uma forma de se disfarçar em dança, transformando golpes em passos, ataques em acrobacias. Assim, o frevo nasce como estratégia de sobrevivência cultural, um exemplo claro de como a criatividade popular brasileira responde à repressão com reinvenção. Esse nascimento não se deu em salões elegantes ou espaços institucionalizados, muito menos como uma dança formal e estudada, mas no calor do asfalto irregular, entre empurrões, suor e improviso, sendo assim uma manifestação genuinamente popular.
Frente a isso, o frevo é, desde sua origem, uma arte urbana, moldada pela coletividade e pela necessidade de ocupar a rua como território de expressão. Compreender essa origem é fundamental para valorizar o frevo não apenas como espetáculo belo e irreverente, mas também como parte da história de um povo. Com o passar do tempo, o frevo deixou de ser apenas um acompanhamento dos cortejos carnavalescos e passou a se estruturar como uma linguagem musical própria, com características bem-definidas. A música do frevo, por exemplo, é marcada pela predominância de instrumentos de sopro, especialmente trombones, trompetes e saxofones, que criam uma sonoridade intensa, vibrante e, muitas vezes, desafiadora.
Naturalmente, para chegar ao nível técnico e rítmico que acompanhamos hoje foi necessário muitos mestres, compositores e gerações de músicos para consolidar esse conhecimento musical no frevo. Em síntese, devemos entender que o que hoje escutamos e dançamos é, na verdade, o resultado do trabalho de compositores, maestros e músicos que compreenderam o potencial artístico do frevo e se dedicaram a aprimorá-lo. Figuras como Nelson Ferreira e Capiba foram fundamentais nesse processo, criando composições que atravessaram gerações e ajudaram a fixar o frevo no imaginário popular.
Ao mesmo tempo, essas obras mantiveram uma ligação profunda com a rua, evitando o distanciamento elitista, que, muitas vezes, ameaça manifestações populares quando elas ganham reconhecimento formal. Além disso, o frevo, ao se consolidar como música, também passou a dialogar com outras expressões culturais, sem perder sua essência. Ele absorveu influências, experimentou variações e se adaptou a novos contextos, mas sempre preservou sua identidade rítmica.
Não por acaso, essa versatilidade fez com que o frevo deixasse de ser uma expressão restrita a determinados grupos urbanos para se tornar um símbolo amplamente reconhecido da cultura pernambucana e, posteriormente, da própria cultura brasileira. A popularização do frevo foi impulsionada por diferentes fatores, entre eles a difusão pelo rádio, a gravação de discos e a presença constante nos carnavais oficiais, algo consolidado e que se faz presente até hoje quando o assunto é a maior festa popular do planeta. Esses meios permitiram que o frevo alcançasse públicos que nunca haviam pisado nas ruas do Recife ou de Olinda durante o carnaval.
Entretanto, à medida que o frevo ganhava visibilidade, surgia também o risco de sua descaracterização ou comercialização excessiva, algo que toda cultura precisa enfrentar quando se torna tão difundida. Ainda assim, a força da tradição popular conseguiu manter o frevo ancorado em suas raízes, mesmo quando ele era adaptado a novos formatos, ambientes e pessoas que, mesmo sem ser diretamente ligadas às raízes pernambucanas, desejavam fazer parte daquela festa.
As grandes orquestras de frevo, os concursos de passistas e os blocos carnavalescos ajudaram a manter viva a prática coletiva, reforçando o caráter comunitário e popular da manifestação sem se entregar a um aspecto comercial ou elitizado que, em outros movimentos populares, acabava ocorrendo. O povo, porém, nunca se distanciou do frevo e vice-versa. Talvez, por isso, o frevo seja, ainda hoje, uma das danças e ritmos mais conhecidos do Brasil, pois não vendeu suas origens para se adequar, mas fez o mundo conhecer e amá-lo como ele é.
O mais interessante nesse aspecto é que o frevo é simples e alegre, enquanto expressão cultural ele não exige compreensão teórica, nem iniciação formal, qualquer um pode tentar dançar; e mesmo que não acerte seus passos com precisão, está tudo bem, todos continuam a seguir a marcha da alegria. Basta ouvir os primeiros acordes para que o corpo responda, mesmo que de forma contida. Essa capacidade de atravessar barreiras sociais, etárias e culturais explica por que o frevo permanece relevante e amado, mesmo em um cenário musical cada vez mais diverso e fragmentado.
Após séculos sendo introjetado na cultura brasileira, finalmente o reconhecimento oficial do frevo como patrimônio cultural brasileiro aconteceu. Em 2007, o frevo foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, consolidando sua importância não apenas como expressão regional, mas principalmente como parte fundamental da identidade cultural do país. Esse reconhecimento foi resultado de anos de mobilização de artistas, pesquisadores e comunidades que compreenderam a necessidade de proteger o frevo das ameaças do esquecimento e da descaracterização.
Mais tarde, em 2012, o frevo alcançou outro patamar ao ser declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esse título não apenas reforçou o valor artístico do frevo, mas também destacou sua relevância como expressão de criatividade humana, construída coletivamente ao longo de gerações. Frente a isso, devemos refletir sobre esse processo de patrimonialização, pois é essencial para compreender que o frevo não se torna patrimônio apenas por decreto, muito menos porque uma instituição aferiu a ele tal patamar, mas sim pela força da sua expressão no imaginário coletivo de milhões de seres humanos.
Ele é patrimônio porque continua fazendo sentido para as pessoas, de diferentes idades, gêneros e locais do Brasil. O frevo é patrimônio da humanidade porque permanece presente no cotidiano e porque ainda emociona, mobiliza e transforma quem entra em contato com ele. O título oficial deve ser entendido como um compromisso coletivo de valorização, e não como um ponto final na história do frevo.
A linguagem do frevo
Frente a tais aspectos, é preciso entender o frevo não apenas como uma manifestação artística, mas também como uma maneira de expressar ideias, sentimentos e emoções. Assim, existe uma linguagem que é comunicada a partir dos passos, das danças, das roupas, dos instrumentos e da música. É nessa dimensão mais subjetiva do frevo que vamos mergulhar a partir de agora. Dito isso, se a música do frevo é intensa e frenética, a dança que a acompanha é ainda mais reveladora de seu espírito.
A dança do frevo exige do corpo uma entrega total, uma disposição para o desequilíbrio e para a experimentação constante. Os passos rápidos, os saltos, as quedas e as acrobacias compõem uma linguagem corporal que desafia padrões convencionais de beleza e harmonia. No frevo, não há espaço para rigidez, pois tudo é fluxo, qualquer passo pode (e deve) ser adaptado e funciona como uma resposta imediata ao som que está tocando. Portanto, dançar frevo não é apenas executar passos, mas também refletir uma postura no mundo. O corpo que dança frevo aceita o risco, o erro e a improvisação como parte do processo. Ele se lança sem garantias, confiando no ritmo e na própria capacidade de adaptação.

Outro elemento importante quando pensamos no frevo é a famosa sombrinha colorida, hoje símbolo maior desta dança. Curiosamente, ela não surgiu apenas como elemento estético, mas principalmente como extensão do corpo do dançarino, e era utilizada, inicialmente, como arma improvisada. Com o passar do tempo, a sombrinha foi incorporada à dança como objeto cênico, ampliando as possibilidades de movimento e expressão.
Além desses aspectos, ainda podemos abordar uma outra característica importante no frevo, que está em um aspecto mais interno e psicológico do ser humano. Esse aspecto só pode ser sentido por quem de fato já participou ativamente dessa dança, que é a sensação de catarse gerada a partir do embalo da música e dos movimentos do corpo. Essa catarse permite extravasar tensões acumuladas, transformar cansaço e frustração em um ritmo, como a liberação de energia para poder voltar a um estado natural.
Assim, o passista de frevo não deixa de ter uma vida tensa ou menos complexa do que qualquer outra pessoa, mas o fato de dançar frevo cria um espaço temporário onde todas essas preocupações cotidianas podem ser ressignificadas ou esquecidas momentaneamente. E talvez seja, por isso, que, ao final de uma dança de frevo, o corpo esteja exausto, mas o espírito, curiosamente, mais leve.
Não pensemos, porém, que isso é obra do acaso, ou mesmo uma força sobrenatural que existe ao escutarmos os sons. Na verdade, até mesmo essa catarse só existe graças a quem mantém o frevo vivo, a quem consegue, através de anos de dedicação, manter esse ritmo tão poderoso no imaginário popular. Estamos falando dos músicos, passistas, coreógrafos e pesquisadores que, muitas vezes longe dos holofotes, garantem que o frevo continue sendo praticado e reinventado sem perder a sua essência. Esses mestres não ensinam apenas técnicas musicais ou passos de dança; eles transmitem uma visão de mundo, uma ética cultural baseada na coletividade, na escuta e no respeito à tradição.
Nessa perspectiva, é preciso valorizar esses mestres que fomentam a tradição do frevo e possibilitam que seu alcance seja ainda mais elevado. Só reconhecer o seu valor é ainda muito pouco diante do trabalho hercúleo que fazem, e por isso merecem toda e qualquer homenagem, seja simbólica ou com prêmios.
O frevo como prática de pertencimento e identidade
Frente a todos esses aspectos, é importante entender que o frevo, para muitos pernambucanos, é mais do que uma manifestação cultural. Na verdade, o que podemos observar é que, principalmente para aqueles que vivem a cultura de Pernambuco, em especial em Recife e Olinda, o frevo é uma parte constitutiva de sua identidade, de tal maneira que sua vida é transpassada por esse ritmo, direta e indiretamente. Ele está presente em memórias de infância, em histórias familiares e em experiências coletivas que marcam a trajetória de vida, seja no mundo do carnaval, onde o frevo é expresso com mais recorrência, ou mesmo no dia a dia.
Ao ouvir um frevo antigo ou ao ver uma orquestra passando, essas memórias são reativadas, criando uma sensação de pertencimento que transcende o tempo e o espaço. Devemos ressaltar que, apesar de ser mais presente em Pernambuco, esse pertencimento não é exclusivo de quem nasce nesse estado. Pessoas que entram em contato com o frevo, mesmo vindas de outros contextos, muitas vezes relatam uma sensação de acolhimento e identificação e não raramente passam a ser ouvintes fervorosos desse ritmo. Fala-se comumente que os carnavais de Recife e Olinda são apaixonantes e que “quem experimenta dessa festa nunca mais esquece das ruas e ladeiras dessas cidades”.
Assim, o frevo contagia até o estrangeiro, o turista, aquele que não convive naquele espaço, mas vibra com cada nota tocada. O frevo, ao mesmo tempo em que afirma uma identidade local, se abre para outras, convidando-as à participação. Para essas, o frevo se adapta e se torna maleável para, aos poucos, conquistar o coração de quem não sabe ainda os seus passos.
Visto isso, não podemos nos limitar a entender o frevo como uma cultura “arcaica”, herdado do passado. Colocar uma expressão tão múltipla seria limitar sua potência e descaracterizar sua principal qualidade, que é a de cativar quem toca. Observando por essa perspectiva, se faz mais interessante entendermos o frevo como uma herança viva, que se mantém não somente pelo peso de sua tradição, mas também por ainda ser abraçado e ressignificado pelas novas gerações à medida que inovam e criam novas músicas, batidas e passos, sem deixar de ser o que se é.
Quando falamos em valorizar o frevo também implica reconhecer não somente suas raízes, mas principalmente entender que o alcance cultural proporcionado por ele ultrapassa fronteiras. Não precisamos ser pernambucanos para gostar e apreciar a dança, nem mesmo se envolver na catarse que pode proporcionar o frevo. Como patrimônio da humanidade, qualquer ser humano pode entendê-lo e acrescentar à sua construção social os elementos que envolvem essa dança.
O frevo, afinal, nasceu da pluralidade, da mistura e jamais deve perder essa característica. Querer colocá-lo em um formato específico, voltado para um tipo de grupo social seria um atentado contra sua própria natureza. Portanto, deve-se abraçar essa pluralidade e, cada vez mais, levar foliões de todo o mundo a conhecer sua dança. Fazendo isso, poderemos apreciar por dezenas de gerações a evolução do frevo e, assim, abrir espaço para sua transformação, dialogando com novos tempos, novos instrumentos, sem perder sua essência.

Por fim, o frevo enquanto uma forma de expressão cultural se revela como uma possibilidade de nos reconhecermos enquanto brasileiros. Mesmo que sua origem esteja ligada a Pernambuco – e isso jamais será alterado, sendo Recife o núcleo de onde esse ritmo musical se expande –, é preciso aceitar que nos moldes atuais, num mundo extremamente globalizado, as fronteiras e limites se dissolvem, e podemos viver a alegria do frevo em qualquer parte do globo. Sendo assim, preservar o frevo é preservar uma parte fundamental de nossa história e de nossa sensibilidade, não deixando que ele fique preso no passado, mas mantendo sempre viva suas formas, tradicionais ou inovadoras, de se apresentar ao grande público.
Para aprofundar a reflexão sobre o papel do frevo dentro do carnaval e sua ligação com a identidade cultural brasileira, vale a pena conferir o texto: O Que o Carnaval Revela Sobre Nossa Alma?




Comentários