Deus Thor: Entre a Mitologia Nórdica e a Cultura Pop

Atualmente, estamos cercados de elementos de diversas mitologias. Apesar de não enxergarmos a presença, elas nos rodeiam em muitos aspectos da nossa cultura. Desde grandes produções cinematográficas, como filmes e séries de TV, até no nome que escolhemos para o nosso animal de estimação, as referências a deuses e heróis mitológicos estão presentes. Se observarmos com atenção, perceberemos que uma das mitologias mais populares nos dias atuais é a nórdica. 

Provavelmente você já escutou falar dos Vikings, seja pelas aulas de História ou através da série “Homônima” e de sua religião politeísta, tendo Odin como o grande deus. Hoje também temos livros e HQs que trazem como base as histórias e narrativas da mitologia nórdica, que aproximam esses personagens míticos de nossa cultura pop. Entretanto, apesar de notarmos a presença desses elementos, pouco nos aprofundamos, de fato, na cultura nórdica e em seu Panteão.

Desse modo, muitas vezes assistimos a um filme ou uma série e não percebemos a profundidade dos símbolos ali retratados, não por displicência ou por não sermos capazes de traduzi-los, mas por não conhecermos um pouco mais sobre a cultura retratada nas telas. Pensando nisso, hoje falaremos de uma das divindades que dominou o cenário da cultura pop do nosso tempo. Estamos falando de Thor, o grande filho de Odin e que está nas telas, nas revistas, em fantasias e outros tantos campos de nossa vida social. Será que o fato de usarmos bastante sua imagem garante que saibamos realmente quem era essa divindade para os antigos nórdicos? É o que vamos descobrir.

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Thor na tradição nórdica: entre o céu e a terra

Primeiramente, é fundamental entendermos que, dentre os inúmeros deuses existentes na mitologia nórdica, podemos afirmar que o mais conhecido por nós é Thor. Porém, não é apenas pela sua popularidade que Thor é um deus relevante, mas o contrário: graças às suas maravilhosas histórias na mitologia nórdica é que surgiu a inspiração para colocá-lo no centro da cultura pop do nosso tempo. Sendo assim, é válido conhecer não apenas as características dessa divindade, mas principalmente seus símbolos e mitos. 

Comecemos, portanto, do início. Thor é o deus dos raios e trovões. Esses dois atributos lhe dão, dentro do imaginário popular, uma ideia de uma divindade irritável, que em sua fúria despeja descargas elétricas na Terra. Isso é bem retratado nos filmes e séries atuais, em que vemos um Thor que faz pouco uso da razão e conta principalmente com sua força física. Mas será que ele é isso mesmo? Um deus, uma divindade, deveria ser tão impulsivo, sempre agindo antes de pensar ou considerar todos os detalhes? 

Se, em parte, essa é uma visão relativamente correta de Thor ao lermos seus mitos (em muitos deles, de fato, a divindade perde o controle devido à sua fúria), não devemos fixar nossa mente apenas nesse aspecto, que, a bem da verdade, é superficial frente aos símbolos que Thor carrega consigo. 

Nesse aspecto, é preciso compreender que a fúria de Thor simboliza as forças da natureza quando mal canalizadas, que se tornam destrutivas e capazes de modificar o universo. E esse momento de “insensatez” é fundamental dentro do processo da natureza; afinal, para existir harmonia, é preciso ter, também, desequilíbrio e sua posterior restauração. Logo, a fúria de Thor não é um descontrole “humano”, como nós mesmos temos em alguns momentos, mas sim uma representação desse aspecto da natureza.

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Thor lutando contra a serpente Jormungand, filha de Loki por Johann Heinrich FüssliAcademia Real Inglesa

Entretanto, podemos tomar essa ideia para nós mesmos, como um símbolo inspirador, naqueles momentos em que pensamos muito e não agimos. Podemos, aos poucos, começar a agir mais, sem pensar demasiadamente sobre o que deve ser feito e, por fim, não fazer nada. Pensemos que todos os dias travamos guerras internas, nas quais o que devemos fazer é lutar contra o que gostamos ou não gostamos de fazer.

Nesse sentido, lembremos sempre de Thor: como um raio, agir se libertando das dúvidas nebulosas da mente. E para ter uma referência que aponte se a ação foi boa ou não, devemos nos lembrar também que Thor é o protetor da humanidade, ou seja, basta observar se a ação favoreceu ao todo ou somente à parte.

Além disso, na mitologia nórdica, Thor é filho de Odin, o pai de todos os deuses, e de Fjörgyn, associada à Terra. Essa dupla origem já revela muito sobre sua natureza simbólica: Thor é o elo entre o Céu e a Terra, entre o divino e o humano. Diferentemente de Odin, que representa a sabedoria profunda, a estratégia e o sacrifício, Thor é o deus da ação, do movimento e da força por excelência.

Assim, seus atributos, associados diretamente com a guerra, fazem dele um deus que, a priori, não parece pensar e, por isso, pode ser facilmente enganado, principalmente por seu irmão Loki. Entretanto, sua sabedoria vem da ação concreta no mundo, da capacidade de superar obstáculos e chegar até os seus objetivos.

Essa ideia é, por si só, extremamente interessante para nós. Thor nos ensina que o saber não vem apenas dos livros, muito menos de uma teoria desligada da prática. No fundo, é válido se movimentar para alcançar a sabedoria, mesmo que no caminho façamos erros, afinal, ao aprender estamos sujeitos a isso. O importante, porém, é seguir lutando e conquistando um grau a mais, sempre sendo levado à ação. Isso pode ser notado na forma que essa divindade é retratada nos mitos. Ao lermos os Eddas (o livro que contém grande parte dos mitos nórdicos), Thor aparece constantemente enfrentando gigantes, seres que simbolizam o caos primordial e as forças indomáveis da natureza. 

A luta contra esses gigantes não é apenas uma batalha física, mas simboliza a eterna tensão entre ordem e desordem, entre civilização e selvageria. Quando Thor empunha seu martelo Mjolnir para esmagar um inimigo, ele está, simbolicamente, reafirmando a estabilidade do cosmos, mantendo a ordem divina e afastando o Caos. Essa função guerreira, que muitas vezes parece desprovida de pensamento, na verdade, simboliza que o caminho para a sabedoria também é cheio de conflitos e disputas, que dentro de nós ocorre o mesmo duelo entre Thor e os gigantes. Quantas vezes nos desestabilizamos e perdemos o nosso foco? Quantas vezes precisamos lutar contra tendências e desejos para manter os nossos valores?

Dito isso, devemos entender que Thor não é apenas um guerreiro impetuoso e por vezes impulsivo, mas sim o guardião da humanidade e de Asgard. Ele protege os deuses e os homens contra ameaças que poderiam desintegrar o mundo, e esse é, em última instância, o seu grande papel. Vale lembrar que dentro da mitologia nórdica há outros deuses que também cumprem com papéis semelhantes, mas Thor com sua força é quem canaliza esse aspecto de vigilância e guerra em prol da harmonia.

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A luta de Thor com os gigantes (Tors strid med jättarna) de Mårten Eskil Winge (1872).

Para isso, o deus conta com uma das armas mágicas mais poderosas de toda a mitologia nórdica: o Mjolnir. Forjado pelos anões Brokkr e Sindri, o martelo possui propriedades extraordinárias, como a de sempre retornar à mão de Thor após ser lançado, ser capaz de destruir montanhas e até mesmo consagrar cerimônias. Ele não é apenas uma arma de guerra, mas também um instrumento sagrado, forjado para ser usado pelos deuses e, por isso, tem uma energia divina que não permite que seja manipulado por qualquer um.

Na cultura pop, aproveitando desse simbolismo, o martelo ganha uma nova camada simbólica ao ser associado à ideia de “dignidade”, em que apenas quem é digno pode empunhá-lo. Essa perspectiva não é totalmente original da mitologia nórdica e ressaltamos que se assemelha muito mais com elementos da cultura celta, principalmente no que se refere ao mito do Rei Arthur, do que necessariamente ao Mjolnir. 

Apesar dessa diferença, algo que é importante relembrar é que essa arma divina é tão poderosa que ninguém poderia usá-la de mãos limpas; logo, outras duas armas mágicas eram fundamentais para que Thor pudesse erguer o Mjolnir. Um desses itens era o Megingjörd, um cinto mágico que dobrava a força do deus nórdico. O outro item eram as Járngreipr, luvas de ferro especial que eram usadas para manipular o martelo. Assim, de fato, só quem fosse digno de possuir essas armas mágicas seria capaz de manipular o Mjolnir; porém, o detalhe da dignidade é um acréscimo posterior.

O guerreiro e o protetor: duas faces de um mesmo deus

Agora que sabemos um pouco dos atributos de Thor, vamos entender seu papel dentro da mitologia grega. Na sociedade viking, Thor era profundamente associado aos guerreiros, naturalmente por seu ímpeto. Ironicamente, o deus da guerra na mitologia nórdica era outra divindade, Tyr, mas o seu posto dentre os combatentes era dividido com Thor dado a grande popularidade dessa divindade. E isso não era por acaso, visto que sua força e sua coragem serviam de inspiração para aqueles que partiam para batalhas incertas.

No entanto, ele também era visto como protetor das colheitas, da fertilidade da terra e da comunidade. Como apontamos anteriormente, Thor é no fundo, um grande protetor de Asgard, da humanidade, e isso se reflete também nessas características; afinal, em uma civilização que sofria com a escassez de recursos, a proteção da terra era um elemento fundamental. 

Essa perspectiva nos revela algo fundamental em Thor que, por vezes, deixamos escapar. A origem da sua fúria não é egoísta, não é individual, não se trata de usar a violência e a força para benefício próprio, mas tem como finalidade o próximo, os demais. Thor, como uma divindade, expressa algo importante que devemos aprender: nossa força deve ser direcionada a ajuda dos outros, nunca a nós mesmos. Assim, a divindade revela que a verdadeira força está em se colocar a serviço e não em oprimir os mais fracos. Na cultura pop, essa ambivalência é reinterpretada sob a forma do herói que combate ameaças globais para salvar a humanidade. 

Da força bruta à consciência: a humanização de Thor

Se, nos mitos antigos, Thor é descrito como o mais forte entre os deuses, também é frequentemente retratado como aquele que menos pondera antes de agir. Essa característica, que poderia ser vista como limitação, constitui, na verdade, parte essencial de sua identidade simbólica. Thor é a representação da energia em estado bruto, como um diamante valioso, mas que ainda não foi lapidado. Essa potência, é por vezes tão grande que é impossível de ser contida, não se deixa ser freada diante das dúvidas e questionamentos. É como uma tsunami que, ao chegar à praia, leva para o mar tudo que toca. 

Todavia, apesar dessa capacidade destrutiva, ao longo das narrativas míticas, percebemos que essa força é constantemente testada, controlada ou redirecionada. Ele não é apenas o guerreiro invencível, nem é apenas o resultado de uma força descomunal como geralmente o associamos, mas, acima de tudo, é também o deus que aprende, que erra, que se deixa enganar e que precisa recuperar sua honra ou seu martelo perdido, a depender da narrativa.

A cultura pop, especialmente no cinema contemporâneo, aprofundou esse aspecto ao humanizar Thor de maneira ainda mais explícita, colocando-o quase em pé de igualdade com um ser humano comum. A bem da verdade, devemos ressaltar que as adaptações modernas se caracterizam em grande parte essa divindade e, apesar de sua popularidade, a imagem das telas do cinema está distante do valor simbólico e representativo de Thor na cultura nórdica.

Ademais, o personagem apresentado nas telas passa por crises de identidade, conflitos familiares e momentos de fracasso que não aparecem com tanta ênfase nas fontes medievais. Se por um lado “humanizar” Thor faz com ele se torne um personagem mais próximo do espectador, por outro isso cria uma imagem falsa dessa divindade, que pouco instrui aquele que apenas conhece essa versão moderna.

Se o Thor mítico cometia erros e era facilmente enganado nas narrativas dos Eddas, o Thor cinematográfico torna essa falibilidade um elemento central de sua jornada. Ele deixa de ser a personificação dos trovões e raios para se tornar a representação de um herói que comete erros, mas que busca sua redenção, seguindo o caminho narrativo da jornada do herói.

É evidente que essa adaptação não anula o mito original, muito menos diminui a força de Thor perante o imaginário simbólico que sua mitologia constrói. O que ocorre é uma ampliação de suas possibilidades interpretativas, desde que saibamos diferenciar o herói das HQs e o deus nórdico. O herói que aprende a controlar sua força dialoga com a necessidade contemporânea de conciliar poder e responsabilidade, e em uma sociedade que lida com tecnologias e forças capazes de causar impactos globais, a imagem de um deus que precisa amadurecer para exercer seu poder torna-se profundamente significativa – afinal, Thor também representa a nós diante das adversidades da vida.

Visto isso, ao ampliar o olhar sobre Thor, percebemos que ele não é apenas uma figura da mitologia nórdica nem somente um super-herói moderno. Ele é também um símbolo em constante transformação, que, usado em diferentes contextos, consegue tocar e dar vida a ideias profundas da natureza e que se apresentam para a humanidade. Sua força e mito compõem uma narrativa que atravessa séculos e se reinventa em diferentes linguagens. A cultura pop se apropriou de sua imagem, reinterpretando-a à luz das demandas contemporâneas. Porém, essa apropriação não apagou suas raízes míticas. Pelo contrário, trouxe-as à tona para um público global.

Assim, o trovão que ressoava nos céus da Escandinávia Antiga ecoa hoje nas telas de cinema e na imaginação coletiva. Ele nos lembra que, mesmo em um mundo racional e tecnológico, ainda buscamos símbolos que expressam nossas lutas internas e nossas aspirações mais profundas. Thor permanece como esse símbolo: força que protege, impulso que transforma e coragem que enfrenta o inevitável.

Os mitos nos revelam muito sobre nós mesmos, por isso, agora que você já conhece um pouco mais sobre o deus do Trovão, lembre-se sempre que ele não é somente um personagem fantástico, mas sim uma força que também habita dentro de você. Então, sempre faça uso dela para sair da inércia e fazer algo pelo Bem de Todos. Somente assim, perceberá o que realmente os antigos Vikings estavam tentando contar com os seus mitos.

Quer saber mais sobre esse assunto? Então confira o nosso vídeo no YouTube que preparamos especialmente para você.

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