“Por gerações, o povo do Senegal tem coletado sal do lago Retba. Todos os dias centenas de homens e mulheres trabalham em condições difíceis com determinação e dignidade para ganhar a vida coletando o sal do lago.” Essa informação nos é dada logo no início do curta-metragem de animação “Salt (2020)”, da diretora Alicia Scott Nichols. Agora, iremos refletir sobre a chave filosófica que ele contém e nos oferece: a vocação. No entanto, antes de tudo, recomendamos que veja o vídeo do curta abaixo para entender melhor o texto.
No filme, vemos uma garotinha que adora música, mas que é obrigada a trabalhar com a sua mãe na coleta de sal em condições muito difíceis. A menina sofre tanto fisicamente, quanto emocionalmente, com a dureza de seu trabalho, mas com a ajuda de sua mãe, não perde a alegria de viver, tornando mais leve a sua realidade, cultivando e pondo em prática a sua verdadeira vocação.
A relação entre mãe e filha que vimos no filme é um perfeito exemplo da importância do estímulo pela busca da autenticidade, e de seus efeitos positivos nessa jornada. O carinho da mãe, ao reconhecer e incentivar o talento musical da filha, não apenas fortalece o bem-estar da menina, mas também estreita consideravelmente os laços entre elas. Essa dinâmica realça a relevância de encorajarmos uns aos outros, pois essa atitude não apenas celebra as singularidades, mas também contribui para uma sociedade mais justa, formada por pessoas mais felizes, com aceitação e respeito entre elas.
Assim, a história de “Salt ” destaca a importância de sermos estimulados a desenvolver nossos talentos, não apenas como uma busca pessoal. O estímulo ativo aos dons individuais não só promove a auto realização, mas também contribui para um mundo onde a diversidade é celebrada, e cada indivíduo tem a oportunidade de florescer plenamente.
Antes de prosseguirmos, cabe ressaltar que o conceito de vocação é complexo, e tem sido objeto de reflexão e debate ao longo dos anos. Está ligado à ideia de propósito e significado na vida de um indivíduo, questionando a existência de um destino ou missão única para cada ser humano. Sob uma lente filosófica, a vocação é explorada em várias vertentes, e examiná-la requer uma compreensão mais profunda de suas implicações. Em sua essência, é a inclinação ou aptidão de uma pessoa para uma determinada carreira, atividade ou papel na sociedade. Pode ser vista como um chamado interno que nos direciona para áreas específicas de interesse ou paixão. Entretanto, a filosofia nos leva para além dessa definição simplista.
Ela nos leva a considerar se é uma predestinação, resultado do livre-arbítrio, ou uma busca contínua de autodescobrimento. Independente da abordagem seguida, a vocação permanece sendo uma das questões mais cativantes para o ser humano, pois desafia nossa compreensão de identidade, de propósito e de liberdade. A reflexão sobre esse tema nos convida a explorar o que nos motiva, o que consideramos significativo e como desejamos moldar nossas vidas. É uma jornada de autoconhecimento e realização. É também um conceito que transcende a mera profissão ou ocupação.
Trata-se da representação da inclinação intrínseca de uma pessoa para certas atividades, aquilo que a motiva e a completa. Não se limita ao trabalho; ela se expressa em todos os aspectos da vida de alguém, como vimos no caso da garotinha do filme. Em sua essência, é a busca da realização pessoal. É a paixão que impulsiona um indivíduo a perseguir seus interesses e a dar o seu melhor em tudo o que faz. Se manifesta em habilidades, relacionamentos, atividades voluntárias, bem como – mas não só nesse aspecto – nas escolhas de carreira.
Voltando ao curta, “Salt (2020)” ilustra de forma poderosa como a vocação pode ser incorporada em todas as tarefas da vida. A garotinha apaixonada por música não deixa sua paixão de lado, mesmo quando enfrenta duras condições de trabalho na coleta do sal. Seu talento musical não está restrito a um palco, estúdio de gravação ou a qualquer outro ambiente ou situação em que ela possa simplesmente tocar o seu tambor; seu dom musical é uma parte essencial de quem ela é, moldando a maneira como ela enfrenta as adversidades.
Isso nos lembra que não se trata de algo que podemos separar de nós. está entrelaçado com nossa identidade e influencia nossas escolhas, nossos valores e nossa perspectiva de vida. Quando vivemos nossos talentos em todos os aspectos, encontramos um senso mais profundo de propósito e satisfação.
Além disso, muitas vezes, transcende o âmbito do individual e se relaciona com a comunidade, como também podemos observar no filme. É ela, a nossa vocação, que nos leva a contribuir para o bem-estar dos outros, a usar nossas paixões e habilidades para fazer a diferença. A garotinha do curta não só cultiva o seu dom musical para seu próprio deleite como também consegue inspirar sua mãe e todos ao seu redor, trazendo alegria e esperança para uma realidade difícil.
Outro ponto importante é que identificar e cultivar as nossas aptidões nos lembram a importância de ser autênticos e verdadeiros conosco, isso significa não se limitar a papéis ou expectativas externas, mas sim seguir o chamado interior que nos impulsiona. Isso deve ser considerado em todas as situações, seja na maneira como buscamos nossos relacionamentos, na forma como usamos nosso tempo de lazer, na dedicação a causas e projetos que nos tocam, e ou na forma como permitimos a sua manifestação em tudo que fazemos.
Quando vivemos nossos talentos, encontramos um senso mais profundo de significado em nossa jornada. Não se trata apenas de buscar sucesso ou reconhecimento, mas de buscar a plenitude e a satisfação pessoal. É um lembrete constante de que a vida é uma oportunidade para sermos verdadeiramente nós mesmos e para contribuir para o bem-estar de todos.
Nesse sentido, “Salt” nos guia por uma jornada reflexiva sobre a grande importância de reconhecer, cultivar e viver as nossas vocações e talentos. A história da garotinha africana apaixonada por música, enfrentando desafios na coleta de sal, ressalta a resistência de nossos dons diante das adversidades e como o apoio emocional, exemplificado pela mãe, pode transformar sonhos em realidade.
Ao analisar a parábola dos talentos da tradição cristã, encontramos uma conexão intrigante. A parábola nos lembra que cada pessoa recebe dons únicos e, ao investir e multiplicar esses talentos, alcança plenitude e contribui para o coletivo. No contexto de “Salt (2020)”, a menina de tranças rastafari, representa o talento que, mesmo em meio a condições difíceis, não é negligenciado, mas é nutrido e compartilhado. Assim como na parábola, a vivência plena dos talentos não apenas enriquece a vida individual, mas também impacta positivamente o mundo como um todo, da mesma forma como vimos no filme. Aceitando o chamado interior, vivendo nossas paixões e inspirações, contribuímos para uma sociedade compassiva e realizada, onde cada indivíduo pode florescer oferecendo o que tem de melhor.
Dito isso, para finalizar, a convergência entre “Salt” e a parábola dos talentos nos lembra que nossos dons não devem ser enterrados, mas sim cultivados, multiplicados e compartilhados. Agindo assim, estamos contribuindo para uma existência mais significativa, em que a autenticidade e a contribuição se entrelaçam para uma rica e harmoniosa experiência humana.
Descubra quais são os seus talentos e os coloque em ação! Assim, você exercerá sua vocação e sentirá plenitude e vigor.



