Curta “Na Mesma Página”: Um Convite para Enxergar a Vida com o Coração

Há um momento na vida em que, mesmo sem perceber, somos confrontados com uma constatação simples e, ao mesmo tempo, desconcertante: o mundo que vemos não é exatamente o mesmo mundo que os outros veem. Não se trata apenas de discordâncias pontuais ou de opiniões divergentes sobre temas específicos, mas de algo mais profundo, quase estrutural, pois a forma da qual cada um é educado e criado constrói valores de mundo que, naturalmente, se mesclam e mostram tons diferentes frente a experiências sociais e individuais. Cada pessoa, nesse aspecto, observa a realidade a partir de um conjunto singular de experiências, crenças, afetos e expectativas.

É como se todos nós caminhássemos pela mesma paisagem usando óculos diferentes, cada qual com lentes de cores, espessuras e graus de nitidez próprios. Essa metáfora, embora simples, nos ajuda a compreender por que tantas vezes falamos, discutimos e até convivemos sem, de fato, estarmos na mesma página. Muitas vezes, frente a essas circunstâncias, nos sentimos frustrados, irritados e impacientes por não entendermos como os outros não conseguem enxergar aquilo que, do nosso ponto de vista, se mostra tão “óbvio”. Não por acaso, expressões como “o óbvio precisa ser dito” são amplamente usadas no mundo atual, pois o que pode parecer simples para uns, se torna um grande desafio aos demais.

Dito isso, precisamos ressaltar que ver o mundo por uma lente específica não é, em si, um erro. Pelo contrário, é inevitável, pois nossa forma de viver e experiências constrói em nossa psique uma maneira singular de enxergar nossa realidade. Ninguém acessa a realidade de forma neutra ou absoluta. No entanto, quando nos esquecemos de que nossas lentes não são universais, corremos o risco de transformar nossa visão parcial em verdade definitiva, o que é, definitivamente, um erro.

E é justamente aí que surgem os desencontros, as incompreensões e, não raras vezes, os conflitos que atravessam relações pessoais, profissionais e sociais. Por mais que pensemos o quão certo estamos sobre algum assunto, há sempre algo que escapa, algo que permanece invisível quando insistimos em olhar apenas por um único ponto de vista.

Essa reflexão ganha contornos ainda mais claros quando pensamos naqueles cuja lente está permanentemente tingida pelo pessimismo. Para quem observa o mundo a partir deste viés, os acontecimentos tendem a parecer sempre mais graves, as possibilidades mais restritas e o futuro, quase invariavelmente, ameaçador. O problema não está em reconhecer dificuldades ou injustiças, mas em permitir que essa leitura única impeça o reconhecimento de outras dimensões da vida, como a beleza, o afeto, a esperança e a transformação. 

O curta-metragem “Na Mesma Página” ilustra com delicadeza essa condição humana, ao apresentar um personagem que traduz, de forma quase caricatural, essa visão endurecida da realidade.

O milagre de encontrar outros pontos de vista

Nesta animação, podemos nos identificar facilmente com o jornalista e sua forma de ver a vida e as notícias do mundo. Com análises frias e duras, sem muita perspectiva, sem espaço para melhorias, é assim que, por vezes, caímos no automatismo de pensamento e no pessimismo. Frases como “o mundo não tem jeito” ou “o ser humano não presta” são comuns nesses contextos e nos afastam de enxergar a vida por uma nova perspectiva.

O jornalista via tudo escuro e acinzentado e com péssimas análises, mas não se permitia experimentá-las e analisá-las sobre outra ótica, para chegar às conclusões corretas. Quantas vezes na vida não fizemos isso? Temos uma forte resistência quando alguém quer nos mostrar algo de uma forma diferente da nossa, através de uma lente diferente. Esbravejamos, ignoramos, e, assim como o personagem no início, ainda ficamos preocupados por causa de todo o tempo que se perde nessa forçosa nova forma de ver as coisas. 

A entrada da jovem aventureira na narrativa representa, então, uma ruptura desse mundo cinza e sem vida. Ela surge como contraponto direto ao jornalista, não apenas em termos estéticos, mas também existenciais. Onde ele enxerga obrigação, ela vê possibilidade de crescimento; onde ele percebe peso e dificuldade, ela encontra movimento e mudanças. Esse encontro retratado no curta simboliza uma ideia essencial na vida humana: a transformação raramente acontece de forma solitária, ou seja, sozinho ninguém consegue mudar nada, nem mesmo a si próprio. 

Precisamos de um contraponto, de alguma ideia ou alguém que nos mostra novas possibilidades, e por isso a convivência com pessoas diferentes, que pensam de forma distinta a nossa, é tão crucial em nossa evolução. É quase sempre o outro que nos apresenta uma fissura em nossas certezas. No início, essa fissura incomoda. O jornalista resiste, se irrita, sente-se invadido. Sua reação é compreensível. Abrir-se ao novo exige abandonar, ainda que momentaneamente, o controle. E o controle, para muitos, é uma forma de proteção.

Quantas vezes reagimos como o jornalista diante de perspectivas diferentes das nossas? Quando alguém nos apresenta outra forma de ver a vida, nem sempre sentimos curiosidade. Muitas vezes nos sentimos ameaçados, como se aceitar o ponto de vista alheio obrigatoriamente me fizesse desistir das minhas convicções. Entretanto, isso não passa de medo de abrirmos mão de nossa “identidade”, ou seja, daquilo que achamos que somos e construímos ao longo de nossa vida.

É nesse ponto que a empatia se apresenta não como um conceito abstrato, mas como uma virtude extremamente prática, visto que a jovem não pede que o jornalista pense diferente ou que entenda a sua perspectiva de imediato. Ela o convida a se sentir diferente, a simplesmente experimentar ser algo que ele nem sabia que era possível. Empatia, nesse sentido, não é apenas se colocar no lugar do outro de forma imaginária – até mesmo superficial, como em muitas ocasiões –, mas principalmente se permitir viver, ainda que brevemente, sob outra lógica, pois só poderemos, de fato, entender a perspectiva alheia se passarmos a experimentar um pouco da sua forma de vida.

Ganhando novos horizontes

Ao aceitar esse convite, mesmo a contragosto, o jornalista começa a experimentar o mundo fora de seus filtros habituais. O riso, o movimento, o contato com o inesperado vão, pouco a pouco, dissolvendo a rigidez de sua lente. Ele não nega a existência dos problemas, mas passa a perceber que eles não esgotam a realidade. Frente a isso, observar o mundo a partir de outros pontos de vista é um exercício de humildade, pois significa reconhecer que nossa visão é parcial e que o outro carrega uma parcela da verdade que não nos pertence, mas que, ao nos permitirmos enxergar por esse viés, podemos compreender de maneira mais ampla um mesmo fato ou experiência.

À medida que o jornalista muda sua forma de ver o mundo, suas narrativas também se transformam. As notícias deixam de ser exclusivamente trágicas e passam a incluir esperança, criatividade e possibilidade de mudança. Economia, clima, cultura — tudo é reinterpretado a partir de uma lente mais ampla e sensível. Essa transformação revela o impacto profundo do olhar sobre a realidade. Não vemos o mundo como ele é, mas como conseguimos percebê-lo.

E essa percepção influencia diretamente nossas ações, nossas relações e nossas escolhas. Ao longo do curta, percebemos que a mudança do jornalista não ocorre por imposição, mas por convivência. Ele aprende porque observa, porque participa, porque se permite errar e rir de si mesmo. Essa é uma das maiores lições da empatia: aprendemos mais quando estamos abertos do que quando estamos certos.

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A vida é um campo amplo de experiências

Ao se abrir para novas perspectivas, o jornalista descobre que o mundo não é apenas um cenário de problemas a serem relatados, mas um espaço vivo de aprendizado. Cada encontro, cada experiência, cada desvio de rota carrega uma possibilidade de crescimento. Essa percepção transforma a maneira como ele se relaciona com seu trabalho e com a própria vida. Naturalmente, quando observamos o mundo por outros pontos de vista, deixamos de vê-lo como algo fechado e definitivo e passamos a reconhecê-lo como um processo em constante construção, do qual também fazemos parte. A todo momento, podemos nos reinventar e perceber que, tal como a água, podemos assumir diversas formas para preencher todos os espaços que a vida nos proporciona.

Entretanto, essa não é uma perspectiva simples de assumir. Dentro dessa narrativa, sempre haverá o incômodo entre a ruptura com um modelo de pensar único e o medo de desbravar novas formas de pensar, sentir e agir. O jornalista representa a tentativa de organizar o mundo para torná-lo previsível, algo que todos nós, conscientemente ou não, tentamos fazer. Já a jovem encarna a disposição para acolher o inesperado, para romper a barreira do cotidiano e desafiar o que já está estabelecido.

Vale ressaltar que nenhuma dessas posturas é suficiente sozinha e que, gostemos ou não, elas não são absolutas. O que é preciso existir nessa relação é equilíbrio, que nesse contexto nada mais é do que a capacidade de transitar entre posturas, de maneira a compreender quando é preciso mudar e quando é necessário estabelecer uma rotina. 

Frente a isso, o que mais nos chama atenção é o fato da vida ser um eterno campo de experiências, que não nos permite usar receitas prontas ou atalhos. Precisamos, a todo momento, observar o que o momento nos exige e decidir sobre nossas ações, aceitando as consequências. Assim, não cabe a nós julgar o outro, muito menos acreditar que só há um caminho a seguir; e por isso a empatia é tão valiosa para nós, pois nos ajuda a encontrar esse equilíbrio.

Ao compreender o outro, aprendemos a flexibilizar e ter outros olhos para os nossos próprios limites. É nesse processo que descobrimos que é possível planejar sem nos tornar rígidos e entender que todo planejamento, por melhor que seja, sempre deverá ser revisto em diversos momentos.

Essa perspectiva vai de encontro com um “mito” moderno da objetividade absoluta, de que, a rigor, podemos tratar tudo de um ponto de vista pragmático e todo e qualquer relativismo é, na verdade, uma fuga. O jornalista acredita que sua forma de narrar os fatos é neutra, técnica, imparcial e isso seria o ideal. No entanto, sua suposta neutralidade é atravessada por escolhas, recortes e ênfases que revelam uma lente específica, que é, naturalmente a do personagem. 

Ao selecionar apenas aquilo que confirma uma visão cinzenta do mundo, ele constrói uma realidade que, embora baseada em fatos, está longe de ser completa. É por isso que em um mundo em que a realidade é composta de diferentes perspectivas, acreditar na imparcialidade é um erro, não porque não mereça ser atingida, mas pela sua impossibilidade.

Além disso, esse aspecto nos convida a refletir sobre como, muitas vezes, confundimos objetividade com distanciamento emocional. Acreditamos que sentir menos nos torna mais lúcidos, quando, na verdade, pode nos tornar mais cegos e frios, como um robô programado a atuar apenas no que lhe foi ordenado. É possível que já tenhamos vivido com alguém que atua dessa maneira no mundo. Entretanto, talvez seja o nosso papel tentar entender tal perspetiva e ajudar essas pessoas a ampliarem o seu campo. 

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Não podemos nos afastar dessas pessoas, pois também precisamos integrá-las; portanto, não sejamos nós a cair nesse tipo de análise que coloca visões de mundo em combate. Não deixemos essas pessoas de lado, pois, muitas vezes, sua forma de enxergar a vida é o reflexo de uma existência carregada de medos e traumas  que as fizeram se afastarem do seu aspecto emocional.

Aprendendo a enxergar com o coração e não apenas com os olhos

Visto todas essas questões, o curta “Na Mesma Página” não oferece soluções prontas nem propõe uma visão ingênua da realidade, mas nos faz refletir sobre como podemos passar a enxergar a vida a partir de outras perspectivas que não só as nossas. Nesse sentido, enxergar a vida com o coração não significa negar as dores, os conflitos ou as injustiças, mas permitir que eles coexistam com a sensibilidade que nos toca ter.

A trajetória do jornalista nos lembra que o olhar pode se tornar rígido sem que percebamos. Aos poucos, acostumamo-nos ao cinza, à repetição, ao distanciamento emocional, acreditando que essa postura nos protege. Porém, essa proteção tem um custo alto, pois nos faz perder a capacidade de nos afetarmos pelo mundo e pelas pessoas, principalmente aquelas que estão ao nosso lado no dia a dia. A empatia surge, então, como uma possibilidade de reaproximação da vida, como um gesto que nos devolve à experiência plena de existir.

Ao mesmo tempo, não podemos ser ingênuos em pensar que essa mudança de perspectiva ocorrerá rapidamente. Na verdade, aprender a observar o mundo por outros pontos de vista é um exercício contínuo que nos obriga a reconhecer que o outro carrega uma parte da realidade que não pertence a nós e que só pode ser acessada quando nos colocamos à disposição de perceber a vida por outros pontos de vista. 

Quanto a isso, o curta ainda nos mostra que a transformação não acontece de forma abrupta, mas no acúmulo de pequenas experiências, desde gestos simples até momentos que realmente nos esforçamos para entender o outro. Cada vez que escolhemos enxergar além da nossa própria lente, ampliamos o mundo. Cada vez que nos permitimos aprender com o outro, criamos pontes onde antes havia muros. Essa escolha não é extraordinária; ela se dá no cotidiano, nas relações mais próximas, nas situações mais corriqueiras.

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Enxergar com o coração, portanto, não é um estado permanente, mas uma decisão que se renova a cada instante. A vida continuará a nos desafiar, a nos cansar e, por vezes, a nos endurecer. Ainda assim, ela também continuará a nos oferecer encontros capazes de transformar nosso olhar, se estivermos dispostos a aceitá-los. Permanecer na mesma página não significa pensar igual, mas compartilhar a disposição de compreender, de sentir e de reconhecer a humanidade que atravessa todas as pessoas.

Por fim, talvez essa seja a maior lição do curta: a compreensão de que o mundo não precisa ser apenas suportado, analisado ou explicado, mas que precisa necessariamente ser vivido em todos os seus aspectos, com toda sua pluralidade e, principalmente, com mais sensibilidade e empatia. E, ao fazer essa escolha, não transformamos apenas a forma como vemos a realidade, mas também a maneira como existimos dentro dela.

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