Você já ouviu falar no festival Wesak? Essa é uma das principais celebrações do Budismo e ocorre sempre na primeira lua cheia do signo de touro. Conta-se o mito de que o Buda desceria à terra espalhando boas energias, sentimentos e pensamentos, para que a humanidade passasse por uma renovação. O Wesak também marca a morte de Buda, como símbolo da morte física para o nascimento espiritual, assim, o festival está diretamente relacionado com as ideias de purificação da matéria em detrimento do espírito. 

Talvez para aqueles que não conhecem a doutrina Budista e nunca ouviram a história de Siddharta Gautama, mais conhecido como Buda, essa seja uma ideia difícil de entender. Por isso vamos explicar um pouco mais sobre o festival, sua importância para os Budistas e também as ideias que podemos encontrar em outras culturas que se assemelham ao Wesak.

Antes de conhecermos o Wesak, precisamos saber quem foi Buda, o homem que atingiu a iluminação e recusou entrar no Nirvana para ajudar a humanidade. Conta a história que por volta do ano 560 a.C., na região do atual Nepal, nasceu Siddharta Gautama. Filho de um rei, Siddharta foi criado em berço de ouro, pois seu pai desejava que o filho se tornasse um grande governante. Para isso, o monarca foi orientado a nunca deixar que Siddharta entrasse em contato com a dor ou os problemas do mundo, pois se assim o fizesse provavelmente largaria a vida de soberano e buscaria encontrar respostas para aquilo que lhe afligia.

Apesar dos esforços do seu pai em afastá-lo da dor, Siddharta inevitavelmente deparou-se, enquanto fazia um passeio pelo reino, com problemas inevitáveis a qualquer Ser Humano: a doença, a velhice e a morte. Por não entender a razão pela qual tais males acometiam os seres vivos, isso o levou a busca por respostas. Assim inicia a jornada de Siddharta Gautama até tornar-se Buda. Ao longo do seu caminho, tentou encontrar a resposta para sua pergunta se abstendo de tudo que possuía, mas percebeu rapidamente que a sabedoria não estava nos extremos. Desse modo, nem a abundância material ou a carência poderiam lhe dar a resposta que procurava. Ele passou por diversas provas e ensinamentos até que, ao longo das décadas, encontrou o chamado “Caminho do meio”, a justa medida para todas as coisas e assim chegou à iluminação, ou seja, à Sabedoria. A partir de suas reflexões, formou-se a doutrina que hoje conhecemos como Budismo. 

Conta-se que ao se tornar um iluminado, Buda conseguiu chegar ao Nirvana, um local idílico no qual todos os grandes seres esperam pela humanidade. Porém, vendo a necessidade de ensinar aos seres humanos sobre como superar a dor de não saber por que nascem, vivem e morrem, Buda teria se recusado a entrar no Nirvana e estaria ajudando em nossa evolução até que pudesse ver as costas do último Ser Humano entrar neste sagrado local. 

Para os Budistas, portanto, o Wesak representa um momento do ano em que Buda vem à terra para continuar sua missão de ajudar a humanidade em sua caminhada. Ela celebra o momento de morte desse grande sábio que, simbolicamente representa sua ascensão até os planos superiores em detrimento dos planos inferiores, que também conhecemos como o plano da matéria. 

O Budismo atualmente é uma das grandes religiões do mundo, apesar de ser, de maneira objetiva, mais uma doutrina de vida do que necessariamente uma religião. Ainda assim, é a principal religião do extremo Oriente, com milhões de adeptos. Porém, se ampliarmos nossa visão, perceberemos que em diversas tradições existem celebrações desta natureza. Se a ideia principal do Wesak refere-se à aproximação do grande mestre com a terra, podemos percebê-la nas mais distintas culturas. Lembremos, portanto, algumas delas e sua relação com a festividade Wesak.

Começando pela cultura anglo-saxã, notadamente nos mitos do Rei Arthur, fala-se que, uma vez por ano, o Rei Arthur desperta do seu sono e pergunta aos seus cavaleiros da távola redonda se a humanidade está pronta para o seu retorno. Os cavaleiros respondem, em geral, que os seres humanos ainda não estão preparados e pedem que o rei lhes dê um ano a mais para tentar ensinar aos homens e mulheres do mundo. Esse mito, difundido amplamente na Idade Média, tem várias camadas simbólicas. 

Para nos recordar, o Rei Arthur na sua mitologia é o rei da Inglaterra, ou o rei do mundo, e junto com a excalibur seria o governante sábio que conduziria seu povo à evolução. Seus cavaleiros garantiriam não apenas a proteção do rei, mas também do reino e de toda a humanidade. Ao se reunir e perguntar se a humanidade está pronta para um governante sábio, o mito busca representar esse momento de evolução da humanidade em que estaríamos aptos a sermos conduzidos pelos mais virtuosos seres. 

De modo similar, na tradição Tibetana existe o “Dia do lótus branco” que nada mais é do que um dia dedicado aos mestres de sabedoria, aqueles que dedicam suas vidas em prol da evolução espiritual da humanidade. Para os Tibetanos, o lótus é símbolo da pureza, daquele que supera as adversidades do mundo material e mesmo tocando a lama da terra, abre suas pétalas para o céu. Esse mesmo simbolismo pode ser encontrado na sabedoria Egípcia, na qual o lótus era visto como um símbolo do discípulo, aquele que está pronto para receber a sabedoria advinda de um mestre. 

Já na cultura Islâmica, o Wesak ocorre no período do Ramadã, o mês sagrado do Islamismo, que também tem uma forte conotação com uma conexão mais profunda com Deus. Pensando também na doutrina Cristã, o festival Budista está próximo da Páscoa, que simboliza a morte e ressurreição de Cristo. Desse modo, podemos perceber que, talvez, não seja fruto do acaso a escolha das datas dessas celebrações, não é mesmo? 

Pensando sobre isso, podemos refletir como as celebrações religiosas buscam estar em sintonia com momentos da natureza. No caso da Wesak, esse momento de expressão do espiritual na matéria, de renovação de um ciclo e de canalização dessa energia está diretamente associado à transição da primavera para o verão no hemisfério Norte, no qual essas culturas foram desenvolvidas e seu simbolismo pautado nessa referência. Como sabemos, a primavera tem como característica o renascimento da natureza após um longo inverno. Já o verão é o momento em que mais recebemos luz do sol, em que a vida e a energia estão em sua máxima expressão. Neste sentido, todas essas celebrações, em maior ou menor grau, buscam viver e se conectar com a natureza, como símbolos de uma realidade física.  

Dito isso, podemos observar que o festival Wesak não é uma celebração somente Budista, mas sim uma tradição que, com diferentes nomes e formas, ocorre em diversas culturas, tanto atuais como as do passado. Mas o que os Budistas fazem neste dia tão especial? Tradicionalmente, acendem lamparinas nas casas, durante a noite, para iluminar o caminho de Buda em sua travessia. As pessoas usam vestes brancas, simbolizando a pureza e buscam meditar e ter bons pensamentos e emoções, para que essa energia seja canalizada pelo grande sábio. Junto a isso, costuma-se fazer banhos e rituais de purificação para se livrar de pensamentos e emoções negativas.

Por mais que não sejamos Budistas, essa é uma tradição que podemos apreciar. Talvez não tenhamos a necessidade de viver plenamente essas ideias, mas permita-se, mesmo que por um momento, pensar em como podemos nos beneficiar de uma vida mais voltada ao espiritual, não no sentido religioso em si, mas de conhecimento de si mesmo, manifestando a nossa melhor parte e nos livrando daquilo que essencialmente nos faz mal. Essa purificação pode nos levar a um novo estado de consciência e nos tornarmos efetivamente melhores. Se atingirmos esse estado, certamente podemos falar em evolução, pois conheceremos um pouco mais de nós mesmos. Portanto, Wesak não é somente uma celebração de uma religião, mas um estado de consciência que tenta retirar de nós aquilo que temos de melhor, a nossa essência, que está submersa nas mais distintas camadas da nossa personalidade.

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