O mundo está conectado. Essa é uma frase corriqueira em nosso dia a dia, visto que a globalização é um fenômeno presente em todos os locais da Terra. Graças à tecnologia, podemos conversar e conhecer a cultura de países que estão há milhares de quilômetros de distância. Mais do que apenas aprender sobre elementos culturais, nós mesmos podemos reconhecer-nos em alguns dos seus símbolos e viver, mesmo que à distância, uma realidade tão presente do outro lado do mundo.

É importante falar sobre isso porque nem sempre percebemos o quão benéfico é a possibilidade de aprendermos sobre outras culturas. Se considerarmos que cada povo tem experiências únicas em sua História e delas se pode extrair valiosas lições sobre o Universo, o Ser Humano e toda a Natureza que nos cerca, então a chance de conhecer a maior quantidade possível dessas sociedades nos permite ampliar nossa visão, tornando o horizonte do conhecimento um espaço para profundos aprendizados. 

Desse modo, nos parece fundamental começarmos a compreender um pouco mais de outras culturas, principalmente aquelas situadas geograficamente distantes de nós, pois são as que, provavelmente, menos conhecemos. Considerando isso, provavelmente será mais proveitoso passarmos a conhecer um pouco sobre tais culturas, que em geral não sabemos quase nada, do que continuarmos a saber “muito” das civilizações que costumeiramente já estamos habituados.

Levando esses pontos em consideração, hoje falaremos de uma Divindade importante dentro da cultura chinesa e japonesa, o Deus macaco Sun Wukong. Esse Deus guarda profundos simbolismos em seus mitos e, em maior ou menor grau, a maioria de nós já pode ter ouvido falar dele devido a algumas séries e desenhos em que ele está presente. Mas vamos por partes. Antes de sabermos sobre as representações modernas do rei macaco, devemos conhecer o seu mito.

Primeiramente, devemos saber que o mito de Sun Wukong vai nascer na China, em torno do ano 1570 a partir do épico “Jornada ao Oeste”. Esse livro  narra a saga mitológica do monge Xuanzang até a Índia para recuperar alguns papiros com ensinamentos budistas. Apesar de relativamente recente, Sun Wukong é tido como um Deus muito mais antigo, tendo nascido a partir das forças do caos, ou seja, da desordem. Talvez por essa essência ele mostre-se, em diversos momentos, como brincalhão e “exibido”, inclusive ao ponto de ousar desafiar a ordem celeste. 

Segundo o mito, Sun Wukong foi criado em um reino de macacos e, após algumas provas, tornou-se o rei dos símios. Apesar de conquistar o topo da hierarquia entre estes primatas, Sun Wukong não estava realizado. Ele desejava ainda mais poder e saber mais sobre o que existia no mundo. Movido por essa sede de conhecimento, o rei macaco lança-se a um novo desafio: ir até o reino dos humanos e aprender o máximo que podia com eles. O maior segredo que Sun Wukong gostaria de aprender era o da imortalidade. 

Um primeiro símbolo muito importante nessa parte do mito é o da aventura pelo conhecimento. Não por acaso, em diversas civilizações ao redor do mundo algumas Divindades fazem “de tudo” para alcançar o conhecimento. Odin, por exemplo, oferece um dos seus olhos; Osíris, uma das pernas. Sun Wukong abre mão de reinar sobre os macacos e segue rumo ao seu destino. Quanto à imortalidade, esse é um tema igualmente recorrente nas simbologias. Gilgamesh, tido como “o primeiro herói dos épicos” também tinha como objetivo obter a imortalidade. Considerando as “coincidências” de tantas culturas versarem sobre os mesmos assuntos, podemos deduzir, de maneira aceitável, que essas são temáticas universais, ou seja, que todos os Seres Humanos, independente de seu contexto histórico, buscarão viver. Afinal, quem de nós nunca desejou o conhecimento absoluto? E quando tememos a morte, quantas vezes não pensamos o quão bom seria nunca morrer? Não existem “acasos” no mundo, portanto, diversos mitos retratam o que, conscientemente ou não, nossa mente deseja ou expressa.  

Seguindo com o mito, o rei macaco trilha o seu caminho até um templo Taoísta. Após diversas tentativas, ele finalmente torna-se um discípulo nessa corrente filosófica e graças ao seu mestre ele aprende diversas artes: desde capacidades marciais até mesmo habilidades mais simbólicas, como a de se transformar em qualquer ser vivo. Ao adquirir seus novos “poderes”, chamemos assim, Sun Wukong fica muito feliz e, na mesma medida, muito vaidoso por suas capacidades. O seu mestre então o reprime fortemente, expulsando-o do templo.

Sem destino certo, o rei macaco decide retornar à sua antiga morada. Porém, ao chegar em seus domínios percebe que diversos demônios haviam possuído seu reino. Para combater os perigosos inimigos, Sun Wukong mergulha até o fundo do mar e resgata uma arma mágica que estava, até então, desaparecida. Essa arma nada mais era do que um bastão mágico, capaz de alterar seu tamanho da maneira que seu portador desejasse. Preparado para a guerra, Sun Wukong derrota todos os seus inimigos e volta a reinar entre os macacos.

Analisando essa parte do mito, é interessante notarmos o símbolo do retorno como uma renovação. Sun Wukong, que já detinha a posição de rei, volta para governar um reino que abandonou por um desejo. Assim, o que lhe aguarda não são súditos felizes e um reino próspero, mas um local tomado pelas mais vis criaturas. Fazendo uma analogia com a nossa vida, é similar ao que ocorre quando deslocamos nossas prioridades e passamos a nos concentrar apenas no nosso desejo e esquecemos, inevitavelmente, dos nossos deveres. Ao fazermos esse movimento, deixamos o nosso reino, ou seja, aquilo que realmente nos pertence e nos cabe viver, e passamos a correr atrás de outras motivações. No caso do rei macaco, porém, ele busca o conhecimento e a imortalidade, um meio de evoluir dentro do campo espiritual. Essa é uma busca válida, mesmo que no mito ele tenha que deixar de governar o seu reino.

Diferentemente de Sun Wukong, muitas vezes abrimos mão de nossas responsabilidades por desejos não tão nobres. Deixamos ser vencidos pela preguiça e pelo medo, além de não nos colocarmos à frente daquilo que nos corresponde. Assim, vamos deixando nosso reino, que é a nossa vida, infestada de elementos negativos, que tornam-a mais pesada, triste e, em alguns casos, levam a maiores dores psicológicas.

Tal qual o mito, o primeiro passo para reverter esse cenário é uma tomada de consciência. Voltar ao reino é, em poucas palavras, reconhecer o valor que há nisso. E se os inimigos são poderosos e em grande quantidade, devemos buscar mais uma chave: a arma mágica de Sun Wukong. Resgatar, no fundo da nossa Alma, os elementos fundamentais para combater as debilidades que ganharam espaço em nossas vidas. Seja uma Disciplina para acordar no horário ou um gesto de Bondade todos os dias, nossa arma será sempre a Virtude, a capacidade de usarmos nossa Vontade de maneira a ajudar outras pessoas. 

Voltando ao rei macaco, a saga de Sun Wukong não acaba por aqui. Após obter a posse do reino, ele começa uma nova jornada: a de tornar-se um Deus. Até esse momento ele ainda não era uma Divindade, apesar dos seus feitos. Sendo assim, agora que já estava de posse do seu verdadeiro lugar e reconhecia-se nele, o rei macaco passa a desejar um lugar junto ao Senhor de Jade, que na mitologia chinesa é, em linhas gerais, o Deus principal e criador do Universo. 

A prepotência de Sun Wukong, porém, leva os Deuses a serem contra o seu pedido, mas, no fim, o senhor de Jade o aceita como Deus, o colocando, entretanto, na posição mais baixa da hierarquia Divina. O papel do rei macaco na morada celeste nada mais era do que alimentar os cavalos do céu, uma tarefa simples e pouco honrada aos olhos de Sun Wukong. O rei macaco considerou o ato dos Deuses como uma afronta e declarou guerra ao Senhor de Jade. Assim, por muito tempo o exército celestial combateu contra Sun Wukong, que por ser demasiadamente forte conseguiu subjugar todos os seus adversários. Como Sun Wukong não conseguia ser detido, os Deuses resolveram aprisioná-lo. Sua saga “acaba” ao ser preso pelos Deuses, ficando selado por cinco séculos.   

Mais uma vez devemos parar e analisar os símbolos contidos nesse momento. O primeiro deles é comum em outros mitos, que é a ideia de alcançar o Divino. No caso de Sun Wukong, seu desejo era tornar-se um Deus, residir no palácio celestial. Esse é, em linhas gerais, o símbolo do Ser Humano que conseguiu dominar-se e, após esse grande passo conquistado, almeja novos patamares: o dos Deuses. Na tradição oriental essa é uma ideia bastante difundida. Muitos personagens históricos, por exemplo, tornaram-se Deuses na cultura chinesa e japonesa, devido a seus feitos e contribuições para essas civilizações. Mais interessante que isso, é entender que para esses homens e mulheres do Antigo Oriente o Ser Humano tinha a capacidade de elevar-se até os patamares Divinos, se assim o desejasse.

No caso de Sun Wukong, porém, apresentam-se pequenas diferenças. Uma delas está no orgulho de não querer realizar tarefas “simples”, que não seriam dignas de uma Divindade. Essa também é uma ideia recorrente em nossa sociedade, afinal, acabamos julgando as pessoas, em grande parte, somente pela sua profissão. Achamos “indigno” ou “de baixo nível” alguns empregos, enquanto divinizamos outros ofícios. Essa distinção nos leva a uma situação semelhante à de Sun Wukong: a de não acreditar que aquele era o seu verdadeiro posto, sua Identidade. 

Por não reconhecer que havia atingido o seu objetivo, Sun Wukong sente-se ultrajado pela atitude do Senhor de Jade e seus conselheiros. O conflito escala ao confronto físico, como narra o mito. Em nossas vidas também ocorre um processo semelhante. Quem de nós nunca esteve envolvido em uma discussão acalorada? Alguns, provavelmente, já chegaram a ir para as “vias de fato” com outra pessoa. Isso ocorre, em geral, quando nos sentimos desrespeitados pelo nosso “adversário” e essa emoção, com frequência, é expressada como um “orgulho ferido” ou ideias similares. Desse modo,o desrespeito nada mais é do que sentir-se ferido por causa de uma debilidade, seja ela física, energética, emocional ou mental.

E quando não aceitamos a crítica ou a forma que estamos vivendo, o conflito é inevitável. Assim, Sun Wukong mostra de maneira clara os elementos que podem nos impedir de entrarmos em harmonia com os Deuses e, literalmente, fazer com que não sejamos merecedores dessa dádiva. Poderíamos falar uma enorme lista de atitudes, pensamentos e emoções que nos afastam da Divindade, porém, não queremos cansá-los. O que nos basta refletir é como o nosso orgulho e vaidade, principalmente, são os principais causadores desse afastamento. Quando acharmos que estamos sendo diminuídos ou pouco valorizados em uma situação devemos refletir sobre nossas atitudes, compromissos e, acima de tudo, nossa mentalidade frente ao que estamos reclamando.

Por fim, o símbolo do rei macaco não é único para a cultura chinesa. Se olharmos para o panteão hindu, por exemplo, encontraremos também um rei macaco de nome Hanuman, que possui atributos similares à Sun Wukong. Acima dessas comparações, porém, é fundamental entendermos a essência da ideia que essa Divindade carrega. Sun Wukong, apesar de todos os seus aspectos positivos e negativos, chamemos assim, irá ser um representante da Humanidade, aquela que busca voltar ao seu reino e dominar a si mesmo. Não satisfeito, também irá querer chegar próximo aos Deuses ao ponto de tornar-se um. Segundo essas tradições, essa é a nossa finalidade enquanto Humanidade: caminharmos conscientemente na direção do Divino até sermos, de fato, um Deus.

Considerando isso, o mito de Sun Wukong carrega diversas chaves que podem nos ajudar nessa evolução. Lidar com os defeitos, não abandonar nosso verdadeiro centro, cumprir nosso dever e estar atento ao que desejamos é, sem sombra de dúvidas, as principais lições que podemos levar desse mito chinês para as nossas vidas. Portanto, sejamos nós capazes de combater os demônios que habitam em cada um para que, quem sabe, ousarmos subir até a morada dos Seres Divinos.

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